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Texto

(1)

Yamandu

Costa

Exclusivo!

Curso de violão

popular

com vídeoaulas

Ano 1 - Número 3 - Novembro 2015 www.violaomais.com.br

Edelton Gloeden

A carreira consolidada do professor e músico

Nova coluna: Sete Cordas

Conheça o bouzouki grego

O repique na viola caipira

Como tocar samba

E mais:

A interpretação lapidada do

virtuose cheio de personalidade

(2)

editorial

Editor-técnico

Luis Stelzer

[email protected]

Colaboraram nesta edição

Alex Lameira, Breno Chaves,

Cleber Assumpção, Fabio Miranda, Flavio Rodrigues, Luisa Fernanda Hinojosa Streber,

Reinaldo Garrido Russo, Renato Candro, Ricardo Luccas, Rosimary Parra e

Walter Nery

Os artigos e materiais assinados são de responsabilidade de seus autores. É permitida a reprodução dos conteúdos publicados aqui desde que fonte e autores sejam citados e o material seja enviado para nossos arquivos. A revista não se responsabiliza pelo conteúdo

dos anúncios publicados.

Ano 1 - N° 03 - Novembro 2015

VIOLAO

+

Os últimos três meses passaram rápido demais. Não dá para acreditar que já está no ar a terceira edição de Violão+. Nem dá tempo de comemorar uma, já vem outra. Então, não

falemos nada, vamos trabalhando assim, de modo contínuo. E todo mês a gente coloca no ar o fruto desse trabalho. Sabia que iria dar muito trabalho, mas não tanto. Também sabia que seria prazeroso. É muito mais do que eu imaginava! Muita gente entrando em contato, muita gente querendo que dê certo... E está dando!

As surpresas que preparamos para você, leitor da Violão+: uma nova coluna, que muito

fez falta nas duas primeiras edições: Violão 7 cordas. Nosso colaborador Cleber Assumpção nos fala sobre esse instrumento, que extrapolou as rodas de choro e vive também (muito bem!) nas mãos de solistas como o nosso entrevistado de capa, Yamandu Costa. Em conversa antes de um show no SESC Pompeia, Yamandu nos falou sobre suas influências e como vai a carreira, além de traçar um paralelo interessantíssimo entre o popular e o erudito. E ainda tocou uma música exclusivamente para nós! Também conversamos com o professor Edelton Gloeden, que está completando 60 anos de idade e 30 de USP. Muita história para contar! Na Coda, o relato de uma visita-homenagem ao grande compositor, professor e maestro Edmundo

Villani-Côrtes, que acaba de completar 85 anos, com saúde, energia e produção musical. E uma paixão inconteste pelo violão, instrumento ao qual se dedicou antes de ir para o piano. Confira. Para nos livrar das vírgulas mal colocadas e das palavras mal escritas, mais uma colaboradora: Valéria Diniz, que começou com algumas colunas e seções desta vez (De ouvido, Violão Brasileiro, Iniciantes, Sete Cordas, Mundo), mas terá muito trabalho conosco a partir das próximas edições. Grande abraço, espero que esteja no ponto certo!

Luis Stelzer Editor-técnico

Chegamos à edição nº 3!

(3)

índice

Foto de capa Matheus do Val Publicidade/anúncios [email protected] Contato [email protected]

Publisher e jornalista responsável

Nilton Corazza (MTb 43.958) [email protected]

Gerente Financeiro

Regina Sobral

[email protected]

Diagramação Rua Nossa Senhora da Saúde, 287/34Jardim Previdência - São Paulo - SP

48

Iniciantes

54

Sete cordas

59

Viola caipira

62

Flamenco

64

Improvisação

67

Coda

66

Classificados

4

Você na V+

8

Em pauta

12

Retrato

20

Vitrine

22

Yamandu

Costa

32

História

34

Mundo

36

De ouvido

40

Como

estudar

41

Violão

brasileiro

44

Siderurgia

(4)

4 • VIOLÃO+

você na violão+

Duo Siqueira Lima

Adorei a entrevista com o Duo Siqueira Lima. Cecília e Fernando são realmente incríveis em todos os sentidos! Muito boa a revista! Parabéns! (Joana Fátima

Gonçalves, em nossa página no Facebook)

Maravilhosos! Adorei o apoio dos pés!

(Max Riccio, em nosso canal no Youtube)

Está linda demais! Obrigado queridos Nilton e Luis! Excelentíssimo trabalho!

(Cecilia Siqueira, do Duo Siqueira Lima, em nossa página no Facebook)

V+: O Duo Siqueira Lima realmente

é incrível, tanto pela musicalidade e competência quanto pela simpatia. prova disso é o vídeo exclusivo que gravaram para nosso canal no Youtube. O objetivo de Violão+

sempre será o de apresentar os protagonistas do universo violonístico, referências para todos aqueles que desejam se dedicar a esse instrumento.

Segunda edição

Muito bom! Essas publicações fazem muita falta. Vida longa para Violão+! (Eduardo

Knaip, em nossa página no Facebook)

Muito Legal, gostei muito! Parabéns a todos os colaboradores! (Nelson Moraes,

em nossa página no Facebook)

Acabei de ler a revista. Está muito bem feita, com matérias interessantes a todo tipo de público. Parabéns, Luis Stelzer e toda a trupe! Vocês merecem muito sucesso!

(Iara de Rossi, em nossa página no Facebook)

A edição n° 2 está ótima! Eu já tinha achado superlegal (e profissional) a primeira edição, mas esta segunda parece ter mais “substrato”, mais conteúdo. As entrevistas do querido Chico Saraiva e do superduo Siqueira Lima estão muito boas, nem muito formais, nem muito informais, e com informação interessante, sem “bull shit”. Parabéns, pessoal! (Conrado Paulino, em nossa página no Facebook)

(5)

Mostre todo seu talento!

Os violonistas do Brasil têm espaço garantido em nossa revista.

Como participar:

1. Grave um vídeo de sua performance.

2. Faça o upload desse vídeo para um canal no Youtube ou para um servidor de transferência de arquivos como Sendspace.com, WeTransfer.com ou WeSend.pt. 3. Envie o link, acompanhado de release e foto para o endereço [email protected] 4. A cada edição, escolheremos um artista para figurar nas páginas de Violão+, com

direito a entrevista e publicação de release e contato.

Violão+ quer conhecer melhor você, saber sua

opinião e manter comunicação constante, trocando experiências e informações. E suas mensagens podem ser publicadas aqui! Para isso, acesse,

curta, compartilhe e siga nossas páginas nas redes sociais clicando nos ícones acima. Se preferir, envie críticas, comentários e sugestões para o e-mail [email protected]

você na violão+

Obrigado

V+: Agradecemos a todos pelas mensagens, das quais as publicadas aqui são

uma pequena amostra. O fato de termos professores e violonistas de categoria entre nossos leitores muito nos honra e, ao mesmo tempo, nos acarreta maior responsabilidade. Esperamos poder sempre atender às expectativas de um público tão seleto e disseminar informações aos estudantes de qualquer nível e todos os amantes do violão. Todas as sugestões e críticas são muito

bem-vindas e nos ajudarão a aprimorar cada vez mais nossa revista.

Assinatura

Salve! Parabéns pela revista. Gostaria de saber se há versão impressa, se posso assinar e como posso adquirir os arquivos de todas as edições. Obrigado.

(Wellington Farias, por e-mail)

V+: A revista Violão+ é digital e pode ser acessada e baixada pelo site

www.violaomais.com.br. Não há versão impressa, mas, se você quiser, pode baixar a versão PDF e imprimir as páginas que desejar.

(6)

6 • VIOLÃO+

Formado pelos violonistas Gabriele Leite e Marcelo Brito, alunos do conservatório de Tatuí, o Duo Dois em Um tem como objetivo executar músicas de diferentes períodos, mas com ênfase em músicas brasileiras. Orientados desde 2012 pela professora Márcia Braga, os integrantes do duo participaram, com colocações destacadas, de vários concursos de violão, como Souza Lima, Musicalis e Prêmio Incentivo à Música de Câmara.

A integração de Gabriele e Brito, aliada ao som cristalino que o duo produz em seus instrumentos, chama a atenção, tanto pela juventude de ambos quanto pela interpretação madura de peças dos mais variados períodos. É mais um grupo a enriquecer o cenário violonístico brasileiro.

você na violão+

(7)

www.fender.com.br

CLASSIC DESIGN SERIES

CD-60 CE

Os violões eletroacústicos CD-60 CE oferecem sonoridade e visual sofisticados. A combinação do tampo em Spruce laminado, com laterais e fundo em Nato, captação Fishman Isys III (ativa), Tarrachas Die-Cast cromadas, braço em Nato com escala em Sonokeling (Black, Natural e

Sunburst) e Mahogany (Mahogany) de 20 trastes garantem sons ricos e encorpados.

