6. Raízes e trajetórias: descortinando as relações pessoa ambiente
6.6. Olhares do cotidiano: sociabilidades no lugar
Caminhar por entre os espaços de diversão e lazer permitiu um melhor entendimento da interação com esses ambientes que são tão importantes para os moradores do Assentamento. Tal qual a relevância do lugar para moradia e sobrevivência, esses espaços, que muitas vezes ultrapassam os limites territoriais, também ocupam especial significado na vida dos habitantes,
possibilitando a construção das relações sociais no lugar. Nesse sentido, destacam-se: o campo de futebol, a calçada das casas, a praia, a escola e as igrejas.
Tanto os jovens quanto os mais velhos relataram com certo entusiasmo as brincadeiras quando crianças, fazendo sempre referência à maneira “livre” com que podiam correr pelas dunas ou em outras áreas do Assentamento. A prática de esporte, principalmente o futebol, fez com que os moradores improvisassem parte do terreno para a realização de torneios que acontecem, esporadicamente, entre os assentados e residentes das comunidades vizinhas. Realizado em um campo de futebol que não consiste necessariamente em um gramado natural, Luís comenta que os jogos funcionam como uma forma de reafirmar sua identidade territorial por meio das brincadeiras realizadas entre os jovens:
A gente tem uma rincha do Assentamento, os mais jovens, quando a gente joga ali na quadra do Assentamento com os Morros [comunidade vizinha]. Sempre joga apostado! Quem perde fica tirando onda com o outro [ri]. Aí chama lá de favela… e chama nós de sem-terra e assim vai. [...] quando falam mal, dá vontade de chegar na goela e esganar, mas eu não sou assim, né. (Luís, 19 anos)
Além da prática esportiva, a área (Figura 14) também é destinada para a realização da festa de São João que acontece no lugar. Nesse período, as pessoas das cidades próximas vão até o Assentamento assistir aos grupos de quadrilhas, enquanto os moradores aproveitam a oportunidade para vender comidas e bebidas típicas nas barracas que são montadas.
Figura 14. Área para prática esportiva e festa Fonte: Arquivos do autor (2018).
A conversa na porta das casas ainda resiste ao tempo. Seja com pessoas sentadas em cadeiras de balanço, de plástico ou nos conhecidos tamboretes, o cenário é quase sempre o mesmo. Ao se reunirem para “jogar conversa fora”, como insinuou uma das moradoras, esse é um dos momentos em que os familiares, vizinhos e amigos se encontram para falarem sobre os mais diversos assuntos. Hábito que não pode faltar no cotidiano dessas pessoas, fiz o registro de um desses momentos:
Final de tarde. Antes mesmo do sol se pôr, Magnólia leva sua cadeira de balanço para a porta da casa e, em seguida, volta para pegar mais três, como se já soubesse que mais pessoas chegariam para sentar. Fico em uma das cadeiras e observo que, em poucos minutos, um vizinho que passava próximo resolve parar rapidamente para perguntar sobre seu pai. Em seguida, não demora muito para que seu companheiro e seu irmão também se juntassem a nós. Devido à proximidade do réveillon, inicia-se uma conversa sobre a festa de grande porte que iria acontecer na cidade de São Miguel do Gostoso. A comemoração estava sendo um dos assuntos mais comentados na mídia local e também entre os moradores, principalmente pela quantidade de turistas e artistas famosos que iriam celebrar a virada do ano lá. Segundo eles, a festa era só para ricos, “para quem realmente tem muito dinheiro”,
como ressaltou o irmão de Magnólia, já que havia sido montada uma estrutura que fechava parte da praia para realização. A conversa vai se estendendo em outros assuntos, adentrando a noite até, aproximadamente, dez horas. (Diário de campo, 21/12/2016)
O relato dos moradores sobre a “privatização” de uma das praias, comumente frequentada por eles, traz em evidência um importante problema, que também é apontado por Taveira (2015b) como sendo um dos principais conflitos socioculturais promovidos pela dinâmica do turismo local. Segundo o autor, “existe uma separação camuflada, uma linha tênue entre os residentes (população nativa) e os ‘gringos’ (empresários e moradores de fora)”, sejam eles brasileiros ou não. Ainda de acordo com o autor, a apropriação do espaço litorâneo pelo empresariado do turismo, assim como as construções irregulares ao longo da faixa litorânea e a circulação dos veículos na orla marítima são alguns dos fatores que ocasionam, em parte, os impactos ambientais em São Miguel do Gostoso.
