3 ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA, A TRAJETÓRIA DO
3.5 NA REPÚBLICA NASCENTE, MONIZ FREIRE, EM DISCURSOS E
Lembramos, aqui, os estudos de Bourdieu (1989) sobre o capital político, mencionados no início deste capítulo. O capital pessoal por notoriedade Moniz Freire iniciou pessoalmente, em 1875, quando ingressou na vida pública por meio do lançamento do jornal Aurora. O
capital pessoal profético "[...] é produto de uma ação inaugural, realizada em situação de
crise, no vazio e no silêncio deixados pelas instituições e os aparelhos [...]" (1989, p. 191). Ora, na República, Moniz Freire passa a acumular também, conforme indicam as pesquisas desta tese, o capital pessoal profético, devido, sobretudo, à sua atuação em momentos ímpares, como na Constituinte que deu origem à Constituição de 1891 e na Presidência164 do
Estado do Espírito Santo, quando tomou atitudes e adotou práticas políticas que colocaram o estado no patamar de respeito e de progresso como almejaram muitos capixabas, cujos sonhos e mágoas ficaram emblematizados na figura política de Moniz Freire.
Era presidente da Província do Espírito Santo José Caetano Rodrigues Horta, quando foi proclamada a República no Brasil, em 15 de novembro de 1889. Conforme Novaes (197-), os primeiros telegramas com a notícia da proclamação da República foram recebidos por Moniz Freire, diretor do A Província do Espírito Santo. Afonso Claudio (2002) narra o entusiasmo com que a República foi recebida em Cachoeiro do Itapemirim, onde grupos, em diversas ocasiões, celebravam o acontecimento, cantando a Marselhesa.165
164 Os governadores de Estado eram, nesse período, chamados de Presidentes de Estado.
165 Composta em 1792 por Rouget de Lisle como o canto de guerra para o exército do Reno, foi adotada como
Hino Oficial da República Francesa em 1794. Após uma história conturbada, em função das mudanças políticas, em 1879 voltou a ser o Hino Nacional da França. Conforme Carvalho (2001, p. 124), fora da França, a Marselhesa "[...] representava um grito de guerra e de revolta [...] [e] para os republicanos brasileiros, ela era o próprio espírito da revolução".
No dia seguinte à proclamação, um jovem de 30 anos, Afonso Claudio de Freitas Rosa, foi nomeado para tomar posse do novo governo do Espírito Santo. Subia ao poder regional um amigo de Moniz Freire, também um jovem, de 28 anos. Vê-se, aí, como vai se dando a construção de um aparato humano, base da identidade política elaborada por Moniz Freire. Depois de ter tomado posse o novo governo no Paço Municipal, o cortejo encabeçado pelo governador dirigiu-se ao Palácio, aos acordes da Marselhesa, executada pela Filarmônica
Rosariense, hábito que se manteve até 1908, quando Jerônimo Monteiro proibiu a Marselhesa
e ordenou que se tocasse apenas o Hino Nacional Brasileiro.
Em 19 de novembro de 1889, foi adotada a atual Bandeira do Brasil, desenhada pelo pintor Décio Villares com o projeto de Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos, todos positivistas. Mantendo semelhanças com a bandeira do Império, que foi desenhada em 1822 pelo pintor Debret, ela passa a ostentar, no seu fundo azul, as estrelas, simbolizando os Estados brasileiros, entre os quais o Espírito Santo representado pela estrela “intrometida” da constelação do Cruzeiro do Sul, no qual as estrelas das extremidades da cruz representam São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. A menor, e que se “intrometeu” na formação de cruz, é o Espírito Santo, o intrometido junto a grandes Estados.
Dessa forma, é a materialização em um símbolo, a estrela "intrometida", da representação da maneira como o Espírito Santo é visto pela Federação brasileira e que se concretiza na elaboração da bandeira republicana, sobretudo se levarmos em consideração a afirmação de Teixeira Mendes, citada por Carvalho (2001, p. 114): "[...] bandeira é idealização, é símbolo, é emblema [...] [que permite] atingir o coração dos brasileiros, finalidade precípua de uma bandeira". Conforme já mencionado, vem daí o título de nossa tese, que procura fundamentar historicamente essa representação do Espírito Santo presente na construção da identidade capixaba idealizada por Moniz Freire.
A Provincia do Espirito Santo, jornal dirigido por Moniz Freire e Cleto Nunes Pereira, teve seu nome substituído por Diario do Espirito Santo e, em 1890, por O Estado do Espirito
Santo, com a divisa positivista Ordem e Progresso. Em 2 de outubro de 1890, tornou-se órgão
do Partido Republicano Construtor, dirigido por Moniz Freire e tendo por divisas "Pro Patria" e "Ordem e Progresso". Mais tarde, retirou-se o artigo, no título, passando a denominar-se Estado do Espirito Santo, conforme informa Heráclito Amâncio Pereira (1926). A partir de 1º de agosto de 1891, a direção política do jornal ficou com Moniz Freire e Afonso
Claudio, vendo-se aí a aliança entre os dois insignes políticos capixabas. Para se compreender os embates futuros nos quais se envolveu Moniz Freire, é interessante registrar "[...] a recusa do bispo do Rio de Janeiro em abençoar a nova bandeira, como lhe pedira um comandante da Guarda Nacional. A justificativa era a presença na bandeira da divisa da seita religiosa positivista" (CARVALHO, 2001, p. 116).