Importantes upgrades incluem um novo projeto de ponte, friso do bocal em madre-pérola e novo escudo.

Os primorosos acabamentos Mahogany, Black, Natural e Sunburst oferecem classe e estilo aos instrumentos, que vêm acompanhados por

um exclusivo case “Hardshell” original Fender.

Black

Mahogany Natural Brown Sunburst

Captação

Fishman Isys III Novo Projetode Ponte Madre-pérolaFriso em TarrachasDie-Cast Case “Hardshell“

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8 • VIOLÃO+

EM PAUTA

BRASILEIRO VENCE CONCURSO TÁRREGA

O baiano, radicado na Europa há sete anos, João Carlos Victor Alves, venceu a 49ª Edição do Concurso Internacional de Violão Francisco Tárrega, realizado em Benicàssim, na Espanha. Ele concorreu com 28 candidatos de 17 nacionalidades distintas, sendo finalista do certame com dois artistas coreanos e um cubano, nesta que é uma das competições de performance musical mais importantes do mundo. Em 49 anos de existência do concurso, o violonista foi o segundo brasileiro a conseguir o feito, anteriormente conquistado pelo paulista Fábio Zanon.

(9)

EM PAUTA

Para aqueles que querem turbinar as possibilidades do violão, o músico Robin Sukroso criou o ACPAD, gadget que permite tocar diversos tipos de sons, tais como baterias, baixos e até mesmo orquestra, mantendo as mãos no instrumento. A tecnologia consiste em uma fina placa de

polímero adesivo que pode ser fixada no tampo do violão e serve de interface entre o músico e o computador, além de oferecer dois loopers, dez configurações, dois sliders e oito teclas, todos customizáveis. Com a possibilidade de recarga via USB, o que garante algo em torno de 5 a 6 horas de uso ininterrupto, o acessório – que tem todos os circuitos construídos em ouro - se conecta ao computador por meio de um cabo ou dispositivo USB wireless, graças a uma entrada mini USB. O ACPAD deve estar disponível para venda a partir de junho de 2016, mas já pode ser comprado por cerca de R$ 1.000 diretamente com o inventor.

Fundada em 1900, a Giannini comemora 115 anos de existência e, cada vez mais, quer ver sua história documentada. Entre as comemorações, a empresa reuniu folhetos e catálogos de produtos antigos e os disponibilizou, gratuitamente, para download e consulta, em seu site. Ali estão reunidas raridades desde a década de 1950 até hoje. Além disso, uma série de vídeos apresenta importantes músicos e produtores contando um pouco da relação deles com a marca. E você pode participar da promoção “Eu Faço Parte Dessa História” e concorrer a uma craviola. Mais informações, aqui.

SUPERSÔNICO

(10)

10 • VIOLÃO+

EM PAUTA

Um violão de John Lennon, aparentemente furtado em 1963, foi leiloado no início de novembro, nos Estados Unidos, por aproximadamente R$ 9 milhões (US$ 2,4 milhões). O instrumento foi usado pelo Beatle para gravar os primeiros sucessos do grupo, como “Love Me Do” e ““PS I Love You””. A Gibson acústica J-160E, de 1962, sumiu durante o Beatles Finsbury Park Christmas Show e ficou desaparecida por mais de 50 anos. No ano passado, surgiu a notícia de que o violão estaria em poder de John McCaw, um aposentado americano que o comprou em uma loja de penhores no final dos anos 60 por US$ 275, sem saber da importância do instrumento. McCaw descobriu que tinha uma relíquia em seu poder quando viu uma foto do violão em uma revista de música e reconheceu o número de série do instrumento. Ciente da possível polêmica por leiloar um instrumento furtado, McCaw decidiu que metade do dinheiro da venda será doado à Spirit Foundation, ONG dirigida pela viúva de Lennon, Yoko Ono.

(11)

acontece

A capital paraibana realiza de 29 de novembro a 5 de dezembro o Festival Internacional de Música Clássica de João Pessoa, que conta com a participação de 15 músicos de seis nacionalidades. Um dos destaques é o violonista brasileiro Cláudio Faga, além dos violinistas Joris van Rijn (Holanda), Masha Iakovleva (Rússia), Mayu Konoe (Japão) e os brasileiros Alexandre Mandl e Alberto Johnson; os violistas Frank Brakkee (Holanda), Takehiro Konoe (Japão) e Emerson de Biaggi (Brasil); os violoncelistas Michael Müller (Alemanha) e Matias de Oliveira Pinto (Brasil); e o pianista israelense Yoram Ish-Hurwitz. Estão programados 23 concertos e 11 eventos de formação musical gratuitos, realizados em igrejas históricas, como os templos de São Bento, do Carmo, da Misericórdia, Baptista e do São Francisco, e também em pontos turísticos da cidade. Segundo Alberto Johnson, coordenador artístico do festival ao lado de Paulo Gazzaneo, o foco é unir a juventude à experiência dos participantes como forma de intercâmbio e apoio a projetos sociais.

Sob direção artística de André Espindola e com coordenação de Leonardo Burgos, a cidade de Corumbá realiza, de 11 a 14 de fevereiro de 2016, o I Concurso

Sul-Americano de Violão de Corumbá e o IV Seminário de Violão de Corumbá. Para

participar do concurso, os interessados devem enviar Ficha de Inscrição, cópia de documento de identidade com fotos e link de uma gravação em vídeo da performance do candidato no Youtube até o dia 6 de dezembro para a organização do concurso. Mas corra, porque o número de inscrições é limitado. A taxa de inscrição é de R$ 80. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected].

(12)

12 • VIOLÃO+

Edelton Gloeden

(13)

Edelton Gloeden, um dos mais importantes

músicos brasileiros da atualidade, fala a

Violão+

sobre carreira, festivais, música de

câmara e muito mais

Carreira

Consolidada

RETRATO

Edelton Gloeden é Doutor em Artes pela Universidade de São Paulo e professor no Departamento de Música da ECA. Presença constante nos mais importantes festivais de música por todo o Brasil, entre eles os de Campos do Jordão, Brasília, Londrina, Porto Alegre, Ouro Preto, Poços de Caldas, Guaratinguetá e João Pessoa, teve entre seus mestres Henrique Pinto, Eduardo Fernandez, Guido Santórsola e Abel Carlevaro. Referência atual no ensino do violão, apresenta-se em recitais solo, com grupos de câmara, e em concertos com orquestra em todo o Brasil, América Latina, Estados Unidos e Europa.

Tem se dedicado intensamente ao repertório brasileiro, realizando inúmeras primeiras audições de obras de compositores como Francisco Mignone, Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, Mário Ficarelli, Paulo Costa Lima e Gilberto Mendes.

De 1994 a 2008, foi o produtor e apresentador do programa Violão em Tempo de Concerto, transmitido semanalmente pela Rádio USP-FM da Universidade de São Paulo, e de séries especiais sobre o repertório violonístico realizadas para a Rádio Cultura FM de São Paulo. Também foi diretor artístico das quatro edições do Festival Internacional de Violão Leo Brouwer, com a presença do artista cubano e de alguns dos maiores nomes internacionais do instrumento, organizado pela USP, SESC e Instituto Cervantes em São Paulo.

Em sua discografia, destacam-se os CDs Uma Festa Brasileira, com violão e flauta (Paulus), Os Anos 20 (EGTA) e, com o Quarteto Brasileiro de Violões, Encantamento, Essência do Brasil e Four Bach Suites for Orchestra (Delos International - EUA).

(14)

14 • VIOLÃO+

Edelton Gloeden: linhagem de grandes mestres

Violão+: Você estudou com grandes mestres do violão e cita quatro em especial: Henrique Pinto, Eduardo Fernandez, Guido Santórsola e Abel Carlevaro. São quatro didáticas diferentes. É possível dizer em que cada um contribuiu ou te influenciou em sua forma de tocar e lecionar?

