das mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse: “Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos uma de suas belas historinhas para que atravessemos o serão desta noite”. ¸ahråzåd respondeu: “Sim”.
Eu fui informada, ó rei venturoso, de que o segundo dervixe, jovem filho de rei, disse à jovem: Vimos, portanto, o grupo de cavaleiros, e eis que se tratava de salteadores de estrada. Ao nos verem – éramos poucos – e notarem que levávamos dez sacos cheios de presentes, acreditaram que fosse dinheiro, desembainharam as espadas e apontaram-nas contra nós, que lhes fizemos sinais dizendo: “Somos enviados ao maior de todos os reis, o rei da Índia, e vocês não têm nada a ver conosco”. Responderam: “Embora estejamos na terra dele, não lhe prestamos nenhuma obediência”. Em seguida, mataram todos os que estavam comigo, e eu, ferido, consegui fugir enquanto eles se ocupavam dos presentes que trazíamos. Avancei sem saber que direção tomar, nem onde buscar abrigo; de poderoso que antes era, eu me tornara humilhado; de rico, pobre.
E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. Sua irmã lhe disse: “Como é agradável e maravilhosa a sua história”, e ela respondeu: “Isso não é nada comparado ao que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver e o rei me preservar”.
42ª
noite das histórias das
mil e uma noites
Na noite seguinte, ¸ahråzåd disse:
Eu tive notícia, ó rei venturoso, de que o jovem segundo dervixe disse para a moça:
Depois de ter sofrido aquele assalto, pus-me a caminhar às cegas até o anoitecer. Subi numa montanha e me abriguei até o amanhecer numa caverna que ali havia; tornei a caminhar até o anoitecer, alimentando-me de plantas rasteiras e frutos de árvores, e dormi até o amanhecer. Permaneci nessa prática por cerca de um mês, durante o qual as caminhadas acabaram por me conduzir a uma cidade agradável, segura e bastante próspera, tão abundante de moradores que seu solo se agitava; a estação de inverno, plena de frio, já partira, e já chegara a estação da primavera, plena de rosas. Suas flores desabrochavam, seus rios estavam cheios e seus pássaros gorjeavam, conforme disse a respeito um dos que a descreveram com as seguintes palavras:
“Eis uma cidade a cujos habitantes
nada aterroriza, e cujo dono é a segurança, como se fosse um paraíso decorado
para os moradores, repleto de maravilhas”.
[Prosseguiu o dervixe:] Fiquei feliz e triste. Feliz por ter chegado à cidade, e triste por ter nela adentrado em semelhante miséria, extenuado de tanto andar, com o rosto, as mãos e os pés sujos, coberto de preocupações e agruras, com a condição e a feição alteradas. Entrei sem saber para que lado me dirigir. Passei por uma loja na qual havia um alfaiate, a quem cumprimentei. Ele me deu boas-vindas e, notando em mim vestígios de uma existência abastada, acomodou-me junto a si e começou a conversar comigo com satisfação. Depois me perguntou sobre minha situação e eu o informei do que me sucedera. Entristecido, ele me disse: “Não revele a ninguém, meu rapaz, o que lhe ocorreu, pois o rei desta cidade é um dos maiores inimigos do seu pai, de quem ele quer se vingar; oculte, portanto, a sua condição”. E logo me trouxe alimento, e fizemos a refeição juntos, e juntos ficamos até o anoitecer, quando então ele me arranjou um cômodo ao lado do seu e me trouxe coberta e outras coisas de que eu precisava. Mantive-me às suas expensas por três dias, findos os quais ele me perguntou: “Você conhece alguma atividade para exercer e se sustentar?”. Respondi: “Sou jurisconsulto, sábio, letrado, poeta, gramático e calígrafo”. Ele disse: “Essas atividades não têm nenhuma serventia em nosso país”. Eu disse: “Por Deus que não conheço nenhuma atividade além das que mencionei”. Ele disse: “Faça um esforço; pegue um machado e cordas e vá até os ermos da cidade; ali, corte a lenha necessária para ganhar seu sustento. Não deixe que ninguém saiba quem você é, caso contrário será morto; esconda sua identidade até que Deus lhe proporcione alguma solução”. E comprou para mim um machado e cordas, deixando-me na companhia de alguns lenhadores, com os quais saí para os ermos da cidade. Cortei lenha o dia inteiro, carreguei tudo sobre a cabeça e vendi por meio dinar, que entreguei ao alfaiate. Fiz isso durante um ano inteiro, após o qual, havendo eu certo dia penetrado fundo num dos ermos da cidade, encontrei um bosque de árvores e uma campina com regatos e água corrente. Entrei no
