2 O PROGRAMA INSTITUCIONAL DE BOLSA DE INICIAÇÃO À DOCÊNCIA:
3.3 Conhecendo cada participante
3.3.9 Natércio: “Dominar o conteúdo e agir sobre ele ”
Natércio é graduado em matemática, possui especialização, mestrado e doutorado na área da matemática. Está na faixa etária de 41 a 45 anos, declara ter união estável e não possui filhos. Atuou como professor na educação básica por 6 anos e no ensino superior atua há 19
anos. Participou do Edital 061/2013 do PIBID/UFOP desde março de 2014 à fevereiro de 2018, como coordenador de área do subprojeto de Matemática.
O coordenador de área relata que se descobriu professor na graduação, quando ensinava os colegas da turma, então acreditava que era sua vocação. Como professor, era bastante confiante pois, tinha domínio do conteúdo, mas hoje acredita que é indispensável a formação do professor em outras perspectivas mais pedagógicas e que auxilie o docente a refletir e lidar com situações de sala de aula além de questões sociais da realidade da escola.
Natércio afirma que os cursos de pós-graduação, principalmente na matemática pura, estão voltados para a formação do pesquisador. Quando prestou concurso para a UFOP, o seu foco de atuação era com os alunos, pois se preocupava com a matemática que seria ensinada nas escolas de educação básica e assim, refletia sobre o seu papel enquanto formador a fim de contribuir para a superação e o enfrentamento de obstáculos de forma real, reforçando e demonstrando para os licenciandos sua realização em ser professor, mas, sem omitir a realidade.
Acredita que o professor quanto formador aprende ensinando, assim, na visão dele, somente dominar o conteúdo não é suficiente, pois “você tem que se colocar na posição do aluno” e tentar perceber o que está sendo incompreensível para ele, se está coerente com a realidade de cada um. Portanto, o formador aprende com o que os alunos trazem, compreende como os alunos aprendem e compreendem o conteúdo e como eles agem sobre ele.
Relata que aprendeu muito com o PIBID e constatou distanciamento entre o que a universidade ensina e a prática nas escolas. Aprendeu a valorizar mais a formação de professores, dedicando atenção à formação inicial, no início do curso. Aprendeu que precisa estar sempre melhorando, estudando e aprendendo novas alternativas de ministrar os conteúdos nas salas de aula na universidade, preocupando com as situações da sala de aula na educação básica. Além disso, percebeu que é importante que os alunos vivenciem o conteúdo da ementa que estão trabalhando, aprendeu a trabalhar na graduação de forma próxima aos alunos, como “passar de carteira em carteira”, a utilizar exercícios e dialogar em grupo.
3.3.10 Renata: “A gente tem que estar sempre com disposição de aprender também”
A professora Renata é graduada em Letras, mestre, doutora em Linguística e Pós- doutora em Linguística Aplicada à Educação. Participou como coordenadora de área do Subprojeto Interdisciplinar História, Cultura e Literatura Africana e Afro-Brasileira
(Interdisciplinar Lit. Afro), Edital 061/2013 do PIBID/UFOP desde março de 2014 à agosto de 2017.
Renata (Interdisciplinar Lit. Afro) inicia seu relato contando que seu interesse pela docência vem desde suas memórias afetivas quando criança e da profissão que gostaria de ser quando adulta. Quando fez vestibular, tentou os cursos de Letras e Pedagogia e optou pela Letras pois, sempre teve claro que gostaria de ser professora e sempre achou que era a forma de retribuir “as coisas que estava tendo acesso” na universidade pública, para outras pessoas. Deste modo, afirma ser uma opção política e ligada à memória de infância e adolescência.
Acredita que o curso de graduação a preparou, pois, o professor precisa ter uma sólida formação teórica e a dimensão do pesquisador, mas, o aspecto prático “deixou a desejar”. Na pós-graduação, acredita que esse distanciamento ainda é maior. Desse modo, considera que as relações entre prática e teoria estão aquém tanto nos cursos de graduação quanto de pós- graduação.
Ressalta que em sua prática em sala de aula, leva em consideração o que os licenciandos são, imaginando que isso ajude quando eles forem professores, que façam isso também com seus futuros estudantes para não homogeneizar o que considera não poder ser homogeneizado. Afirma que não dá para ser um formador sem repensar sempre a sua prática pedagógica, se questionar, se abrir ao retorno dos alunos, para se atualizar, se reformar, se reciclar, e continuar aprendendo.
Em suas palavras, enfatiza que deve “estar aberta aos deslocamentos... que as coisas naturalmente e historicamente vão acontecendo, estar aberta e eu me mostrar aberta a isso, mostrando que como formador e como professor, tem que estar sempre com disposição de aprender.”
