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3 ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA, A TRAJETÓRIA DO

3.2 OS PINTOS RIBEIRO NO PRIMEIRO REINADO (1822-1831): A

Já na proclamação da Independência, os Pintos Ribeiro tiveram grande atuação política. Quando em agosto de 1820 é desencadeada a Revolução do Porto, governava o Espírito Santo Baltasar de Sousa Botelho de Vasconcelos, que teve de enfrentar manifestações populares. Ainda no Brasil, D. João VI não concordava com a convocação das Cortes126 – proposta pelos revolucionários –, mas não as dissolveu. O rei também tinha esperança de que a revolução não encontraria adesão no Brasil. Entretanto, começam as pressões sobre D. João VI no sentido de que jurasse a Constituição a ser elaborada pelas Cortes, o que ele realmente prometeu fazer. Em março de 1821, ele anuncia seu regresso a Portugal e a permanência do príncipe D. Pedro no Brasil, juntamente com o anúncio da eleição dos deputados do Brasil às Cortes. Em abril, as Cortes declararam que todos os governos provinciais seriam independentes do Rio de Janeiro e sujeitos a elas. Bahia, Pará, Maranhão e Piauí aderiram às Cortes. No Espírito Santo, houve manifestações de rebeldia que agitaram a cidade de Vitória e "[...] Padre Francisco Ribeiro Pinto - capelão da tropa - foi acusado pelo governador, como um dos cabeças das liberdades", em ofício do governador dirigido ao Conde dos Arcos, secretário dos Negócios do Reino (OLIVEIRA, 2008, p. 296). O padre, "um dos cabeças das liberdades", pertencia ao clã dos Pintos Ribeiro.

Mais tarde, em julho de 1821, a Tropa se amotinou, quando o governador, clero, nobreza e povo prestavam juramento de cumprir a Constituição portuguesa, feita pelas Cortes. O motim trouxe ao Espírito Santo Luís Pereira da Nóbrega de Sousa Coutinho, para fazer um inquérito. Ele fazia parte da loja maçônica Distintiva, considerada por Oliveira Lima republicana e revolucionária e, conforme Oliveira (2008, p. 321, nota I), sua viagem a Vitória "[...] teve finalidade especificamente política, [durante a qual] o inquérito teria sido mero pretexto para uma excursão de propaganda, [haja visto] o trabalho de aliciamento [que ele] teria feito junto à elite da província". Por outro lado, Oliveira (2008) aponta registros que mostram depoimentos do Pe. Marcelino Pinto Ribeiro Duarte contrários às conclusões de Nóbrega e

126As Corte Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa foram instaladas com a finalidade de elaborar uma Constituição para Portugal e seus domínios ultramarinos. Sua convocação foi decorrência da Revolução do Porto de 1820. Seu funcionamento se deu nos anos 1821 e 1822. Para maiores dados, ver CAMARGO, Angelica Ricci (Mapa - Memória da Administração Pública Brasileira, do Arquivo Nacional do Ministério da Justiça).

favoráveis ao governador Botelho de Vasconcelos.127 O Pe. Marcelino era irmão do tetravô de Moniz Freire, pertencendo também ao clã dos Pintos Ribeiro.

No dia 20 de setembro de 1821, realizou-se no Espírito Santo a eleição para o representante da província e seu vice, nas Cortes de Lisboa, que tinham por missão elaborar a Constituição para o Reino Unido. Entre os dez eleitores que participaram dessa votação, estavam o capitão- mor Francisco Pinto Homem de Azevedo e o Pe. Marcelino Pinto Ribeiro Duarte, ambos do clã Pinto Ribeiro, ao qual posteriormente pertencerá Moniz Freire (DAEMON, 1879).

Nesse processo anterior à Independência, D. Pedro apoiou a formação de Juntas Regionais, o que, no fundo, significava assegurar às regiões uma certa autonomia. Desse modo, foi assinado um decreto em 1º de outubro de 1821, determinando a eleição de Juntas de Governo, o que o Espírito Santo só fará depois do grito do Fico.128 Desse modo, em 1º de março de 1822, conforme Daemon (1879), foram eleitos os membros da Junta Provisória, que substituirá o governador Balthasar de Sousa Botelho de Vasconcellos. Dentre os cinco eleitos, estava o capitão José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim e seu cunhado e primo José Ribeiro Pinto, ambos membros do clã ao qual pertencia Moniz Freire.129 Era a primeira vez, na história do Espírito Santo, que um governo fora constituído pelos próprios moradores.

