das mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Se você não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas a fim de que atravessemos o serão desta noite”. ¸ahråzåd respondeu: “Com muito gosto e honra”.
Contam, ó rei, que a jovem pronunciou umas palavras na lagoa e os peixes começaram a pular e chacoalhar-se. A seguir, ela desfez o feitiço que lançara sobre eles e de pronto o povo da cidade já estava em suas atividades de venda e compra e no leva-leva. Então ela ingressou no palácio, atravessou o pavilhão e disse: “Meu senhor, estenda-me sua mão gentil e levante-se”. O rei respondeu com palavras murmuradas: “Aproxime-se de mim”, e ela se inclinou. Ele continuou: “Aproxime-se mais”, e ela se aproximou até se encostar a ele: foi quando o rei se ergueu célere, achegando-se ao seu peito, e lhe desferiu com a espada um golpe que a cortou em duas, atirando-a ao chão assim cortada. Saiu e encontrou o jovem que estivera enfeitiçado parado a esperá-lo. O jovem saudou-o por estar bem e beijou a mão do rei, agradecendo-lhe e rogando por ele, que lhe perguntou: “Você prefere ficar em sua cidade ou vir comigo para a minha?”. O jovem disse: “Ó rei do tempo, soberano dos períodos e das eras, o senhor porventura sabe a que distância está de sua cidade?”. O rei respondeu: “Meio dia”. O jovem disse: “Ó rei, acorde. Entre a sua cidade e a minha
a viagem é de um ano inteiro. Quando o senhor chegou até nós em meio dia, a cidade estava enfeitiçada”. O rei perguntou: “Então, você vai permanecer em sua cidade ou vir comigo?”. O jovem respondeu: “Ó rei, eu nunca mais irei abandoná-lo por um só momento”. O rei ficou feliz com tais palavras e disse: “Louvores a Deus, que atendeu aos meus pedidos por seu intermédio. Você vai ser meu filho, pois durante toda a minha vida não fui agraciado com nenhum rebento”. E se abraçaram fortemente,[102] muito felizes. Depois caminharam juntos até o palácio, e o jovem rei distribuiu ordens aos principais do Estado e aos notáveis do reino, disse que estava de viagem e ordenou que se reunissem as coisas de que precisaria; os líderes e os mercadores da cidade trouxeram-lhe tudo e ele se preparou durante dez dias, ao cabo dos quais iniciou a viagem com o rei mais velho, o coração opresso por causa de sua cidade: como poderia ausentar-se dali durante um ano inteiro? Junto consigo viajavam cinquenta serviçais carregando cem sacos com presentes, joias, dinheiro e tesouros que ele possuía. Também pôs às suas ordens quantos criados e guias considerou necessários. E viajaram por dias e noites, tardes e manhãs durante um ano completo. Deus havia escrito que eles chegariam bem à cidade do rei velho; enviaram antes um emissário para informar o vizir da chegada do rei e de que ele estava bem. O vizir saiu então com todos os soldados e a maioria dos moradores da cidade para recebê-lo. Todo mundo ficou extremamente feliz depois de terem se perdido as esperanças de revê-lo. A cidade foi adornada e seu solo foi forrado com seda. O rei velho se reuniu com o vizir – depois que este e todos os soldados se apearam e beijaram o solo diante dele, saudaram-no por estar bem, rogaram por ele, entraram na cidade e o rei velho se instalou no trono – e o informou de tudo quanto sucedera com o jovem, deixando-o também a par do que fizera com sua esposa, e que aquele fora o motivo da salvação da cidade e do jovem, e igualmente o motivo de sua ausência por um ano. O vizir voltou-se para o jovem e felicitou-o por estar bem. Os comandantes, vizires, secretários e representantes instalaram- se cada qual em seu assento; o sultão distribuiu prêmios, fez concessões e foi generoso. Enviou um emissário atrás do pescador, que fora o motivo da salvação do rapaz e da população de sua cidade. O pescador veio e se colocou diante do rei, que lhe deu presentes e perguntou: “Porventura você tem filhos?”. O pescador informou-o de que tinha um filho e duas filhas.[103] O rei mandou convocá-los todos e se casou com uma das filhas, casando a outra com o jovem. Contratou o filho do pescador como responsável por seu guarda-roupa. Em seguida, nomeou o vizir sultão da cidade das Ilhas Negras, enviando-o para lá, após o juramento, junto com os cinquenta serviçais que haviam vindo com eles. Enviou mais muita gente com o vizir e distribuiu vários presentes e joias para todos os comandantes e mestres de ofício. O vizir despediu-se beijando-lhe a mão e partiu em viagem. O sultão e o jovem ficaram juntos, e o pescador se tornou um dos homens mais ricos de seu tempo, com as filhas casadas com reis.