Afirma que aprendeu a ser uma professora melhor com o PIBID, porque possibilitou o diálogo com os profissionais, com os professores da educação básica, além do contato com as escolas. Assim, repensa os planejamentos, textos que vai enfatizar nas disciplinas e faz isso a partir da propriedade que o PIBID a deu ao longo dos anos, de conhecer a realidade da região, escolas e dos estudantes, entendendo suas complexidades. O PIBID possibilitou conhecer mais da região e as pessoas, e isso agregou coisas, que foram positivas nas suas práticas tornando-a menos “exógena” do que tem de educação básica ao redor, trazendo o diálogo para a universidade do que acontece na sala de aula. Assim, considera ter se tornado uma professora melhor dentro da universidade.
3.3.11 Wilson: “Ser professor é um processo construído com intencionalidade”
Wilson é licenciado em Ciências Biológicas, especialista em ensino de ciências, mestre e doutor em educação. Está na faixa etária de 41 a 45 anos, é divorciado e possui 1 filho. Tem experiência na educação básica de 8 anos e no ensino superior por 20 anos. Participou como coordenador de área do subprojeto Interdisciplinar em Ciências, Edital 061/2013 do PIBID/UFOP de março de 2014 à fevereiro de 2018.
O seu interesse pela docência surgiu quando iniciou o curso e optou pela licenciatura, tendo clareza que queria ser professor. No entanto, a ideia inicial era ser professor de curso preparatório para vestibular, assim ao longo do tempo foi assumindo outras modalidades e, segundo ele, esse processo foi construído com intencionalidade.
Quando questionado sobre o curso de graduação tê-lo preparado para atuar como professor, esclarece que o curso em si não prepara, mas há uma projeção para que isso ocorra nos cursos de licenciatura. No entanto, como esses cursos sofrem com a dualidade entre o bacharelado e a licenciatura, esse processo, na concepção da estruturação dos cursos, contribui para a falta de clareza dos cursos, da formação dos professores e até dos formadores que atuam. Assim, quando graduando, buscou construir um percurso formativo que poderia contribuir com a sua formação, buscando disciplinas, trabalhos, elementos que o fizessem refletir sobre a sala de aula.
Já na pós-graduação, a formação era focada na pesquisa e buscou disciplinas que contribuiriam com a sua atuação. Wilson enfatiza que o formador deve criar oportunidades de aprendizagem a partir dos recursos disponíveis e afirma que sua experiência como formador e professor, contribuiu para ter clareza da formação necessária aos profissionais da educação, como também, os preparou para as demandas que a profissão exige. Ressaltando, ainda, a importância e a necessidade de indissociar a prática da teoria.
Wilson (Interdisciplinar em Ciências) afirma que aprendeu, no PIBID, a ouvir mais e esperar as coisas serem resolvidas no subprojeto que não necessariamente precisavam de sua intervenção. Aprendeu a gerir pessoas, grupo de trabalho, escutar e fazer intervenções pontuais que ajudam a pessoa a resolver algum problema. O PIBID permitiu uma ponte entre a universidade e a escola, permitiu que estivesse mais próximo da escola, da região, aproximando-o dos professores que se tornaram parceiros na condução dos estágios.
3.3. 12 Oleir: “Para mim o professor de história também é um pesquisador”
Oleir é graduado e mestre em história, doutor em história social. Tem experiência como professor da educação básica por 14 anos e há 22 anos atua no ensino superior. Está na faixa etária de 41 a 45 anos, casado e possui 1 filho. Participou do Edital 061/2013 do PIBID/UFOP de março de 2014 à fevereiro de 2018, como coordenador de área do subprojeto de História.
O formador narra que desde 2003 atua profissionalmente na área de formação de professores. Conta que mudou um pouco o foco de suas pesquisas para se dedicar mais ao ensino da história, onde buscou escrever mais sobre essa temática, após ter prestado concurso na UFOP.
Afirma que a graduação lhe preparou para ser professor porque forneceu bases essenciais do que é fazer pesquisa histórica, já que acredita que ser professor de história também é ser um pesquisador, além de disciplinas que fez na educação que possibilitou a reflexão sobre o que é ser professor.
Afirma ter visto dificuldade em algumas universidades em relação ao menor interesse de professores do ensino superior em assumirem disciplinas de formação de professores, enfatiza que muitos são comprometidos com a ideia de formar professores, mas poucos realmente o fazem.
Acredita que, ao ensinar, aprendemos. Ensinar é uma atividade programada de aprendizado, estrutura maneiras pelas quais os sujeitos vão aprender. Na universidade, amplia-se as possibilidades de ensino e aprendizagem, universos, os mundos possíveis aos quais temos acesso. Formar professores também é aprender ser professor ao longo da sua trajetória profissional, como a escola.
