As narrativas biográficas de Nilton e de Maria permitem situá-los como sujeitos, ainda que distintos, em uma trama - as suas vidas - de acontecimentos e cenários, que constituem um enredo particular construído no contexto em que elas foram elaboradas, qual seja, o processo de mudanças do Banespa, que foi se configurando na medida em que foram narrando suas experiências vividas.
Analiso aqui nas narrativas situando de que tempo e de que lugar Nilton e Maria contam suas histórias de vida, entrelaçando o trabalho no Banespa e outras esferas de sociabilidades, que mostram quem eles são ao longo de suas trajetórias.
Para tanto, considero que as trajetórias desses sujeitos conduzem a um percurso no tempo e no espaço que permite relacionar dimensões de suas vidas que são apresentadas no decorrer de suas narrativas, como trabalho, família e religião, e que aqui são analisadas. E, também, considero que as narrativas permitem pensar a construção de identidades, pois, à medida que narram suas histórias, os sujeitos estão constituindo suas identidades pessoais e coletiva, em referência a uma identidade sócio-profissional, contextualizadas no tempo e no espaço das narrativas.
Nesse sentido, aproximo-me do conceito de “cronotropo”, utilizado por Bakhtin (1990) para analisar a narrativa literária, mais especificamente o romance moderno.
“Cronotropo” significa, literalmente, “tempo-espaço” e, para Bakthin (1990), as concepções de tempo e de espaço são “formas indispensáveis de qualquer conhecimento”, compreendendo-as como “formas da própria realidade efetiva.” (Bakthin, 1990:112). No cronotropo artístico- literário, “os índices de tempo transparecem no espaço, e o espaço reveste-se de sentido e é
medido com o tempo” (p. 211). E explica que:
“a assimilação do cronotropo real e histórico na literatura flui complexa e intermitentemente: assimilaram-se alguns aspectos determinados do cronotropo acessíveis em dadas condições históricas, elaboraram-se apenas formas determinadas de reflexão sobre o cronotropo real” (Bakthin, 1990:212).
Analogamente aos gêneros literários que Bakhtin analisa, as narrativas biográficas de Maria e de Nilton apresentam uma apreensão particular do tempo e do espaço por esses sujeitos e, desse modo, são reveladoras de cronotropos.
Entre tempos e lugares que as narrativas constroem, elas permitem compreender os contextos sociais em que elas se inserem, a constituição de distintas subjetividades e a dimensão do encontro entre os biografados e eu, já que a forma como se narra supõe sempre a presença de um ouvinte.
O tempo nas narrativas
A sucessão cronológica dos eventos da vida de Nilton e de Maria, tal como aqui foi descrita, é similar e poderia ser a forma como se construiria as narrativas biográficas de muitos de nós: eventos da infância e da adolescência, da escola, da vida religiosa, da família e do trabalho. E as narrativas guardam similaridades entre si, já que ambos trabalharam mais de vinte anos na mesma empresa: ingressaram no Banespa quase na mesma época e também se desligaram após a privatização.
Contudo, no momento em que narram, o fluxo e a intensidade do tempo desses eventos que apresentam é regido pela memória. Quando pedi que contassem sobre suas vidas é a escolha de lembranças, que para eles são significativas, que faz o fio condutor das narrativas: é o tempo de lembrar.
Alguns estudos sobre a memória indicam que o ato de lembrar não é individual ou biológico, mas o vinculam a uma noção de memória entendida como uma construção social. Halbwachs (1990) situa os “quadros sociais da memória” associando a lembrança à memória coletiva, que é formada ao longo da vida pelas instituições sociais, como família, Igreja, escola, e pela classe social e profissão. A memória coletiva é a memória do grupo que nos socializamos, a nossa “comunidade afetiva”. Porém, para Halbwachs, a lembrança é uma
“reconstrução do passado”, pois “o que rege em última instância a atividade mnêmica é a
função social do aqui e do agora do sujeito que lembra” (apud. Bosi, 1979:23). Seguindo as idéias de Halbwachs, Bosi (1979) considera que é a nossa situação atual que evoca o passado,
“que lembrar, portanto, não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho” (p. 16).
