6. Raízes e trajetórias: descortinando as relações pessoa ambiente
6.4. O Assentamento e suas distintas territorialidades
O Assentamento Canto da Ilha de Cima é um espaço heterogêneo, caracterizado por realidades diversificadas, em que cada área apresenta particularidades a depender da forma de cultivo. Além de ser cercado por fazendas vizinhas que trabalham de acordo com o sistema convencional de produção, o lugar também possui uma antiga área coletiva de plantação, conhecida popularmente como “Velha Chica” (Figura 13), onde alguns produtores, que não aderiram ao sistema agroecológico, fazem uso de substâncias químicas no cultivo de seus produtos.
Figura 13. Área de plantação convencional. Fonte: Arquivos do autor (2018).
Apesar de ser um terreno coletivo, cada assentado possui seu próprio pedaço de terra para plantação, contribuindo para que tenham mais autonomia em relação às tomadas de decisões sobre o que e como cultivar. Segundo os relatos, percebe-se que nesse terreno os interesses pessoais prevalecem e predomina o trabalho individualizado em vez do coletivo.
Ao falarem sobre o “Velha Chica”, muitas narrativas apontam para lembranças de um passado saudosista, marcado por períodos de fortes chuvas, fertilidade do solo e abundância na produção de alimentos. Atualmente, diante da escassez de água e dos problemas atrelados à infertilidade do solo, o terreno perdeu o seu protagonismo como principal meio para a fonte de renda dos moradores, fazendo com que seja utilizado somente em períodos de chuva constante, como destaca Marilene:
Quando a gente chegou aqui era boa, a gente plantava milho, macaxeira, feijão, fazia, assim, uma sala de cima à baixo de feijão, de tudo a gente fazia. Hoje não é tão bom pra gente, assim, plantar, num tá dando de qualidade. Que dá logo, pronto, se a gente plantar o milho, dá uma, uma cinza no olho do milho, num consegue sair... hoje eu num tô achando futuro, não, ali na Veia Chica pra plantar. (Marilene, 44 anos)
Diante das dificuldades encontradas por Marilene e por outros produtores que também transitaram para o cultivo agroecológico, a chegada de projetos governamentais surgiu no Assentamento como estímulo para novas alternativas de trabalho e renda para os agricultores familiares. Dentre os projetos recebidos, o Programa de Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS), que incentiva a formação de núcleos produtivos para promover interações e trocas de experiências entre produtores rurais, teve grande relevância para impulsionar as novas formas de cultivo com base na agroecologia.
Além do PAIS, outras políticas públicas como, por exemplo, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Consolidação e Emancipação de Assentamentos Resultantes da Reforma Agrária (PAC) também impulsionaram a construção de novos territórios no lugar, desafiando as hegemonias e proporcionando autonomia aos produtores locais. Ao resgatar conhecimentos já vivenciados pelas gerações anteriores e desmistificar os novos saberes advindos da agricultura “moderna”, que estava sendo utilizada até então, algumas famílias passaram a encontrar na agroecologia uma nova estratégia de sobreviver e permanecer no lugar.