A 3 de junho de 1822, é divulgado o decreto que convocava a Constituinte brasileira. Como representante do Espírito Santo, foi escolhido o ouvidor Manoel Pinto Ribeiro Pereira de Sampaio, também um Pinto Ribeiro, conforme indica seu sobrenome.

A proclamação do Ipiranga130 fez com que as Câmaras das Vilas131 corressem em

manifestações de aplausos ao evento. Conforme Daemon (1879), foi esse o momento em que

127 De qualquer forma, o Espírito Santo manteve o antigo governador e recusou-se, no princípio, à formação de

uma Junta de governo.

128O Dia do Fico deu-se em 9 de janeiro de 1822, quando o então príncipe regente D. Pedro de Alcântara foi

contra as ordens das Cortes Portuguesas que exigiam sua volta a Lisboa, ficando no Brasil.

129 Logo em seguida à eleição da Junta Provisória, deu-se a escolha do comandante militar da capitania, que

recaiu sobre o tenente-coronel Inácio Pereira Duarte Carneiro, provocando a revolta de um dos preteridos, o coronel Julião Fernandes Leão que, depois de manobras políticas, acabou sendo nomeado para o cargo e logo em seguida, mandou prender seu antecessor, entrando desse modo em conflito direto com a Junta Governativa, contra a qual marchou, em 23 de julho de 1822, cercado de alguns companheiros, "aos gritos de "Abaixo a Junta! Morra a Junta!", mas "[...] a tropa se recusou a cumprir as ordens de seu comandante, solidarizando-se com a Junta " (OLIVEIRA, 2008, p. 301). Julião Fernandes Leão foi demitido. Foi a Julianada.

130 Trata-se do assim chamado Grito do Ipiranga, marco simbólico da Independência brasileira, quando, "[...]

sob influência da princesa e futura imperatriz Leopoldina de Habsburgo e do próprio José Bonifácio, que Pedro decide-se pela plena autonomia [...] [do Brasil, junto ao riacho do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822,

chegava ao Espírito Santo o ouvidor Manuel Pinto Ribeiro Pereira de Sampaio (? - 1857), formado em Coimbra e, de acordo com Oliveira (2008, p. 302), "[...] encarregado pelo

Grande Oriente do Brasil132 de vir a esta província apaziguar os exaltados e propagar as ideias de independência pátria por que se batia aquele grêmio". Era companheiro de Maçonaria do grupo de liberais fluminenses que atuavam sob a liderança de Gonçalves Ledo. O ouvidor era filho de João Pinto Ribeiro,133 portanto também membro do clã dos Pintos Ribeiro. Não é demais relembrar que tudo isso reforça a ideia de que o capital político transmitido a Moniz Freire foi aos poucos sendo construído pelo clã aos qual ele pertencia. Ele não foi uma estrela isolada. Fazia parte de uma influente constelação e, por isso, era portador de um grande prestígio, que lhe possibilitou suas realizações políticas.

Oliveira (2008, p. 302) relata que a Junta Governativa do Espírito Santo "[...] se apressou em credenciar o capitão José Francisco de Andrade Almeida Monjardim [...] para apresentar, pessoalmente, ao imperador, as congratulações da província". Segundo Monjardim (2003, p. 43) ele "[...] foi escolhido pela Loja Maçônica a que pertencia, para representar o Espírito Santo nas solenidades de sagração e coroação de D. Pedro I, cabendo-lhe a honra e o privilégio de empunhar uma das varas do pálio sob o qual o imperador fez o trajeto do paço à Capela Imperial". Ainda de acordo com o atual descendente dos Monjardim, esse episódio histórico acha-se documentado na tela134 do pintor Jean Baptiste Debret. De fato, ao descrever

a coroação de D. Pedro, o pintor Debret (1978, t. II, p. 87), quando relata a marcha do cortejo, desde o palácio até a Capela, elenca os oito procuradores-gerais que seguravam as

declarando] o país livre da 'tirania' das Cortes, proclamando 'Independência ou Morte'" (MONTEIRO, 2000, p. 135).

