Frater ON120
Fernando Liguori
Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.
A Espada é a faculdade analítica, dirigida contra qualquer Demônio, ataca a complexi- dade deste. Somente o simples pode resistir à Espada.9
or mais de uma década eu tenho estado envolvido, no contexto de Thelema, com a cosmovisão inaugurada nas Trilogias Tifonianas de Kenneth Grant, um dos mais proeminentes e independentes alunos de Aleister Crowley. Debruçado sobre a obra de Cowley e Grant por tanto tempo, eu levanto a indagação: existe algo novo sob o Sol? De acordo com Aleister Crowley, ele foi o avātar do Novo Aeon inaugurado em 1904 e.v. que se iniciou com a recepção de O Livro da Lei. Embora as mensagens desse enig- mático texto sejam endereçadas diretamente a Crowley, elas são claras: Mas vós não sois
assim escolhido.10 E segundo o cânone sagrado de Thelema, trata-se de uma nova Lei para
humanidade.
Alguns discípulos de Crowley, assimilando seu espírito de independência espiritual, procuraram dar continuação a seu trabalho. Certos de que suas missões era alimentar a cor- rente mágica revivida pelo mestre, mais dois aeons foram inaugurados: o Aeon de Maat, por Charles Stansfild Jones (Frater Achad); e Aeon de Zain ou Aeon sem Palavra (silencioso que ocorre fora do tempo), por Kenneth Grant (Frater Aossic-Aiwass). Alguns outros thelemitas de envergadura menos expressiva também inauguraram outros aeons. Quem sabe, o último aeon seja a conclusão das palavras.11
No Solstício de Verão de 2012 e.v. muitas pessoas pelo globo esperavam o fim do mundo. No entanto, na manhã do dia vinte e um de dezembro daquele ano houve um tremor de terra que não foi percebido por nenhum equipamento científico. Esse tremor ocorreu fora do tempo e na ocasião os Túneis de Seth desabaram, pelo menos para mim...12
Os Túneis de Seth são as passagens secretas da Árvore do Conhecimento ou daath, segundo Kenneth Grant, primeiro expoente da magia moderna a suscitar o assunto de ma- neira aberta. Estes túneis ou passagem são as raízes encaracoladas da Árvore da Vida cujos galhos são os paradigmas solares da consciência ordinária humana, as tentativas racionais de conter as volições do incognoscível.
Grant, diferente de Crowley, não deu muita atenção ao aspecto solar ou diurno da Ár- vore da Vida. Ele conduziu a maior parte de seus experimentos com o lado noturno ou som- brio da Árvore, o reino das Qliphoth. Tradicionalmente, o reino das Qliphoth está associado a Assiah, o mundo material da Qabalah. As Qliphoth são as cascas ou receptáculos que nos três mundos superiores atuam suportando e mantendo a luz primordial na medida em que ela desce, mas após servir ao propósito da criação/manifestação, elas são descartadas como
9 Aleister Crowley, Livro Quatro. 10 Liber AL, I:17.
11 Liber AL, III:75.
12 A ocasião foi realmente intrigante. Minha mãe vendeu rapidamente uma propriedade na cidade para se aven-
turar na vida rural por medo do mundo acabar. Ele vive até hoje isolada no alto da montanha, a águia na pedra.
lâmpadas queimadas em Assiah. Estas cascas são constituídas dos elementos mais grossei- ros dos outros três mundos e comportam forças extraordinariamente perturbadoras. Não são espíritos no verdadeiro sentido da palavra, mas receptáculos sem rumo que procuram em vão se preencher com a luz primordial. No entanto, a luz primordial não se manifesta em Assiah da forma sutil que se manifesta nos outros três mundos. Por conta disso, as Qliphoth
são desprovidas de energia pura, tornando-se, por assim dizer, vácuos desestruturados que buscam sugar o máximo de luz possível dos habitantes de Assiah, o que inclui a todos nós.
Portanto, as Qliphoth manifestam as qualidades avessas/contrárias dos outros três mundos acima. Assim, o que uma vez foi Kether, a pura essência da unidade, agora se mani- festa como Thaumiel, Gêmeos de Deus. O nome significa «gêmeo» ou «deus gêmeo». Repre- sentado por dois príncipes malignos, Thaumiel apresenta a polaridade máxima da duali- dade. Como as duas faces de Jano, os dois príncipes malignos olham e direções contrárias. Thaumiel é a inversão total dos princípios de Kether. Da mesma maneira, a harmonia repre- sentada por Tiphereth encontra sua total oposição em Thagirion, Litígio. O nome significa «disputa» ou «discórdia». A parte de todas as associações mitológicas, Thagirion representa a natureza antinomiana que opera contra as leis que regem o universo e a criação. Cada Qlipha recebe um nome pejorativo devido sua ação, uma antítese da ordem estabelecida pelas Sephiroth no momento da criação.