Um mês após a proclamação da República, Moniz Freire publicou, em 15 de dezembro de 1889, em seu Diario do Espirito Santo (Vitória, p. 1-2), um manifesto aos seus concidadãos, em que mostra seu posicionamento diante do regime republicano, agora em vigor no Brasil. Fez-se necessária essa tomada de posição, já que militara sob as hostes do Partido Liberal e nunca se filiara ao Partido Republicano, enquanto vigorava a Monarquia. Assim, ele inicia o manifesto afirmando que, por ser positivista, via como indispensável e fatal o caminho que o Brasil havia tomado, trazendo o regime republicano, e constata o "[...] absenteísmo com que se houveram nestes últimos dias as massas de nossa nacionalidade [...]" (p. 2). Afirma sua convicção de que
[...] todo o poder vem do povo e da lei [...] [e constata que] estava tão longe dos fanáticos da monarquia como dos fanáticos da república [...] [e era] dos que trabalhavam para que a passagem se operasse com a naturalidade com que se operam todos os fenômenos sociais [...], [pois] é um erro querer forçar os acontecimentos, porque os resultados não poderão corresponder às intenções, senão depois do concurso lento de todas as condições normais de sua produção (DIÁRIO DO ESPÍRITO SANTO, Vitória, p. 2, 15 dez. 1889).
Vê-se, aí, que, fiel ao Positivismo, desejava uma natural evolução da Monarquia para a República, sem solavancos e sem radicalismos, o que ele reafirmava quando escreveu que "[...] não me era estranha a convicção de que a monarquia, como instituição efêmera, tinha um papel a esgotar-se, um termo intransponível [...]" (DIARIO DO ESPIRITO SANTO, Vitória, p. 2, 15 dez. 1889). E conclui com clareza e altivez:
Não entro para a República como o convertido que passa cabisbaixo [...]. Sinto profundamente que ainda muito resta a fazer-se para a regeneração final, e não tenho por esta atualidade, que é o delírio de uns e o terror de outros, senão a simpatia calma do observador que dominasse do cimo de um píncaro miríades de paisagens lindíssimas estendendo-se até o extremo horizonte. Desejo ardentemente que a República frutifique de modo a corresponder aos votos de seus entusiastas; por minha parte não regatear-lhe-ei sacrifícios quando o bem da Pátria o exigir. Com essas ideias e sentimentos espero merecer o assentimento de meus concidadãos, e a honra da confiança e apreço que eles me têm dispensado até hoje (1889, p. 2).
Em razão do Federalismo defendido pelo novo regime, os Estados começaram a se mobilizar para a elaboração de uma Constituição estadual, ao lado da mobilização para a confecção da Constituição nacional. Foi formada, no Espírito Santo, uma Comissão encarregada de organizar o Projeto da Constituição estadual. Entre os cinco componentes, encontrava-se Moniz Freire.
Pouco tempo depois da proclamação da República, ocorre uma cisão entre os republicanos capixabas. Em maio de 1890, reuniu-se em Vitória o Congresso Republicano, com representantes de todo o Estado, que elegem, então, o Diretório do Partido Republicano. Mas, logo em seguida, Antonio Aguirre renunciou à Comissão Executiva do Partido e, juntamente com Bernardo Horta, renunciavam aos cargos de vice-governadores, rompendo, assim, a parceria política com o governador Afonso Claudio. Os dois políticos começaram, então, a organizar a União Republicana Espírito-Santense, juntamente com outros políticos, entre os quais o barão de Monjardim. Entretanto, Moniz Freire e Cleto Nunes Pereira não aderiram ao novo partido e fundaram nova corrente política, o Partido Republicano Construtor. Parece que o objetivo da dissidência era colocar obstáculo à candidatura de Moniz Freire para a Constituinte. Em tom conciliador, Moniz Freire publicou a esse respeito, em O Estado do
Espirito Santo (Vitória, p. 2, 27 jul. 1890) um manifesto com o título Aos meus amigos e aos cidadãos do Estado. No primeiro parágrafo, já afirmava:
Não aderi, nem adiro, à liga que nesse estado se formou sob o título de União republicana espirito-santense, e da qual foram aclamados diretores o meu prezado amigo e parente, o sr. barão de Monjardim, o cidadão Aristides Freire, redator de A Folha da Victoria, e o dr. Antônio Aguirre, que outrora distingiu-me com afetos tais que eu supunha capazes de resistir a quaisquer embates.
