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CAPÍTULO II – DISCURSOS CIENTÍFICOS DE OBESIDADE: A

2.4 Normalizando corpos, classificando pessoas

O que é uma ideologia científica? Essa questão me parece ser colocada pela prática da história das ciências, e é uma questão cuja resposta será importante para a teoria da história das ciências. De fato, não importa, antes de tudo, saber de quê a história das ciências pretende fazer a história? É aparentemente fácil responder que a história das ciências faz a história dessas formas da cultura que são as ciências. Ainda assim, é necessário indicar precisamente quais critérios permitirão decidir que tal prática ou tal disciplina que se tomam, a determinada época da história geral, por ciência merecem ou não esse título, pois se trata de um título, quero dizer, de uma reivindicação de dignidade. E, por consequência, é inevitável que seja posta a questão de saber se a história daquilo que é ciência autêntica deve excluir ou tolerar ou mesmo reivindicar e incluir também as relações de evicção do inautêntico pelo autêntico (CANGUILHEM apud ALMEIDA, 2011, p.76)

O uso do termo normal, como o conhecemos, surge da intersecção do conhecimento sociológico e do médico. Ambos estavam imbuídos do mesmo interesse de medir, classificar e disciplinar os indivíduos de forma a que estes se conformassem à normalidade (MISKOLCI, 2003, p.110)

Ao discorrer sobre uma epistemologia da medicina, Gayon (apud Russo, Caponi, 2006) pontua que uma das alternativas para dizer que há uma epistemologia específica da medicina é reconhecer uma autonomia em relação ao conhecimento biológico. Afirma, ainda, que os estudos são centrados nas categorias de doença, saúde, normal e patológico.

Birman (1991) faz uma interessante análise sobre a legitimidade social que a medicina conquistou em relação à saúde. A partir de meados do século XVIII a saúde é tratada como direito social e torna-se problemática teórica e, assim, a medicina inicia a construção de saberes científicos construindo “verdades biomédicas”, substituindo o ideal de salvação instituído pelo discurso religioso.

[...] Nesse contexto, a medicina procurou fundar sua cientificidade nos modelos das ciências naturais, apesar das contradições e dos impasses que esta solução apresentava. Porém, quando o moderno discurso hermenêutico coloca em questão as categorias fundamentais das ciências naturais, como a causalidade e a explicação, é necessário repensar na sua totalidade o conceito de saúde e as modalidades de inserção da medicina no social. O que são saúde e doença, normalidade e anormalidade? Trata-se de indagações cruciais que se impõem à pauta deste debate, pois estão em causa certezas que se fundavam em pressupostos naturalistas (idem, p.16)

Esses questionamentos impulsionaram a inserção de outras linhas e formas de pensar os conceitos de saúde e doença no campo da medicina. Na primeira metade do século XX,

várias pesquisas e disciplinas foram incorporadas à medicina, como a psicanálise (constituição de uma medicina psicossomática), e mais ainda com o desenvolvimento da Psicologia, Sociologia e Antropologia Médicas. Mesmo assim, a visão positivista colocou esses outros olhares à margem do território biomédico (idem).

Como observou Foucault (1992), discursos são práticas que sistematicamente formam os objetos de que falam, são os mecanismos de normalização. Em sua obra O Nascimento

da Clínica (2011), ao descrever o nascimento de um novo olhar médico, assinala os vínculos

estreitos entre o aparecimento da clínica moderna e a parturição da sociedade industrial capitalista. E, principalmente, desmistifica a tradicional interpretação de que a nova medicina viria marcada pelo individualismo burguês. Ao contrário, trata-se, antes, de um acontecimento contemporâneo de um projeto social. A clínica moderna nasce do interior das discussões da saúde pública.

Nesse sentido, compreendo que é inserida a ideia de norma e normalidade do processo de industrialização e transformação capitalista, onde o corpo passou a ser visto como realidade biopolítica. E a sociedade passou a ter um enorme interesse por uma população saudável, perfeita, normal, porque por traz dessa ideia estava uma ideologia mercantilista de produção. É o que Foucault (2001) denomina ao estudar a história da medicina de biopoder.

Foucault (1987) definiu a norma como o elemento que circula entre o disciplinar e o regulamentador, portanto, tem a capacidade de controlar ao mesmo tempo a ordem disciplinar do corpo e os acontecimentos aleatórios da população. Para fazer pensar o surgimento da "sociedade de normalização", retrocede aos séculos XVII e XVIII e demonstra em diversas faces do tecido social, o aparecimento de um discurso disciplinar de controle sobre os corpos individuais, através da vigilância e da disciplina, resultando em um poder disciplinar.

Implica-se, assim, uma espécie de homogeneização nos conceitos de anormal, distúrbio, desvio, desarmonia, desproporção. O que, mais uma vez, nos leva a deduzir a imposição de valores e quem sabe a busca de uma saúde perfeita, de um sujeito perfeito e, consequentemente, de uma vida perfeita. “Raciocinando com o todo o rigor, uma norma não existe, apenas desempenha seu papel que é de desvalorizar a existência para permitir a correção dessa mesma existência.” (CANGUILHEM, 2009, p.29 – grifo meu).

Canguilhem (2009) nos faz refletir de como a noção de normalidade foi sendo transformada e incorporada pela sociedade, principalmente se utilizando de um reducionismo físico e biológico para empreender uma noção hegemônica do normal e do patológico. A busca de um homem sem doenças foi alicerçada por um modelo biomédico que influencia até hoje nossos discursos e pensamentos em relação ao homem médio, equilibrado e ideal.

de mercadorias é a expressão de exigências coletivas cujo conjunto define, em determinada sociedade histórica, seu modo de relacionar sua estrutura, ou talvez suas estruturas, com aquilo que ela considera como sendo seu bem particular, mesmo que não haja uma tomada de consciência por parte dos indivíduos (idem, p.10)

Então, a sociedade cria um conjunto de estratégias e técnicas buscando manter e/ou aperfeiçoar suas relações hegemônicas. Ainda com a noção de normal, Foucault (1987) também identifica que o projeto da modernidade, amparada essencialmente da ciência, elaborou uma arquitetura de sociedade e dos sujeitos que deveriam existir nela. A partir de mecanismos de disciplina e vigilância, principalmente do sistema hospitalar, prisional e educacional, instaurou sua lógica nos discursos coletivos e individuais por meio do que ele chamou de micropoderes.