Comecei com um aluno do Henrique Pinto, que teve carreira muito curta como professor porque abraçou outra profissão. Ele me passou para o Henrique, com uns dois anos de iniciação musical. Fiz o conservatório com ele, durante uns quatro anos, depois fiquei em contato constante durante muito tempo, desde 1969 até quando entrei na USP, em 1985. O Henrique me abriu o conhecimento do violão clássico, não só pelas aulas, mas também por gravações, me levou para os grandes cursos de violão de Porto Alegre, nos anos 1970, onde tive contato com Carlevaro, Santórsola e Eduardo Fernandez. Também me ajudou muito com empréstimo de instrumentos e o livre acesso ao seu arquivo de partituras e discos. Nos anos 1970, ele tinha uma biblioteca e uma discoteca muito atualizada. Tudo o que havia na

Europa e nos Estados Unidos, tudo o que saía de gravação, ou edição, me favorecia o acesso. Também os cursos do Conservatório do Brooklin (São Paulo – SP), onde a gente formou uma espécie de equipe, o Henrique coordenava. Eram meu irmão Everton Gloeden, Paulo Porto Alegre, Clemer Andreotti e eu, um núcleo de violão dos anos 1980. Em relação ao Carlevaro, tive a oportunidade de trabalhar em Porto Alegre durante um mês com ele, não particularmente, mas em seus masterclasses. E isso foi decisivo em relação ao entendimento da parte mecânica do violão e à técnica a serviço da linguagem musical, os princípios de mão esquerda que ele expõe em seus métodos, com os quais me identifico profundamente. Hoje, ele é citado em vários trabalhos de técnica. Virou referência. Ele era um sujeito tímido, um pouco reservado. Depois, tivemos encontros esporádicos e tive a oportunidade de entrevistá-lo na época do programa na rádio USP. Tenho o registro dessa entrevista. Ao mesmo tempo, tinha as aulas de harmonia e interpretação musical do Guido Santórsola, professor extremamente rigoroso, que exigia uma qualidade de execução muito grande. As lições dos dois foram muito importantes, pois formaram uma espécie de conjunto, técnica e harmonia. E eu tinha também como exemplo os alunos desses seminários, que já eram violonistas brilhantes, com o Eduardo Fernandez, o Miguel Angel Girollet e outros.

Violão+: Você já se apresentou muito, como solista e camerista, em todos os lugares do Brasil e do mundo. De posse dessa experiência, o que você

RETRATO

(15)

pode dizer sobre tocar em câmara com violões ou outros instrumentos, em lugares grandes ou pequenos, amplificado ou não? Como você lida com esse tipo de situação?

Gosto muito de espaços pequenos, de preferência, aqueles em que você não precisa amplificar o violão. Inclusive, não uso nenhum sistema de som que eu carregue. Tento ser o máximo seletivo quanto a isso. Mas, quando você tem que tocar com uma orquestra, ou em lugares um pouco maiores, fica sempre um pouco dependente de bons técnicos, de teatros, de acústicas... No Brasil, pelo menos aqui em São Paulo, não temos muitos espaços privilegiados ou adequados para a prática do violão de concerto, em que não se precise muito de amplificação. Estou muito atento a esses novos sistemas, vendo a qualidade, mas ainda não chegamos lá. Estou procurando uma forma de superar isso, porque, às vezes, o público está em lugares grandes. Você não pode ser muito radical nesse aspecto.

Violão+: Mas não é a sua preferência... Prefiro o som em alguma sala pequena. Para mim, é o ideal. Algumas igrejas, em que não haja uma reverberação muito grande, também são ambientes que gosto muito de tocar, pois há uma certa atmosfera que favorece o violão.

Violão+: E a música de câmara?

Sempre adorei música de câmara. Antes do violão, gostava de música em geral. Às vezes, as pessoas começam tocando violão e ficam apenas nele. Mas sempre gostei de ouvir outros instrumentos. Em minha formação, estudei com outros colegas cantores, pianistas, maestros, cantei muito em coro... Até fundei um coro

com o Lutero Rodrigues, nos anos 1970. Estudei também com outros professores, matérias teóricas. Ouvi muito rádio, assisti muitos concertos. Isso me estimulava a tocar com orquestras e outros instrumentos. Já fiz muitos trabalhos com flauta e violão, canto e violão, cravo e violão. Vira e mexe, estou tocando com o Quarteto Cidade de São Paulo. Com minha esposa, que é cantora, fazemos um repertório de canto e violão original. Sempre gosto de repertório original para música de câmara. Acho a experiência de música de câmara fundamental para o violonista, pois abre um horizonte em relação ao que os outros instrumentistas fazem, o que eles pensam com os instrumentos deles. Em muitos casos, até gosto mais de fazer música de câmara do que solo. É gratificante.

RETRATO

(16)

16 • VIOLÃO+

Violão+: Um trabalho marcante seu é o Marília de Dirceu, com cantora Anna Maria Kiffer e a Gisela Nogueira na viola de arame...

A Anna Maria Kiffer foi a primeira cantora com quem trabalhei. Meus primeiros recitais profissionais de música de câmara foram com ela e com o grupo Confraria, de música antiga, nos anos 1970/80. Também me meti com a música contemporânea, com o Gilberto Mendes, Festival de Música Nova de Santos. Sempre estou nesses festivais. Saí um pouco do meio restrito do violão. Estava interessado em outras possibilidades, o que me abriu a cabeça e foi muito útil para mim.

Violão+: Você lança coisas novas, obras em primeira audição mundial.

Qual é a sensação de apresentar algo nunca tocado antes?

Fazendo uma avaliação, não foram tantas obras assim. Na medida em que a minha cultura musical foi seguindo, percebi que havia feito muitas estreias no Brasil sem me preocupar muito com registros. O que me move, a princípio, é gostar da peça. Depois, se ela se encaixa em minha maneira de tocar. Levo muito em consideração isso. Às vezes, é uma peça muito boa, muito importante, mas não cabe na minha mão, não cabe na minha cabeça, aí não faço. Já fiz muita coisa também por encomenda, encomenda de festivais etc. Depois vejo se aquilo fica no meu repertório. Toquei também muito o repertório do Julian Bream aqui no Brasil pela primeira vez. Muitas obras do Leo Brouwer que nunca tinham sido tocadas

Niurka Gonzalez, Leo Brouwer e Edelton Gloeden,

(17)

aqui. Lancei obras do Francisco Mignone. Não tenho um levantamento exato do que estreei. O Eduardo Fernandez mandou uma obra agora para nós, voz e violão. Mas tem que passar pela identificação com a obra, ver o que a obra me oferece e a minha possibilidade de tocá-la.

Violão+: Você é professor da USP, que é o objeto de desejo de vários violonistas que vão para o curso superior. E está lá há bastante tempo, desde 1986. Você tem sentido alguma mudança no perfil dos candidatos às vagas de violão? O que mais mudou nesse tempo? O violonista chega hoje mais pronto?

Não vejo muita diferença entre os meus primeiros alunos e os alunos agora. Tive uma primeira classe de violão privilegiada quando entrei na USP: Camilo Carrara, Paulo Castagna, Cristina Azuma e Fabio Zanon. O que posso dizer é o seguinte: o processo seletivo da USP, às vezes, é muito injusto. Não há possibilidade de a gente escolher exatamente o que a gente quer. A gente perde muitos talentos no processo seletivo, ou seja, no vestibular. Tem a prova de aptidão antes, depois ele vai para a FUVEST, para as provas gerais. Muitos são barrados aí. A gente manda alunos para essa fase final da FUVEST, com notas altas ou notas médias. E quem entra são os que têm notas médias. Os reais talentos não conseguem muitas vezes. Também nosso processo não é perfeito: um aluno muito talentoso no vestibular, às vezes não corresponde tanto durante o curso, e o contrário também acontece. Alguns que não brilham tanto na prova de aptidão se revelam durante o curso, se mostram fantásticos, de grande

RETRATO

competência musical. Quem realmente quer seguir uma carreira como violonista e professor, já chega muito preparado para o vestibular. Tenho tido muita sorte com os alunos que aparecem e adoro trabalhar na graduação. Tenho ex-alunos que estão em grandes universidades e escolas de música, espalhados pelo Brasil. Outros estão fora do Brasil, Estados Unidos, Alemanha... Isso, sem interceder muito. Nunca fui de dirigir os alunos na carreira. Depois da graduação, eles têm que se virar (risos). E eles têm que ver isso já durante a graduação.

Violão+: Mas você sempre gostou de dar aulas...