Assim, o trabalho da memória nas narrativas de Nilton e de Maria, um entrecruzamento de lembranças coletivas, foi o de lembrar outros tempos sempre os relacionando à situação que eles vivem hoje após o desligamento do Banespa. Situemos quando eu os encontrei, no momento em que construímos as narrativas.
Nilton desligou-se do Banespa através do PDV, quando ocupava cargo de gerente-geral de uma agência do Banespa há mais de três anos. Ele vive hoje envolvido entre os seus estudos na Faculdade de Direito e os serviços de consultoria financeira, que presta para uma pequena carteira de clientes, em escritório montado em sua própria residência. Mesmo com essas atividades atuais, ressente-se de não ter um trabalho fixo num horário comercial, o que ele remete às vezes à condição de estar desempregado. Sua mulher ainda trabalha no Banespa como escriturária.
Maria desligou-se do Banespa há dois anos, aposentando-se antes do tempo integral na função de escriturária que sempre exerceu na agência de Barão Geraldo. Ela vive hoje com seu marido Grozzi, que também foi funcionário do Banespa, dedicando-se à família: seus pais, marido e filho e muitos amigos que agrega ao seu convívio. Reserva também seu tempo para cuidar de sua saúde, freqüentar a Igreja, ir às compras aos shoppings nos momentos de lazer. Há mais de dez anos vive em Barão Geraldo, distrito de Campinas.
Para Nilton e Maria trata-se hoje de um tempo em que reconstroem sua vida após o desligamento do Santander-Banespa. É a partir desse tempo que eles lembram, escolhendo o que querem lembrar, o que faz sentido a eles como sujeitos neste momento30.
Quando lembram de seu desligamento do banco é sobre a morte que, metaforicamente, eles falam, como contraponto, da sua vida fora do Banespa. Nilton lembra da morte da mãe:
30 Situemos Grozzi e Rita. Grozzi, 50 anos, ingressou no banco em 1975 como contínuo e se desligou em 2003 em um PDI – Plano de Demissão Incentivado na função de tesoureiro de uma agência de Campinas. Grozzi vive hoje trabalhando com pequenos consertos em equipamentos de informática, prestando serviços para uma empresa do ramo, intercalando seu dia entre a sua casa e nessa empresa, e aguarda completar o tempo para sua aposentadoria. Tal como Maria, Grozzi ocupa-se com seus familiares e agregados, embora não tão intensamente quanto a sua mulher (V. Anexo I).
Rita, 39 anos, ingressou no banco em 1988 e desligou-se em 2002, quando retornou de uma licença-gestante na última agência em que estava lotada, em Santa Bárbara D´Oeste, e vive hoje em Sumaré com o marido e dois filhos pequenos, e há mais de um ano montou, com a ajuda do marido, um buffet de festas de aniversários, sobretudo de crianças, após ter se formado em 2003 em Pedagogia (V. Anexo II)
“Nós perdemos ela [a mãe] em 95. Ela sempre trabalhou muito porque nós
éramos em seis irmãos. A gente era muito pobre, muito simples e ela fazia bolo, ela fazia bala pra fora, salgadinho pra fora até para poder manter o orçamento da casa, manter... Então, pra que a gente ficasse... pelo menos nunca faltou arroz e feijão em casa. Muito por parte dela, por parte da educação dela. Quando eu me lembro dela, ela não encostava a mão em um filho pra bater. Tenho saudade de não ter a convivência dela hoje.”
E rememorando a morte da mãe, fala sobre o seu desligamento:
“Você já perdeu algum ente querido ou não? Você já perdeu a mãe?... Minha
mãe morreu em 95. É a mesma coisa. Em função da dedicação que eu tive com a empresa. Sabe? É a mesma coisa de você perder um ente querido, um ente próximo, que você quer agarrar e não tem aonde.[A sensação era] De morte mesmo! Falar: ‘Poxa, vida! Eu não acredito!’”
Maria por sua vez, lembra, freqüentemente, em sua narrativa, de seu irmão, do afeto que sentia por ele e das dificuldades que ainda tem de falar de sua morte:
“Eu fui voltar em Ubatuba [onde o irmão morreu assassinado] agora... um mês... no mês passado. Eu voltei lá em fevereiro. [Depois do acidente], nunca mais fui pra lá. Nunca fui pra lá! A minha irmã falou assim: ‘Ah, vamos que a gente tem que tirar esse fantasma da vida da gente!’ Eu falei: ‘Ah, vamos! Não sei...’. Foi indo e agora a gente fala com mais... mais assim... mas é duro de falar! A gente sente falta...”
