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6. Raízes e trajetórias: descortinando as relações pessoa ambiente

6.5. Natureza como alimento para o corpo e alma

Hoje em dia, parte dos lotes do Assentamento ainda apresenta características da mata nativa, possuindo antigos cajueiros e coqueiros da época da fazenda, o que possibilita imaginar como era a paisagem naquele período. Nos lotes em que existe maior ocupação, observa-se menor incidência da vegetação, que foi perdendo cada vez mais espaço para a construção das casas, ruas e plantações.

Ao analisarmos a interação dos agricultores com o ambiente natural, percebemos distintas formas de apropriação, atribuindo-se características relacionadas a um perfil de afinidade ecológica, espiritual e produtivista da natureza.

O perfil de afinidade ecológica está ligado aos sentimentos de contemplação e admiração da natureza, considerando o local de cultivo, muitas vezes, como ambiente restaurador que é procurado para se “desligarem” e se reestabelecerem dos problemas enfrentados. Nessa perspectiva, formas diferentes de integração com o ambiente natural foram observadas, sendo demonstradas por meio de relações de respeito, conectividade e reciprocidade, como pode ser observado na fala de Ramiro:

É uma coisa muito boa você estar ali todo dia, você olhando, você vendo, você respeitando, né, a natureza. Porque a natureza, ela te cobra se tu judiar com ela. Cê vê ali naquela horta, ali nós temos muito passarinho, nós temos soim, os soins vêm comer na nossa mão. Porque a gente tem respeito a eles, então eles já confiam na gente, né? Nós chega ali, eles chegam arrudiando a gente, assoviando ao redor da gente e a natureza, ela nos proporciona boas coisa. E isso pra mim é muito importante, quando eu chego naquela horta ali, é meio dia, às vezes vou prali, aí me sento debaixo dum pé de pau daquele ali, arrudiado de passarinho, tudo cantando, tudo alegre. Aí você fazendo com que produza pra que eles também coma, que eles

também come bastante, né. Aí eles ajudam a gente muito ali comendo. O coentro, o coentro novozinho, eles mete comer pra cima, a gente tem que cobrir, tem que ajeitar pra ele não acabar, alface nós tem que cobrir também se não eles comem... mas a gente num mata um! A gente não joga uma pedra em um... eles ficam lá à vontade, brinca, eles tomam banho naquelas caixa d'água. [...] Observo que quando a gente trabalhava com o convencional, nossos animais, eles eram mais afastado da gente. O passarinho, ele não tinha aquela, não ficava muito presente perto da gente. Porque a gente só destruía, né? O veneno matava o inseto e tal. E hoje não, hoje a gente vê as coisas mais movimentada, mais alegre, mais bonita. (Ramiro, 55 anos) A fala de Ramiro em “porque a natureza, ela te cobra se tu judiar com ela” demonstra uma concepção de mutualidade em relação à natureza, enfatizando o caráter punitivo da ação negativa dos seres humanos e as consequências ambientais provocadas. Além disso, a interação com os animais é comparada de maneira distinta pelo agricultor, sendo essa relação mais distante quando produzia com a utilização de insumos químicos. Diante da ruptura com o modo de produção convencional e a transição para o agroecológico, observa-se na fala de Ramiro elementos que caracterizam uma maior conectividade com a natureza, sendo perceptível a importância desta relação para a preservação da agrobiodiversidade local.

A natureza também foi relacionada ao sagrado e à ordem divina por alguns agricultores, como, por exemplo, Eugênia ao comentar: “Eu acho a natureza a mão de Deus. É vida! É porque a gente pensa que foi Deus, né?”. Nesse âmbito, apesar de diversos estudos terem demonstrado como a influência da filiação religiosa e os aspectos inerentes à espiritualidade podem estar relacionados as práticas de cuidado ambiental (Diniz, 2015; Morais, 2016; Schultz, Zelezny, & Dalrymple, 2000; Stern, Dietz, Abel, Guagnano & Kalof, 1999), poucas investigações verificaram o papel que a religião e a espiritualidade possuem na interação do indivíduo com o lugar (Mazumdar & Mazumdar, 1993).

A esse respeito, Mazumdar e Mazumdar (1993) abordam que as relações com o lugar e o sagrado podem ser estabelecidas e evidenciadas ao serem vinculadas algumas tipologias, tais como: a) tipo de espaço (natural/construído); b) escala dos espaços, sendo macro (cidades) e micro (casas) e c) nível (individual/coletivo). Conforme Low e Altman (1992), é por meio dos

atos sagrados da religião que as pessoas se conectam a determinados lugares e estes, por sua vez, conectam as pessoas à religião.

Assim, além do agradecimento à generosidade divina pelas belezas naturais, a cura pela natureza sagrada foi outro aspecto percebido, resgatando crenças religiosas e conhecimentos passados por gerações para o tratamento de doenças e demais enfermidades. Ajudando a resolver vários problemas de saúde com o que é cultivado nos quintais ou nas hortas, a realização de chás de ervas e lambedor são os tradicionais remédios caseiros utilizados no Assentamento.