Eu aprendi a gostar. Comecei a dar aulas muito cedo, aos quinze anos. Então, às vezes, era legal. Outras, muito penoso. Houve um momento da minha vida, em que eu estava no Conservatório do Brooklin, no início dos anos 1980. Lá, eu tinha um ambiente muito legal e uma grande liberdade para trabalhar. Então, comecei realmente a gostar de dar aulas. Um pouco depois dessa experiência,

(18)

18 • VIOLÃO+

já estava entrando na USP. E entrei lá muito motivado. É claro, a gente comete uns erros, é normal. As pessoas pensam: nossa, professor da USP, doutor... Mas a gente erra também e tem que correr atrás, o que também é uma forma de aprender. Voltando à época do Brooklin, foi quando comecei a correr o País trabalhando em festivais: Brasília, Ouro Preto etc.

Violão+: Os festivais são de uma importância fundamental para o desenvolvimento dos alunos em várias regiões do país.

O perfil dos festivais é bem diferente do que era há alguns anos. Antes, eles eram grandes, com duração de um mês. Os cursos pequenos que eram dados aqui em São Paulo eram de duas semanas. Hoje esses eventos são menores, em função de dinheiro, disponibilidade e tudo mais. Embora não pareça nada bom, acaba facilitando que surjam em vários pontos do Brasil. Naquela época, era só Porto Alegre. No Rio de Janeiro, havia o Concurso Villa-Lobos, que também mexia com o País e até com o exterior. Mas eram poucos. Hoje, temos mais eventos, de menor duração. Também temos a chegada do violão às universidades, que hoje tem um papel muito importante na formação do violonista. Há uma divulgação do instrumento. De norte a sul do país, os professores estão se movimentando, fazendo festivais mais curtos, trazendo gente de fora. Tudo isso é muito importante. Mas com esforço hercúleo.

Violão+: Você comandou o Festival Leo Brouwer, que foi enorme. Com

certeza, enormes dores de cabeça também. Para conseguir tudo aquilo, imagino o trabalho que deu...

Claro que isso não foi sozinho, é preciso montar uma equipe. O Festival Brouwer foi realmente muito interessante. O meu colega do Departamento de Música, Gil Jardim, regente, é meu conhecido desde a época de estudantes. E a gente pensava na possibilidade do Brouwer vir ao Brasil, o que era uma loucura, ainda mais em tempos de ditadura. Era impossível pensar uma coisa dessas. Um belo dia, o Franceschi, diretor do instituto Cervantes, e o Gil, que acabara de entrar na chefia do Departamento de Música da USP, me chamaram no corredor e falaram: “bola um festival, nós vamos trazer o Brouwer!”. A história começou desse jeito. O Franceschi foi diretor do Instituto Cervantes em Berlim e, depois, transferido aqui para São Paulo. É um cara que adora violão. Fez uma série no Instituto, trazendo vários violonistas espanhóis. Ocorreram quatro edições. Agora, estamos em compasso de espera, tomando fôlego para outros. Fui recentemente a Porto Alegre, em um festival organizado pelo Daniel Wolff, que é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foi um festival maravilhoso, internacional, de altíssimo nível. O que é bacana de ver é que esses eventos estão acontecendo. Também aqui em São Paulo, com a entrada do Gilson Antunes na UNICAMP, estamos fazendo um esforço para manter um intercâmbio entre as universidades, fazendo ações, a princípio no campo pedagógico, nos programas de graduação e pós. E um segundo momento, vamos abrir isso para o grande público. Essa é nossa ideia.

(19)

RETRATO

(20)

20 • VIOLÃO+

VITRINE

Ron Emory Loyalty

O violão utilizado pelo guitarrista da banda T.S.O.L., Ron Emory, traz acabamento em vintage sunburst dos anos 30 e corpo estilo Slope Shoulder Dreadnought com friso Herringbone. Com tampo em spruce laminado, fundo e laterais em mahogany laminado e braço em mahogany soft “V” shape, o instrumento ostenta headstock estilo 70’s e escala em rosewood com 25.3” (643 mm) com 20 trastes estilo vintage. Pride Music

www.fender.com.br

O violão Clássico Acústico GNC-115, comemorativo 115 anos, da Giannini, traz tampo em German Spruce maciço, laterais e fundo em Indian Rosewood maciço e escala em Ébano. As tarraxas

são clássicas douradas especiais com botões padrão ébano e o braço, em African Mahogany traz tensor bi-direcional. O instrumento tem acabamento em verniz brilhante e oferece

como acessórios case Luxo e umidificador. Giannini Instrumentos Musicais

www.giannini.com.br

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VITRINE

iRig Acoustic

O iRig Acoustic, da IK Multimedia, é primeiro microfone/interface mobile desenvolvido especificamente para violão acústico. O equipamento,

patenteado pela empresa, comporta um microfone tipo MEMS de padrão polar omnidirectional, resposta de frequência de 15 Hz a 20 kHz e

sensibilidade de -40dBv (1kHz, 94dB SPL) com SPL máximo de 130dB SPL e relação sinal ruído de 63dBA. Se prende à boca do violão por meio de um clipe emborrachado e possui monitoração e saída de linha embutidas para se conectar diretamente a iPhones, iPads, iPod touchs, e demais equipamentos Mac e Android. O iRig Acoustic vem com o aplicativo parceiro AmpliTube® Acoustic - o primeiro desenhado especificamente para violão, performance ao vivo e gravação - que vem carregado com novos equipamentos acústicos.

Soundix Brazil

(22)
(23)

Por Luis Stelzer

Personalidade

Lapidada

O violonista e compositor

gaúcho Yamandu Costa é a

síntese de muitos estilos,

do choro à música erudita,

criando interpretações de muita

personalidade no violão 7 cordas

(24)

24 • VIOLÃO+

yamandu costa

Yamandu Costa: arroubos interpretativos

Nascido em Passo Fundo, em 1980, e considerado um prodígio do violão,

Yamandu Costa começou a aparecer em

shows e programas de TV aos 7 anos, ao lado do pai, Algacir Costa. Nascido em meio musical, viajando desde bebê no ônibus do grupo regionalista Os Fronteiriços, aprimorou-se com Lúcio Yanel, virtuoso argentino radicado no Brasil. Até os 15 anos, sua única escola musical era a música folclórica do Sul do Brasil, Argentina e Uruguai. Aos 16 anos mudou-se para São Paulo e em 2001 conquistou o Prêmio Visa de Música Daí, foi para o Rio de Janeiro, transformando-se em sensação nos bares do bairro boêmio da Lapa.

Yamandu hoje se apresenta regularmente com importantes grupos orquestrais da atualidade, atuando ao lado de regentes consagrados como Kristjan Jarvi, Kurt Mazur e Roberto Minkzuc, entre outros. Além disso, possui extensa e variada

discografia e trabalhos com luminares da música brasileira, como Dominguinhos e Paulo Moura. Yamandu é hoje uma das maiores referências mundiais do violão 7 cordas e inspiração para a jovem geração.

VIOLÃO+: Como surgiu o gosto pelo violão?

Yamandu – O violão é um instrumento

caseiro. Meu pai tocava muito bem. E era todo cuidadoso com o violão dele. Então, ele guardava bem o instrumento, não deixava criança chegar perto, por ter todo um respeito por aquele objeto que ele gostava tanto. Chegou um cara na minha casa, eu tinha uns 4 anos, chamado Lucio Yanel, argentino, que tive a sorte de ter no convívio familiar. Foi o cara que me inspirou a tocar violão. Ele tinha uma personalidade tão forte tocando e tanta generosidade que, quando eu o vi tocando, me dei conta que eu queria fazer aquilo. Queria pelo menos entender

(25)

yamandu costa

aquela linguagem. Aí, foi uma coisa meio sem volta. Desde muito pequeno, 4 ou 5 anos, eu já sabia o que queria fazer. Nunca tive dúvida alguma a esse respeito. Então, o foco foi esse: com 5 ou 6 anos, comecei a pegar o instrumento e não larguei até hoje. Digamos, é outra maneira que tenho de me comunicar, através do violão, da música.

VIOLÃO+: Até a sua adolescência, seu

contato musical foi mais com o que se tocava no Sul do Brasil e nas fronteiras. Como se deu a abertura? Que outros estilos você ouviu, do resto do Brasil e de outros lugares do mundo?

