2. TEMPO PARA SONHAR — O TEATRO AMADOR EM AVINTES 41
2.2. A NOS 60-‐90, ANOS DE OURO DO TEATRO EM A VINTES 49
Como dissemos, o teatro é, em Avintes, expressão da sua cultura e a maioria dos seus habitantes relaciona-‐se com as colectividades. Se alguém se dirigir a um avintense e per-‐ guntar sobre as associações aí existentes, vai com certeza ouvir falar de teatro e poderá ouvir uma qualquer história sobre um acontecimento passado ou presente. Se agora pas-‐ sarmos na rua principal de Avintes, a 5 de Outubro, podemos ver dois palcos instalados relembrando que esta é a terra do teatro amador. Nas palavras de Barbosa da Costa, no prefácio ao livro de José Maria Martins, Memorial do Teatro em Avintes, encontramos o sentido deste gosto especial: “ […] apresento este outro retrato deste Avintes, quase um mundo à parte, mas que é a vertente lúdica desta gente que empoeirada pela matéria-‐prima de que também fez História, se encamisa, encasaca e embigoda, à noite, na busca de ser outro, no sempre inacabado reino do faz de conta” (2000: 13).
Nos anos 60-‐90, foram dados passos muito importantes para o desenvolvimento do teatro amador. Na década de 60, o impulso foi grande e as raízes, que haviam de manter os movimentos culturais vivos, foram então revigoradas. É preciso não esquecer que Avintes é uma freguesia de Gaia e que o Porto está ali mesmo ao lado, tornando difícil a tarefa de manter uma identidade cultural sem sucumbir à fatalidade de se tornar mais um dormitório. Neste processo de “construção sociocultural de uma comunidade”, encontramos a “procura e recuperação de traços culturais”, a “associação em grupos de pessoas” e a “afirmação da sua identidade”, onde “os comportamentos expressivos representam um papel funda-‐ mental. O teatro é um veículo privilegiado para essa construção” (Mouta apud Caride Gómez, Martins e Vieites, 2000: 19). O contributo das pessoas, que ao longo do tempo se arrolaram como defensores de uma escola de vida, foi e é o mais importante.
Os anos 60 foram plenos de acontecimentos marcantes. Estamos a reviver o Maio de 68 como ponto de viragem na história da sociedade ocidental, relembrando os ideais do É proibido proibir. Em Portugal, vive-‐se a repressão de uma ditadura que terá o princípio do seu fim nesta época, mas é então que se “dá um salto estético-‐qualitativo […]. Para isso, contribuíram, inicialmente, os Concursos do Secretariado Nacional da Informação (SNI), malgrado algum contestatário, a essas iniciativas, promovidas pelo regime político de então” (Vaz, 1997: 32).
censura. Considera-‐se esta época a dos anos de ouro, em que se iniciou “a vinda de alguns dos melhores mestres de teatro existentes no espaço nacional, as notícias dos espectáculos, as críticas dos teatrólogos, as opiniões dos intelectuais, os prémios de encenação, de inter-‐ pretação, de cenografia e os convites para os actores avintenses ingressarem no teatro pro-‐ fissional” (Vaz, 1997: 32).
O Grupo Mérito Dramático Avintense estreou a sua primeira peça a 21 de Maio de 1911, intitulada Opressão e Liberdade (Vaz, 1997: 28). Até 1940, a actividade deste grupo é caracterizada por um teatro que vai da intervenção social a uma espécie de revista à por-‐ tuguesa, comédias que se designam por folie-‐bergère. Normalmente, os espectáculos tinham como finalidade angariar receitas para os mais desfavorecidos. Nos anos 50, tinha já iniciado uma actividade nacionalmente reconhecida, graças ao encenador Joaquim Fonseca e a um corpo cénico homogéneo. Este Grupo Dramático durante alguns anos, abarcou a actividade cultural avintense e, ao longo do tempo, soube manter uma posição de noto-‐ riedade.
Um dos responsáveis pela agremiação, Salomão Vieira, considera que o Grupo Mérito Dramático Avintense é “sem dúvida o grande impulsionador do teatro amador em Avintes (Notícias de Avintes, 2003: 28) , que desta forma ganhou fama como terra do teatro amador. O destaque vai para Monteiro de Meireles, “o renovador do teatro avintense” (Vaz, 1997: 32) e para a peça O Infante Sagres. Inicia-‐se aqui um novo ciclo caracterizado pela melhoria estética dando ao teatro amador um cunho mais técnico e cultural, conferindo-‐lhe qualidade. O grupo participa em vários concursos de arte dramática e obtém prémios em todas as suas apresentações. De entre elas, convém destacar: Ratos e Homens (1964), O Crime da Cabra (1967), Albergue Nocturno (1969) e O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer (1970). Nos quinze anos seguintes, a actividade voltou a estagnar, para renascer em 1985, através do actor e encenador Fernando Maia. O Grupo Mérito atinge novamente um nível de representação elevado e alcança enormes êxitos de representação. A destacar: Viúva Porém Honesta (1989), O Diário de Anne Frank (1990) e A Palmatória (1998), entre outros (“O teatro”, s. d: 1).
