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1 O QUE É SER CAPIXABA: UMA REPRESENTAÇÃO SOCIAL

1.4 O OLHAR DA ATUALIDADE RECENTE: DADOS ECONÔMICOS E

Para finalizar, convém abordar a atualidade mais recente, pois, quando se a estuda, tantas são as referências ao isolamento do Estado do Espírito Santo e à mágoa do capixaba com isso relacionada, que se faz necessário um desenvolvimento à parte e que se trate da construção desse imaginário, dessa representação, nos dias atuais. É emblemático dessa ideia o artigo36

publicado – e que aqui reproduzimos – em 2012, pelo então vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Lucas Izoton, que afirma claramente que "[...] infelizmente, o Espírito Santo em toda a sua história normalmente ficou à margem do governo federal,37, desde o Brasil Colônia até os dias de hoje".

36 IZOTON, Lucas. "República" capixaba. A Gazeta, Vitória, p. 20, 27 abr. 2012.

37 Apenas se deseja registrar a imprecisão histórica, quando se afirma que, no período colonial, o Espírito Santo

ficou à margem de um Governo Federal que não existia. Provavelmente o empresário quiz referir-se à Coroa Portuguesa.

FIGURA 1 – Artigo de Lucas Izoton sobre o isolamento político capixaba.

Fonte: A Gazeta, Vitória, p. 20, 27 abr. 2012.

Também esses depoimentos da atualidade constituem valiosa documentação que indicará a construção de uma representação observada também no discurso político de Moniz Freire. Basta relembrar Moniz Freire (2012, p. 14-29) referindo-se aos capixabas e à Província do Espírito Santo em 1885: "[...] somos uns enjeitados dos poderes públicos; [e] pequena e desprotegida" terra.

Representação ou "real", o conjunto de ideias, que aqui será exposto, acha-se, com certeza, presente no imaginário capixaba da atualidade. Estudando o papel de Joana D'Arc na França, a historiadora Colette Beaune38 indica um rumo a ser tomado, quando se fazem pesquisas dessa natureza aqui proposta: "[...] é preciso se preocupar com as representações tanto quanto com os fatos" (TORRES, 2013, p. 6). É o que esta tese e especialmente este capítulo

pretendem realizar: estudar as representações e os "fatos". Existem estudos39 que analisam as causas que podem estar na origem das afirmações e práticas negativas sobre o Espírito Santo, quer sejam capixabas, quer sejam não capixabas, de políticos ou não, historiadores ou simples cidadãos. Este estudo, embora possa às vezes procurar o "porquê?", orienta-se, entretanto, para a pesquisa do "como?", na esteira da metodologia sugerida por Marcelo Gleiser40 (2006, p. 1) para trabalhos de caráter científico:

Uma das percepções mais comuns da ciência é que ela tem o dever de explicar o porquê de tudo. Por exemplo, por que o céu diurno é azul e não amarelo ou laranja? [...]. Na prática, no entanto, a situação é mais complicada: existem dois tipos de pergunta, o 'por quê?' e o 'como?'. Nem sempre a ciência pode ou mesmo tenta ou deve explicar o porquê das coisas. Perguntas do tipo ‘como’ são, em geral, muito mais apropriadas à missão da ciência de descrever a realidade em que vivemos.

Ora, atualmente o Estado do Espírito Santo vem se destacando na Federação brasileira. Conforme o Instituto Jones dos Santos Neves (VOGAS, 2010), entre 2002 e 2007, o PIB brasileiro cresceu em média 4%, enquanto o crescimento médio do PIB capixaba chegou a 5,3%. Em 2007, o PIB per capita capixaba foi o quarto maior do país. O jornalista J.C. Monjardim Cavalcanti (2006), em um artigo cujo título é, simbolicamente, Um pequeno

grande Estado, afirma que o Espírito Santo é detentor da maior indústria de pesca e

exportação de atum no Brasil, tendo o maior complexo de pelotização do mundo, além de ser o maior exportador de placas de aço e de minério de ferro. Ele lembra que o Espírito Santo é o maior produtor de mármore e granito do Brasil, maior produtor de gás por poço, detendo 40% das descobertas de petróleo e gás do Brasil.41 Vitória é, atualmente, a segunda capital brasileira em IDH,42 ultrapassada apenas por Florianópolis. Desde 1990 até 2005, a taxa média anual de crescimento é de 3,4% no Espírito Santo, superior à média nacional, de 2,2 %.