Yamandu – Meu pai era um cara que

gostava de tudo. Eu ouvia, desde pequeno, o folclore da música argentina, especialmente músicas do norte da Argentina. Foi o que mais me chegou, desde criança. Mas meu pai adorava jazz, música clássica, nos mostrava o choro. Ele fazia questão de tocar choro. Não tocava por profissão, mas porque gostava. Ele falava: meu filho, se você quer tocar música brasileira, tem que conhecer o choro, tem que conhecer a música do nordeste, tem que conhecer a linguagem do frevo. Meu pai era um cara muito aberto nesse ponto. Essa curiosidade de ouvir muitas coisas e querer tocar, herdei dele. E música de fora do Brasil também. Saí um pouco do Brasil e comecei a gostar muito de música cigana, a música das fronteiras da França e da Alemanha... Música cigana em geral, música improvisada. A improvisação é uma coisa que nasce da cultura popular, não é algo que você pensa: ah, vou fazer isso agora. Faz parte de um ambiente de vida musical.

Minha vida musical proporcionou muito esses contatos. Minha família toda tocava em bailes pelo interior do Brasil, especialmente no Sul. Nesse trabalho, a improvisação já é natural. Você é obrigado a dar o seu jeito. Assumi a guitarra dessa banda, guitarra elétrica mesmo, aos 9 anos Então, tive que aprender todo aquele repertório meio de supetão. Eu estava cumprindo uma função familiar ali. Ajudando a família a viver daquele ofício, daquela maneira. Então, senti certa facilidade para entender como funcionava aquilo, e fiz essa função por bastante tempo. Então, a improvisação, diferentemente de muita gente que teve chance de estudar ou

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26 • VIOLÃO+

que teve a oportunidade de escolher, no meu caso, foi uma necessidade. De vez em quando, chegava um doidão na noite, eu estava tocando num bar, ele saía cantando, nem perguntava... Eu estava virando músico da noite e acompanhava o cara do jeito que conseguia, ou até o ponto que conseguia. A cultura da improvisação, normalmente, veio da cultura popular, uma vez que você tem que dar o seu jeito de convencer o povo que está te vendo ali.

VIOLÃO+: Isso te ajudou a ser mais

maleável do que um músico que aprende improviso na escola, por exemplo?

Yamandu – Sem dúvida! É outra

maneira de fazer música. Este show, por exemplo, que estou fazendo hoje com o violinista Ricardo Herz (o show ocorreu no SESC Pompeia, em São Paulo, no início do mês de novembro): a gente se encontrou há dois dias, discutimos um monte de coisas, fiquei aprendendo as músicas dele e ele, algumas das minhas. Isso é uma coisa muito bacana: poder fazer assim, ter essa compreensão da linguagem popular, da harmonia da música popular e, rapidamente, decodificar as coisas e ter essa gama de trabalhos. Nunca contei, mas tenho diversos duos com outros músicos. A quantidade é quase infinita, de trios, de quartetos. Meu leque de informações musicais é enorme, graças a essa escola. E é muito legal: você não cansa, está sempre mudando. Tenho uma vida muito dinâmica. Sexta-feira vou estrear uma obra para violão e orquestra que o compositor contemporâneo Vagner Cunha escreveu para mim, para estrear lá no Sul. É muito legal isso, hoje fazendo um show com muito improviso, semana que vem estrear uma peça com orquestra, que é outra coisa, outra forma de estudar, outro tudo. Logo depois disso, volto para casa, faço as malas e vou para a Europa, fazer quatro ou cinco concertos. Há os festivais de violão, que é outro ambiente. E também encontros de jazz. Também toco o repertório solo que faço. É uma oportunidade de ter uma vida muito interessante. Não tem aquela repetição de repertório, não vira uma coisa burocrática. É uma forma de você estar sempre se reinventando, sempre aprendendo coisas novas. Penso que isso é um privilégio.

Refinamento: erudito como caminho

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VIOLÃO+: Você tem duos memoráveis,

extremamente difíceis do ponto de vista técnico. Posso citar, entre tantos, um com o Hamilton de Holanda. É de um refinamento impressionante, a gente custa a acreditar que tudo aquilo acontece com menos de seis meses de ensaio. E você me diz que são poucos dias...

Yamandu – A vivência do popular!

Acredito que esse desequilíbrio que existe entre as duas escolas (o erudito e o popular) é uma perda de tempo, que prejudica todo mundo. Tanto de um lado quanto do outro. É uma divisão que não deveria existir. Me casei com uma violonista francesa, Elodie Bouny, que é de formação clássica, tradicional. Ela teve acesso a grandes professores na França. Tem essa formação do conservatório. A gente está aprendendo a se ajudar nesse aspecto. Quando ela chegou ao Brasil, tinha essa fobia do

palco e da plateia, muito comum dentro da escola de música erudita. Quando começou a se relacionar comigo, relaxou muito neste ponto e viu que tocar pode ser uma coisa mais leve. Ao mesmo tempo, aprendi a estudar violão com ela, de outra maneira. No ano passado, toquei o Concerto de Aranjuez, de Joaquin Rodrigo, no Canadá. E não gostei da minha performance. Corri demais dentro dos andamentos. É uma coisa muito natural para o músico popular tocar na frente. Mas não nessas ocasiões. Ela me ensinou a estudar direito. Pela primeira vez na vida, estudei com metrônomo! E aprendi que essa maneira de estudar é muito rica. Com o metrônomo, se encaixam as mãos, a conexão das mãos. Ele te dá um respiro rítmico muito mais expressivo, ou seja, te coloca no lugar. Isso, aprendi agora, uns meses atrás. Então, acredito que são escolas que não se comunicam bem, tanto uma quanto a

Improvisação: herança do popular

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28 • VIOLÃO+

outra. Eles são muito duros e nós, muito descuidados com o acabamento das interpretações. O futuro que podemos esperar é a mistura dessas escolas. Quando a gente conseguir misturar esse cuidado, essa perfeição técnica, esse apuro, até o cuidado de como lixar as unhas, de pensar em um som redondo, na emissão desse som, todo o acabamento que essa escola proporciona, com o relaxamento, a descontração e o conhecimento harmônico prático que só o popular proporciona, vai ser outra etapa da interpretação na música.

VIOLÃO+: Quais os violonistas que mais

te influenciaram? E que músicos não violonistas você admira?

Yamandu – Baden Powell, por exemplo,

inspiração total. O Lucio, que foi o primeiro, continua sendo o meu grande mestre. Independentemente da sorte que tive de conviver com ele dentro de minha

casa, a qualidade dele como violonista e músico é fantástica. Uma personalidade viva, aperta as notas no traste, ele já te ganha antes de começar a tocar, de tão forte que é a personalidade dele. Raphael Rabello, grande, grande mestre. Minha meta como violonista brasileiro é chegar à propriedade de tocar daquele jeito, do domínio da linguagem brasileira que ele alcançou, no samba, no choro, nos ritmos que representam o país, de uma maneira geral. E outros caras internacionais: o Django Reinhardt, belga-francês que foi revolucionário nas décadas de 1930/40, criou uma linguagem que não morre, que não vai morrer. Criou uma maneira de tocar. Paco de Lucía, grande mestre, que tive o prazer de conhecer. Ele foi assistir a um concerto que fui fazer em Porto Alegre. Tê-lo na plateia foi demais. Era um cara super-humano... Muita gente me influencia, inclusive compositores. Ando num namoro muito grande com

Raízes: música do Sul

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um compositor colombiano, falecido recentemente, chamado Gentil Montanha. Incrível! É muita gente mesmo. Augustin Barrios, paraguaio, incrível também. São muitas influências. Estou querendo gravar um disco tocando esse repertório latino-americano, que a gente conhece pouco e que é a produção dos nosso vizinhos, que é uma escola maravilhosa.

VIOLÃO+: Você trabalhou com muitos

gênios que, infelizmente, já nos deixaram. Um deles foi o Dominguinhos. Como foi trabalhar com ele nessa combinação violão e acordeon?

Yamandu – Independentemente do

instrumento, o Dominguinhos era um músico fora de série. Ele tinha uma maturidade... E, pelo jeito, teve essa maturidade bem cedo. Parece que tem cara que já nasce meio pronto. Foi o cara que mais me ensinou sem falar nada, só mostrando, só tocando. No convívio com ele, você já percebia muita coisa, A generosidade com que ele tocava. Era uma grande alma, um entendimento de que a música é compartilhada. Mesmo quando se está sozinho, que a plateia esteja ali e que consiga se conectar com você através da música que você está querendo passar. É uma linguagem de aproximação. O Dominguinhos fazia isso naturalmente. Era um fio de luz aberto, com toda aquela carga emotiva dele. Tinha um peso espiritual muito grande. A música era uma libertação pela qual ele passava toda essa tristeza alegre que tinha.