Juntamente à morte do irmão, Maria conta do que deixou quando saiu do Banespa, como referência a um tempo perdido, de tantos afetos, entre o trabalho e a família:
“Ah, também, quando ficaram sabendo [de sua saída]. O [cita o nome] que
trabalhou comigo, gente do céu, vinte e quatro anos ali juntos! a turminha... E a turminha assim, por exemplo, os estagiários ‘Ah, você vai embora?! Puxa vida! Quem vai trazer bala pra mim? Quem vai dar bombom pra mim?’, ‘Pôxa! Quem vai chegar e falar ‘Bom-dia!’?’ porque eu... Olha, por mais doente, por mais insatisfeita, eu nunca fui uma pessoa negligente! nem no meu serviço e nem nas minhas amizades! Nunca! Desde a faxineira, sempre levei roupa quando não servia, sempre levei um doce. Eu comprava assim aqueles pingos de leite, eu deixava na mesa de cada um, ou aqueles dadinhos. Sempre! Isso daí eu sempre fiz assim e sempre consegui conciliar, Alcides! a minha casa com a minha família!” [Grifo nosso]
Assim, o período em que trabalharam posteriormente à privatização do banco foi contado por Nilton e Maria - que hoje refazem suas vidas, um período de tantos renascimentos
- como o tempo da morte. A lembrança é de um período associado ao terror que levou às doenças e, simbolicamente, às mortes, e resultou finalmente em seus desligamentos 31.
Tal como que eles lembram, isso pode remeter ao que ocorreu com os outros banespianos. Pelo que observei no 15o Congresso Nacional dos Banespianos, nesse evento, a luta sindical esteve centrada na garantia de direitos que estavam em risco nas discussões do Acordo Coletivo que se negociava, o primeiro na gestão do Santander. Portanto, com a privatização, as relações de trabalho no Banespa sofreram alterações abruptas através de demissões, intensificação e precarização do trabalho e perda dos direitos. Nilton e Maria lembram de tudo isso em suas narrativas e o fazem associando a gestão do Santander à idéia de morte. E, a partir desse tempo passado mais recente, rememoram os demais.
O período imediatamente anterior à privatização, que corresponde à intervenção e federalização do Banespa, entre 1995 e 2000, foi, comparado ao da privatização, como um tempo em que se presenciou inúmeras mudanças no Banespa, mas também foi um tempo de esperanças, pois se acreditava que não haveria a privatização de fato.
Nilton fala que durante a intervenção federal as mudanças desse período foram brandas, interpretando, por exemplo, que as demissões desse período foram ajustes necessários, diferentemente de como viria a ocorrer quando da privatização. Isso se justifica porque o banco ainda manteve a estrutura de uma empresa pública:
31 Grozzi, em suas narrativas, após revelar-me as suas dificuldades de expressar-se sobre esse período durante as entrevistas, associa o desligamento do banco à morte do pai e à depressão: “Sabe que começa a me dar umas
regressões nessas histórias e eu começo... e você sabe, eu estive conversando com pessoas que... quando você tem esses problemas depressivos, que eu achava assim que era uma coisa de fresco, mas não é! Eu... começou pelo falecimento do meu pai, que foi assim... Tudo bem que ele estava sofrendo, estava doente e eu não ia em médico, ficava numa boa e... eu tinha ido num cardiologista e o cardiologista fez os exames, deu colesterol alto, aquelas coisas todas e ele falou: ‘Oh, você vai fazer um tratamento...’, já deixou um guia de exames e ‘Daqui 30 dias mais ou menos você me liga para marcar! Novo exame, você faz o exame e traz, aqui, o novo resultado para mim ver se o exame caiu”. E eu não voltei [...]Eu falei: ‘Não, é porque falta tempo, a gente não tem tempo de ir’, tal. O Dr.