Nesse aspecto, o conhecimento e a dedicação de Marilene são reconhecidos em toda a comunidade, principalmente pelos lambedores que auxiliam na cura e tratamento de várias doenças:

Toda vida eu gostei de plantar muito essas ervas natural de fazer remédio. Aí eu gosto de plantar porque eu gosto de fazer lambedor pra tosse, sabe? Faço lambedor, faço garrafada e eu acho bom, meus remédio aqui em casa é mais só remédio do mato, que eu acho muito bom. Faço garrafada e lambedor quando tem muita gente aqui que manda fazer lambedor pra tosse. (Marilene, 55 anos)

Crendice ou verdade, o fato é que o fragmento dessa sabedoria popular remete às raízes tradicionais, reconhecidamente considerada milagrosa pela comunidade. Ao ultrapassar os limites do tempo e resistir à era da medicalização industrial, a cura pela natureza foi uma das formas encontrada para suprir a carência de atendimento médico na região. Folhas, caules e raízes dão origem aos diversos remédios naturais, o que possibilita alternativas aos “caros remédios das farmácias”, como diz Aurora.

Segundo Mazumdar e Mazumdar (1993), o plantio e a harmonização do ambiente com plantas ritualmente significativas também podem ser considerados como forma de apropriação do espaço, sendo as crenças e os atos sagrados importantes elementos de ligação das pessoas ao lugar. Nesse aspecto, várias agricultoras falaram sobre a existência de alguma planta

“milagrosa” que cultivavam como, por exemplo, romã, mastruz e capim santo. A esse respeito, fiz o seguinte registro:

Enquanto caminhávamos pela horta, Ermelinda apontava para cada canto da plantação informando o tipo de planta e os benefícios à saúde proporcionados. O gosto pelas ervas vinha de família e foi passado desde o tempo de sua avó. Febre, dor de barriga, dor no estômago, gripe, qualquer coisa, ela encontra a solução no que é cultivado. (Diário de campo, 20/12/2016)

O perfil produtivista também foi observado como uma forma de apropriação funcional da natureza, levando-se em consideração os benefícios que ela pode proporcionar para a sobrevivência dos produtores. Baseado em uma visão antropocêntrica, a interação com o ambiente natural, neste caso, foi observada como o ganho e a rentabilidade financeira ligada ao cultivo e venda do que é plantado, o que passa a ser considerada também como uma forma de permanecer no lugar. Assim, o respeito demonstrado à natureza se dá pelo fato de ela ser produtiva para as plantações e, portanto, fundamental como fonte de renda.

Considerada como algo que deve ser protegida e cuidada para a manutenção das necessidades humanas, reforçando o pensamento de supremacia do indivíduo, Claudino associa a degradação do ambiente natural com a diminuição da produtividade:

A gente chega lá no sítio que a gente tem de cajueiro, quando a gente chega lá, às vezes vários cajueiro morrendo. A gente fica triste de ver aquilo né? Porque eu tinha o sítio de cajueiro, tinha... eu assava, fazia 2mil kg de castanha. Hoje o caba num apanha 50kg, 100kg de castanha.

É importante lembrar que desde o nascimento da humanidade os seres humanos são acostumados a transformar a natureza para sobreviver. O que difere, entretanto, é que em determinado momento essa transformação é para o próprio consumo e em outro para vender. Nota-se, assim, que diante das diferentes formas de apropriação da natureza, os agricultores estão inseridos em campos de relações de poder e de classes que os obrigam a reproduzirem e sobreviverem em meio às contradições da expansão própria do capital. No Canto da Ilha,

especificamente, tal apropriação da natureza ocorre, conforme visto anteriormente, por meio de sentimentos de afinidade ecológica, espiritualidade e fonte de renda.

A diversidade de modos de perceber à natureza e as distinções que se operam por meio da sua utilização são claramente expressas nos depoimentos dos agricultores, que apresentam visão ambígua quanto à sua significação. Parece haver entre os agricultores agroecológicos, portanto, cosmovisões distintas de natureza, ocorrendo uma espécie de disputa paradigmática em que o modo de produção hegemônico permanece em constante rivalidade com o emergente, estando inserido constantemente nos modos de ser, trabalhar, viver e conhecer dos assentados. Apesar das diferentes percepções, Tuan (1980) acredita que o trabalhador rural possui uma íntima relação com a natureza, uma vez que ao ganhar a vida com ela, a relação com à terra é mais profundo. Para o autor, a população com pouca instrução formal pode estar profundamente afeiçoada ao seu lugar de origem, pois “procura explicar a sua lealdade para com o lugar, ou aponta os laços com a natureza, ou recorre à história” (p. 114).

Nessa perspectiva, a relação dos produtores com o ambiente natural não é algo unitário. As hortas, por exemplo, geralmente são retratadas tanto como natureza em si, quanto como fonte de renda, dando forma e conteúdo à relação dos agricultores com o lugar. Tal dinâmica presente nessa relação identifica o modo de vida e a vinculação com o Assentamento, fazendo parte das experiências de vida dos assentados.