Outra das colectividades incontornáveis, quer pela sua história, quer pela longevidade, é a Associação Recreativa Os Plebeus Avintenses. A sua longa acção cultural e associativista começa com os seus primeiros ensaios, em 1918, “num palheiro que pertencia ao Senhor Joaquim Moreira, na Rua 5 de Outubro” (Martins, 2001: 123). Com mais de noventa anos de
idade, Os Plebeus continuam a manter a vitalidade como exemplo da arte de Talma1. Alfredo
de Oliveira Dias Penedo foi o principal impulsionador desta associação. Com um curso de farmácia e uma cultura geral muito desenvolvida, foi um autêntico pedagogo. Explicava o sentido dos textos e o significado das palavras, já que alguns dos seus actores eram ile-‐ trados, quase mesmo analfabetos, chegando, no entanto, a marcar elevada posição artística no meio teatral avintense.
Em 1962, o Lugre, de Bernardo Santareno, foi aclamado no Teatro da Trindade, no Bairro Alto em Lisboa. O actor Manuel Lereno acabava de assumir a direcção artística daquela peça. A partir daí, foi o sucesso: os profissionais começaram por fazer carreira n’Os Plebeus, as representações iam subindo de nível e os êxitos acumularam-‐se. Avintes constituía-‐se como novo cenário na cena portuguesa. O grupo implantou-‐se e o teatro português ficou muito mais enriquecido. Dessa data até 1974, Os Plebeus assi-‐ naram uma nova dinastia na arte de representar e foram escritores da craveira de Urbano Tavares Rodrigues, Luís Stau Monteiro e Joaquim Benite, entre outros, que escreveram: Avintes “dá teatro como rosas na Primavera” (Vaz, 1997: 41).
Na Revolução dos Cravos, o grupo trazia duas peças em cena: Morte de um Cai-‐ xeiro-‐viajante e a comédia A Vida é assim de Júlio Martins. A primeira andava em tournée no norte de Espanha e a segunda a percorrer o nosso país. No ano seguinte, o actor Oliveira Alves encenou a peça de Romeu Castro, O Vagabundo das Mãos de Oiro. O espectáculo seria estreado no Funchal e gravado pela Rádio Televisão Portuguesa. As dificuldades estavam ultrapassadas e iniciava-‐se uma nova era de êxitos. Assim, pas-‐ saram pela galeria artística da colectividade, encenadores que deixaram obra feita, como o chileno Roberto Merino, que implantou uma nova metodologia de ensaios; o espanhol Mancho Rodriguez que conduziu o curso de Commedia dell’Arte, Eduardo Freitas, o actor Castro Guedes ou o artista plástico Moura Pinheiro.
O grupo Restauradores Avintenses, com sede no lugar de Espinhaço, foi fundado em 1923 e teve como primeiro ensaiador Manuel Baía. O seu reportório é bem mais humilde do que o das colectividades já mencionadas, mas nem por isso menos meri-‐ tório na cena cultural de Avintes. José Maria Martins, na sua obra Memorial do Teatro em Avintes fala um pouco deste grupo e menciona o Mestre Oliveira, remetendo-‐nos para uma das várias artes implícitas na do teatro, a da cenografia: “Entre as home-‐ nagens prestadas a sócios dedicados avulta a que foi prestada a Manuel de Oliveira esse
1 A denominação deriva do nome de François-‐Joseph Talma (1763-‐1826), que se apresenta
grande artista na confecção dos cenários em madeira bem conhecido entre os profissionais de teatro que o cognominaram, justamente de Mestre Oliveira” (Martins, 2000: 70).
Estas breves referências não explicitam o extenso manancial de peças levadas a cena por estas colectividades, que apesar de várias contrariedades, continuam a existir e a constituir parte integrante da comunidade Avintense (cf. Anexo 3). Do mesmo modo, não se encontram aqui explanados os eventos culturais das colec-‐ tividades, que vão desde o café-‐concerto, às palestras, fóruns, desfiles etnográficos, exposições de vária ordem, corsos carnavalescos, prática desportiva e concursos de teatro amador.
Os actores são peças fundamentais que se movem nos tablados, mas também o são os autores. É na dramatologia que vamos encontrar não só os autores das peças mas também os interessados na promoção da cultura teatral de Avintes. Note-‐se a repetição de nomes que, ao longo deste trabalho, foram já citados (cf. Anexo 4).Devidamente salva-‐ guardada fica a memória daqueles que não estão mencionados e que são bastantes. Em todas as obras consultadas, as listas são extensas envolvendo professores, escritores, elec-‐ tricistas, músicos, costureiras, pintores, carpinteiros e tantos outros, sem os quais seria impossível todo este movimento ganhar vida. Uma nota especial para o público, que durante todo este tempo, enche as salas, proporcionando a continuidade dos espectáculos.