As Qliphoth são, portanto, o dejeto da criação. Uma anti-estrutura demoníaca na Ár- vore da Vida, no entanto, essencial ao processo de criação. Seus habitantes são criaturas titânicas, gigantescas que executam o trabalho sujo de construir e sustentar o mundo mate- rial como o percebemos. A Tradição Oculta diz que eles são perigosos quando estão desor- denados, descontrolados, ignorados ou não são conhecidos. De fato, muito daquilo que acre-
ditamos ser nós mesmos, quer dizer, o corpo, a mente e a personalidade, pode ser considerado receptáculos qliphóticos da essência sutil e incompreendida que representa nossa verdadeira identidade.
Examinando as obras de Grant, ele nunca mencionou qualquer adepto que tenha ido além dos Túneis de Seth, transcendendo a vacuidade destes golfos e coroando a Grande Obra. Isso é de se colocar uma pulga atrás da orelha. Todos os relatos de Grant, sejam nas trilogias ou em suas novelas, acabam em fenômenos sobrenaturais inexplicáveis ou são in- terrompidos abruptamente.
Minha relação com as ideias de Grant e principalmente, seu sistema de magia, come- çou a mudar no Solstício de Verão de 2012 e.v., quando em um trabalho de projeção astral no Túnel de A’ano’nin me deparei na cripta de iniciação de Aossic-Aiwass, onde ele estava preso e amarrado nas teias da Grande Deusa OKBISh, afogado na mitologia que criou para si. Essa experiência me levou a conclusão de que Grant, a
despeito do que muitos pensam, não coroou sua obra. Em meu livro As Árvores da Eternidade (ainda em processo de escrita) onde trato dos Túneis de Seth, explico um pouco sobre cada uma das sentinelas dos túneis:
A’ano’nin é a sentinela do túnel qliphótico que conecta Thagiriron e Samael. Corresponde ao Atu XV do Tarot, O
Diabo, cujo signo zodiacal corresponde a Capricórnio e a
letra hebraica Ayin, que significa olho. O Sol agindo em Mercúrio através da influência de Capricórnio. A’ano’nin corresponde ao Vigésimo Sexto Caminho na Árvore da Vida, A Inteligência Renovadora. O intelecto revitalizado pelo Sol Nigris via a influência priápica do diabo-bode. Na tradição qabalística, Samael é muitas vezes descrito como impotente, cego ou ambos. A força solar de renovação
tem de viajar para a terra oriental da madrugada para recuperá-lo (note que Orion per- deu a visão através de um ato sexual transgressivo). O olho aqui também se refere a abertura uretral pela força sexual de A’ano’nin: Samael recuperando sua visão e virili- dade sexual, embora a iluminação obtida tenha se dado pela transmissão de Thagiriron, a esfera qliphothic do Sol Negro.
Na ocasião dessa experiência eu não estava trabalhando com nenhuma fórmula ocidental de magia. Minha prática estava mais concentrada na feitiçaria tântrica do Śrī Vidyā. Na ver- dade, eu estava completamente envolvido com a prática diária do Śrī-devī-khaḍgamālā-sto-
traṃ, um hino ritualístico de adoração a Śakti que envolve o magista em uma cápsula-áurica
de proteção. Khaḍga significa espada e mālā traduz-se por guirlanda. Dessa forma, é tido que aquele que executa essa prática ganha uma guirlanda de espadas da Mãe Divina.
Na execução desse ritual, o magista projeta o corpo de luz em cada um dos triângulos do Śrī-Yantra ou Śrī-Cakra, símbolo que representa o corpo da Śakti Universal, as Árvores da Eternidade ou os Cabelos de Nuit. É a representação geométrica da Deusa Suprema, um
yantra composto de câmaras a serem visitadas pelo corpo de luz, cada uma mais secreta que
a anterior, arranjadas ao redor de um ponto (bindu) central, o coração do yantra, onde a Deusa, na forma de Khamśvārī reside em coito eterno com seu Amado Śiva na forma de Khameśvāra.
Na medida em que o corpo de luz atravessa as câmaras secretas em direção ao centro do yantra, o magista deve reverenciar cada sentinela, um total de 98 yoginīs representando aspectos distintos da Grande Deusa. Ele movimenta-se das extremidades do yantra e dire- ção ao centro no sentido anti-horário em um processo denominado samhārakrama, o mé- todo da dissolução no qual ele internaliza cada yoginī na intenção de assimilar em si cada aspecto da Deusa.
Eu pretendo publicar esse ritual na íntegra no
Gnose Tifoniana (Vol. II) que ainda estou acabando de es-
crever. A cada fase da lua, o ritual deveria ser executado de uma maneira distinta, na intenção de reverenciar as- pectos diferentes da Deusa. Trata-se de um ritual da tra- dição śākta, cujo Absoluto é adorado na forma da Mãe Di- vina. Dessa maneira, uma tradição consistentemente tifo- niana.
