No repique da
viola
Quando ouvimos um ponteado de viola, uma das impressões que temos é de que há mais de um instrumento tocando. Essa sonoridade “cheia” da viola caipira revela uma de suas técnicas mais singulares: o ponteio repicado.
Quando falo de repicado na viola, refiro-me aos toques nas cordas soltas respondendo às melodias feitas no braço do instrumento. Dessa forma, duas coisas acontecem: 1) há o solado utilizando notas simples ou escalas duetadas, enquanto 2) toca-se os pares soltos na viola, preenchendo os espaços da melodia ponteada. Percebemos isso na grande maioria dos toques marcantes de viola presentes nos estilos dos violeiros tradicionais ou modernosos. Um exemplo clássico dessa técnica é encontrado nas introduções de pagodes de viola, consagrados pelo violeiro José Dias Nunes, o Tião Carreiro. “Pagode em Brasília” (composição de Teddy Vieira e Lourival dos Santos, gravado em 1960), considerado o primeiro pagode sertanejo gravado - e imortalizado pelo violeiro e seu parceiro, Pardinho -, traz um dos solados mais buscados pelos aprendizes de viola. Se ouvirmos com atenção, o solo dessa introdução resume-se à seguinte sequência de graus:
Fábio Miranda
60 • VIOLÃO+
VIOLA caipira
Óia bem! O grau 1 do final do solo vem duplamente
sublinhado, pois está uma oitava acima do grau sublinhado (1). Podemos simplificar a chegada até esse grau fazendo de forma invertida, da seguinte maneira:
E o repique? O truque acontece quando o violeiro acrescenta ao solo toques nas cordas soltas para complementar ritmicamente o solado principal: são os repicados. No caso do “Pagode em Brasília”, podemos acrescentar aos poucos os repiques, deixando o toque cada vez mais complexo. Veja a progressão demonstrada nas três tablaturas abaixo:
Primeiro, alternando o solo com o canotilho solto:
Depois, acrescentando o toque solto nas primas e requintas:
E puxando as cordas apertadas logo depois de tocá-las com a mão do ponteio:
VIOLA caipira
O dedilhado pode ser feito só com o polegar, ou alternando o polegar com algum outro dedo da mão que fere as cordas. Reparem que cada repique acrescentado deixa o ritmo mais articulado e o solado fica mais trabalhado. Na tablatura III há ainda o recurso do ligado, em que o efeito das cordas soltas vem da puxada feita pela própria mão do ponteio: a famosa mordida de égua! Experimentem aumentar a velocidade para perceberem melhor o efeito! Depois que aprendermos essas manhas, podemos criar nossos próprios repiques de acordo com o local em que estamos ponteando. Se o solado acontecer nos pares graves, os repiques podem ser feitos nas cordas agudas, e vice versa.
Os repiques revelam muito do estilo de cada violeiro e são parte fundamental da técnica da viola caipira consagrada por grandes violeiros como Gedeão da Viola, Bambico, Renato Andrade, Almir Sater, Zé Côco do Riachão, Tião do Carro e o próprio Tião Carreiro, que nas suas introduções de pagodes, consagrou as possibilidades desse truque. Bora debuiá!
62 • VIOLÃO+
f lamenco
O polegar
Nesta edição, referente à técnica, falaremos do uso do polegar aplicado à guitarra flamenca. O polegar é um dos recursos mais utilizados pelos guitarristas flamencos. Por isso, existem diferentes técnicas, e suas respectivas variantes, que veremos ao longo dos próximos números de Violão+.
Vamos iniciar a abordagem das técnicas com o polegar, com um conceito bem básico, mas que curiosamente, exige um pouquinho de trabalho e atenção. É o toque do polegar aliado ao “golpe” no tampo (dedo A ou M, ou ambos juntos).
Flavio Rodrigues
www.flaviorodrigues-flamenco.eu
Referente ao repertório, vamos aplicar a nova técnica aprendida, em uma pequena variação que se somará ao nosso toque por Tientos. Utilizaremos apenas os seguintes acordes alternados com os baixos*:
G7 C/G F Bb6(4+) Gm/Ab A9b
*acordes sem capo-traste (cejilla)
Na próxima edição, vamos introduzir a alzapúa. Uma técnica exclusiva da guitarra flamenca, que alterna movimentos de polegar para cima, para baixo, tocando uma ou varias cordas, com ou sem golpe no tampo. Até logo!
#FicaAdica
f lamenco
Vivencias Imaginadas (1995) Vicente Amigo Segundo disco de um dos maiores nomes da guitarra flamenca da era pós Paco de Lucia. Vicente Amigo criou um estilo, uma marca registradatanto tecnicamente, quanto na sonoridade e nas suas composições. Nessa obra, podemos apreciar sua guitarra solista em peças como Ventanas al Alma y Sierra del Agua, assim como em temas arranjados com percussão, baixo, trompete, voz, palmas... Tudo muito minimalista. Também constatamos importantes aberturas harmônicas e melódicas (inovadoras dentro da estética da música flamenca até então), a introdução de elementos jazzísticos, além de outras músicas.
Destaques: “El Mandaito”, “Mensaje” e “Vivencias
Imaginadas”, além da participação especial de Paco de Lucía em “Querido Metheny”.
64 • VIOLÃO+
Alex Lameira
www.alexlameira.com.br
Improvisação
Fundamentos
Chamo esta coluna de fundamentos da improvisação apenas para lembrar aos leitores que improvisação não se ensina. O que se ensina são conceitos de percepção musical, estruturação e técnica para estarmos aptos e prontos para criar livremente sobre uma harmonia.
Na edição anterior falamos da audição do acorde de sétima maior. Nesta, vamos nos aprofundar ainda nesse acorde. Você deve utilizar um gravador ou um pedal de loop para ouvir uma base com um acorde de Cmaj7, por exemplo, e seguir os seguintes passos:
1 – Cantar os arpejos dos acordes dados na lição passada (tétrades) no caso:
Cmaj7, Em7, Gmaj7, Bm7
2- Cantar a escala e sentir cada grau: T , 2M , 3M, #11, 5J, 6M e 7M
3- Ouvir o acorde e cantar as tensões: 7M 9M e #11
Faça isso se possível nos 12 tons, mas se concentre realmente no efeito daquele grau ao ouvir o acorde, para que isso se internalize e, no momento da improvisação, fique natural.
4- Após os três passos anteriores, toque o acorde (de Cmaj7, por exemplo) e improvise com a voz.
Crie frases com a sua voz dentro dos acordes dados acima. Tudo isso vai não somente ajudar a internalizar a sonoridade do acorde, como também sair das frases prontas que nossos dedos fazem sozinhos. O improviso deve fluir de sua mente para os dedos, e não ao contrário. Utilize um gravador para depois conferir se as notas que cantou estão dentro da escala e afinação corretas.
Todo esse processo está edificando um dos pilares da improvisação que é a audição, que é o mais importante e o menos trabalhado pelos estudantes.
Existem outros dois pilares importantes que são a consciência (pensamento de que nota se está tocando naquele momento) e a parte motora (escalas e arpejos no braço). Na próxima edição iremos abordar esses dois elementos. Até lá!
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