VIOLÃO+: Você só usa violões acústicos?

Não se tem notícia de show do Yamandu com violão com captadores...

Yamandu - Olha esse som.. (tocando o

violão ao som dos microfones do palco do SESC Pompeia) Violão! Peguei um violão (tenho uma coleção) e mandei colocar um captador, que tivemos a honra do grande Paulo Bellinati instalar, chamado Carlos Juan. Só em último caso eu uso, quando vou tocar em lugares abertos, onde não existam condições de utilizar microfones... Este som é uma delícia (toca de novo o violão), em um teatro maravilhoso, com um técnico de som maravilhoso... Tudo certo, assim é que eu gosto. Agora, se vamos tocar num lugar sem essas condições, não tem jeito. Tem que plugar. O captador vai tentar fazer essa função. Então, pedi para o Paulo colocar esse captador em um violão meu.

VIOLÃO+: E esse violão 7 cordas que

você tem na mão, de onde vem?

Yamandu - Este é um violão canadense,

que tenho usado nos últimos quatro anos, de um luthier chamado Will Hamm. Fui tocar com a Orquestra Sinfônica de Calgary, que é na região britânica do Canadá. Também fui para dar um workshop, junto com o Hamilton de

Cumplicidade: Elodie Bouny

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30 • VIOLÃO+

Holanda. Fizemos uma masterclass para uma plateia especializada em música. Esse cara apareceu. Veio mostrar pra gente um bandolim, um bouzouki e um violão de seis cordas, de que gostei muito. Fiz um acordo com ele: “olha, cara, posso te pagar tanto, quero um violão assim, assim e assim, com a escala indo até o ré. (normalmente, o violão vai até o si – ele toca a nota, sai perfeita e cristalina). O braço tem que ser um pouquinho levantado...” Enfim, dei todas as características a ele. Queria um violão agressivo, brilhante, o que é o mais difícil no violão, pois o grave é mais fácil. Preciso de um bom sustain. Encomendei um violão com tampo de cedro. Uns oito, nove meses depois, veio ao Brasil. Ele já tinha uma conexão muito grande aqui, pois já tinha morado na Amazônia, tinha construído um barco... O cara é muito doido! Independentemente dos instrumentos que faz, é uma pessoa muito interessante. Vem uma vez por ano, pelo menos, ao Brasil, traz instrumentos. Ele fez uma tranca, uma emboscada, que luthiers às vezes fazem com a gente. Encomendei um violão de cedro. Ele chegou em casa com um de cedro e um de abeto. Dois! E me falou: “agora, você escolhe”. Isso é uma sacanagem, uma grande sacanagem. Quero os dois, respondi. Fizemos um acordo e essa parceria começou, que agora está virando uma série de violões com meu nome, minha assinatura, para o mercado internacional. Já tenho uma assinatura aqui no Brasil, com um luthier chamado João Scremin, que faz violões ótimos, que uso muito. Um violão muito bom, mesmo. Então, são esse violões que eu uso, os do Will e os do João.

Bobby McFerrin Orquestra de Câmara Theatro São Pedro Hamilton de Holanda Lúcio Yanel

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32 • VIOLÃO+

história

Apesar das semelhanças entre o violão e a vihuela de mano quanto ao formato do corpo e número de ordens – violão seis cordas simples e vihuela seis cordas em pares - há diferenças que geram abordagem técnica e musical distintas

Mão direita na

vihuela

Por Rosimary Parra

Na técnica do violão clássico, a posição básica da mão direita é perpendicular às cordas. O polegar se posiciona um pouco à frente do indicador. São utilizadas diversas combinações de dedilhados em fórmulas de arpejos com polegar, indicador, médio e anular, e em passagens mais escalísticas utiliza-se muito as combinações entre indicador/ médio e médio/anular, além das diversas fórmulas de trêmulos dentre outras. O uso da unha é praticamente definido como um elemento técnico para a projeção do som além de permitir sutilezas na variação de timbres. Ainda há a possibilidade do toque com apoio e sem apoio.

A técnica da mão direita utilizada na vihuela segue muito da técnica do alaúde renascentista: a mão posiciona-se lateralmente nas cordas, com certo apoio do dedo mínimo no tampo, e o polegar coloca-se para dentro da mão. Tal posicionamento é conhecido como “figueta”.

Nesta técnica trabalha-se basicamente com duas fórmulas de combinação dos dedos: uma de caráter binário, alternando polegar-indicador, e outra de caráter ternário, alternando polegar-indicador-polegar.

Para peças com uma só linha melódica como, por exemplo, música de dança ou aquelas com características mais

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improvisatórias, estas fórmulas funcionarão como se estivéssemos tocando com um plectro (tipo de palheta), influenciando muita na articulação.

No decorrer do Renascimento as obras para alaúde e vihuela foram ganhando novas texturas na construção musical. O repertório deste período abordará peças com textura melódica, passando por obras que alternavam entre trechos mais melódicos e outros mais contrapontísticos e ainda obras totalmente contrapontísticas.

Isto implicará em algumas modificações na técnica da mão direita quanto ao posicionamento do polegar e às fórmulas descritas acima, em função do repertório que será tocado.

Quanto ao posicionamento do polegar, são conhecidos os termos: “figueta castellana” – o polegar se posiciona mais para fora da mão - e “figueta extrangera” - o polegar se posiciona para dentro da mão.

O repertório para vihuela tem como base a polifonia contrapontística ou seja, um entrelaçamento de linhas melódicas, sendo que cada uma delas tem expressão própria.

Mais especificamente, para tocar

esse repertório será necessária uma combinação da técnica básica do alaúde com outros elementos mais próximos à técnica usada para a família das guitarras (guitarra barroca, romântica e violão).

Nos livros de vihuela, para passagens melódicas são descritas as fórmulas “dos dedos”- que alternam indicador e médio - e “dedillo” - usando o dedo indicador como um plectro.

Normalmente, não é recomendado o uso das unhas para tocar instrumentos antigos com cordas duplas porque elas geram maior dificuldade para sentir as duas cordas e tocá-las simultaneamente com boa sonoridade. No entanto, é possível usar unhas curtas que possibilitem trabalhar bem em instrumentos de cordas duplas, desde que se ajuste o posicionamento da mão evitando o atrito da unha na corda e ouvindo com muita atenção o som resultante. Isto vale para quem queira trabalhar com os instrumentos antigos e com o violão.

Bibliografia

COELHO, V.A. Performance on lute, guitar and vihuela: Historical Practice and Modern Interpretation. New York: Cambridge University Press, 1997.

DAMIANI, Andrea. Metodo per liuto rinascimentale. Bologna: UT ORPHEUS EDIZIONI, 1998

história

Posição da mão para tocar notas simultâneas Posição da mão para uso do i-m

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Esse belo instrumento é conhecido por representar a música tradicional grega e acompanhar bailes e canções, sem deixar de ter papel importantíssimo em execuções de caráter instrumental

Curiosamente, o bouzouki (do turco, buzuki: “quebrado” ou “modificado”) – associado ao momento glorioso do filme “Zorba, o Grego”, quando Anthony Quinn dança ao som da música tema –, não é um instrumento camponês. Mesmo tendo origem bastante antiga, seu ápice aconteceu nas cidades, entre meados do século XIX e princípio do século XX, com a música rebetika. Tal gênero musical se compara ao tango, ao fado, ao blues e ao cante jondo do flamenco, sendo seu berço o baixo mundo da boemia, nos prostíbulos e cárceres, onde o bouzouki, esse instrumento da noite, incitava as pessoas à dança e ao namoro no compasso de um bom vinho.

Na Antiguidade

Chamado panduris ou pandurión, o bouzouki é o primeiro instrumento de que se tem registro com trastes ou casas e o primeiro instrumento de corda temperado, precursor de uma das famílias do alaúde que existe até hoje. Também

Bouzouki

(μπουζούκι)

era conhecido como tricórdio, pois apresentava, originalmente, três cordas duplas, sendo a afinação mais comum Ré-Lá-Ré.

Há registros do bouzouki nos relevos de mármore (século IV a.C.) expostos no Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Neles, o sátiro Marsias desafia Apolo para um embate musical e uma musa aparece tocando panduris. Durante o Império Bizantino (séculos V ao XV a.C.), o bouzouki recebeu

o nome de tamburas. O tambur turco moderno é igual ao panduris grego antigo.