Almeida atende de sábado, aí eu fui num sábado, o Dr. Almeida me atendeu, eu levei o resultado na outra semana, que aí ele foi pedir para a minha gerente: ‘Não, [cita seu primeiro nome], leva lá, não tem importância, eu fico com a chave aqui. Porque é assim, a complicação no banco, eu sou tesoureiro, a responsabilidade do tesouro, que está lá dentro, o dinheiro, é minha’. Ela marca, dizendo que eu sou o responsável, daí eu chego e falo assim: ‘Eu preciso ir no médico’, ‘Ah, deixa a chave comigo’. Aí eu deixo a chave com você, mas eu não passo uma ata, dizendo que a chave que está sob sua responsabilidade, sabe?[...] E aí ele [o médico] é bastante jovem e eu com a minha idade
toda, deu um mal estar, assim, de repente, aí eu perdi os sentidos, eu caí em prantos, comecei a chorar no médico e acabei ficando quatorze dias afastado, tomando corticóide, psiquiatra, psicanalista, sei lá mais não sei o que, [ ] ele me deu remédio. Eu tomava anti-depressivo...”
“Dentro deste período, o Banespa manteve a estrutura de Banespa porém
como um banco federal. Nós éramos equiparados a uma Caixa Federal, Banco do Brasil, Banespa! Deixou de ser estadual. A administração do Banespa nesse período foi de funcionários de carreira do Banco Central, ou seja, [foi]federal.”
Maria conta que esse período foi de muitas mudanças, principalmente com as demissões do período, lembrando também que, pois isso, ela mudou de setor, saindo do atendimento ao cliente e indo para a compensação, e que houve a intensificação do trabalho. Mas, mesmo assim, os funcionários de sua agência de Barão Geraldo mobilizavam-se para mostrar que o Banespa, nesse período, poderia ser viável como uma empresa pública:
“Ah, foi difícil pra gente, viu? Ainda mais... eu vou te falar assim... Foi difícil pra
nós banespianos, aqueles que vestiram a camisa do banco... do Banespa! Isso, pra nós, foi terrível!... As pessoas iam saindo, pessoas que eram seus amigos, que trabalhou ali durante ... quinze anos juntos... dezoito anos juntos... Depois um olha pra outro e você: ‘Ah, cadê fulano?! Fulano não veio por quê?’, ‘Ah, fulano não veio porque foi lá pro HC!’, aí um caixa... aí chegava um cliente pra você: ‘Pôxa, não é...’, ‘Ah, fulano está lá no Básico, fulano está lá na Reitoria!’... é duro isso! É, você vai perdendo o chão também porque estou acostumada, apesar de você já não sair tanto com aquele povo, mas você está acostumada com aquele povo todo dia ali: ‘Bom-dia, Maria!’, ‘Bom-dia!’, ‘Bom-dia!’”[Grifo nosso]32
Tanto Nilton como Maria lembram também que esse período foi de esperanças, como ela se refere:
“Olha, eu... Eu tinha esperança que não, tanto é que eu sempre falava pra
turma: ‘Olha, eu não falei?! Mais um ano!’. Quando chegava no final do ano eu falava: ‘Gente, mais um ano! Mais um ano!’, ‘Oh!’, ‘Você vai ver! Mais um ano!’
Uma esperança que traduzia para Nilton como uma possibilidade do banco não ser privatizado e de não ocorrer mais demissões:
32 Grozzi fala dos impactos que mudanças decorrentes da intervenção provocou, sobretudo quanto ao temor do desemprego: “... Eu tinha medo de perder o emprego, eu fiquei até neurótico, uma época eu fiquei até doente aí. [...]
É [na época] da intervenção, pronto, estou na rua. Não tenho curso superior, vou sair daqui, vou fazer uma ficha no Bradesco ou no Itaú, que eu sou bancário, porque bancário, na verdade, não é nem profissão, não é? [...]O medo era] era geral, tanto é que você vê aí que muitos funcionários hoje, percebeu que ia ser mandado embora, ele se afastou por LER, problema cardíaco, doença nervosa”
“Nunca [achava que o banco ia ser privatizado]! Duas coisas que nunca
passaram pela cabeça de um funcionário decente: o banco não vai ser privatizado e nós não vamos sair do banco. Não pensava, nem passava pela minha cabeça!”