131 Embora fosse considerada parte do território capixaba, a vila de S. Mateus havia sido incluída, há tempos, à

jurisdição da administração da Bahia. Somente em janeiro de 1823, S. Mateus aclamou D.Pedro como novo soberano do Brasil e seus habitantes declararam-se sujeitos ao governo capixaba, o que foi ratificado depois por um Aviso ministerial.

132 Criado em 17 de junho de 1822, o Grande Oriente do Brasil (GOB), "[...] única potência brasileira a deter o

reconhecimento primordial, secular e definitivo da Loja-Mãe da Inglaterra, inscrito entre as quatro ou cinco maiores potências maçônicas do mundo, tem cadeira cativa e fortemente destacada na história do país, tanto no período monárquico quanto no republicano". O Grande Oriente é o órgão superior a que uma Loja está subordinada (Ver Maçonaria no Brasil, internet: www.gob.org.br).

133 José Teixeira de Oliveira registra à nota 29 da p. 302 que o ouvidor Pereira de Sampaio era filho de João

Pinto Ribeiro, "[...] entretanto, di-lo filho de José Ribeiro Pinto [...]". Estilaque Ferreira dos Santos (2012b, p. 95) afirma que era "[...] filho do capitão-mor da vila do Espírito Santo, José Ribeiro Pinto, que, por sua vez, [...] era cunhado e primo de Francisco Pinto Homem de Azevedo". Independentemente de qualquer controvérsia, é certo que Pereira de Sampaio fazia parte dos Pintos Ribeiro.

134 De fato, na prancha 48 de Debret, sobre a Coroação de D. Pedro, imperador do Brasil, há referências

relacionadas com essa afirmação, pois, em sua explicação do desenho, Jean Baptiste Debret (1978, p. 324) escreve que se veem, "[no quinto plano, no interior da capela, nos primeiros lugares dos bancos, os fidalgos da corte, os delegados das províncias e outros convidados". Assim, muito provavelmente o coronel encontrava-se representado na obra de Debret, embora não seja fácil localizá-lo, já que se tratava de muitos delegados das províncias.

varas do pálio imperial: "[...] José Francisco de Andrade Almeida Mogiordim,135 a quarta [vara, do lado esquerdo]". Novamente, um membro do clã e tio-avô de Moniz Freire participando de importantes atos políticos do Brasil nascente.

Afirma Daemon (1879) que, em 1824, para apresentar a D.Pedro I o preito e a homenagem do povo da Província do Espírito Santo, após o juramento da 1ª Constituição brasileira, foi enviado um Pinto Ribeiro, o agora desembargador Manuel Pinto Ribeiro Pereira de Sampaio que, em seguida, fez parte da lista tríplice para senador pela Província do Espírito Santo, embora não fosse escolhido pelo Imperador. Posteriormente, nesse mesmo ano, foram selecionados os seis membros do Conselho Provincial do Governo, entre os quais dois Pintos Ribeiro: Francisco Pinto Homem de Azevedo e seu primo José Ribeiro Pinto.

Novaes (197-, p. 165) registra que, no final de 1829, deixa o governo da Província o Dr. Inácio de Acióli de Vasconcelos, passando o cargo "[...] ao Vice-Presidente Francisco Pinto Homem de Azevedo, pela segunda vez investido da administração da Província". Tratava-se do bisavô de Moniz Freire, construindo um capital político herdado pelo bisneto. Mais adiante, Novaes (197-, p. 171) novamente registra que, em 1832, com a saída do Presidente da Província do Espírito Santo, "Mais uma vez o Governo do Espírito Santo foi exercido pelo Cel. José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim. Aliás, esse Conselheiro do Governo e o Cap. Francisco Pinto Homem de Azevedo substituíram, muitas vezes, os Presidentes da Província". Ou seja, tio-avô e bisavô de Moniz Freire mantêm-se ativos e influentes na política.

Nesse final do Primeiro Reinado, destaca-se a figura de outro descendente do velho chefe do clã, Manuel Pinto Ribeiro. Trata-se de um tio-bisavô de Moniz Freire, o Pe. Marcelino Pinto Ribeiro Duarte (1788-1860) que, ainda jovem de 17 anos já havia auxiliado o governador Manuel Vieira da Silva Tovar e Albuquerque, que dirigia a Capitania do Espírito Santo entre 1804 e 1811. Quando governava o Espírito Santo, Francisco Alberto Rubim da Fonseca e Sá Pereira – que comandou a Capitania de 1812 a 1819 – tinha ocorrido, em Pernambuco, a Revolução Pernambucana de 1817, liderada pelo capixaba de Itapemirim, Domingos Martins. Tratava-se de uma revolução que produziu um alerta no Espírito Santo, devido à presença do Pe. Marcelino Pinto Ribeiro Duarte. Foram pedidas "[...] providências internas, como, por exemplo, o afastamento do Pe. Marcelino Duarte, patriota exaltado [...]" (NOVAES, 197-, p.