Afirma Novaes (197-, p. 322) que, "[...] com esse grupo, Afonso Claudio guiou o estado até a eleição para a Constituinte [...]", apesar de precisar enfrentar muitos embates com seus opositores, que tramavam sua queda. Moniz Freire sempre procurou defendê-lo, mas Afonso Claudio não conseguiu resistir às pressões políticas e renunciou ao governo, transmitindo-o ao substituto legal, Dr. Constante Gomes Sodré, em setembro de 1890. A ele coube promover a eleição dos representantes do Estado à Constituinte Federal. Foram eleitos dois deputados e três senadores (BRASIL, 1891), todos do Partido Republicano Construtor: Moniz Freire e Antonio Borges de Athayde Jr, para deputados federais; e Gil Diniz Goulart, Domingos Vicente Gonçalves de Souza e José Cesário de Miranda Monteiro, para senadores. Doente, o novo Presidente de Estado, dois meses depois, transmitiu o cargo ao coronel Henrique da
Silva Coutinho que, exonerado em março de 1891, passou o governo ao Dr. Antonio Gomes Aguirre, nomeado pelo marechal Deodoro da Fonseca, em represália à atitude de Moniz Freire que "[...] hostilizou sua candidatura à Presidência da República [...]" (OLIVEIRA, 2008, p. 430, nota 7).
Desse modo, a dissidência galga o poder. Em junho de 1891, tomou posse do governo do Estado o barão de Monjardim, em eleições realizadas pelo Congresso Estadual, conforme Oliveira (2008). Tratava-se do Congresso Constituinte Estadual, no qual a União era maioria. Entretanto, a subida posterior do marechal Floriano Peixoto ao governo da República, em decorrência da crise política nacional, fez com que fosse fortalecido o Partido Republicano
Construtor de Moniz Freire. O Barão de Monjardim renunciou e passou o governo ao Dr.
Antonio Gomes Aguirre que sofreu pressões para renunciar.
Sobre esse fato, Oliveira (2008, p. 434, nota 16) conta que, no dia 19 de dezembro de 1891, foi distribuído, pela manhã, um convite à população de Vitória: "Convida-se aos republicanos e em geral ao povo espirito-santense para uma demonstração de sinceridade republicana, um grande meeting de protesto contra o sebastianismo renitente e ousado que já se atreve a conspirar na capital federal e nos estados". E avisa que será em frente ao palacete do Dr. Moniz Freire. Pressionado, Dr. Antonio Aguirre deixou o cargo. Assumiu, então, uma Junta Governativa que dissolveu o Tribunal de Justiça e o reorganizou sob a presidência de Afonso Claudio. Compunham a Junta Governativa Inácio Henrique de Gouveia, Graciano dos Santos Neves e Galdino Teixeira Lins de Barros Loreto. A 2 de maio de 1892, Moniz Freire é eleito Presidente do Estado.
São os embates entre os dois grupos políticos do Estado, apoiados por importantes jornais. Do lado da União, encontrava-se A Folha da Vitória, que cedeu lugar a O Federalista que teve pouca duração e logo foi substituído pelo Comércio do Espírito Santo. Ao lado do
Partido Republicano Construtor, estava o jornal de Moniz Freire, O Estado do Espirito Santo, conforme relata Oliveira (2008).
Convém ressaltar o importante papel nacional exercido por Moniz Freire que, nesse início da República no Brasil, comandava a bancada capixaba na Constituinte que trabalhou na elaboração da Constituição Republicana de 1891, defendendo especialmente as ideias do voto secreto e das eleições diretas para Presidente da República, em oposição aos que defendiam
um sistema eleitoral semelhante ao que fora estabelecido para os Estados Unidos da América. Agenor Roure (1979), também constituinte de 1891, descreve com detalhes o brilhante trabalho de Moniz Freire nessa ocasião. De qualquer forma, foi uma atuação que contribuiu – e muito – para a acumulação do capital político que fez de Moniz Freire um líder capaz de imprimir uma tônica especial na constituição de uma identidade política capixaba.
A 2 de maio de 1892, foi proclamada a Constituição Política do Estado e foi realizada a eleição do primeiro Presidente do Estado do Espírito Santo, José de Mello Carvalho Moniz Freire, que assumiu o poder no dia seguinte. Dedicou-se a uma obra voltada para a "[...] instrução, a saúde do povo, as vias-férreas, o povoamento [...]", conforme Novaes (197-, p. 329). Segundo Oliveira (2008, p. 435), foi "[...] uma fase de arrojadas realizações na terra capixaba". Deu-se, aí, a nosso ver, a consolidação da construção de uma identidade política iniciada em 1882 com a fundação do jornal A Província do Espírito Santo.
3.6 NO GOVERNO DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO, MONIZ FREIRE