Lugar de entrada, saída e passagem dos moradores, os limites das calçadas fazem parte de extensões geográficas e simbólicas que se confundem com o próprio espaço das ruas do Assentamento. Materializada, algumas vezes, em mais um cômodo da casa, é na calçada onde “o tempo passa” e a dinâmica das relações sociais são aprofundadas através do diálogo estabelecido. Enquanto esse costume se torna cada vez mais difícil nas grandes cidades, no Canto da Ilha ainda é possível observar o encanto de ficar sentado na rua, encontrando quem passa, enquanto “ver a vida passar”, como fala Magnólia.
Se para alguns pode parecer nostálgico, para outros funciona como uma forma de resistência aos diferentes hábitos modernos de socialização. Desafiando a virtualidade e os demais entretenimentos que o cotidiano das grandes cidades proporciona, fala-se de tudo um pouco: política, saúde, educação, trabalho, religião e problemas do dia-a-dia. Além disso, assuntos pessoais de outros moradores também surgem para informar: quem engravidou; quem
faz alguma coisa; quem não faz nada; quem brigou; quem saiu; quem voltou; quem casou, não casou e quem agora vai casar.
Por falar em casamento, durante o período em que estive em campo fui convidado para participar da cerimônia de união de dois jovens moradores do lugar. Os noivos tinham aproximadamente vinte anos de idade e, segundo alguns moradores, o fato de serem jovens e se casarem já era, por si só, uma grande novidade. De acordo com Venâncio, “só quem tem o costume do casamento são os crentes, que ficam noivos muito jovens. Os católicos só se juntam”. A festa era o assunto mais comentado nos últimos dias, gerando boatos que deixavam os moradores curiosos, como registrei a seguir:
Algumas pessoas falaram que a mãe da noiva havia prometido uma grande festa, “como jamais havia visto no lugar”. Diversas especulações surgiram em torno da cerimônia, tais como: o bolo, comprado em Natal e custado muito caro; as comidas, já que foi prometido um carneiro assado aos convidados; o vestido da noiva, que era da cidade; e a lista de presentes, com itens caros que os moradores não podiam pagar. (Diário de campo, 17/12/2016)
Segundo Stropasolas (2004), apesar do casamento ser um fenômeno ainda pouco estudado pelas instituições que trabalham a agricultura familiar, diversos autores destacam a sua importância como uma das categorias culturais mais relevantes para a análise do campesinato. Nesse sentido, observei que enquanto de um lado algumas famílias procuram manter o modelo “tradicional” de casamento; de outro essa união ocorre de maneira mais informal, mas não menos importante, assumindo um papel crucial na reprodução social do lugar.
Ademais, o estabelecimento dessa instituição – casamento – também passa por redefinições no Canto da Ilha, principalmente entre as mulheres mais jovens. Para Corina, por exemplo, ‘casada ou solteira’ não constitui apenas o estado civil, mas também a relação entre
‘dependência e independência’, que representa a continuidade da condição social de submissão vivida por suas amigas, a qual ela não pretende reproduzir:
As meninas da minha idade não tiveram oportunidade de estudar porque se casaram bem cedo. E aí se fossem pra São Miguel, o marido não permitia. Tinha que escolher: ou ele ou estudar! Aí muitas acabavam desistindo porque parece que não tem importância, parece que quer sempre ver a mulher naquele papelzinho ali, dona de casa, não quer que progrida. Eu penso diferente! (Corina, 30 anos)
A Praia do Marco também é cenário de muitas narrativas entre os moradores. Lugar de trabalho para alguns e de lazer para outros, a praia recebe esse nome por ter sido encontrado um ‘Marco de Posse’ ou ‘Marco do Descobrimento’, que representa um dos monumentos mais antigos que fazia referência à dominação da metrópole – Portugal - à nova colônia de pertencimento, Brasil (Pinto, 1998). Tombado em 1962 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o marco foi retirado do seu local de origem e levado, com a finalidade de pesquisas e exposição, em 1974 para Natal. Atualmente, o monumento está localizado na Fortaleza dos Reis Magos, tendo sido colocada uma réplica (Figura 15) na praia local (Taveira, 2015a).
