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noite das maravilhosas e prodigiosas narrativas das

mil e uma noites

Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Por Deus, maninha, se você não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas para que atravessemos o serão desta noite”. O rei disse: “Que seja a continuação da história do sábio, do rei, do pescador e do ifrit”. ¸ahråzåd disse: “Sim, com muito gosto e honra”.

Eu tive notícia, ó rei, [de que o pescador disse:]

Quando viu que o rei titubeou, cambaleou e se curvou, e que o veneno já se espalhara por seu organismo, o sábio Dœbån pôs-se a recitar:

“Exerceram a opressão, e nisso exageraram;

fossem justos, justiça receberiam, mas iníquos foram [e iniquidade sofreram; o destino os cobre de calamidades e desgraças;

receberam, e a situação em que estão fala mais alto, isto por aquilo, e não há censurar o destino”.

Disse o autor : quando a cabeça do sábio terminou de falar, o rei tombou morto, e também a cabeça perdeu a vida. Fique sabendo, ó ifrit...

E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. Sua irmã D∑nårzåd lhe disse: “Como é agradável a sua história, maninha”, e ela respondeu: “Isso não é nada comparado ao que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver”.

18ª

noite das prodigiosas e

maravilhosas narrativas

das mil e uma noites

Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Por Deus, minha irmã, se você não estiver dormindo, conte-nos uma de suas belas historinhas para que atravessemos o serão desta noite”. O rei disse: “Que seja a continuação da história do ifrit e do pescador”. ¸ahråzåd respondeu: “Com muito gosto e honra”.

Eu tive notícia, ó rei, de que o pescador disse ao ifrit: “Caso o rei tivesse mantido a vida do sábio, Deus também teria mantido a sua vida. No entanto, ele rechaçou outra atitude que não fosse matá- lo, e então Deus altíssimo o matou. Também você, ó ifrit, se no início tivesse aceitado manter a minha vida, eu igualmente manteria a sua. Entretanto, você rechaçou outra atitude que não fosse matar-me, de modo que eu o matarei mantendo-o preso nesse vaso e atirando-o no fundo do mar”. Disse o autor : o ifrit começou a berrar e disse: “Não, ó pescador, não faça isso. Mantenha-me a vida, salve-me e não leve em consideração a minha atitude nem o mal que lhe causei. Se eu tiver praticado o mal, seja você correto e generoso. O provérbio diz: ‘Faça o bem a quem fez o mal’; não faça como Imåma fez com ¢Åtika”. O pescador perguntou: “E o que Imåma fez com ¢Åtika?”. O ifrit respondeu: “Agora não é o momento de contar histórias, pois estou nesta prisão estreita; só quando você me libertar”. O pescador disse: “É absolutamente imperioso lançá-lo ao mar; não existe motivo para tirá-lo ou libertá-lo, pois eu me humilhei diante de você, e implorei por Deus, mas você se recusou a me ouvir, e só queria me matar sem que para isso eu tivesse cometido delito algum que merecesse tal punição, nem feito nenhum mal além de tê-lo retirado da prisão em que se encontrava. Ao vê-lo fazendo semelhantes ameaças, percebi que você, na origem, não passa de um ser repulsivo, de natureza vil, que paga uma bela ação com outra horrível. Depois que eu atirá-lo ao mar, vou construir aqui um quiosque para mim e ficar nele por sua causa: desse modo, caso alguém retire você do mar, eu o colocarei a par do que ocorreu entre nós e o advertirei para que o deixe de lado. Então você ficará aí aprisionado até o final dos tempos, até morrer, seu ifrit nojento”. O ifrit

implorou: “Solte-me, que desta vez eu prometo que não lhe farei mal nem lhe criarei problemas; pelo contrário, irei beneficiá-lo com algo que o tornará rico”.

Disse o autor : e foi assim que, após forçar o ifrit a dar sua palavra de honra, e de obrigá-lo a jurar pelo nome maior, o pescador destampou o vaso; a fumaça se elevou até que o vaso ficou vazio e logo se juntou, transformando-se no ifrit por inteiro, que deu um pontapé no vaso, fazendo-o voar para o meio das águas. Ao ver-lhe tal atitude, o pescador teve certeza de que algo muito ruim lhe ocorreria, e se mijou todinho pensando: “Esse não é um bom sinal” – e da morte ficou certo. Mas, reanimando o coração, perguntou: “Ó ifrit, você se comprometeu comigo e jurou; não seja traiçoeiro; se você voltar atrás, Deus altíssimo vai pegá-lo pela traição. Eu agora lhe digo, ó ifrit, o mesmo que o sábio Dœbån disse ao rei Yœnån, mantenha minha vida e Deus manterá a sua, mas mate-me e Deus o matará”. Então o ifrit riu de suas palavras. O pescador continuou: “Ó ifrit, mantenha a minha vida”. Então o ifrit disse: “Siga-me, pescador”, e o pescador começou a andar atrás dele, mal acreditando que se safara, até chegarem às cercanias da cidade; subiram e desceram uma montanha, saindo num amplo espaço desértico em cujo centro havia quatro pequenas montanhas, e, no meio dessas montanhas, um lago diante do qual o ifrit estacou, ordenando ao pescador que ali lançasse a rede e pescasse. O pescador olhou bem para o lago e notou, espantado, que ele continha peixes coloridos: brancos, vermelhos, azuis e amarelos. Então lançou a rede e a puxou de volta, nela recolhendo quatro peixes, um vermelho, outro branco, outro azul e outro amarelo. Vendo-os, o pescador ficou admirado e contente. O ifrit lhe disse: “Leve-os até o sultão aqui da sua cidade e deixe-o vê-los; ele lhe pagará uma quantia que o deixará rico. Que se aceitem minhas desculpas, pois esta é a única saída que encontrei.[88] Não pesque mais de uma vez por dia.

[89] Vou sentir saudades”, e bateu com o pé no chão, que se fendeu e o engoliu. E o pescador, ó rei, tomou o rumo da cidade, espantado com o que se passara entre ele e o ifrit, e também com os peixes coloridos. Entrou no palácio do rei e mostrou-os a ele, que os observou...

E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. Disse D∑nårzåd: “Como são agradáveis e espantosas as suas histórias, maninha”. Ela respondeu: “Isso não é nada comparado ao que vou contar-lhes na próxima noite, se eu viver e for mantida”.

19ª