Diante do tempo da morte do período após a privatização, eles vêem hoje que a sua vida, e a de empresa e dos banespianos, embora agonizantes, ainda tinham alguma chance de recuperação no período anterior, de reverter o caminho que levaria o banco à privatização e também algumas mudanças que já se anunciavam nesse período33.
Teriam eles a mesma impressão sobre as mudanças na época em que vivenciavam tais mudanças e que, efetivamente, levou à privatização do Banespa?34 Sobre isso, não mais saberemos, pois é o tempo da memória, de Nilton e de Maria que agora se impõe. E o que apresentam é o abrandamento dos conflitos que emergiam no Banespa à medida que vão lembrando o passado em comparação ao tempo mais recente, da privatização, um tempo de tantos conflitos e, metaforicamente, de tantas mortes35.
Poderíamos dizer que, com isso, Nilton e Maria se esquecem? Deixemos essa pergunta para problematizar depois, e vamos seguir mais adiante, já que em oposição à morte recente é a vida no passado que se apresenta nas narrativas.
33 Rita sempre tivera, desde quando ingressou no banco, participação no movimento sindical, inclusive foi membro da diretoria do sindicato de Campinas no início dos anos 90. Ela conta sobre as mobilizações dos funcionários, articuladas pelo Sindicato dos Bancários e pela Afubesp contra a intervenção no período, quando ela trabalhava em uma agência São Paulo: “Aí teve uma união dos grupos [dos movimentos sindicais] nesse momento, teve uma união
dos grupos, eles tiveram uma prévia, vamos dizer assim, não é? E teve uma união para eles... num único pensamento: acabar com a intervenção. E, antes da intervenção, eles não conseguiam fazer nada, porque foi tudo muito rápido, não tinha, assim, uma certeza absoluta que ia ter a intervenção, foi uma ação muito rápida do governo federal. E o governo federal era, então, o Fernando Henrique do PSDB, não é? Foi tipo um golpe de estado praticamente, foi, assim, uma maneira de manipular os últimos dias do antigo governo, mas... então não teve muito o que fazer, mas, depois, a partir do momento da intervenção, foi tendo muita... foi aquilo que eu falei para você. Eu não me lembro mais dos fatos, mas teve muitos movimentos em 94, foi um ano bem atípico.”
34 As mudanças que ocorreram no período de intervenção e federalização para Nespoli (2004) foram “o início da
precarização das relações de trabalho no interior da instituição” (p. 170); para Silva (2000), em seu estudo sobre as demissões do Banespa desse período, ocorreram pressões para que os funcionários aderissem aos PDVs, e não algumas demissões foram assim tão como voluntárias. Segnini (1999) analisou a reestruturação do trabalho nesse período e verificou elementos que levaram a precarização do trabalho.
35 Rita, uma sindicalista atuante no período, fala sobre a empresa no período da intervenção considerando que fora ainda um período de estabilidade, mesmo que assim o faça avaliando esse período depois do processo posterior da federalização e da privatização: “Então tudo isso foi um processo para depois ia ter, assim... mas isso aí estava
acontecendo em todas... em várias empresas estatais, primeiro a intervenção, depois a federalização e depois a venda para capital estrangeiro, então isso aí assustava muito aos funcionários. E o bom, o que aconteceu, depois de um ano de intervenção, foi feito um balanço depois que aconteceu, nenhum cliente abandonou o banco, mesmo os grandes investidores, os funcionários, mesmo aqueles de alto cargo, conseguiram manter com toda aquela instabilidade, porque você sabe que uma intervenção cria uma instabilidade e quem tem muito dinheiro não vai querer ficar nesse [banco]?”
O tempo passado, o que é lembrado por Nilton e por Maria, vai se configurando em “Idades Míticas” que, segundo Le Goff (1992) seriam épocas “excepcionalmente felizes ou catastróficas” (Le Goff, 1992:283) que as sociedades humanas constroem para “dominar o tempo e a história e satisfazer aspirações de felicidade e justiça ou
os temores face ao desenrolar ilusório ou inquietante dos acontecimentos” (p.283). Assim, o tempo da memória de Nilton e de Maria é o do mito, que se contrapõe ao da história36.
O período do Banespa do passado apresenta-se para Nilton e Maria como uma
“Idade de Ouro” que é uma forma como são imaginadas as Idades Míticas referidas por Le Goff