E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. D∑nårzåd disse: “Como é agradável e admirável esta sua história, maninha”. Ela respondeu: “Isso não é nada comparado ao que vou contar-lhes na próxima noite, se eu viver e o rei me preservar”.[104]
28ª
noite das histórias das
mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos uma de suas belas historinhas”. ¸ahråzåd respondeu: “Com muito gosto e honra”.
O CARREGADOR E AS TRÊS JOVENS DE BAGDÁ
Eu tive notícia, ó rei venturoso, de que um morador da cidade de Bagdá era solteiro e exercia a profissão de carregador. Certo dia, estando parado no mercado, encostado ao seu cesto de carga, passou por ele uma mulher enrolada num manto de musselina com forro de seda, usando um lenço bordado a ouro;[105] calçava botinas douradas[106] presas com cordão esvoaçante e polainas de laços também esvoaçantes. Ela parou diante dele, puxou o véu, debaixo do qual apareceram olhos negros, franjas e pálpebras longas com cílios cuidadosamente alongados;[107] suas partes eram delicadas e perfeitas suas características, conforme disse a seu respeito um dos que a descreveram:
“Sua cintura carregava um traseiro censurável, que tanto a mim como a ela oprimia:
eu, quando nele pensava, morria,
e ela, pelo peso, para levantar-se sofria”.[108]
A jovem disse, com palavras suaves e tom sedutor: “Pegue o seu cesto e me siga, carregador”. Ao ouvir tais palavras, ele mal pôde se conter e, tomando o baú, acorreu e disse: “Que dia de felicidade! Que dia de ventura!”, e seguiu atrás dela, que caminhou à sua frente até se deter diante de uma casa em cuja porta bateu. Apresentou-se então um velho cristão a quem ela deu um dinar, dele recebendo um jarro verde-oliva de vinho,[109] que ela depositou no cesto e disse: “Pegue o cesto, carregador, e me siga”. O carregador disse: “Muito bem. Que dia de felicidade! Que manhã de realização! Que manhã de alegria!”, e, carregando o cesto, foi atrás dela, que parou na loja de um verdureiro, do qual comprou maçã verde, marmelo turco, pêssego de Hebron, maçã moscatel, jasmim alepino, nenúfar damasceno, pepino pequeno e fino, limão de viagem, laranja real, mirta, manjericão, alfena, camomila, goivo, açucena, lírio, papoula, crisântemo, matricária, narciso e flor de romãzeira. Colocou tudo na cesta do carregador, que continuou a segui-la. A jovem se deteve no açougueiro e lhe disse: “Corte para mim dez arráteis de boa carne de carneiro”, e lhe pagou o valor. O homem cortou conforme ela pedira, enrolou tudo e entregou a carne a eles, que a colocaram no cesto junto com um pouco de carvão. Ela disse: “Carregador, pegue o seu cesto e venha atrás de mim”. Admirado, o carregador pôs-se a transportar o cesto sobre a cabeça. Ela o conduziu a um quitandeiro de quem comprou um conjunto completo de condimentos que continha ainda aperitivos defumados, azeitona curtida, azeitona descaroçada, estragão, coalhada seca, queijo sírio e picles adocicado e não adocicado.