Nesse sentido, a Tabela 1 apresenta o crescimento da economia, no Brasil e no Espírito Santo, desde 1970 até 2006:

39 Por exemplo, o professor André Ricardo Valle Vasco Pereira (doutor em Ciência Política e professor do

Departamento de História da Ufes) apresenta um estudo – Fantasias persecutórias na História do Espírito Santo – que analisa o que ele chama de "fantasias persecutórias" e que se "[...] atribui falsamente a certos atores propósitos malévolos que visam afetar a TODOS os capixabas" (2013, p. 142). Mais adiante, procuraremos fazer uma análise do pensamento do autor, relacionando-o com as conclusões desta tese.

40 Professor de Física Teórica do Dartmouth College, em Hanover (EUA), e colunista do jornal Folha de São

Paulo.

41 A crise econômica mundial iniciada nos Estados Unidos da América em 2008 modificou um pouco os dados,

mas não invalida a afirmativa de que o Estado do Espírito Santo é economicamente bem situado na Federação brasileira.

42 Trata-se do Índice de Desenvolvimento Humano que, medido pela Organização das Nações Unidas, avalia

TABELA 1 – Taxa de crescimento médio anual da Economia (%) Brasil e Espírito Santo

PERÍODOS BRASIL ESPÍRITO SANTO

1970-1980 8,6 12,1

1980-1990 1,7 3,3

1990-2000 2,8 4,0

2001-2005 2,2 3,5

Jan./jun.2006 2,2 4,7

Fonte: Sistema de Contas Nacionais e Regionais do IBGE (In: Revista 200 Maiores Empresas - Espírito Santo, 2006, p. 169).

Compreendemos o comentário de João Gualberto Vasconcellos43 (2006, p. 18): "[...] apesar

de sermos um Estado com médias de crescimento acima da nacional, ainda somos um Estado pouco conhecido para a maioria dos brasileiros".

Num painel da história do Espírito Santo, realizado em dezembro de 2001 na Assembleia Legislativa Estadual, Simões (2002, p. 242-243) foi taxativo:

[...] o descompasso entre a posição econômica do Espírito Santo e os resultados políticos são flagrantes. O Espírito Santo é o oitavo Estado no ranking de competitividade nacional [...]. Porém, o Espírito Santo não está colocado entre os quinze Estados divulgados que, em 2000, conseguiram mobilizar o maior volume de recursos federais para investimentos [...].

Entretanto, esses dados quanto aos investimentos federais vêm se mantendo ao longo dos anos, o que lembra procedimento parecido entre o Governo Federal e o Espírito Santo, no primeiro mandato de Moniz Freire na presidência do Estado. Tratava-se do estabelecimento de imigrantes no Espírito Santo, que requeria ajuda federal, o que não foi possível obter, uma vez que São Paulo foi beneficiado com verbas desviadas de Estados menos influentes na política. Moniz Freire a isso se refere, dirigindo-se ao Legislativo estadual e afirmando:

[...] Infelizmente falhou completamente este ano o auxílio federal com que contávamos [...]. [E, por isso,] [...] nem temos a verba para auxiliar o serviço que fazemos por nossa conta, em virtude do contrato estadual, nem recebemos dos imigrantes introduzidos pelos contratantes federais a porcentagem correspondente à verba que o orçamento da União nos destinou (ESPÍRITO SANTO, 1893, p. 16-17).