bosque e topei com um toco de árvore em torno do qual comecei a escavar com o machado; retirei a terra e encontrei uma argola presa a um tampão de madeira; abri-o e verifiquei que por debaixo do tampão havia uma escada; desci e cheguei a um palácio subterrâneo de tal maneira construído e de tão sólidos alicerces que nunca vi mais formoso; caminhei por ele e eis que encontrei uma jovem graciosa, magnífica como pérola reluzente ou sol brilhante, e cujas palavras curavam a angústia e arrebatavam o homem ajuizado e inteligente; cinco pés de altura,[138] seios firmes, rosto suave, cor esplendorosa, constituição graciosa, cuja face resplandecia em meio à noite formada por suas tranças, e cujos dentes brilhavam entre os lábios, conforme se disse sobre ela:
“São quatro as coisas que, ao se reunirem, contra minha vida e meu sangue atentam: luz da fronte, marido que se foi,[139]
rosado da face e um belo sorriso”.
Disse o autor : e a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. D∑nårzåd lhe disse: “Como é agradável e assombrosa a sua história, maninha”, e ela respondeu: “Isso não é nada perto do que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver e o rei me preservar”.
43ª
noite das narrativas das
mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos uma de suas belas historinhas a fim de atravessarmos o serão desta noite”, e ¸ahråzåd respondeu: “Sim”.
Eu tive notícia, ó rei venturoso, de que o jovem segundo dervixe disse à moça:
Assim que olhou para mim, aquela jovem perguntou: “O que você é? Humano ou gênio?”. Respondi: “Humano, é claro”. Ela perguntou: “Então qual é o motivo de você ter vindo até aqui? Estou neste lugar faz vinte e cinco anos e durante esse período nunca vi um ser humano”. Tendo percebido em suas palavras sentidos e seduções que se apossaram inteiramente do meu coração, respondi: “Cara senhora, vim para cá conduzido pela minha boa sorte para dissipar as minhas aflições, e por sua boa sorte para dissipar as suas aflições”, e lhe relatei o que me acontecera. Condoída, ela disse: “Agora eu vou lhe contar minha história: sou filha de um rei chamado Avt∑mårœs, senhor da Ilha de Ébano. Ele me casara com um de meus primos, e na minha noite de núpcias fui sequestrada por um ifrit que, após voar comigo por algum tempo, instalou-me neste lugar, dotando-o de tudo quanto eu necessitasse: comida, bebida, doces etc. Ele vem somente uma vez a cada dez dias e passa a noite comigo, pois ele me tomou às escondidas de seus parentes; caso me aconteça algo ou tenha alguma precisão dele, seja dia ou noite, basta que eu encoste a mão nestas duas linhas desenhadas na soleira; nem bem a retiro e já o vejo a meu lado. Ele está ausente há quatro dias, faltando pois seis dias para que volte para cá. O que você acha de ficar comigo durante cinco dias e se retirar um dia antes do retorno do ifrit?”. Respondi: “Sim, ‘que bom que os sonhos virem realidade’!”.[140]
[Prosseguiu o dervixe:] Muito contente, ela ficou de pé, pegou minha mão e me fez entrar por uma porta em arco que nos levou até uma sala de banhos; ali, ela me fez arrancar a minha roupa, arrancou a sua roupa e entramos no banho, onde ela me lavou e banhou; saímos e ela me fez vestir uma roupa nova; depois, fez-me sentar num colchão e me serviu uma grande taça de bebida, sentando-se então e pondo-se a conversar comigo durante algum tempo; ofereceu-me um pouco de alimento, do qual comi o suficiente. Depois, estendeu-me um travesseiro e disse: “Durma, descanse, pois você está cansado”. Dormi, já esquecido de todas as preocupações que se tinham abatido sobre mim, acordando depois de algumas horas com ela me massageando. Levantei-me, agradeci-lhe e roguei a Deus por ela. Eu estava mais ativo, e ela perguntou: “Você quer bebida, meu jovem?”. Respondi: “Traga”, e ela se dirigiu à despensa, da qual retirou bebida envelhecida e selada e, montando uma opulenta mesa, pôs-se a recitar:
“Se soubéssemos de vossa vinda, vos estenderíamos a essência da alma ou o negrume dos olhos,
e espalharíamos rostos sobre a terra, a fim
de que vossa caminhada fosse sobre pálpebras”.