Para ele, na universidade nos tornamos professores e vamos nos tornando a medida em que exercitamos a profissão, na nossa própria experiência escolar. No PIBID aprendeu a organizar equipes, pensar como as equipes trabalham, refletir sobre a formação docente com mais intensidade, além de dialogar com professores supervisores, entender os modos de funcionamento das pessoas da educação básica, aprendeu sobre as condições atuais que as pessoas têm produzidos e têm se tornado bons professores apesar de tudo.
Dessa maneira, afirma que modificou a maneira como organiza suas aulas. Através da observação de seus alunos no PIBID, ao ministrarem aulas juntos, foi estimulado a realizar o mesmo com os seus colegas da universidade e, atualmente, trabalham coletivamente. Além do mais, o PIBID produziu muito do conhecimento que ele utiliza nas aulas, sobre os repertórios
de experiência da educação básica que foram enriquecidos pelo o que ele observava, lia e experimentava no PIBID.
3.3.13 Lúcio: “Sentir de novo a escola... ver aquele barulho que a escola tem...aquele cheiro que tem na escola... é aquilo que eu gosto”.
O coordenador de área Lúcio é bacharel e licenciado em Educação física, mestre em Ciências Biológicas e Doutor em Ciências Biológicas. Possui 17 anos como professor, sendo 2 anos na educação infantil, três no ensino fundamental e 12 na graduação. Está na faixa etária de 36 a 40 anos, é casado e possui 1 filho. Atuou como coordenador de área do subprojeto de Educação Física no Edital 061/2013 do PIBID/UFOP de novembro de 2014 à fevereiro de 2018.
Lúcio conta que sempre se interessou por crianças da educação infantil e pela docência. Para o coordenador de área, o curso de Licenciatura em educação física além de ser uma possibilidade mais ampla em relação às ofertas de trabalho, poderia trabalhar com a educação infantil. O formador conta que seu interesse era permanecer na educação infantil, no entanto, percebeu que o desenvolvimento profissional era limitado em relação às condições profissionais de salários e por isso, buscou a formação continuada no mestrado e doutorado.
Reforçou, ainda, que mesmo sem ter feito o mestrado e o doutorado em educação infantil, sempre buscou disciplinas pedagógicas que faziam referência com a escola e, durante sua prática, buscou estar em contato novamente com a escola, que tem esse nível de ensino.
Considera que o formador precisa ter humildade e saber que não sabe tudo, que precisa estudar, abrir a mente e compreender que ao dialogar com o outro, somamos conhecimento. Ressaltou o papel imprescindível do aluno em ajudar o formador a se tornar um bom formador, para que não fique acomodado, reproduzindo práticas. Alerta que os contextos mudam, como também os alunos e as percepções.
Nas palavras de Lúcio:
Então eu acho que para ser um formador é preciso... Abrir mão daquela... Velha mania que os professores universitários tinham (...) Eu sou o dono do saber... Você que como aluno de graduação de mestrado ou de doutorado... Só tem o que aprender comigo (...) Então eu acho que isso não faz o menor sentido... Porque eu acho que para ser o melhor formador a gente tem que estar... O tempo inteiro a todo o momento... Atento o que está acontecendo... E essa atenção do que está acontecendo... E essa atenção que vai permitir que a gente sente... Pare e estude… Analise… Ouça… Para quê aí sim a gente se modifique... A gente modifique a maneira de ver o mundo... a nossa própria atuação... Para aí sim... continuar nesse caminho de tentar algum dia ser um bom formador... Lúcio (Educação Física)
No PIBID, viu a possibilidade de colaborar com o programa, além da oportunidade de estar no ambiente escolar para “sentir de novo a escola... ver aquele barulho que a escola tem... aquele cheiro que tem na escola...”. Ressaltou que aprendeu a partir da experiência com o PIBID, com os colegas coordenadores de área dos outros subprojetos, que abriram sua percepção para possibilidades diversas. Aprendeu com os supervisores das escolas sobre as mudanças dos saberes, dos conhecimentos e sobre a percepção dos mesmos sobre a escola e a prática docente.
Aprendeu com os alunos a perceber coisas diferentes das quais pensava, pois, muitas vezes, os licenciandos mencionavam “o óbvio” que não foi considerado por ele, pelo fato de terem zelo e cautela sobre questões decorrentes de sua inexperiência. Aprendeu com os licenciandos coisas angustiantes sobre suas vidas, desse modo, trabalhou mais a escuta. Além disso, comenta que aprendeu a ter mais segurança e a acreditar em si mesmo para realizar seus projetos e todas as atividades em que está envolvido. Aliás, aprendeu que a solução às vezes não é tão simples, mas é um aprendizado contínuo.