34 • VIOLÃO+

(35)

mundo

Giorgos Zampetas

Os bouzukis tetracordes surgiram posteriormente à Segunda Guerra Mundial. Não se sabe quem colocou o quarto par de cordas no instrumento, mas a história atribui a mudança ao compositor grego Manolo Chiotis (1920-1970), considerado um dos maiores solistas do instrumento.

Curiosidade

Existe, também, o bouzouki irlandês, menos oval na parte posterior se comparado ao grego, mas muito parecido com ele. Reza a lenda que a explosão do vulcão de Santorini arrasou a cultura da civilização minoica na ilha de Creta e espalhou cinzas que alcançaram a Irlanda. Será que, como Fênix, o bouzouki se juntou às cinzas do Santorini e ressurgiu na Irlanda, para brilhar na música celta com seu som característico

e, assim, se lançar ao mundo? Andreas Karantinis

Afinação

O bouzouki de quatro pares de cordas segue as notas Dó-Fá-Lá-Ré (sendo este continuação do Dó central). Recentemente, alguns intérpretes têm afinado seus bouzoukis um tom acima, na sequência Ré-Sol-Si-Mi, afinação mais comum para as primeiras quatro cordas do violão.

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36 • VIOLÃO+

de ouvido

Um pouco de

saber

Espero que tenham feito o exercício proposto na edição passada, de reconhecer sons à sua volta. Às vezes, dormimos e desistimos, de tão relaxados que ficamos – mas, com o tempo, tudo vai ficando tranquilo e interessante. É impressionante como, de início, não ouvimos certos sons e chegamos a pensar que o gravador possui maior sensibilidade de captação. Na verdade, podemos treinar nossa sensibilidade.

Os sons muito fracos, em pianissíssimo (ppp, do italiano, denomina um som ou um grupo de sons com muito pouca intensidade, como se estivessem ao longe), vão sendo percebidos conforme avançamos no treinamento. É importante cuidar dos ouvidos, não se expondo a estrondos e ruídos fortes, vindos das ruas, dos nossos aparelhos de som. Algumas pessoas sentem dor física quando expostas a sons de amplitude muito alta, acima de 80 dB (decibéis). Som é a sensação auditiva que temos das vibrações rápidas que certos corpos sonoros produzem. Se pegarmos uma fina lâmina e a prendermos numa morsa, fazendo com que saia da condição de repouso e produza movimentos de ir e vir, será possível ouvir o som natural, básico e fundamental da lâmina, produzido pelo somatório do material do qual é constituído, sua elasticidade, peso, densidade, tamanho e outras particularidades menos importantes.

Isso provoca oscilações constantes, e, assim, obtemos um tom, que significa som de altura definida. No Brasil chamamos, erroneamente, o tom de nota musical, pois esta é o tom “anotado” em pauta. Se encontrássemos meios para fazer a vibração aumentar em número maior de oscilações por segundo – o que se refere à frequência do som – perceberíamos o deslocamento do grave para o agudo. Então, podemos dizer que mais agudo se torna o tom, quanto maior a sua frequência. Um tom de 400 hertz (400 Hz, ou 400 oscilações por segundo) revela-se mais grave do que um tom com 950 Hz.

Reinaldo Garrido Russo

www.musikosofia.com.br [email protected]

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de ouvido

Saber importante

O tom A (lá) mais grave de um piano com 88 teclas repete-se a cada vez que dobramos sua frequência. Temos a exata percepção de tratar-se do mesmo tom, mas em alturas diferentes, cada vez mais agudo. Repare que o piano possui vários tons de A (lá).

Observe na tabela abaixo:

Pode-se dizer que cada tom de Lá, na tabela, está separado por uma ou mais oitavas de seus vizinhos.

Vamos retroceder um pouco

A partir de agora, chamaremos os tons de notas – mesmo sabendo não ser um termo adequado. Assim, evitaremos confusões relacionadas à terminologia usada no Brasil – o que será explicado quando compararmos esta à usada na língua inglesa.

Oitava refere-se à nota repetida abaixo ou acima de uma nota dada. Chama-se oitava porque contamos oito notas na régua musical tão conhecida:

Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá Si, Dó

Conte quantas notas existem de Ré3 até Ré4. Se você contou, por meio da régua musical, oito notas – considerando o Ré3 como a número 1 –, você acertou. Podemos expressar tecnicamente:

• A-2 está a duas oitavas distante de A1 – é mais grave em duas oitavas.

• A3 está a quatro oitavas distante de A-2 – é mais aguda em quatro oitavas.

• A1 está a três oitavas abaixo de A4 – sendo válido dizer que é mais grave em três oitavas.

Exercício básico 2

Grave em seu celular sons que você considere com frequência constante, tons, que chamaremos de notas musicais. Pode ser o som de uma buzina, de uma máquina trabalhando, assobiando com frequência constante ou o ronco de um motor. Qualquer som que você perceba

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38 • VIOLÃO+

possuir certa semelhança com os sons produzidos por instrumentos musicais. Alguns sons se mesclam com ruídos e você poderá ficar confuso quanto à altura.

Altura?

Altura é a primeira propriedade que percebemos no som de frequência constante. O som de frequência constante, que chamaremos de nota musical, ou simplesmente nota, pode ser: gravíssimo, grave, médio grave, médio, médio agudo, agudo, superagudo. Nada como um instrumento musical para entendermos essa relatividade.

Em casa, com serenidade, tente descobrir onde as notas gravadas estão na escala de seu violão.

Anote o número da corda e da casa da seguinte forma: E1 – corda mi solta (0): 60 – corda 6, casa 0

A3 – lá na corda 1 e casa 5: 15

de ouvido

Exercício de atenção

Após ler o artigo até o final, responda com V se a sentença for verdadeira e com F se for falsa. As respostas estão no fim do artigo.

( ) Um tom de 440 Hz é mais grave do que um tom de 880 Hz. ( ) Um tom de 1.150 Hz é mais grave do que um tom de 4.580 Hz.

( ) Um tom de 1 quilohertz (1 kHz) é mais agudo do que um tom de 2.000 Hz (sabendo que 1 k é igual a 1.000 Hz).

( ) Um tom de 2 kHz é mais grave do que um tom de 1.200 Hz.

( ) Um tom de 20 kHz, sonoramente, é ouvido como um som mais grave do que um tom de 30 kHz.

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O primeiro dígito varia de 1 a 6 e refere-se à corda.

O segundo dígito refere-se à casa e varia de 0 (corda solta) a 19 (a última casa de alguns violões).

Para facilitar o entendimento dessa escrita, vamos escrever todos os sons do acorde de C (Dó Maior), da figura abaixo, do grave ao agudo, com os números de dois dígitos que representam os sons no violão.

Os nomes dessas notas serão treinados na próxima edição, portanto, não se preocupe com isso agora.

Teremos, do grave ao agudo: 60; 53; 42; 30; 21; 10 Veja, na figura abaixo, alguns detalhes:

• Começamos a perceber auditivamente, a partir de 20 Hz, o som mais grave.

• Deixamos de perceber, a partir de 20.000 Hz, o som mais agudo.

• Abaixo de 20 Hz, a denominação é infrassom. • Acima de 20 kHz, a denominação é ultrassom.

• Acima de 5.000 Hz fica cada vez mais difícil perceber com exatidão a altura do tom.

• Descendo, abaixo de 60 Hz, fica cada vez mais difícil perceber a altura com precisão, até deixarmos de ouvir em, aproximadamente, 20 Hz.

• A3 é o tom do diapasão segundo o Congresso Mundial (Londres, 1939) A3= 440 Hz

• C7 de 4.186 Hz é a nota mais aguda de um piano com 88 teclas.

• A-2 de 27,50 Hz é a nota mais grave de um piano com 88 teclas.

Na próxima edição, você verá a relação de altura do som entre o piano e o violão. Até lá!

Respostas do exercício de atenção: V, V, F, F, F*

*A última frase é falsa, pois não temos percepção dos tons acima de 20 kHz.

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40 • VIOLÃO+

como estudar

Traslado da

mão direita

Por conta de diferenças anatômicas e habilidades inatas – e também, da compreensão que cada músico tem de determinada obra musical -, é muito comum observar que, em uma mesma peça, cada indivíduo pode encontrar alguma dificuldade técnica para resolver determinado trecho. E a resolução desse trecho pode ser simples para alguns e extremamente difícil para outros. Muitos métodos tratam de algumas questões técnicas (por exemplo, mão esquerda), oferecendo uma série de exercícios de escalas e acordes que, na maioria das vezes, não resolvem determinado problema por falta de compreensão dos diversos fatores que envolvem a movimentação dos dedos.

