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3 A DEFENSORIA PÚBLICA NO BRASIL

4.6 A LEGITIMAÇÃO COLETIVA

4.6.3 Natureza Jurídica

Um dos temas mais polêmicos – e, supostamente, mais inúteis – relacionados ao processo coletivo diz respeito à natureza jurídica da legitimação coletiva.

Conforme pontua Acelino Rodrigues de Carvalho, os entendimentos doutrinários podem ser reunidos em três grupos distintos. No primeiro deles, estão os autores que entendem não ser possível enquadrar tal legitimidade numa das espécies da clássica dicotomia ordinária extraordinária, classificando-a, com fundamento no direito alemão, como uma legitimação autônoma para a condução do processo. É o entendimento de Nelson Nery Junior. No segundo grupo, por sua vez, estão os autores que a consideram ordinária, uma vez que aquele que comparece em juízo para postular a tutela de direitos difusos e coletivos o faz em nome próprio, em defesa de direito próprio. Ressalte-se que, antes mesmo da Lei da Ação Civil Pública e da Constituição da República de 1988, Kazuo Watanabe defendia uma interpretação mais progressista do art. 6º do CPC, de modo a ser admitida como ordinária a legitimação de associações para a defesa de interesses difusos. Derradeiramente, no terceiro grupo (majoritário), estão os autores que entendem que a legitimidade é extraordinária, ocorrendo o fenômeno da substituição processual. “Para esses autores, o ente legitimado que comparece em juízo para a defesa desses direitos defende, em nome próprio, interesse alheio”182.

                                                                                                                         

180 LEAL, 1998, p. 73. 181 Ibid., p. 78.

182 CARVALHO, Acelino Rodrigues de. A natureza da legitimidade para agir no sistema único de tutelas coletivas: uma questão paradigmática. In: GOZZOLI, Maria Clara et al. (Org.). Em defesa

O aludido autor propõe, ao final, uma inversão nos conceitos existentes, tendo em vista que, como sustenta, as nomenclaturas não levam em consideração as transformações operadas no conteúdo. Conclui, então, que a legitimidade não pode ser considerada ordinária pelo simples fato de existir coincidência subjetiva entre o titular do direito e o de ação. Em realidade, aduz o autor, ela é ordinária porque esta coincidência é tida como a regra pelo sistema processual. Igualmente, a legitimidade não pode ser considerada extraordinária pelo simples fato de não haver essa coincidência subjetiva, e sim porque a não coincidência está prevista como exceção, ou seja, ocorre em caráter excepcional. Arremata que, com o novo paradigma, é equivocado confundir coincidência subjetiva com legitimidade ordinária e não coincidência com legitimidade extraordinária, bem como confundir esta última com substituição processual, eis que, no sistema das ações coletivas, a regra é exatamente a não coincidência. Deste modo, é possível concluir que a não coincidência subjetiva caracteriza a substituição processual, e que a substituição processual é a regra da legitimidade para agir nas ações coletivas e, por ser a regra, a legitimidade é ordinária183.

O posicionamento proposto é bastante coerente, pois reconhece a incompatibilidade do art. 6º do CPC com o sistema das ações coletivas, embora se limite à mudança de nomenclatura, abraçando a corrente que, atualmente, defende a natureza de substituição processual ou legitimidade extraordinária.

De uma maneira geral, os defensores da legitimação ordinária partem do pressuposto de que as formações sociais são – elas mesmas – dotadas de interesse e poder de coercibilidade. Estão neste grupo Kazuo Watanabe e Ada Pellegrini Grinover.

Com efeito, essa corrente não parece adequada, tendo em vista que os legitimados para agir não deduzem interesse próprio, sob pena inclusive de haver a necessidade de se perquirirem as finalidades estatutárias dos legitimados coletivos. Em realidade, a teoria surgiu em países como a Itália e a Alemanha por motivos estranhos à realidade brasileira.

Nesse sentido, explicam Fredier Didier Jr. e Hermes Zaneti Jr. que as doutrinas

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

de um novo sistema de processos coletivos: estudos em homenagem a Ada Pellegrini Grinover. São Paulo: Saraiva, 2010, p. 57-58.

italiana e alemã foram desenvolvidas em bases diversas da legislação nacional. Com efeito, dispõe o art. 24 da Constituição Italiana, primeira parte: “Todos podem recorrer em juízo para proteger os próprios direitos e interesses legítimos”. Observe- se que o texto não admite abertura à proteção de direitos coletivos de titularidade indeterminada, mas apenas “próprios”. Assim, levando-se em consideração a necessidade de disposição expressa para a substituição processual (art. 81 do CPC italiano), “a solução mais plausível, naquele sistema, foi, portanto, construir a doutrina da legitimação ordinária, buscando, na finalidade associativa ou institucional, o elemento legitimador”. O art. 19 da Constituição alemã segue a mesma linha184.

Os autores também reputam incorreta a corrente da legitimação autônoma, seguida por Nelson Nery e Antonio Gidi, que desvincula a legitimidade processual da titularidade do direito material objeto do processo, concebendo uma legitimação “para a condução do processo”. Isso porque, sob tal entendimento, afasta-se a atual aproximação entre o direito material e o processo, denominada instrumentalidade do processo185, pela qual este “não é fim em si mesmo e portanto suas regras não têm

valor absoluto que sobrepuje as do direito substancial”186.

O sistema jurídico brasileiro parece ter adotado a tese da substituição processual exclusiva e autônoma. Isso porque, em realidade, os direitos metaindividuais não pertencem ao legitimado coletivo, mas sim a pessoas indeterminadas ligadas pelas circunstâncias de fato (direitos difusos, art. 81, parágrafo único, I, do CDC), aos grupos, categorias ou classes de pessoas determináveis por uma relação jurídica base (direitos coletivos, art. 81, parágrafo único, II, do CDC) ou a pessoas ligadas por uma origem comum (direitos individuais homogêneos, art. 81, parágrafo único, III, do CDC).

Diz-se exclusiva a legitimidade porque os próprios titulares individuais não podem tutelar diretamente os seus direitos subjetivos. Da mesma forma, diz-se autônoma, pois o legitimado extraordinário fica autorizado a conduzir o processo independentemente da participação do titular do direito litigioso187.

                                                                                                                         

184 DIDIER JR.; ZANETI JR., 2011, p. 199-201. 185 Ibid., 2011, p. 198.

186 DINAMARCO, 1999, p. 315.

187 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Apontamentos para um estudo sistemático da legitimação extraordinária. Revista dos Tribunais, São Paulo, n. 404, 1969, p. 10.

O art. 1º da Lei 8.884/1994, que trata da proteção ao abuso de concorrência, traz uma redação que deve ser interpretada de maneira literal: “A coletividade é a titular dos bens jurídicos protegidos por esta Lei”. O aludido enunciado vem a confirmar a existência de sujeitos coletivos (o agrupamento humano), não sendo o grupo, contudo, o responsável pela tutela processual188.

4.6.4 Modelos de “Representação” dos Direitos Metaindividuais no Direito