Figura 15. Réplica do Marco do Descobrimento. Fonte: Folha de Pedra Grande (2017).
Apesar da sua relevância histórico-cultural, a falta de divulgação e infraestrutura nas proximidades fazem com que o lugar ainda seja pouco conhecido e visitado. Localizado a alguns quilômetros de distância do Assentamento, alguns moradores do lugar fizeram referência ao fato histórico, destacando: “Foi aqui que descobriram o Brasil” (Diário de campo, 17/12/2016).
A escola municipal de ensino fundamental, localizada na comunidade de Morro do Martins, também é ponto de encontro dos jovens e adultos. Ao funcionar como um espaço de ensino durante o dia, é no período da noite que o colégio ganha uma nova finalidade. Devido ao sinal precário de internet no Assentamento, muitos moradores ficam sentados na calçada da escola para utilizar a conexão, que é disponibilizada abertamente por wifi. Chamado por alguns como “vagalumes”, Eugênia explica o porquê desse apelido: “Todo dia, todo dia! De domingo
a domingo, principalmente à noite! Porque fica escurinho lá, tá sem a luz do poste, aí você vê só o clarinho do celular”.
O uso diferenciado do espaço escolar estabelece estreita relação entre os moradores, não apenas vinculado à apropriação do saber, mas também devido aos recursos que escola disponibiliza à comunidade. Ao funcionar como mais um ambiente de socialização, é na calçada do colégio que muitos assentados se veem conectados ao “mundo lá fora”, como fala Luís. Por meio dos aplicativos de conversa, os moradores aproveitam a oportunidade para falar com amigos e familiares que moram longe; acessar as redes sociais; verificar e-mails e/ou buscar alguma informação de interesse mais imediato.
Neste espaço, percebe-se que a comunidade encontrou uma alternativa de relativizar a exclusão digital presente no campo, o que, segundo Fornasier e Scarantti (2017), corresponde a 85% da população que mora na zona rural. Para esses autores, “não se trata apenas de não possuir o acesso à internet, mas também, da violação de outros direitos civis, políticos, socioeconômicos e de solidariedade internacional” (p. 135), sendo, portanto, uma das bases essenciais para o exercício da cidadania.
As igrejas também se destacam como importantes espaços de sociabilidade, apesar das duas principais – católica e evangélica – frequentadas pelos moradores estarem situadas na comunidade vizinha de Morro do Martins. De acordo com Silva, Dimenstein e Leite (2013), a religiosidade é importante socialmente, pois ajuda a “modelar” a ordem social das famílias na zona rural.
