C ONCEITO E T ELEOLOGIA EM H EGEL
2.2. Necessidade, liberdade e teleologia interna
Na Ciência da Lógica, Hegel explica que a antiga metafísica opunha causas eficientes e causas finais assim como se constituem as oposições entre fatalismo- determinismo e liberdade e entre mecanismo e teleologia (CL, p. 647; WdL, pp. 436-437). O problema expresso por Vaz acerca da conciliação entre sistema e liberdade se apresenta em Hegel numa remissão aos antigos, o que corrobora a tese do comentador brasileiro. E é relevante notar que esse problema é expresso por Hegel exatamente na apresentação da teleologia na Ciência da Lógica, a “pedra angular” de seu sistema filosófico.
A discussão do problema acerca da conciliação entre sistema e liberdade por Hegel nos desdobramentos lógicos da teleologia não é fortuito, pois a teleologia, como suprassunção do quimismo e do mecanismo, é uma das soluções hegelianas para o problema da conciliação entre fatalismo e contingência, que segundo Vaz, se expressa desde a primeira formulação de sistema entre os antigos, o sistema platônico17.
[...] A antinomia entre o fatalismo com seu determinismo, e a liberdade, se refere igualmente à oposição do mecanismo e da teleologia; com efeito, o livre é o conceito em sua existência.
A antiga metafísica se comportou com estes conceitos como com os outros; por uma parte pressupôs uma representação do universo, e se ocupou em demonstrar que um ou o outro conceito se adaptava a tal representação, e que o conceito oposto era defeituoso, porque essa representação não se deixava explicar por meio dele. [...] Se mecanismo e finalidade estão em oposição mútua, precisamente por isso não podem se considerar como equivalentes de maneira que cada um deles por si seja um conceito correto, e tenha tanto valor como o outro, e que tudo se reduza a saber onde tem que ser aplicado um ou outro. Esta validade igual se funda somente no fato de que eles existem, isto é, que os temos a ambos. Porém, a primeira questão necessária, dado que são contrapostos, é qual dos dois seja o verdadeiro; e a verdadeira e própria questão superior é saber se não é um terceiro o que constitui
17 O problema do fatalismo e da liberdade se expressou na modernidade no pensamento de Descartes e
também pode ser notado nos pensamentos de Espinosa e de Leibniz, que exprimem respectivamente os dois extremos, os quais Hegel procura suprassumir em seu sistema (VAZ, 2014, p. 97).
sua verdade, ou bem se não é um a verdade do outro. (CL, pp. 647-648; WdL, pp. 436-438).
Hegel afirma que a teleologia é a verdade do mecanismo e que o quimismo se junta a ele, pois os dois encontram-se submetidos a uma necessidade natural, seja respectivamente pela falta de autodeterminação, seja pela tensão e exterioridade. Já a teleologia se vincula ao conceito que é autodeterminante, livre.
É interessante notar que, embora Hegel faça remissão à antiga metafísica numa oposição entre causas eficientes e causas finais, o filósofo alemão procura conciliar em sua filosofia o mecanismo à teleologia, seguindo em muitos sentidos o pensamento aristotélico. A explicação de Angioni acerca da necessidade “sem mais” torna claro ao leitor hegeliano a referência aristotélica da questão teleológica em Hegel, inclusive no que se refere à relação entre necessidade/mecanicismo e teleologia.
De acordo com Angioni (2006, pp. 34-36), Aristóteles (Phys., II, 8, 10-12, 198b) reconhece que há a necessidade na natureza e que há uma complementaridade entre necessidade e teleologia18. Assim, segundo o comentador, o filósofo grego não questiona a existência da necessidade, mas procura esclarecer como ela ocorre na natureza. E, nesse sentido, compreende que Aristóteles distingue dois tipos de necessidade, a “sem mais” e a “sob hipótese”. A primeira não tem pressupostos, nada a antecede; já a segunda está submetida a um princípio anterior.
Segundo Angioni (2006, pp. 36 e 38), a compreensão aristotélica da necessidade “sem mais” é partilhada com outros filósofos que antecederam ao Estagirita na história da filosofia. A diferença fundamental é que para os filósofos que consideram a necessidade “sem mais”, tudo o que existe na natureza se deve à matéria bruta elementar em suas interações espontâneas e não a um princípio anterior. Entretanto, sob a perspectiva aristotélica, tal tipo de necessidade não seria suficiente para a explicação da natureza, pois, para o Estagirita (Phys., II, 8-9, 198b), a necessidade “sem mais” caracteriza-se por ser disposicional, na medida em que tal matéria poderia por sua própria condição possibilitar determinados efeitos, dado o seu lugar natural. Nesse sentido, se relaciona apenas à matéria e a mais nenhum outro princípio, o que dificulta a compreensão da regularidade do que é vivo em suas partes e funções.
18 De acordo com Angioni (2006, p. 34, nota), há uma tradição que discorda de tal compreensão e
considera que há uma incompatibilidade (e não uma complementaridade) entre necessidade e teleologia no pensamento aristotélico. Quem são os autores? Que rendimento teórico teria essa outra interpretação para a sua tese?
Para refutar as concepções que compreendem a necessidade “sem mais” como única explicação física, Angioni (2006, p. 37) afirma que Aristóteles questiona se a natureza operaria apenas por necessidade e não em vista de fins. Tal questionamento se pautaria na compreensão de Aristóteles acerca da relação entre a matéria elementar e os seres vivos e suas partes e funções.