Ora, é grande a queixa atual do Espírito Santo, no que diz respeito a ser preterido, quando o tema são as verbas federais. Assim, em 2004, no repasse dessas verbas aos Estados, o Espírito

Santo ficou em 25º lugar, na frente apenas do Amapá e de Rondônia.44 Em 2007, A Gazeta (ES)45 estampava: "Estado fica na lanterna dos investimentos federais no país". Em 2007, "[...] o Estado ficou ao lado do Rio Grande do Norte [...], Mato Grosso [...] e Mato Grosso Sul [...] entre as unidades da federação que receberão uma fatia menor do bolo orçamentário da União".46 Em 2008, a mesma A Gazeta (ES)47 trazia a manchete: "Distribuição desigual - há diferenças gritantes em relação aos recursos do PAC liberados para os Estados". Em 2007, o Espírito Santo ficou em penúltimo lugar em valor recebido. Era 22 vezes menos do que Tocantins. Em 2008, A Gazeta (ES)48 noticiava: "A análise do cenário [...] mostra ainda uma espécie de 'desprestígio' político do Espírito Santo. Dos 27 Estados da federação, o Espírito Santo [...] ocupa a quinta pior colocação no ranking, em termos percentuais, com os menores repasses da União". No ano de 2009, A Gazeta (ES)49 dava continuidade à constatação, comentando: "[...] as transferências voluntárias [...] do governo Federal para o Espírito Santo cresceram [...]. Entretanto, o Estado ainda é o segundo pior no ranking de repasses feitos aos 26 estados federados e ao Distrito Federal; ficando à frente apenas do Estado de Rondônia". Ainda em 2009, a manchete de A Gazeta (ES)50 mais uma vez confirmava: "Estado fica na

lanterna dos repasses do PAC51 no país". Sabedor de que essa situação não está associada

apenas ao governo daquele momento, o então presidente da Findes,52 Lucas Izoton, afirma53 que "[...] os números mostram que o governo federal não trata adequadamente o Espírito Santo, e isso acontece há mais de décadas". Em 2012, a colunista Martha Ferreira54 sublinhava que "O Espírito Santo ocupa o 23º lugar na lista de transferências do Fundo de Participação dos Estados". Em 2014, o jornal ESHoje55 trazia a manchete e o nariz de cera: "Governo Federal não vê o ES - o Espírito Santo é um dos Estados que menos recebeu verba do Governo Federal para prevenção de desastres no ano de 2013".

O ex-prefeito de Serra (ES), João Batista Mota,56 em entrevista publicada em Vitória, resume – embora radicalizando seu pensamento – o que certamente está no imaginário de inúmeros

44 A Gazeta, Vitória, O repasse aos Estados, p. 15, 13 ago 2004).

45 A Gazeta, Vitória, Estado fica na lanterna dos investimentos federais no país, p. 15, 31 mar. 2007. 46 A Gazeta, Vitória, Governo Federal reduz em 7% repasses ao Estado, p. 26, 8 set. 2007.

47 A Gazeta, Vitória, Distribuição desigual, p. 6, 11 maio 2008.

48 A Gazeta, Vitória, União deve 42% do dinheiro previsto para o Estado em 2007, p. 28, 20 abr. 2008. 49 A Gazeta, Vitória, Estado é o último em repasses da União, p. 22, 27 mar. 2009.

50 A Gazeta, Vitória, Estado fica na lanterna dos repasses do PAC no país, p. 11, 22 abr. 2009.

51 Programa de Aceleração do Crescimento, lançado pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT) em 2007. 52 Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo.

53 A Gazeta, Vitória, "Por que a União não nos respeita?", p. 19, 15 mai. 2011. 54 A Tribuna, Vitória, Perdas e danos, p. 29, 16 jun. 2012.

55 ESHoje, Vitória, Governo Federal não vê o ES, p. 2, 10 jan. 2014. 56 ESHoje, Vitória, p. 6 e 7, 16 maio 2014.

capixabas: "Hoje não valemos o cocô do cavalo do bandido. O Espírito Santo não vale nada, absolutamente nada!".

Em artigo publicado, Paulo Hartung (2014, p. 17), que ainda não havia sido eleito governador do Estado em 2014, escreve:

[...] Moniz Freire pautou sua vida política com vistas à modernização socioeconômica e político-cultural do Estado, objetivando conferir-lhe maior autonomia e integração ao cenário nacional [...] [investindo] em uma 'memória histórica capaz de conferir identidade provincial e melhorar sua autoestima' [...], [podendo ser nomeado] um verdadeiro estadista espirito-santense [...] formulador de uma pauta que até hoje encontra desafios a serem superados.