[110] Colocou tudo na cesta do carregador e lhe disse: “Erga o seu cesto e me siga, carregador!”, e ele assim fez. Saindo do quitandeiro, a jovem foi até o vendedor de frutas secas e comprou pistache descascado para usar como aperitivo, passas alepinas, amêndoas descascadas, cana-de-açúcar iraquiana, figos prensados de Baalbeck, avelãs descascadas e grão-de- bico assado. Também comprou todos os gêneros de petiscos e porções de que necessitava, depositando-os na cesta do carregador, para quem se voltou dizendo: “Pegue a sua cesta e me siga”, e ele levantou a cesta e caminhou atrás da jovem, até que ela se deteve diante do doceiro, de quem comprou uma bandeja cheia com tudo o que ele tinha: doces e pães ao modo armênio e cairota, pastéis almiscarados com recheio doce, bolos e confeitos como mãe-de-ßåli¬ amolecida, doce turco, bocados-para-roer, geleia de sésamo, bolos-de-Alma’mœn, pentes-de-âmbar, dedos-de-alfenim, pão-das-viúvas, bolinhos de chuva, bocaditos-do-juiz, coma-e-agradeça, tubinhos-dos-elegantes e quiosquezinhos-da-paixão. Ajeitou todas essas espécies de guloseima na bandeja e colocou-a no
cesto. O carregador lhe disse: “Ai, minha senhora, se você tivesse me avisado eu traria comigo um pangaré ou camelo para carregar comigo toda essa compra”, e ela sorriu. Avançando um pouco mais, deteve-se diante do droguista e comprou dez frascos de essência de açafrão, igual quantidade de essência de nenúfar e duas medidas de açúcar;[111] também pegou extrato de água de rosa perfumada, almíscar, noz-moscada, incenso, pedras de âmbar, castiçais para vela e outro tanto de archotes; enfiou tudo no cesto, virou-se para o rapaz e disse: “Erga o cesto e me siga, carregador”, e ele ergueu. A moça caminhou à sua frente até chegar a uma casa elegante dotada de um vestíbulo espaçoso, construção elevada, alicerces firmes, porta composta de duas lâminas de marfim cravejado de ouro cintilante. A moça se deteve diante da porta e bateu com delicadeza.
E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. Disse-lhe D∑nårzåd: “Como é agradável e bonita a sua história”, e ela respondeu: “Isso não é nada comparado ao que irei contar-lhes na noite seguinte, se eu viver e o rei mantiver a minha vida, que Deus prolongue a dele”.
29ª
noite das narrativas das
mil e uma noites
Na noite seguinte D∑nårzåd disse à irmã: “Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos uma de suas historinhas a fim de atravessarmos o serão desta noite”. ¸ahråzåd respondeu: “Ouço e obedeço”.
Eu tive notícia, ó rei venturoso e de correto parecer, de que, enquanto a jovem se detinha defronte da porta, o carregador, atrás dela com o cesto, ficou pensando em sua beleza e formosura, e na elegância, boa linguagem e bons modos que para ele tinham sido uma dádiva. Eis então que a porta se abriu e se descerraram as duas lâminas. O carregador olhou para quem abrira a porta e eis que era uma jovem de boa estatura, seios empinados, de formosura, beleza, elegância, perfeição e esbelteza; sua fronte parecia ter o brilho da lua cheia; seus olhos imitavam os das vacas selvagens e das gazelas; as sobrancelhas eram como a lua cheia do mês de Ωa¢bån;[112] as faces pareciam papoulas; a boca, o sinete de Salomão; seus labiozinhos vermelhos eram como ouro puro; os dentinhos, como pérolas engastadas em coral; o dorso, como uma torta oferecida ao sultão; o peito, como uma fonte com jatos d’água; os seios, como duas enormes romãs; a barriga tinha um umbigo que cabia meia medida de unguento de benjoim; e uma vagina que parecia cabeça de coelho com orelhas arrancadas, tal como dela dissera o poeta linguarudo:
“Olha para o sol e o plenilúnio dos palácios, e para sua alfazema e o esplendor de sua flor; teus olhos não verão, preto no branco,
tanta beleza reunida como em seu rosto e cabelo; de melenas avermelhadas, sua beleza lhe anuncia o nome, se acaso dela não tiveres mais notícia; quando ela se curvou, eu ri do seu traseiro,
assombrado, mas depois chorei por sua cintura”.