De maneira geral, as tradições religiosas no lugar são expressadas pela fé e devoção nos santos milagreiros, realização de novenas e reunião nos grupos de orações. Mulher de reza forte e fé inabalável, Marilene compartilha com a comunidade o poder da sua oração:
Eu só saio daqui quando é pra minha horta, quando eu vou pra Igreja e meu dia-a- dia é esse. [...] nós faz parte dessa igrejinha, São João Batista. Aí quando, só rezamos todo dia, assim do mês de maio, na quaresma de São Miguel Arcanjo, e, assim, quando a gente faz novena. Nós vamos se reunir, vamos rezar a novena das ‘Mãos Ensanguentada’. Nós rezamos 9 noites e se a pessoa quiser, a gente vai, né? O povo começa a pedir: “Nós queremos lá em casa”. Então nós rezamos mais 9 noites. (Marilene, 55 anos)
Segundo Pires e Nascimento (2018), “rezar pelo outro é prova de caridade, mérito, que persiste nas comunidades rurais” (p. 55). O espaço semanal destinado aos cultos e missas é o lugar onde geralmente os encontros acontecem, além das próprias casas dos moradores durante a realização das novenas. As mulheres, na sua maioria, são as principais responsáveis pela organização e manutenção desses espaços, participando ativamente de várias grupos e atividades de orientação religiosa. Tais atividades reforçam as relações de convívio com familiares e vizinhos, seja na realização de eventos festivos, no estudo da bíblia ou em outras ocasiões. Os grupos religiosos usualmente são divididos por faixas etárias e temáticas como, por exemplo, o grupo de jovens da igreja católica, do qual Eugênia faz parte e sobre o qual fiz o seguinte registro:
Enquanto conversávamos na calçada, Eugênia comenta que está se reunindo diariamente com seus amigos para ensaiar a peça teatral sobre a história do nascimento de Jesus. O evento será realizado na noite do dia 24 de dezembro, durante a missa de Natal na comunidade. Sua irmã, que estava próxima, comenta que, se deixar, Eugênia fica o dia todinho dentro da igreja. Segundo ela, alguns amigos falam, inclusive, que Eugênia será freira. (Diário de campo, 18/12/2016)
De acordo com Karam (2004), as mulheres rurais são as que participam de forma mais ativa das atividades ligadas à religião, relações familiares e vizinhança, desempenhando um importante papel na manutenção da sociabilidade local. As permanências das tradições religiosas se manifestam em diversos elementos da vida no Assentamento, como o pagamento de promessas e a participação em procissões e romarias. Ao fazer com que o aspecto religioso
também seja articulado em relações sociais fora do lugar, tais demonstrações de fé são exemplos de devoção que levam alguns moradores a diferentes localidades, principalmente para pedir ou agradecer a “graça alcançada”. A esse respeito, Venâncio comenta: “Todo o ano nós vai ao Juazeiro, fazer romaria, sabe? Visitar o padrinho Ciço... visitar as igreja, ir pras pedra. Pagar promessa!”.
As narrativas demonstram experiências religiosas que revitalizam as crenças, criando sociabilidades que reforçam a devoção popular. Para Pires e Nascimento (2018), os rituais religiosos, ainda que mantenham tradições do passado, ressignificam os sentidos do sagrado, que, por sua vez, é reconstruído e ressocializado tanto em espaços rurais como urbanos, “construindo relações mais solidárias no exercício da fé que se perpetuam nas diferentes relações familiares” (p. 45). Nessa perspectiva, promessas, procissões, novenas, romarias e grupos de orações são algumas das práticas religiosas que continuam sendo repassadas às atuais gerações do Assentamento, resistindo e influenciando também na sociabilidade do lugar.
Ao analisarem os laços com o lugar mediados pela espiritualidade, Mazumdar e Mazumdar (1993) acreditam que a religião, através dos seus rituais, liga as pessoas aos lugares, da mesma forma em que “os lugares como cenários para o comportamento sagrado e a socialização conectam as pessoas à religião” (p. 231). Assim, de acordo com os autores, além de promover o surgimento de uma identidade religiosa, os atos sagrados desempenham um relevante papel na vinculação das pessoas aos lugares, através do frequente contato, da familiaridade e das experiências compartilhadas.
Pode-se perceber que a apropriação física dos espaços comentados anteriormente são importantes ambientes de sociabilidades não só entre os assentados, mas também destes com as comunidades vizinhas. Para Hummon (1992), as formas de sociabilidades podem envolver importantes laços de compromisso emocional e afiliação com os lugares, que geralmente são
repletos de significados pessoais e sociais. Segundo o autor, por exemplo, lugares religiosos podem estar ligados à identidade de grupo, apresentando determinado apego social e sentimento local.
Tais sentimentos podem ser identificados como forma de enraizamento cotidiano (everyday rootedness), que seria a identificação não consciente com sua comunidade, possuindo uma perspectiva “largamente composta de imagens biográficas e locais da vida comunitária” (Hummon, 1992, p. 265). Nesse sentido, os laços emocionais construídos com os ambientes vão se estabelecendo desde a infância até a velhice, demonstrando valorização e apropriação para além do espaço físico, somando-se a interações simbólicas e culturais com esses lugares.