Traslado da mão direita (transversal e longitudinal)

De maneira geral, é o movimento que a mão direita faz no sentido da 6ª corda (mi) para a 1ª corda (mi) e vice-versa. A situação em que esse movimento ocorre de forma mais evidente, são nas escalas ascendentes ou descendentes.

Exemplo:

Breno Chaves

[email protected]

Movimento: Para que esse movimento da mão direita aconteça da forma mais natural possível (sem entorse do pulso e mudança do ângulo de ataque nas cordas) é necessário que o braço faça o movimento. Nesse caso, a mão fica subordinada ao movimento do braço sem modificar o ângulo de ataque nas cordas.

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VIOLAO BRASILEIRO

Como eu toco

este samba?

Se você ainda não se deparou com essa situação, aguarde. Seu dia ainda vai chegar. Você aprendeu a tocar vários sambas e está feliz da vida. E com razão, afinal, sabemos que o samba tem lá seus “mistérios” e não é um estilo fácil. Como disse Joyce Moreno, muito apropriadamente, na canção Receita de Samba, “Pra se fazer um samba, você tem que gostar (...) No samba tem que estar do lado, o segredo é o sabor do refogado e a malícia que a gente dá.” Então, você vai tocar outro samba e, de repente, percebe que o ritmo simplesmente não se encaixa, que falta sincronia entre o que você canta e o que você toca. Faltou a malícia da qual Joyce falou? O tempero? Se você não sabe o que aconteceu, talvez eu possa responder: chegou seu dia.

Chegou seu dia de saber que determinados sambas começam de maneira diferente em relação ao ritmo. Isso, segundo Tom Jobim e Newton Mendonça, é muito natural. Apesar de o samba ser escrito como ritmo binário (dois tempos), o tamborim tem uma célula rítmica que dura quatro batidas, ou dois compassos, e no violão é exatamente a célula do tamborim que usamos para tocar as cordas agudas, enquanto o polegar imita o surdo nos baixos. Assim, o padrão rítmico se repete a cada dois compassos, como na Figura 1.

Figura 1

Repare que o ritmo do tamborim é diferente em cada compasso.

Renato Candro

www.renatocandro.com www.learningbrazilianguitar.com

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42 • VIOLÃO+

Figura 4

VIOLAO BRASILEIRO

~

Escrevendo para o violão (Figura 2), temos:

Figura 2

A maneira como um samba é composto define por onde começamos o ritmo, se pelo primeiro ou pelo segundo compasso. A Figura 3 mostra o ritmo do samba começando pelo primeiro compasso (relativo aos exemplos anteriores), como acontece na maioria dos sambas. A Figura 4 mostra o ritmo começando pelo segundo compasso, o que, apesar de mais raro, acontece. Observe que, quando temos dois acordes por compasso, a mudança dos mesmos ocorre antecipadamente, em dois pontos do ritmo. As linhas tracejadas demarcam o ponto de início e a duração de cada acorde.

Figura 3

Se você tocar esses exemplos, facilmente perceberá que são duas situações completamente diferentes. Uma ótima dica para você entender como deve tocar um determinado

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VIOLAO BRASILEIRO

~

samba é prestar atenção em como a melodia se comporta. Se o samba é cantado, o posicionamento de determinadas sílabas tônicas pode indicar, claramente, de que maneira devemos começar o ritmo. Vamos usar duas ótimas músicas do Djavan como exemplos: “Flor de Lis” e “Serrado”.

Veja que, em “Flor de Lis”, a primeira sílaba tônica, “lei”, na frase “valei-me Deus”, é cantada antes do primeiro tempo do compasso. Isso indica que devemos começar o ritmo da maneira mais comum, quando o acorde se antecipa ao começo do compasso. Há vários pontos de coincidência rítmica, destacados pelas linhas verticais tracejadas.

“Flor de Lis” (Djavan)

Já em “Serrado”, a primeira sílaba tônica, “nhor”, na frase “Se o senhor me for louvado”, é cantada exatamente na cabeça do compasso. Então, devemos começar tocando o ritmo como na Figura 4. Repare nas coincidências rítmicas marcadas pelas linhas verticais tracejadas.

“Serrado” (Djavan)

Se você já passou por isso, espero que agora consiga entender o que pode ter acontecido e que esta lição seja útil para que você corrija eventuais descompassos entre melodia e ritmo. Se ainda não passou por essa situação, não se preocupe. Já cantava Zé Rodrix, em “Quando será o dia da minha sorte?”: Sei que antes da minha morte, eu sei

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44 • VIOLÃO+

siderurgia

Síncope

Os leitores que tiveram contato com nossa coluna nas edições anteriores de Violão+ devem ter percebido uma preocupação com a questão didática e evolutiva em relação à apresentação e desenvolvimento das aulas sobre o violão cordas de aço.

Na primeira, falamos do baixo alternado como um recurso de base nos arranjos de peças apropriadas para o instrumento. No número anterior, demos ênfase ao contratempo como um modo de imprimir maior dinamismo. Na presente edição, falaremos da síncope musical, um recurso rítmico expressivo e sofisticado que começou a ser largamente explorado no século XIV em um estilo musical da Europa denominado Ars Subtilior. Ao final, encerraremos a “saga” da música Mack the Knife, de Bertold Brecht e Kurt Weill, com um arranjo que procura incorporar todos os elementos abordados até aqui.

Definição

A síncope consiste no ato de valorizar um ponto débil em se tratando da acentuação de um determinado grupo rítmico ou até mesmo de um certo ponto de um compasso. O resultado musical é marcante e produz um efeito de suspensão em que a música transcorre com maior fluidez e leveza. Veja o Exemplo 1:

Walter Nery

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siderurgia

No exemplo anterior, as notas da melodia encontram-se antecipadas. Uma redução rítmica das mesmas produz um efeito de síncope interessante:

A seguinte variação também é bastante útil para os arranjos que utilizam a síncope:

No exemplo anterior, invertemos a sequência do baixo em relação ao Exemplo 2 para evitar paralelismos de oitava. Mesclando as ideias de contratempo e síncope na parte de acompanhamento podemos criar situações de grande interesse musical:

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46 • VIOLÃO+

siderurgia

Ou ainda:

A divisão do tempo das notas da melodia impõe um desafio ainda maior para o executante e um ganho de complexidade ao trecho musical:

Seguem assim o último arranjo de Mack the Knife, finalizando a sequência de arranjos desta canção que nos propusemos a implantar desde o primeiro número de Violão+. Um abraço musical!

(47)

“Mack The Knife”

(versão 2)

Bertold Brecht/Kurt Weill

Arranjo: Walter Nery

(48)

48 • VIOLÃO+

iniciantes

Acordes

E então? Como foi seu primeiro contato com o instrumento? Realizou todos os exercícios? Conte para nós quais foram suas impressões. Envie sua opinião e suas sugestões. Vamos dar continuidade aos exercícios com a técnica e o desenvolvimento da coordenação das mãos direita e esquerda, novos acordes em novas sequências e novas batidas. Dessa forma, ampliaremos gradativamente nosso repertório, aumentando as possibilidades de execução. Que tal aprendermos alguns acordes novos?

Instruções:

• G (Sol Maior): coloque o dedo 1 na corda 5 da casa 2; o dedo 2, na corda 6 da casa 3; o dedo 3, na corda 1 (também da casa 3).

• D7 (Ré Maior com sétima): coloque o dedo 1 na corda 2 da casa 1; o dedo 2, na corda 3 da casa 2; o dedo 3, na corda 1 (também da casa 2).

• D (Ré Maior): coloque o dedo 1 na corda 3 da casa 2; o dedo 2, na corda 1 (também da casa 2); o dedo 3, na corda 2 da casa 3.

• E7 (Mi Maior com sétima): coloque o dedo 1 na corda 3 da casa 1; o dedo 2, na corda 5 da casa 2; o dedo 3, na corda 4 (também da casa 2); o dedo 4, na corda 2 da casa 3.

Ficou confuso? Então, reproduza os desenhos ao lado no braço do violão e assista ao vídeo.

Ricardo Luccas

(49)

iniciantes

Seguem duas novas sequências, misturando acordes novos e antigos. Consulte os novos acordes acima.

Exercícios:

1) Mão direita. Arpejos sobre os acordes Am (Lá menor) e Em (Mi menor), aprendidos na edição anterior.

Referências

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