Quando o carregador bem a observou, ela lhe roubou os miolos e a razão e, quase deixando cair o cesto de sobre a cabeça, ele disse: “Jamais em toda a minha vida vi um dia tão afortunado quanto esse”. Então a jovem porteira disse à jovem compradeira:[113] “O que vocês estão esperando, minha irmã? Entrem logo por essa porta e dê alívio a esse coitado”. Então a compradeira entrou. Em seguida, a jovem porteira trancou a porta e foi atrás deles. Avançaram todos até chegar a um salão espaçoso, simétrico e elegante, dotado de colunas, arcadas, madeira entalhada, bandeiras, balcão, banquetas, armários e bufês cobertos com cortinas. No meio do salão havia uma grande piscina cheia de água em cujo centro estava uma barquinha; numa das pontas do salão havia uma cama de âmbar com quatro pés de zimbro cravejado de pérolas e gemas, e sobre a qual se estendia um mosquiteiro de cetim vermelho com botões de pérolas do tamanho de avelãs; como estivesse desabotoada, podia-se vislumbrar sobre a cama uma jovem de luminosa figura, agradável semblante, caráter filosófico numa aparência como a da lua, olhos babilônicos, sobrancelhas em forma de arco, silhueta na forma da letra alif,[114] hálito de âmbar, labiozinhos açucarados e cintura soberba. Ela fazia o sol iluminado se envergonhar, e parecia uma estrela brilhando no alto, ou um pavilhão de ouro, ou uma noiva desvelada, ou um peixe egípcio na fonte, ou um rabo de carneiro numa tigela de sopa de leite, tal como a seu respeito disse o poeta:
“É como se o sorriso fosse de pérolas engastadas, ou granito, ou cravo, cintura solta como a noite
e esplendor que faz corar a luz da alvorada”.
A terceira jovem levantou-se, desceu da cama e, avançando aos poucos, chegou ao centro do salão, junto às suas duas irmãs, e lhes disse: “Por que estão aí paradas? Deem algum alívio a esse coitado, façam-no descer esse cesto”. Então a porteira parou diante dele e a compradeira parou atrás; a terceira jovem ajudou-as e elas fizeram o cesto descer de sobre a cabeça do carregador e o esvaziaram; amontoaram as frutas e os alimentos condimentados de um lado e as substâncias aromáticas de outro, ajeitaram tudo, deram um dinar ao carregador e disseram...
E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. D∑nårzåd disse à irmã: “Como é agradável e assombrosa essa sua história”, e ela respondeu: “Se eu viver até a próxima noite, irei contar-lhes algo mais admirável e assombroso”.
30ª
noite das narrativas das
mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Maninha, continue para nós a história das três moças”, e ¸ahråzåd respondeu: “Com muito gosto e honra”.
Eu tive notícia, ó rei, de que o carregador, depois de ver as três moças e a beleza e graça com que o brindaram, e, constatando que elas não tinham um homem por detrás daquela grande estocagem
de vinho, carne, aperitivos, frutas, doces, perfumes e velas, além dos demais apetrechos para bebida, ficou muitíssimo intrigado e não fez nenhuma menção de se retirar. Uma das jovens lhe disse: “O que você tem que não vai embora? Já não recebeu sua paga?”, e, voltando-se para uma das irmãs, disse: “Dê-lhe mais um dinar”. Mas o carregador disse: “Por Deus que não, minha senhora! Não vou recebê-lo de jeito nenhum, pois minha paga não chegaria nem a dois dirhams. Sucede, porém, que a situação de vocês mexeu com a minha curiosidade: como é que estão sozinhas, sem nenhum outro ser humano com quem se entreterem, e sabendo, como vocês já sabem, que os banquetes não se fazem senão com quatro? Porém, não existe uma quarta pessoa morando com vocês. Ademais, a reunião que aos homens apraz não é senão com as mulheres, e às mulheres, não é senão com os homens. O poeta disse:
‘Acaso não vês quatro reunidos para o deleite? Harpa, alaúde, cítara e flauta,
aos quais correspondem quatro perfumes, o de rosa, de mirta, de anêmona e de goivo, que não se reúnem senão com outros quatro: vinho, juventude, amante e dinheiro’.
E vocês, que são três, estão necessitadas de uma quarta pessoa, e que seja homem”. As jovens ouviram-lhe as palavras, apreciaram-nas, riram e disseram: “E quem poderia nos acudir quanto a isso? Somos moças e a ninguém queremos revelar nossos segredos. Tememos entregar nossos segredos a quem não os preserve, pois já lemos em certas crônicas o que disse Ibn Attammåm,[115]
e foi o seguinte:
‘Preserva sempre o segredo: a ninguém o confies, pois quem confia o segredo já o perdeu.
