Nesse item, analisa-se brevemente a natureza jurídica do processo e do provimento homologatório, uma vez que existe no Brasil, divergência doutrinária acerca da natureza do processo homologatório de julgados proferidos no exterior, assim como da natureza do provimento homologatório.
Não há consenso sobre a natureza do processo homologatório, na medida em que parte da doutrina entende se tratar de processo de jurisdição contenciosa, enquanto que outros defendem se tratar de jurisdição voluntária.
Aqueles que defendem se tratar de processo de jurisdição voluntária entendem que ao decidir sobre o processo homologatório o juiz não resolve uma lide, apenas administra os interesses privados dos sujeitos do processo, interessados na intervenção do Judiciário, para que a sentença estrangeira possa produzir efeitos no Brasil. Os defensores de tal opinião afirmam que o Estado exerce apenas fiscalização sobre o ato existente entre os particulares, a fim de controlar o ingresso da sentença estrangeira no território nacional. Tal atividade, segundo eles, não busca dirimir conflitos de interesses entre as partes, mas tão somente certificar o cumprimento das formalidades prescritas em lei para a força do ato128.
Os que veem o juízo delibatório entre os atos de jurisdição voluntária entendem que o juiz não resolve efetivas controvérsias, apenas exerce papel de controle e reconhecimento, não podendo, inclusive, discutir o mérito da decisão estrangeira.
Por outro lado, aqueles que defendem tratar-se de jurisdição contenciosa entendem que o juiz solucionará um verdadeiro conflito, surgido em torno do cumprimento dos requisitos a que está subordinada a homologação da sentença estrangeira.
Percebe-se, porém, que se trata de processo de jurisdição de contenciosidade limitada. Apesar de o juiz não estar autorizado a rever o mérito da sentença estrangeira trazida a reconhecimento, ele deve solucionar o conflito de interesses que diz respeito à presença ou não dos requisitos para que a referida decisão possa produzir efeitos no
128
ABBUD, André de Albuquerque Cavalcanti. Homologação de sentenças arbitrais estrangeiras. São Paulo: Atlas, 2008, pp. 87-88.
território nacional. Para tanto, deve o juiz aplicar a lei ao caso concreto, com vistas a dirimir o conflito129.
Como bem pondera Abbud,
a sentença de mérito proferida no processo homologatório procura compor uma situação litigiosa, estabelecida entre duas verdadeiras partes em torno da liberação ou não dos efeitos de decisum advindo de outro país. É evidente, assim, o caráter contencioso do juízo delibatório. Pode- se considerar essa litigiosidade limitada, em virtude da restrição horizontal de questões passíveis de constituir objeto de conhecimento do juiz no processo, da qual resulta lhe ser defeso invadir o mérito da sentença delibanda [...], mas não se pode negar esse caráter litigioso, refletido na plena possibilidade de que o réu se oponha à demanda de
homologação 130.
Mesmo que o réu deixe de contestar o pedido de homologação de uma sentença estrangeira, o juiz terá que verificar o preenchimento dos pressupostos para a sua efetivação. O não oferecimento de contestação não desobriga o julgador de analisar se a pretensão é ou não procedente.
Atualmente predomina na doutrina e também na jurisprudência o entendimento de que o processo homologatório possui natureza contenciosa, não se podendo negar que o pedido de homologação de sentença estrangeira dá origem a verdadeiro processo, com o proferimento de uma sentença de mérito que homologa ou não a decisão oriunda de outro país e faz coisa julgada material131.
129
“A homologação é uma ação, ou seja, um pedido de tutela jurisdicional constitutiva, ou constitutiva integrativa, como define Pontes de Miranda. Ainda que a contenciosidade não seja reconhecida por alguns autores, posto não haver lide a compor, é flagrante a contenciosidade limitada a que se refere Vicente Greco Filho, pois, a despeito de não se renovar o litígio que a originou, bem como não haver reexame de mérito, há um conflito de interesses diante da possibilidade ou não de sua homologação, mesmo nos casos em que toma aparência de jurisdição voluntária, como ocorre na sentença de divórcio reclamada por ambos os cônjuges. Nessa hipótese, a contenciosidade é virtual, suficiente para que a sentença homologatória ganhe o conteúdo de jurisdição contenciosa”. (HUCK, Hermes Marcelo. Sentença estrangeira e lex mercatoria. Horizontes e fronteiras do comércio internacional. São Paulo: Saraiva, 1994. p. 29).
130
ABBUD, André de Albuquerque Cavalcanti. Homologação de sentenças arbitrais estrangeiras. São Paulo: Atlas, 2008, p. 89.
131
“Esse processo homologatório – que se reveste de caráter constitutivo – faz instaurar, perante o Supremo Tribunal Federal, uma situação de contenciosidade limitada. Destina-se a ensejar a verificação de determinados requisitos fixados pelo ordenamento positivo nacional, propiciando, desse modo, o reconhecimento, pelo Estado brasileiro, de sentenças estrangeiras, com o objetivo de viabilizar a produção dos efeitos jurídicos que lhes são inerentes. (STF, SEC 5.093, Rel. Min. Celso de Mello, DJ 13.12.1996). O processo de homologação de sentença estrangeira reveste-se de caráter constitutivo e faz instaurar uma situação de contenciosidade limitada. A ação de homologação destina-se, a partir da verificação de determinados requisitos fixados pelo ordenamento positivo nacional, a propiciar o reconhecimento de decisões estrangeiras pelo Estado brasileiro, com o objetivo de viabilizar a produção dos efeitos jurídicos que
A natureza da sentença homologatória também tem sido motivo de discussão doutrinária. Grande parte da doutrina defende o cunho constitutivo132, enquanto que aqueles que discordam dessa conceituação jurídica entendem que sua natureza é eminentemente declaratória, já que a sentença examina apenas os requisitos formais do ato praticado em outra jurisdição, sendo atividade integrativa que não faz surgir nova decisão.
Entende-se, contudo, que a decisão homologatória terá sempre natureza constitutiva, já que cria situação jurídica nova no ordenamento jurídico brasileiro ao liberar a eficácia da sentença estrangeira no país. Já a decisão que rejeita o pedido homologatório será declaratória negativa, já que apenas reconhece que a decisão estrangeira não preenche os requisitos para ser recepcionada no Brasil133.