[Prosseguiu o dervixe:] Eu lhe agradeci, e o amor por ela tomou conta de todos os meus membros. Minha tristeza se dissipou; acomodamo-nos e ficamos nos servindo de bebida até o anoitecer. Passei com ela uma agradabilíssima noite, como nunca na vida eu houvera passado. Quando amanheceu, ligamos a felicidade com a felicidade até o meio-dia. Embriaguei-me de tal modo que o torpor me fazia balançar à esquerda e à direita e eu disse a ela: “Vamos subir para a superfície, formosura? Vou libertar você desta prisão!”. Ela riu e disse: “Sente-se e fique quieto, meu senhor; contente-se em me possuir durante nove dias; e um dia é do ifrit!”. Respondi-lhe, totalmente dominado pela embriaguez: “Agora mesmo eu vou quebrar a soleira que tem aquelas coisas gravadas; deixe que o ifrit venha para eu matá-lo! Estou acostumado a matar essa espécie de dez em dez!”. Ao ouvir minhas palavras, ela ficou amarela e disse: “Pelo amor de Deus, não faça isso!”, e declamou:
“Ó tu que procuras separar-te, calma, pois os corcéis da separação são velozes, calma, pois a índole dos tempos é traiçoeira, e o destino de toda companhia é separar-se”.
[Prosseguiu o dervixe:] Mas a embriaguez me dominou e eu chutei a soleira.
E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. Disse D∑nårzåd: “Como é agradável e assombrosa a sua história”, e ela respondeu: “Isso não é nada perto do que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver e o rei me preservar”.
44ª
noite das histórias das
mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Se você não estiver dormindo, maninha, conte-nos uma de suas belas historinhas para atravessarmos o serão desta noite”, e ¸ahråzåd respondeu: “Sim”.
Conta-se, ó rei venturoso, que o segundo dervixe disse à jovem:
Assim que dei o chute na soleira, mal nos apercebemos e já escurecia por todo lado, trovejava e relampejava; o mundo se fechou e a bebedeira voou para fora da minha cabeça; perguntei-lhe: “O que está acontecendo?”, e ela respondeu: “O ifrit já chegou; salve a sua alma saindo pelo tampão, meu senhor”. Mas o meu medo era tamanho que esqueci as sandálias e o machado de ferro quando subi as escadas. Mal eu terminara de subir e já o palácio se fendia, e da fenda o ifrit surgia dizendo: “Que aporrinhação é essa com que você está me incomodando? Qual é o seu problema?”. A mulher respondeu: “Meu senhor, hoje senti o peito opresso e quis beber alguma coisa para espairecer, o que fiz com moderação, e logo me levantei a fim de resolver um assunto qualquer, mas minha cabeça pesou e caí sobre a soleira”. O ifrit disse: “Você está mentindo, sua puta!”, e pôs- se a examinar tudo, encontrando minhas sandálias e meu machado; perguntou: “Que coisas são estas?”; ela respondeu: “Só estou vendo isso agora; parece que vieram presos ao seu corpo”; ele disse: “Você por acaso está pensando em usar astúcia para me enganar, sua iníqua?”, e, puxando-a, arrancou-lhe as roupas e amarrou os membros em quatro estacas, passando então a torturá-la para obter a confissão. Não suportando ouvir-lhe o choro, cara ama e senhora, subi as escadas devagarinho, tremendo de medo, e cheguei à saída; recoloquei o tampão no lugar e cobri-o de terra, conforme estava antes. Lembrei-me da jovem, de sua beleza, de sua gentileza e atenções para comigo, e de como, embora ela tivesse passado vinte e cinco anos sem que nada lhe ocorresse, bastara que eu dormisse com ela uma única noite para lhe causar tudo aquilo; minha tristeza cresceu e minhas preocupações se ampliaram. Lembrei-me de meu pai e de meu reino, e de como o tempo fora traiçoeiro comigo, tornando-me um lenhador; e depois que o tempo fora um pouquinho agradável comigo, voltara a tornar minha vida um desgosto. Chorei então copiosamente, recriminei-me e declamei:
“Minha sorte me maltrata como se eu fora seu inimigo, causando-me desgostos sempre que topa comigo,
e mesmo que ela seja gentil por um instante qualquer, logo em seguida me faz vislumbrar novos desgostos”.