Se em teu peito não cabe o teu segredo,
como poderia ele caber no peito de um outro?’”.
Ao ouvir tais palavras, o carregador disse: “Pela vida de vocês que eu sou um homem inteligente, ajuizado e decoroso. Li os saberes e alcancei as compreensões; li e entendi; encadeio os relatos históricos e somente depois os narro.[116] Refiro o que é bom e guardo o que é ruim; de mim não se transmite senão o bem; sou como disse alguém:
‘Não guarda segredos senão quem é de confiança;
e o segredo, entre os homens de bem, já está guardado; o segredo está comigo numa casa com trancas,
cuja chave se perdeu e os cadeados estão selados’”.
Ao ouvirem suas palavras, as moças lhe disseram: “Você sabe que este banquete teve um custo elevado, pois gastamos uma grande quantia para comprar tudo isso. Você tem algo com que nos compensar? Nós não o deixaremos ficar conosco senão depois de avaliar a compensação que vai oferecer. Só então você poderá se tornar nosso hóspede e beber às nossas expensas, de graça. As pessoas de mérito já diziam: ‘enamorado que não tem nada não vale níquel’”. A porteira perguntou-lhe: “Você possui alguma coisa, meu querido? Se você é alguma coisa que não possui coisa alguma, então vá embora sem nada”. A compradeira disse: “Ai, maninhas, deixem-no em paz! Por Deus que hoje ele não falhou durante as compras. Se fosse um outro, não teria tido tanta paciência comigo. O que ele tiver de dar como compensação, eu dou por ele”. Muito contente, o carregador beijou o chão diante dela, agradeceu e disse: “Por Deus que hoje meu dia não começou
senão por seu intermédio. Tenho aqui comigo o dinar de vocês; tomem-no de volta e não me considerem hóspede, mas sim servidor”. Elas lhe disseram: “Sente-se, pois agora fazemos muito gosto nisso”.[117] Em seguida, a jovem compradeira reuniu ânimo e começou a arranjar o banquete: encheu os recipientes longos e os curtos, limpou as garrafas, coou o vinho, enfileirou as taças, copos, canecas, garrafas, recipientes de prata e ouro, louças e garfos. Colocou tudo ao lado da piscina, e preparou as coisas que eles comeriam e beberiam. Em seguida, ofereceu-lhes o vinho e pôs-se a servi-los; suas irmãs se sentaram, bem como o carregador – este imaginando estar num sonho. A própria jovem bebeu a primeira taça enchida; em seguida, encheu uma segunda e deu de beber a uma de suas irmãs, que entornou tudo; logo, encheu nova taça e deu de beber à terceira, e encheu e deu de beber ao carregador, que tomou o jarro em suas mãos e começou a servir, beber e agradecer. Recitou a seguinte poesia:
“Não bebas senão com um irmão de fé,
de pura origem, linhagem dos pios ancestrais, pois o copo é como o vento: se passa por perfume, agradável fica, mas, se passa por carniça, fede”.
E entornou o copo. A porteira foi servi-lo e recitou a seguinte poesia: “Bebe feliz e gozando de plena saúde:
esta bebida escorre pura pelo corpo”.
Ele agradeceu e beijou-lhe a mão. E elas beberam, e ele também bebeu, voltando-se em seguida para a compradeira, a quem disse: “Minha senhora, seu escravo está ao seu dispor”, e recitou:
“Está parado à porta um dos teus escravos, que de tua generosidade já tem notícia”.
E ela disse: “Por Deus que eu vou beijar você: beba com felicidade, saúde e bem-estar. A bebida corta o que é nocivo e atua como remédio, fluindo e produzindo boa saúde”. O carregador sorveu todo o conteúdo de sua taça até fazer barulho; encheu de novo e serviu-a depois de beijar-lhe a mão. E começou a recitar a seguinte poesia:
“Estendi-lhe algo, semelhante à sua face, envelhecido e puro, cujo brilho era a luz do meu fogo.
Beijei-a então, e ela me disse rindo:
‘como podes dar a face de alguém a outro alguém?’ Respondi: ‘bebe, pois são minhas lágrimas, e o vermelho é meu sangue, tingido, na taça, por meu ardor’.
Ela disse: ‘se foi por mim que choraste sangue,
então dá-me de beber, e eu o farei com todo o prazer’”.