3. O PERCURSO HISTÓRICO POLÍTICO DO 13 DE MAIO NEP
3.2. O desenvolvimento do trabalho e a ramificação de suas atividades
3.2.3. O desenvolvimento do trabalho de formação política
3.2.3.3. Nasce o Programa de Formação de Monitores
Com a crescente demanda por atividades de formação por todo o Brasil, a Equipe do 13 de Maio NEP, fixada em São Paulo, não conseguia mais atender todos os pedidos. Em 1988 surgiu a necessidade e a idéia de dar início à formação de multiplicadores do Programa de Formação da Entidade. Foi a partir dessa premência que a idéia de desenvolver roteiros, cursos, programas se cristalizou. Quem assumiu a tarefa de formar novos monitores, como são denominados os educadores ou multiplicadores, foi Humberto Bodra. A escolha se deu por ser ele o mais organizado e detalhado, comenta Iasi (2007).
Ao iniciar a primeira turma de monitores com caráter experimental: “Humberto apresenta a um grupo de participantes o roteiro115 e os materiais necessários para dar o curso Noções Básicas de Economia Política [...]. Com esse roteiro e a precisão do Humberto, a Equipe percebeu que seria em torno dele que se reproduziriam as pessoas para multiplicar esse curso”, diz Iasi (2007).
Em relatório de avaliação das atividades116, a Equipe informa que o projeto de implantação do Programa de Formação de Formadores se deu em 1990117, num contexto político pós primeira derrota eleitoral da candidatura Lula, diante da qual a reação da “militância dos movimentos sindical, popular, pastoral etc. no Brasil era de perplexidade”. O País, então, vivia o clima eleitoral que “colocava nas mãos mais conservadoras os governos estaduais” e a “militância se questionava, buscava caminhos, buscava refletir seus erros e acertos e as conseqüências dessas alterações em nosso País” (13 de Maio NEP, 1992, p.1).
Por outro lado, quando da elaboração do relatório de avaliação, já em 1992, o “clima” político era o da iminência do impeachment do então Presidente Collor de Melo, expresso por
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No Anexo III reproduzo do roteiro de 1988 o texto de introdução e a relação de material a ser usado durante
o curso. 116
Em 1992, a Equipe do 13 de Maio NEP empreendeu uma avaliação das duas primeiras turmas-piloto do curso de Formação de Monitores. Trata-se de material com diversas informações importantes e interessantes, assim como os demais relatórios a que tive acesso, mas, infelizmente, não poderei abordá-las na sua totalidade nesta pesquisa, devido aos limites do tema e de tempo.
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Pelos depoimentos e outros documentos, a exemplo do roteiro do curso de monitores mencionado no Anexo III, sabe-se que, embora de forma experimental, a primeira turma de monitores teve início em 1988.
massivas manifestações populares de repúdio. Essa conjuntura também trouxe de volta à cena o movimento estudantil, que há muito estava adormecido. No aspecto econômico, os pacotes recessivos continuavam “produzindo seus resultados no crescente desemprego, no constante achatamento salarial, e o precário controle inflacionário (25% ao mês) tendia a ser rompido por um aumento geral dos preços nos próximos meses” (Ibidem).
Dada essa conjuntura, a Equipe avaliava os seus potenciais e limites. Verificava-se que, nesses momentos, sempre ocorria um aumento da procura por atividades de formação e a Equipe vinha trabalhando bastante para dar conta dos pedidos.