Śakti é um outro termo para devī (deusa) que signi-
fica poder, denotando energia. Mas não energia no sen- tido negativo ou positivo. A tradição śākta não acredita na polarização de devī. Ela é a Eterna Creatrix. Os śāktas di- zem que tudo é energia, quer dizer, todas as coisas são apenas aspectos da Grande Deusa.
Śiva, visualizado em cópula constante com devī, é a consciência estática energizada pela Śakti, o que produz o fenômeno da criação do universo. O amor de Śakti, con-
duzido sob vontade, é a causa e essência de toda criação. Dessa maneira, o magista deve visualizar Śiva e Śakti em coito. A Deusa permanece eternamente no estado de orgasmo cri- ativo que anima Śiva, derramando sobre ele seus kālas. Através desse ritual (sādhanā) o magista pode acessar esse estado de bem-aventurança eterno da Deusa, quando será por Ela banhado através de seu doce cheiro.
A imersão nos mistérios do Śrī Vidyā me levaram a estabelecer uma conexão entre as câmaras de iniciação do yantra e os túneis sethianos nas raízes da Árvore. Essa conexão me possibilitou corrigir alguns erros de Kenneth Grant em minha prática pessoal. No livro
Ao acessar umas das câmaras qliphóticas do yantra, tive uma das experiências mais reveladoras acerca do trabalho de Kenneth Grant. A passagem que se segue é um extrato das anotações que fiz após a experiência:
Me lembro de ter entrado no palácio do Rei. Seu Trono era a própria cabeça e quando sentado, seus cortesões lhe circundavam. O chão aos meus pés começou a se desfazer e não obstante o meu desespero, empunhei minha Espada e corri em direção ao Rei. Mas o Rei cai morto e seus cortesões se tornam serpentes sobre ele, sem remorso. Eu senti- me em paz com a Espada. Eu estava preparado, finalmente, para caminhar pelo corpo de Nuit, chamejante com o brilho das estrelas.
[...] Eu desci pelas escarpas até chegar em uma cripta cheia de escuridão, viva pela presença de alguma criatura. Era possível sentir um forte odor vindo de valas mais pro- fundas. Velada pela escuridão profunda existe uma rede invisível de criaturas, caminhos e mundos. Uma visão maravilhosa acompanhada de uma sensação horrível. Recusando ceder ao medo que me aterrorizava naquele momento, caminhei cripta adentro no es- curo, cruzando o limiar da passagem em direção as trevas.
Uma vez lá dentro, não tive dúvidas de que havia acessado a cripta de iniciação do Clã Grant ou Grant’s Grimoire como ele se referia a ela. Lá encontrei Aossic-Aiwass, fa- lando línguas estranhas, palavras grotescas e sons macabros sem sentido nenhum para mim, preso pelas criaturas sombrias de sua própria mtologia. Eu podia sentir a nítida presença de um vampiro, nem besta e nem homem. Em seguida, grandes quantidades de criaturas sombrias começaram a sair da escuridão das paredes. Eram pontos nodais, constelações de força, vigas transversais que sustentavam toda a Rede de OKBISh da raiz ao topo da Árvore. A sensação que eu experimentei foi que aqueles fantasmas das sombras iriam me prender ali para sempre. Foi quando decidi empunhar minha Espada, mas quando percebi, em minha mão direita eu empunhava um vajra.13 Apontada para
baixo, na minha mão esquerda, estava a Espada Flamejante. Frime nessa hora que co- mecei a entoar uma invocação a Nodens, o Dragão das Profundezas. Foi quando Aossic- Aiwass me olhou e disse: Eu estou aqui por causa de minha Chi-Ro.14
Esse evento foi acompanhado por inúmeras mudanças em minha vida pessoal. Um casa- mento de cinco anos com uma alta-iniciada chegou ao fim e um novo capítulo na minha busca espiritual – dentro da A∴A∴ – se abriu. Kenneth Grant sabia que o Solstício de Verão de 2012 e.v. seria uma data importante para muitos iniciados, um período de transição e ajuste teria seu início nesse tempo de poder, que coincidiu com o fim de um grande ciclo aeônico e, portanto, o início de outro, segundo o calendário maia
Amor é a lei, amor sob vontade.
13 Um objeto ritualístico utilizado tanto nos tantras hindu e budista e significa tanto um trovão quanto um dia-
mante. É um símbolo da força e virilidade espiritual, um poder representado pela união yogī dos princípios mas- culino e feminino.
14 Chi-Ro significa espada e segundo Kenneth Grant é um símbolo do Aon de Zain, um tempo através do qual o