[Prosseguiu o dervixe:] Caminhei, pois, até chegar ao meu amigo alfaiate, a quem encontrei fervendo de preocupação por mim. Ao me ver, demonstrou grande contentamento e perguntou: “Onde dormiu ontem à noite, meu irmão? Não parei um instante de pensar em você; graças a Deus regressou em segurança”. Agradeci-lhe a carinhosa solicitude, entrei em meu cômodo e me sentei para refletir sobre o que me acontecera. Recriminei minha impertinência exagerada, pois, se eu não chutasse a soleira, nada teria acontecido. Estava eu nesses cálculos quando meu amigo alfaiate entrou e perguntou: “Lá fora, meu rapaz, há um velho persa com o seu machado de ferro e as suas sandálias; ele exibiu esses objetos aos lenhadores e disse: ‘Eu fui fazer minhas preces matinais logo depois do chamado do muezim e então tropecei neste machado e nestas sandálias; vejam e me apontem a quem pertencem’. E os lenhadores apontaram você, pois reconheceram o seu machado e disseram: ‘Este é o machado do jovem estrangeiro que está hospedado com o alfaiate’. Ele está agora na loja; vá até lá e pegue o seu machado de volta”. Quando ouvi a história, fiquei amarelo e transtornado, e, enquanto conversava com o alfaiate, eis que o chão do cômodo se fendeu e dele saiu o velho persa: na verdade, era o ifrit. Após torturar a jovem até quase matá-la, sem que ela,
contudo, confessasse, ele recolhera o machado e as sandálias e dissera: “Se eu sou mesmo o ifrit, sobrinho do demônio, irei trazer-lhe até aqui o dono deste machado”, e em seguida vestiu uma roupa de persa e agiu conforme já se descreveu. Quando o chão se fendeu e ele saiu...
E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. D∑nårzåd lhe disse: “Como é agradável e assombrosa sua história, maninha”, e ela respondeu: “Isso não é nada perto do que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver e o rei me preservar”.
45ª
noite das histórias das
mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse à irmã: “Se você não estiver dormindo, conte-nos uma de suas historinhas”, e ¸ahråzåd respondeu: “Sim”.
Conta-se, ó rei, que o segundo dervixe disse à jovem:
O ifrit começou o seu voo e, sem me dar o menor tempo, agarrou-me e saiu voando comigo do cômodo; alçou-se aos céus por alguns momentos, logo pousando no solo e batendo o pé; o solo se fendeu e ele submergiu comigo por alguns momentos, sem que eu conseguisse discernir nada. Em seguida, ele saiu comigo bem no centro do palácio no qual eu havia passado a noite. Olhei para a jovem, que estava nua, amarrada e com sangue escorrendo pelos flancos. Meus olhos ficaram marejados. O ifrit soltou-a, cobriu-a com um manto e lhe disse: “Não é este o seu amante, sua iníqua? Sim ou não?”. Ela olhou para mim e disse: “Absolutamente não conheço esse homem, nunca o vi, exceto neste momento”. O ifrit lhe disse: “Ai de você! Depois de toda essa surra ainda se recusa a confessar?”. Ela respondeu: “Não conheço esse homem; não posso mentir, pois você o mataria”. O ifrit disse: “Se você de fato não o conhece, pegue esta espada e corte-lhe o pescoço”. A jovem pegou a espada, caminhou em minha direção e parou diante de mim. Com a pálpebra eu lhe fiz um sinal que ela compreendeu, e por sua vez me piscou o olho, como a dizer: “Não foi você que provocou isto?”; fiz-lhe um sinal com o olho querendo dizer: “Esta é hora de perdoar”. Foi então que a sua expressão muda lhe escreveu nas páginas do rosto:
“Meu olhar traduz minha língua para que saibas, e a paixão que eu escondia transparece em mim; quando nos encontramos, as lágrimas secretas emudeceram, e meu olhar falou por elas;
fazes sinais, e eu compreendo o que dizes com o olhar, e então fecho os meus olhos para que saibas;
as sobrancelhas satisfazem nossa necessidade mútua, pois calados ficamos, e que fale a paixão”.