Também em 1992 falece o educador e coordenador do Projeto de Formação de
Monitores, Humberto Bodra. Sua perda abalou toda a Equipe que, mesmo assim, buscou se
reorganizar. Em julho do mesmo ano, era divulgado o primeiro número118 do Boletim do
Fórum Nacional de Monitores119, sob o título Uma orquestra afinada, no qual se registrava a perda de Bodra. Do texto, destaco o seguinte trecho:
O FNM continua na estrada. Estamos tristes com a perda do nosso camarada Humberto Bodra. Todos nós que o conhecemos vamos demorar para nos acostumar com a idéia de um mundo sem o “vamus láááá, companheiruuusss...”. O apego e a dedicação que o Humberto demonstrava na questão da formação só podem ser compreendidos pela profunda convicção de classe e a firmeza na posição revolucionária deste companheiro. Mas nós seguimos como ele com certeza teria prosseguido. O FNM surgiu para ser um veículo de trocas e correspondências entre formadores que desenvolvem sua identidade a partir de suas convicções transformadoras. [...] O combustível do FNM são as suas necessidades e suas dúvidas, suas dicas e ‘sacações’. Por isso estamos esperando uma enxurrada de cartas, quem já escreveu, escreva de novo e quem não escreveu, vê se cria vergonha na cara e “Vamus lááá, companheiruuusss...”
No Relatório, a avaliação das turmas-piloto do Programa de Formação de Monitores era apresentada de forma otimista, e ressaltados como fatores importantes para o sucesso do Programa: a atenção especial a ele dada, a liberação e dedicação de alguns companheiros da Equipe e a contribuição financeira recebida das entidades.
No início não se tinha uma estruturação completa dos momentos e etapas a serem percorridos. O que se trabalhava junto aos participantes era “um programa mínimo de conteúdos distribuídos pelos encontros”, procurando “propiciar situações de aprendizado, em que o futuro monitor pudesse exercitar seu papel educativo” (13 de Maio NEP, 1992, p.2).
Em relação aos participantes, percebia-se, na época, que aqueles que se integravam a um projeto prático, não apenas puderam tirar melhor proveito do programa, como puderam dar continuidade à sua ação formativa, após seu encerramento. Por outro lado, aqueles que não mantinham um vínculo dessa natureza, embora o tenham aproveitado no sentido do
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Cópia da capa do Boletim do FNM nº 1 segue no Anexo IV.
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aprofundamento e formação pessoal, acabaram por se distanciar, e muitos hoje atuam em outras áreas que não a formação.
Essa atividade específica de formação de monitores “propiciou a realização de reflexões pedagógicas, aprofundamento de conteúdos e descobertas que nos outros cursos não seriam possíveis” (Idem, p. 2). Dentre as maiores dificuldades, estava o estágio das práticas acompanhadas, que, embora fosse permanentemente incentivado pelos integrantes da Equipe, não puderam estes desenvolver “meios de apoiar e dar retaguarda suficiente aos que organizavam e realizavam essas atividades”. Além disso, identificaram que havia poucos espaços durante os encontros para que os monitores pudessem trocar experiências práticas, uma vez que era privilegiado o estudo teórico dos conteúdos. Outro ponto evidenciado no relatório foi que, durante a realização das turmas-piloto não foram desenvolvidos meios para “acompanhar a inserção dos monitores em programas de formação em suas regiões, assim como, para refletir com eles sobre as adequações e adaptações que se fizessem necessárias, por meio de experiências práticas”. (Idem,p. 3).
Dentre os resultados positivos da implantação desse Programa o destaque foi a implantação do Coletivo de Formação no Rio de Janeiro, que passou a trabalhar “com grande intensidade junto a sindicatos, à CUT e ao PT daquele estado”. Em 1993, o coletivo carioca recebeu o nome de Núcleo Humberto Bodra de Educação Popular no Rio de Janeiro.
Uma das questões que levantei ao iniciar esta pesquisa foi se existe um “jeito de ser” peculiar ao 13 de Maio NEP de fazer a formação política. A esse respeito Iasi (2007) comenta:
Essa questão surge em torno [do Programa de] monitores, porque até então... não tem. ... Então o jeito de ser começou a ser uma surpresa pra nós. Cada um vai para um canto: Titi vai dar um curso em algum lugar, Nivaldo vai num canto, eu vou num canto, o Fábio vai num canto, Scapi vai num outro e a gente começa a rodiziar... A gente começa a ter informação das turmas de que eles começam a ver um jeito comum. Até então, pra nós, tem o jeito do Scapi, o jeito do Mauro, tem o jeito do Humberto. É muito diferente. [...] Não tem roteiro, não tem nada e as pessoas começam [... ] a nos dizer que tem um jeito de fazer que é parecido em todo mundo da Equipe (IASI, 2007).