É de se notar a relação entre esse pensamento de um político atual e a tese que aqui pretendemos desenvolver. É interessante observar a afirmação de que Moniz Freire procurou "conferir identidade provincial", tema desta tese.

Mencionando as batalhas do Espírito Santo com relação ao Fundap e aos royalties do petróleo, o economista Orlando Caliman (2013, p. 29) comenta sobre a viabilização de investimentos estratégicos no Estado: "São novas batalhas de uma 'guerra' longa de busca de espaço e lugar ao sol na federação, de cujas raízes podemos extrair reminiscências ao longo da história econômica e política do nosso Estado".

Atribuindo à política o fato de o Espírito Santo continuar sendo "[...] um dos lanterninhas no recebimento de verbas federais, José Carlos Corrêa57 (2009, p. 6) escreveu em seu artigo intitulado Até quando? : "[...] nossa pequena representatividade política [...], [pois] [...] a bancada federal capixaba, por sua vez, repete a desarticulação das anteriores".

Eduardo Caliman58 (2011, p. 23) faz uma relação entre esses fatos e a história do Estado: “[...] os capixabas, que há séculos sofrem discriminação da União na aplicação dos seus recursos. O Estado que sempre aparece na lanterna dos investimentos federais e que não tem aeroporto nem rodovia decentes, é o mesmo que, no início da colonização, foi usado como barreira natural para a capitania das Minas Gerais". Já nos posicionamos em frente a essa afirmação do abandono do Espírito Santo no período colonial, devido às questões auríferas.

57 Articulista do jornal A Gazeta,Vitória. 58 Articulista do jornal A Gazeta, Vitória.

A última eleição presidencial (2014) mostrou, no Espírito Santo, uma polêmica travada em torno desse imaginário que se está analisando para a construção desta tese, que relaciona Moniz Freire com uma identidade política capixaba, a qual tem por um dos traços a representação do isolamento político do Espírito Santo. O jornalista Eduardo Fachetti (2014, p. 18) chegou a afirmar que essa "[...] poderá ser a primeira chaga a ser tocada nesta campanha [presidencial de 2014]: afinal de contas, o Espírito Santo é ou não isolado pelo governo federal?".

Desde o desencadear da campanha presidencial 2014, em 6 de julho, até o segundo turno, em 26 de outubro, o Estado capixaba recebeu a visita de vários presidenciáveis, inclusive de Eduardo Campos, que aqui esteve na véspera de seu trágico falecimento. Todos eles se envolveram no debate sobre o isolamento do Estado capixaba na Federação brasileira. Favorável ou contrariamente a essa ideia, todos se manifestaram publicamente a respeito. São emblemáticas duas manchetes estampadas por ocasião das visitas dos candidatos ao Estado. Em 10 de julho de 2014, A Tribuna, Vitória (p. 36) proclamava em letras garrafais: "Aécio promete acabar com isolamento do Estado". Em 30 de julho de 2014, A Gazeta (p. 19), Vitória, também alardeava com enormes manchetes: "Campos faz críticas 'Espírito Santo sente o problema do abandono'". Observando a Figura 2, podemos perceber a importância dada pelo jornal a esse tipo de informação sobre o abandono do Espírito Santo.

FIGURA 2 – A campanha presidencial de 2014 e o abandono do Espírito Santo

Outras manchetes, em outras ocasiões, indicavam a preocupação com o mesmo tema. É de se notar, na Tabela 2, o número de vezes em que os jornais da Capital capixaba desse período fizeram referência ao que neste capítulo analisamos:

TABELA 2 – Jornais capixabas, entre 30 de julho de 2014 e 24 de outubro de 2014: presença de alguns conceitos-chave

CONCEITOS-CHAVE NÚMERO DE PALAVRAS EXEMPLOS DE PALAVRAS

Desprezo 7 Respeito, atenção, prejudicar

Isolamento 39 Isolado, isolamento, esquecido,

abandonado

Descaso 7 Descaso, débito, distanciamento,

ausente

Fonte: Notícias publicadas pelos jornais A Gazeta, A Tribuna e ESHoje, Vitória.