[Prosseguiu o dervixe:] Então, largando a espada, a jovem disse: “Como eu poderia golpear quem não conheço e depois ser responsabilizada por sua morte?”, e deu um passo para trás. O ifrit lhe disse: “Você não conseguiria matá-lo porque ele dormiu ao seu lado; é por isso que suportou toda
aquela surra e não confessou. Ademais, a mesma espécie se solidariza entre si”. Em seguida, ele se voltou para mim e perguntou: “E você, humano, não conhece essa aí?”. Respondi: “E quem é essa aí? Eu nunca a vi antes; é a primeira vez”. Ele disse: “Pegue esta espada e corte-lhe o pescoço que eu o libertarei e terei certeza de que você não a conhece”. Respondi: “Sim”, e, tomando da espada, aproximei-me dela, tenso.
E a aurora alcançou ¸ahråzåd, que parou de falar. D∑nårzåd disse: “Como é agradável a sua história, maninha”, e ela respondeu: “Isso não é nada comparado ao que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver e for preservada”.
46ª
noite das histórias das
mil e uma noites
Na noite seguinte, D∑nårzåd disse: “Continue a história para nós”, e ¸ahråzåd respondeu: “Sim”. Eu tive notícia, ó rei, de que o segundo dervixe disse à jovem:
Quando peguei a espada e me aproximei, a jovem me fez com as pálpebras sinais que queriam dizer “Eu agi corretamente e é assim que você me retribui?”, e movimentou as sobrancelhas. Compreendi o que ela dizia e lhe fiz sinais com os olhos: “Vou salvá-la com a minha própria vida”; trocamos sinais com os olhos por alguns instantes e nossa expressão muda escreveu o seguinte: “Quantos amantes com as pálpebras falaram
aos seus amados do que no peito ocultavam! Secretamente lhe transmite com meneio d’olhos: ‘já compreendi tudo quanto ocorreu’.
Como é belo esse meneio em seu rosto,
e quão ligeiros são os olhos quando se exprimem; um amante com as pálpebras escreve,
e o outro amante com as pupilas já leu”.
[Prosseguiu o dervixe:] Larguei a espada e disse: “Ó severo ifrit, se até esta mulher, nascida de uma costela torta, mesmo tendo o juízo avariado e a língua presa, não aceitou cortar o pescoço de um desconhecido, por que eu, sendo homem, iria cortar o pescoço de quem não conheço? Isso é algo que não pode acontecer de jeito nenhum, mesmo que me façam beber da taça da apostasia”. O ifrit disse: “Vocês estão mancomunados contra mim. Eu vou lhes mostrar qual é a punição pelo que fizeram”. E, pegando da espada, golpeou a mulher, fazendo sua mão sair voando do braço; depois, golpeou e fez voar a outra mão, e ela, debatendo-se nos estertores da morte, fez-me ainda um sinal com os olhos como que se despedindo;[141] foi então, minha senhora, que quase perdi os sentidos e desejei a morte. O ifrit disse: “Este é o castigo de quem trai”, e, voltando-se para mim, continuou: “Conforme a nossa lei, ó humano, quando a esposa trai, ela deixa de ser lícita para nós, e a matamos sem hesitar. Eu havia raptado essa jovem na noite de seu casamento, quando ela tinha doze anos de idade. Não conheceu ninguém além de mim, que vinha dormir com ela caracterizado
como persa, uma vez a cada dez noites. Quando me assegurei de que ela me traiu, matei-a, pois ela deixou de ser lícita para mim. Por outro lado, não tenho certeza de que foi você quem praticou a traição com ela. Mas não irei deixá-lo impune; pode escolher a forma na qual irei enfeitiçá-lo: cachorro, asno ou leão? Besta ou ave?”. Pretendendo conseguir o seu perdão, eu disse: “Ó ifrit, perdoar-me seria mais condizente para você. Perdoe-me tal como o invejado perdoou o invejoso”.