O curioso, como comenta Iasi (2007), é que, naquele momento, não havia qualquer orientação em relação ao jeito ou ao procedimento para dar os cursos.
No momento que a gente tá fazendo essa passagem do programa de monitores [...] ninguém sabe o que o outro tá fazendo. [...]. Então Scapi se dispôs a acompanhar os outros cursos. [...] Alguém precisa ver todos os cursos para ver se esse tal “jeito de ser” existe, e se existe uma homogeneidade, uma coerência no que nós estamos levando por aí como formação (Idem).
A constituição da Equipe, como já foi mencionado anteriormente, deu-se com militantes de distintas origens, experiências profissionais e de militância. O curioso, diz Iasi, é que, mesmo assim, havia uma certa homogeneidade.
Então, para verificar se havia mesmo esse tal ‘jeito do 13 de fazer formação”, Scapi começou a assistir aos cursos ministrados pelos diferentes educadores, para ter uma visão de conjunto. Conta Iasi (2007) que o Programa de formação foi construído, em parte, por essa reflexão feita pelo Scapi, “o único que acabou vendo o que os outros faziam, antes ou no processo de formação dos monitores”, conta Iasi (Idem).
Nessa época (1988) já havia os três “cursões” montados e mais uma bateria de outros pequenos cursos: Organização por Locais de Trabalho, Comunicação e Expressão etc. Também já havia uma programação anual oferecida em São Paulo, com grande procura. Entretanto, não havia qualquer deliberação sobre qual deveria ser a linha a ser seguida nos cursos. Iasi (2007) lembra que, ao ser convidado por Léo Birk para dar o primeiro curso, não havia qualquer orientação, roteiro, maneira ou metodologia a ser seguida; apenas era enviado para dar o curso “tal” em “tal” lugar. “Em nenhum momento eu discuti qual era a metodologia que o Humberto usava”. Conta que para ver o jeito de ele dar o curso, o acompanhou numa atividade de formação no Jardim Elba.
Os convites para participar da Equipe, comenta, davam-se por afinidade em relação ao entendimento sobre o conteúdo. Era o que determinava tudo isso, pois as formas de ministrar eram muito pessoais. “Cada um resolvia o pepino que lhe coubesse. Isso não significava que não trocassem figurinhas, mas não tinha essa preocupação.”
Percebia-se, naquele momento (final dos anos oitenta), a necessidade de se ter um programa de formação, uma seqüência de cursos a ser oferecido. Iasi (2007) relembra um pouco os elementos que envolveram essa definição:
Todo mundo sempre acha que formação deve começar por história. Curioso isso, todo mundo que faz formação política, acha que história é o caminho por onde tem que se começar. Provavelmente, porque tem a ver com a própria formação pessoal; deve ter ficado muito mais claro quando botou as coisas na perspectiva histórica. Mas não é necessariamente a forma mais adequada de começar, enfim. E nós, de alguma maneira, também tínhamos feito esse caminho: História do Brasil.[...] A primeira definição que acaba amarrando um programa foi a de que deve começar pelo curso Como funciona a sociedade; continuando com o Comunicação e
Expressão, não necessariamente nessa ordem. Dependendo do grupo, dá pra
começar [de forma invertida] com um Comunicação e Expressão e um Como
Funciona a Sociedade [...] (IASI, 2007).
Essa seqüência, na verdade, lembra Scapi (2007), “apenas ficou clara depois da definição dos ‘Cursões’, uma vez que eles representam um momento de aprofundamento, de estudo mais regular”. Inicialmente, não havia uma seqüência, pois eles eram simultâneos.
Quando passam a ser oferecidos separadamente, sugere-se uma seqüência a ser seguida pelos participantes,
numa ordem inversa daquela que normalmente as pessoas acreditavam que deveria ser. Resolvemos começar pelo Noções Básicas de Economia Política, depois o
História das Revoluções, para chegar na História do Movimento Operário no Brasil
e encarar as questões que estão postas no dia a dia. (SCAPI, 2007).