124). Desse modo, ainda conforme Novaes (p. 169), foi afastado da província e mandado para o Rio de Janeiro, onde participou de vários movimentos políticos, tendo até atuado nas Noites

das Garrafadas, "[...] tanto no púlpito quanto nos comícios, a fim de estimular o patriotismo

dos seus companheiros, contra os excessos do Imperador [...]". Foi processado por abuso da liberdade de imprensa e até proibido de desembarcar no Espírito Santo, devido às suas ideias

exaltadas. Era um membro do clã dos Pintos Ribeiro.

Em 7 de abril de 1831, D. Pedro I abdica do trono brasileiro. Em 21 de setembro, explode uma revolta de soldados na cidade de Vitória. Trata-se de soldados chegados da Corte no dia anterior e que vieram reforçar o Batalhão nº 12, aos quais se unirá parte dos soldados do mesmo batalhão. Conforme Daemon (1879), a soldadesca desenfreada principiou a percorrer as ruas de Vitória, dando tiros de encontro às casas. Nesse momento, o cargo de Presidente da Província era ocupado por José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim, que, segundo o mesmo Daemon (1879, p. 286), "[...] dirigiu-se unicamente com seu Ajudante de Ordens ao quartel e por bons modos pode apaziguar a soldadesca aconselhando-lhes sossego, ordem e obediência". Entretanto, logo depois os revoltosos dirigiram-se ao palácio e ficaram aglomerados, gritando. Monjardim ameaçou-os de uma janela, mandando que o quanto antes se retirassem para o quartel. Mas eles não acataram as ordens e percorriam a cidade, dando tiros. Só depois de "severas providências" (DAEMON, 1879, p. 287) a rebelião foi abafada.

Entrando no período regencial (1831-1840), o Espírito Santo vivenciou as lutas políticas que caracterizaram o Brasil naquele contexto histórico. Na Corte, formaram-se grupos políticos denominados: caramurus, exaltados e moderados. Os caramurus baseavam seu pensamento na ideia de que a nação brasileira já estava politicamente constituída e negavam-se a apoiar qualquer reforma na Constituição, defendendo a centralização monárquica. Por sua vez, o grupo dos exaltados defendia a ideia de que a liberdade deveria caminhar junto com a igualdade social e, desse modo, combatiam os privilégios da nobreza, defendendo a descentralização. Os moderados constituíam-se em um meio-termo entre as duas posições, defendendo a Monarquia constitucional e combatendo o Republicanismo que era defendido por muitos exaltados. A fusão entre uma parte dos moderados e os caramurus deu origem ao

provocou a formação do Partido Liberal. No Espírito Santo, esses partidos políticos só surgiram posteriormente.136

No começo do Período Regencial, foi grande a luta dos liberais, exaltados ou não, em defesa das liberdades e da descentralização do poder. Como consequência desse embate, foi aprovada a primeira reforma descentralizadora da Constituição de 1824, o Ato Adicional de 1834. A divulgação desse Ato, Lei nº 16, de 12 de agosto de 1834, motivou, conforme Novaes (197-), grandes festejos em toda a Província do Espírito Santo que, agora, teria um Poder Legislativo local, com a instalação da Assembleia Provincial. Realizaram-se as eleições em outubro de 1834. Foram eleitos 20 deputados, entre os quais, conforme Oliveira (2008), o capitão Francisco Pinto Homem de Azevedo, bisavô de Moniz Freire. Ao longo do Período Regencial, iam sendo eleitos para a Assembleia Provincial membros do clã dos Pintos Ribeiro, assim ocorrendo, por exemplo, com José Francisco de Andrade e Almeida Monjardim e o Pe. Marcelino Pinto Ribeiro Duarte que, conforme Daemon (1879), fora eleito em 1838 para a legislatura provincial.