Segundo a compreensão de Angioni, a perspectiva aristotélica é a de que a matéria elementar tem seus movimentos vinculados à sua própria natureza e exprimem as relações necessárias “sem mais”, como, por exemplo, o fogo para cima, a terra para baixo ou a chuva em seu ciclo. Entretanto, segundo a perspectiva aristotélica, a relação necessária “sem mais” não é capaz de explicar a natureza em relação aos seres vivos, suas partes e funções (Angioni, 2006, pp. 38-39), pois seria difícil explicar, sob a mera espontaneidade dos elementos materiais brutos, a regularidade da vida na natureza (Angioni, 2006, p. 41).
Portanto, sob a perspectiva aristotélica (Phys, II, 9, 199b, 34ss.), o que é por necessidade não tem um princípio que lhe antecede. O que é por princípio é a finalidade, pois a finalidade expressa a forma, porquanto o “o que” e o “para que” são vinculados; um ente só tem sua forma para a consecução de uma finalidade. Por outro lado, para Aristóteles, as coisas materiais se dispõem necessariamente, porém somente se a considerarmos apenas sob a perspectiva da causa material. Logo, a disposição necessária das coisas que são conforme a um fim determinado se realiza para uma finalidade que não é essa disposição.
Reconheçamos a importância dada por Aristóteles à vida. A compreensão aristotélica da natureza só se completa se a vida passa a ser compreendida sob um princípio. O princípio do mecanismo não é suficiente para explicar a vida. A ação conforme a uma finalidade por natureza é o princípio que Aristóteles reconhece para a explicação da vida. Esse mesmo princípio, a finalidade interna será fundamental a Hegel, não somente para a vida como para a razão como um todo.
Aristóteles (Phys, II, 8, 199a, 20ss) diferencia as coisas que vêm a ser por natureza, daquelas que vêm a ser pela técnica. Em ambas, o “em vista de algo” está presente. Na natureza, não há exame ou deliberação para que uma aranha teça sua rede ou para que a andorinha constitua o seu ninho e nem a árvore delibera para que suas raízes busquem alimento. Esses entes naturais agem conforme uma finalidade imanente.
Já no que se refeere à técnica, Aristóteles apresenta o exemplo da casa (Phys, II, 9, 34ss). Uma casa é formada por elementos, esses elementos brutos exprimem a necessidade na medida em que a pedra dirige-se necessariamente para baixo e acima dela a terra e ainda
mais acima a madeira, segundo a natureza própria de cada elemento em suas relações de leveza. Todos esses elementos materiais são subsumidos à finalidade de abrigar, que sob uma técnica expressa na forma sua finalidade (Met., VIII, 2, 1043 a 32, apud ANGIONI, 2006, p. 50).
Notemos como Hegel, com suas próprias palavras, reconhece em Aristóteles uma superioridade da concepção de teleologia interna (na definição da vida) em relação aos modernos, pois para o filósofo de Estagira, segundo a perspectiva hegeliana, a concepção de vida tem uma finalidade a ela imanente e não externa. Desse modo, o conceito de teleologia interna é importante para a suprassunção do dualismo kantiano:
[...] No fim não se deve pensar apenas na forma em que ele está na consciência como uma determinação existente na representação. Com o conceito de finalidade interna, Kant suscitou de novo a Ideia em geral e, em especial, a da vida. A definição que Aristóteles oferece da vida contém já a finalidade interna e, por isso, está infinitamente acima do conceito de teleologia moderna, a qual só tem diante de si a finalidade finita, externa. (Enc. I, § 204 A, pp. 341-342; Enc. I, § 204 A, p. 360).
Portanto, é fundamental notarmos que tanto em Aristóteles quanto em Hegel, seja no que se refere à técnica, seja no que se refere aos seres vivos, suas partes e funções, há um princípio que subsume a necessidade bruta dos elementos a uma finalidade. E embora haja a necessidade nos elementos naturais brutos, tal necessidade se submete às finalidades expressas pela forma, seja na técnica, seja nos seres vivos. É o princípio teleológico, que na natureza, em Aristóteles, é interno.
No que diz respeito a Hegel, D’Hondt (1979, p. 25) destaca na teleologia a dialética entre meios e fins. Que os meios, por se tornarem universais, passam a ser fins e os fins, meios. O comentador afirma que a inteligência humana, ao elaborar máquinas, por exemplo, faz com que o mecanismo natural seja ordenado pela inteligência sem, entretanto, uma atividade direta do homem. Com o utensílio ainda havia a ação direta do homem para a consecução do fim. Desse modo, a razão faz com que a natureza, com o seu mecanicismo, seja conduzida a uma finalidade inteligente, na qual os meios têm um caráter universal, porquanto em sua permanência fazem com que os resultados singulares efêmeros, contingentes, sejam efetivados. E é nessa dialética de meios e fins que se destaca a originalidade hegeliana em relação à teleologia e se reconhece a chamada astúcia da razão.
É importante destacar, nesse sentido, que a concepção teleológica hegeliana, como veremos a seguir, se caracteriza imediatamente no âmbito da Lógica pela exterioridade, mas que na relação de meios e fins que se conjungem, se determina a teleologia interna. Como veremos no quarto capítulo, especialmente na parte introdutória e na primeira seção, o duplo caráter da teleologia será compreendido por Hegel em suas Lições sobre a
Filosofia da História na atuação dos indivíduos e a efetivação do propósito do Espírito do Mundo. Para tanto, é preciso considerar as especificidades da teleologia hegeliana e compreendê-las no âmbito da vida lógica.