As dificuldades encontradas na transição convencional-agroecológica foram - e ainda são - muitas. Dentre as principais barreiras apontadas, destacam-se o pouco conhecimento sobre o manejo e controle de pragas, o costume de se trabalhar com o uso de substâncias químicas e a baixa qualidade de saúde do solo. Além dos problemas ligados diretamente à prática agrícola, a insuficiência de água também aparece como um grande obstáculo para a produção, tendo em vista que só existe um único poço para abastecer tanto as casas do Assentamento como as hortas. A divisão espacial dos lotes em distintas formas de produzir acaba, em determinado momento, por se refletir também nas relações sociais. Devido à insuficiência para atender às necessidades dos moradores, a constante falta de água provoca conflitos na comunidade, que
alega ser o problema decorrente da irrigação utilizada no cultivo agroecológico, como pode ser verificado nos relatos de Eugênia e Marilene:
O que eu menos gosto aqui é quando tem umas confusão, principalmente quando se refere à horta, sabe? Que é a questão da água... fica criticando que a horta tá consumindo a água todinha... num vai pras casa, aí fica botando culpa na gente, dizendo as coisa, isso aí eu não gosto! (Eugênia, 27 anos)
A água é pouca pras horta e pra gente, pra o gasto de casa, né? Aí fica aquela briga "não tá indo água na minha casa por causa das hortas!". (Marilene, 55 anos) Há também diferentes graus de alteridade entre os outros moradores e os produtores agroecológicos, ora aproximando, ora afastando esses atores sociais de acordo com o papel que ocupam. Assim, levando em consideração o contexto observado e a dinâmica das relações encontradas, pode haver no Assentamento um encontro de duas territorialidades distintas, uma emergente que tenta se consolidar - voltada para um manejo agroecológico de produção - e outra que, apesar das dificuldades, permanece influenciando com o modo dominante de cultivo – baseado no uso de substâncias químicas.
Paradoxalmente, o assentamento Canto da Ilha de Cima configura-se como espaço antagônico que tanto reforça a reprodução do capital, como caminha na resistência a ele, reproduzindo uma agricultura tradicional sem uso de agrotóxicos. A disputa entre a produção convencional e a agroecológica possibilita a construção de territórios materiais e imateriais, ocorrendo, em alguns casos, sobreposições territoriais a partir das condições de acesso às políticas públicas que fomentam à agroecologia.
Diante de tal heterogeneidade presente no lugar e apesar das diversas dimensões em que esse encontro pode se dar (sociais, políticas, econômicas e culturais), percebe-se uma relação, de certa forma, parcimoniosa entre os produtores familiares, agroecológicos ou não. Possivelmente esse comportamento se deva ao fato de os agricultores agroecológicos serem os
que estiveram desde o início do assentamento, ocupando a terra e lutando por sua conquista, o que fortalece ainda mais o sentimento de respeito e consideração por eles na comunidade.
A forma heterogênea das socioespacialidades produzidas é resultado da dinâmica que envolveu os conflitos e as contradições existentes no território onde se encontra o Assentamento. A esse respeito, faz-se importante destacar que a compreensão das particularidades de um território, conforme aponta Santos (1998), deve ocorrer a partir do entendimento do seu contexto histórico e de uso do lugar, sendo seu significado considerado dinâmico e mutável, refletindo também as relações marcadas pelo poder (Raffestin (1993). Nessa perspectiva, Lefebvre (1991) diferencia o poder exercido no território, relacionando à dominação ao uso do território como recurso e a noção de apropriação à posse da propriedade, utilizando o território como abrigo.
Diante do caráter polissêmico e da indefinição que perpassa o conceito de território, Haesbaert (2002, 2004) aborda a noção de multiterritorialidade como forma de discutir a complexidade dos processos de (re)territorialização. Podendo ser compreendida basicamente em três elementos, Haesbaert (2002) os diferencia como: territórios-zona (logica política); territórios-rede (lógica econômica) e os aglomerados de exclusão (lógica social de exclusão sócio-econômica das pessoas). Para o autor, esses três elementos não são mutuamente excludentes, uma vez que “compõem efetivamente uma territorialidade ou uma espacialidade complexa, somente apreendida através da justaposição dessas três noções” (Haesbaert, 2002, p. 38).
Por estar integrados em um conjunto de relações socioespaciais, levando-se em consideração as formas de apropriação territorial no Assentamento e os atravessamentos que ocorreram - e ainda ocorrem - no lugar, percebe-se que o território é fruto do domínio e apropriação de uma sociedade desigual que dita forças em diversos momentos da história do lugar. Nesse sentido, observa-se que tais relações territoriais se encontram sobrepostas,
influenciadas pela força com que o poder do capital se penetra nesse contexto e influencia o modo de vida local, numa dinâmica que implica características físicas e simbólicas a partir dos aspectos políticos, sociais, econômicos e culturais de apropriação e dominação diversos.