4 O QUE DIZEM OS COORDENADORES DE ÁREA DO PIBID/UFOP?
Nesta seção apresentamos os dados coletados em relação à percepção dos coordenadores de área junto ao PIBID/UFOP. Buscamos, assim, entender o processo de implementação do PIBID/UFOP e a contribuição do mesmo para os coordenadores. Analisamos os dados em três categorias que foram organizadas e elaboradas a partir da leitura flutuante e do corpus de análise:
Do que é ser professor e formador: nosso principal objetivo foi mostrar a aprendizagem da docência e identificar percursos, escolhas e contextos que influenciaram os participantes à elegerem a docência e/ou a área de atuação, além das concepções sobre a docência que fundamentam sua própria constituição enquanto formador de professores.
Do PIBID como lócus de formação: Nosso principal objetivo foi compreender o processo de implementação do PIBID/UFOP e analisar a percepção desses atores sobre a medida de contribuição do programa. Nesse sentido, trouxemos a discussão sobre: o PIBID e a aproximação entre a educação básica e a universidade; os desafios e motivações dos coordenadores de área em relação ao PIBID; a compreensão dos participantes sobre a incompletude da formação de professores e a necessidade de continuar a formação permanente; a força do grupo de professores do PIBID/UFOP no processo de luta e tensões diante das ameaças ao programa.
Das Práticas Docentes na formação de professores: nosso principal objetivo foi compreender a experiência de formação e prática docente para os coordenadores de área do PIBID/UFOP. Assim, identificamos a criação de repertórios profissionais, a partir de experiências práticas de formação de professores, que possibilitaram aos coordenadores de área repensar situações de aprendizagem do ser professor, em sua sala de aula, no ensino superior. Como elementos da docência, através de seu exemplo profissional, ainda identificamos práticas de autoria de escrita sobre a própria atuação, incentivadas no PIBID/UFOP.
Dessa maneira no Quadro 1, sistematizamos as categorias com os seguintes assuntos mencionados nas entrevistas:
Quadro 1: Organização dos dados
CATEGORIAS ASSUNTOS ABORDADOS:
DO QUE É SER PROFESSOR E SER FORMADOR
- O QUE É SER PROFESSOR. - O QUE É SER FORMADOR. - TRAJETÓRIAS DE FORMAÇÃO - PREPARAÇÃO PARA A DOCÊNCIA - MODELOS DE FORMAÇÃO
- FORMAÇÃO INICIAL E CONTINUADA - RELAÇÃO TEORIA E PRÁTICA
- ENSINO E APRENDIZAGEM.
- BACHARELADO E LICENCIATURA. - INTERESSES E ESCOLHAS PELA ÁREA. - IDENTIDADE.
- REFLEXÃO SOBRE A FORMAÇÃO E PRÁTICA DOCENTE. - SABERES DOCENTES.
- ESTÁGIOS CURRICULARES.
- PROFESSOR COMO PESSOA E PROFISSIONAL. DO PIBID COMO LÓCUS DE
FORMAÇÃO
- TERCEIRO LUGAR DE FORMAÇÃO. - FORMAÇÃO E TRABALHO COLETIVO. - GERIR PESSOAS.
- ASPECTO GERACIONAL. - INACABAMENTO.
- SABER OUVIR E DIALOGAR.
- ESPAÇO DEMOCRÁTICO/DIALÓGICO. - HUMILDADE E ORGULHO.
- INTERDISCIPLINARIDADE.
- APROXIMAÇÃO DAS ESCOLAS E PROFESSORES DA EDUCAÇÃO BÁSICA.
- DESAFIOS E MOTIVAÇÕES DO PIBID. - MOVIMENTO FICA PIBID.
- ENGAJAMENTO DO GRUPO DE COORDENADORES DE ÁREA
DAS PRÁTICAS DOCENTES NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES
- SABER FAZER E OFÍCIO DO PROFESSOR E FORMADOR. - REFLETIR SOBRE SUA ATUAÇÃO.
- POSSIBILIDADE DE ORIENTAÇÃO in loco NAS ESCOLAS. - O PIBID INCIDINDO SOBRE AS DISCIPLINAS QUE MINISTRAVAM.
- ACOMPANHAMENTO DO PROCESSO FORMATIVO DOS LICENCIANDOS.
- VIVÊNCIA COM A REALIDADE CONCRETA. - UTILIZAÇÃO E CRIAÇÃO DE MATERIAIS.
- CONTATO MAIOR COM INSTRUMENTO TECNOLÓGICO. - INCENTIVO A PESQUISA.
- DESENVOLVER A AUTORIA/ESCRITA.
- DEVOLUTIVAS DO TRABALHO COMO COORDENADOR. - TRABALHO COLETIVO DE PROFESSORES.
- CONSTRUÇÃO DE REPERTÓRIOS. Fonte: Elaborado pela autora da pesquisa.