No processo de mostrar semelhanças, mas sem pretender uma relação de permanência ou de longa duração, é interessante comparar os dados anteriores com os que foram compilados com base na Mensagem que, em 1903, Moniz Freire dirigiu à Assembleia Legislativa estadual. Como em várias de suas Mensagens, podemos notar, com base na Tabela 3, o mesmo fenômeno observado nessa Mensagem de 1903, escolhida a título de amostragem.

TABELA 3 – Mensagem de 1903: alguns conceitos-chave

CONCEITOS- CHAVE NÚMERO DE PALAVRAS EXEMPLOS DE PALAVRAS

Fraqueza 92 Apreensões, infrutíferos, crise

Passividade 6 Sofrer, abster, submeter

Subestima 24 Insuficiente, inconveniente, mal

situado

Fonte: Mensagem apresentada ao Congresso Legislativo na abertura da terceira sessão da quarta Legislatura

pelo Presidente do Estado, Dr. José de Mello Carvalho Moniz Freire, em 22 de setembro de 1903 (Victoria: Papelaria e Typographya Nelson Costa & Comp.,1903).

De acordo com a Tabela 3, que aborda sentimentos relacionados com a posição política do Estado do Espírito Santo, concluímos que a subordinação do Estado estava ligada à fraqueza daquele que se encontra em posição secundária. Nota-se, nessa Mensagem, um

reconhecimento da fragilidade do Espírito Santo, em comparação com a posição dos Estados considerados de primeira ordem. Daí também a insistência na subestima.

O presente capítulo demonstrou a presença de um imaginário sobre o que é ser capixaba e suscitou ideias sobre a semelhança entre esse fenômeno geral e o que fundamentou a atividade pública de Moniz Freire, em particular, o que obrigatoriamente leva a outros questionamentos, tais como: existe similaridade entre o que pensa sobre si mesmo o capixaba atual e o que pensava a seu respeito o capixaba no século XIX? Qual representação social o capixaba do século XIX e início do século XX construiu sobre si mesmo? De que maneira Moniz Freire se utilizou dessa representação que, em seu tempo, o capixaba fazia de si mesmo, uma vez que, em seus escritos, pode-se constatar, com muita clareza, a presença dessas mesmas mágoas e mesmos sonhos registrados na atualidade? De que modo o discurso político de Moniz Freire articulou esses sentimentos? É possível dizer que essa articulação deu origem a uma identidade política capixaba? Que relação tem essa identidade política com a atuação pública de Moniz Freire tanto no Segundo Reinado (1840-1889), quanto na Primeira República (1889-1930)? São perguntas suscitadas pela análise da atualidade. Tinha razão Le Goff (1990, p. 23), quando afirmava que, "Para restituírem à história o seu movimento verdadeiro, seria muitas vezes vantajoso lerem-na [...] 'ao contrário' [...]".

Essas são, então, perguntas cujas respostas os capítulos seguintes principiarão a elucidar. Para isso, no próximo, estudaremos o jogo político em vigor no Brasil monárquico e na Primeira República, em geral. A metodologia é clara e clássica: para se entender o Espírito Santo, faz-se necessário compreender o Brasil, em primeiro lugar. O capítulo posterior complementará o próximo e analisará o caso concreto do Espírito Santo no Império e na Primeira República. Assim, depois do geral, o particular. Desse modo, o objetivo desses dois capítulos seguintes é configurar os contextos políticos – nacional e capixaba – dentro dos quais foi elaborada uma representação social sobre o que é ser capixaba, bem como a articulação dessa representação por parte de Moniz Freire, entre 1882 e 1908, para a construção de uma identidade política capixaba, tema desta tese.

2 O DEBATE POLÍTICO BRASILEIRO NO PERÍODO DE ATUAÇÃO DE MONIZ