4. CHEGAR A SER — CONCLUSÃO E PROBABILIDADES 75
4.3. O ASSOCIATIVISMO E A ESCOLA EM AVINTES 82
No terceiro capítulo desta dissertação tínhamos como principal objectivo caracterizar o associativismo e a sua ligação à educação pois “deve também existir uma conjugação des-‐ se componente escolar com o trabalho desenvolvido pelas comunidades locais onde o teatro existe e tem raízes" (Araújo, 2010). Para tal explicitámos as principais ideias dos vários autores sobre a relação entre tempo livre, ócio, animação sociocultural e animação teatral. Desde logo comprovamos que a pedagogia do ócio (tempo livre aproveitado) con-‐ fere qualidade à vida das populações. Ócio e tempo livre são conceitos associados, sendo o
ócio o que dá forma ao tempo livre. A definição dada pela World Leisure & Recreation Asso-‐ ciation através da sua Carta sobre a Educação do Ócio considera-‐o um recurso importante na educação, uma pedagogia do tempo livre.
O fundamento para os estudos promotores de uma pedagogia do ócio, encontra-‐se nas vivências socioculturais. Quando falamos de educação para o ócio, falamos em evitar o assistencialismo, pugnando pelo desenvolvimento comunitário e pela importância dos movimentos de cidadãos, que utilizam o seu tempo livre de uma forma interventora. As primeiras associações surgem no início do séc. XIX com o incentivo dos ideais da educação popular, e consequentemente “a partir de meados do século XX, o teatro, enquanto expressão artística, se democratiza e se descentraliza, saindo dos grandes palcos, das capitais e deixando de estar ligado, pelo menos de forma exclusiva, às grandes companhias” (Ramos, 2009: 2).
Marcelino de Sousa Lopes deu um contributo inestimável para a história da Animação sociocultural em Portugal. É nesta obra que encontramos uma primeira referência à uti-‐ lização da arte dramática como meio de animação e de educação, procurando uma maior “envolvência dos educandos com os educadores, e pela assunção de uma concepção edu-‐ cativa, que supera a convencional situação da sala de aula e o tradicional ensino assente numa relação passiva livresca” (Lopes, 2008:99). Pudemos verificar que há uma ligação estreita entre movimentações sociais e mudanças políticas. Se analisadas, as grandes alte-‐ rações (em prol da democracia e da cidadania activa) foram coadjuvadas por movi-‐ mentações sociais e culturais.
Partindo deste pressuposto e analisando as intervenções no Fórum Avintense, concluímos que a motivação está viva para prosseguir com os vários projectos e iniciativas de cariz associativo em Avintes. Na voz de José Araújo está patente essa causa: “Para mim, sendo Presidente duma instituição (Os Plebeus Avintenses) em que o Teatro é a sua principal razão de ser, numa freguesia em que existem quatro associações com actividade teatral e que foi cognominada de «Capital do Teatro Amador» o Teatro é algo com que coabito desde há 50 anos” (2010).
A forte componente associativista em Avintes e a participação nas colectividades pro-‐ porciona aos seus membros um complemento formativo e uma satisfação presentes na pedagogia do ócio. A animação teatral faz convergir o teatro, a animação sociocultural e a cultura num mesmo método, que combina a expressão dramática e o teatro, para gerar processos de criatividade individual e de experiência colectiva. Embora a animação teatral ainda não faça parte do léxico das colectividades de teatro amador, o certo é que as suas
características se coadunam com as suas práticas.
No entanto, tem-‐se vindo a verificar um decréscimo de interesse, por parte da popu-‐ lação Avintense no associativismo, o que apresenta novos desafios para esta comunidade. Estas preocupações estão patentes, mais uma vez no Fórum Avintense onde se apontam os caminhos a seguir: reflectir sobre as mudanças; modernizar a organização e oferta das colec-‐ tividades; reforçar o inter-‐associativismo; efectivar a inter-‐relação entre a escola e as colec-‐ tividades; dinamizar as actividades de carácter lúdico e cultural; fomentar a educação para a participação associativa; formar dirigentes associativos; facilitar a acessibilidade a docu-‐ mentação histórica; criar uma agenda cultural promovendo a coordenação de eventos.
A escola em Avintes reflecte a situação vivida em Portugal, principalmente no que se refere à educação artística. Embora a legislação e os teóricos concordem que a pedagogia da expressão liga arte e ensino, a prática está imersa em contradições devido às constantes interrogações sobre a maneira, demasiado formalista e tecnocrática, como estamos a encarar a educação. Todos os debates, conferências e estudos, convergem para uma mesma opinião: a de descontinuidade e falta de verdadeira aposta politica no ensino artístico. As incongruências, que podemos verificar no percurso escolar das crianças e jovens, são para-‐ lelas às históricas.
Apesar de toda a evolução registada, a necessidade de professores de teatro é ainda um ponto polémico, que envolve políticas governamentais, mas o seu contributo como pro-‐ fissionais avalizados, em todo o tipo de projectos no interior das escolas, é reconhe-‐ cidamente de qualidade. Portugal tem graves problemas nesta área, os sucessivos governos não investem com seriedade em políticas educacionais na área das artes, “a forma como o teatro é dado nas escolas públicas é uma mentira, não existe um plano de estudos, na maioria dos casos os professores não estão preparados, serve apenas para preencher horário. É triste ver professores de outras áreas a dar aulas de teatro, (imaginem o con-‐ trário). A educação artística não é encarada com o respeito que ela merece” (Pires, 2010).
Os avanços fazem-‐se na sua maioria com a força que as pessoas imprimem aos pro-‐ jectos de teatro na educação, como verificamos pela bibliografia analisada. Os respondentes são exemplo da investigação e implementação da educação pelo teatro, utilizando uma pedagogia do coração e assumindo a afectividade como ferramenta pedagógica, como sub-‐ linha Rivera Hurtado. As vivências em grupos de teatro amador e universitário, a possi-‐ bilidade de se dar continuidade a projectos, a organização de festivais de teatro e o trabalho colaborativo com companhias de teatro amador são apontadas como contributos perti-‐ nentes no compromisso de educar com o teatro.
Ainda da análise das respostas obtidas encontrámos as confirmações: o teatro possi-‐ bilita uma cidadania activa, uma intervenção na vida associativa e cultural com uma marca que de outra forma seria difícil; a educação pelo teatro é fundamental para uma visão abrangente do mundo, para nos colocarmos no lugar dos outros e para a construção de uma sociedade tolerante; a presença do teatro na escola é apelidada de várias formas, a mais usual é expressão dramática, aceitando-‐se outras designações; teatro educacional não é uma designação tão utilizada por subentender formalidade; a abrangência etária da edu-‐ cação pelo teatro começa na primeira infância com os jogos de faz-‐de-‐conta e tal como a educação não tem prazo para terminar; Avintes dá respostas à população, fora do espaço escolar, através de diversas actividades das casas de teatro; a falta de interesse político pelas questões culturais e educativas é notória, apesar disso os progressos fazem-‐se, os frutos da dedicação e do amor à arte patentes na vida social, cultural das comunidades; existem inúmeras vantagens para o teatro e para a escola do trabalho cooperativo e, fina-‐ lizando, a experiência partilhada de vários investigadores, que conseguimos nesta inves-‐ tigação, mobiliza para a temática em causa.
Numa conclusiva e última alusão, o teatro e a expressão dramática em educação devem ser divulgados e incentivados, por todos os benefícios apontados, pelos professores, comunidade e entidades competentes com a finalidade de proporcionar às crianças uma vivência escolar acima de tudo completa e feliz.