3. Mãe Aparecida do Vagão Queimado.
3.1 Nossa Senhora Aparecida do Vagão Queimado.
No dia 30 de dezembro de 1998, o Papa João Paulo II criou, pela Bula Ad Aptius Consulendum, a Diocese de Ourinhos. Foi a realização de um antigo sonho ourinhense. Todavia, para muitos, uma satisfação parcial. Isso porque esperavam que o primeiro bispo local fosse o carismático monsenhor Oswaldo André Violante. Por essas ironias típicas da História, o grande militante desse projeto não viveu o bastante para acompanhar a ereção da nova diocese. Faleceu em 1994.
A última década e meia do ministério presbiteral de Violante, aconteceu em um cenário histórico e eclesial marcado por inúmeras transformações e conflitos. No Brasil, a ditadura chegou ao fim e, ainda que num processo regado a contradições, deu-se passos decisivos no sentido da redemocratização do país. Fora do Brasil, a URSS entrou em profunda crise até desaparecer com o recrudescimento da recomposição geopolítica de seu
205 Fragmento da oração Mãe Aparecida do Vagão Queimado, distribuída no Santuário Diocesano de NSAVQ
antigo território. A Guerra Fria acabou e a idéia de Globalização e/ou Mundialização tornou-se o novo conceito explicativo da realidade social206.
Nesse período, a população ourinhense passou de 59.738 (dados do IBGE para 1980) para pouco mais de 76.923 (dados do IBGE para 1991) habitantes. Ourinhos manteve certo ritmo de desenvolvimento. Sua economia baseada no comércio e na agricultura sobreviveu às intempéries da época. Mas o Catolicismo ourinhense parecia perder forças. Se, levando em conta os dados do IBGE, em 1980 a cidade tinha 88, 5% de católicos, esse número cai para 84, 8% em 1991, e despenca para 75, 5% em 2000 – quando Ourinhos já contava com 93.868 habitantes. A percentagem de católicos em Ourinhos superava a percentagem média nacional, contudo, o Catolicismo local voltava a se enquadrar na Teoria do Declínio.
O Catolicismo vivia sob o signo do ambíguo pontificado de João Paulo II. Seu nome de pia era Karol Wojtyla. Nasceu em 18 de maio de 1920, na cidade de Wadowice, Polônia. Foi eleito papa em 16 de outubro de 1978. O vaticanista John Cornwell afirma que sua insólita vitória, mormente por sua origem polonesa, reside no fato de Wojtyla ter atraído as simpatias de prelados progressistas e conservadores. Nas palavras de Cornwell
Os progressistas acreditaram, no começo, que esse era um papa para dar continuidade ao espírito do Concílio e acelerar as reformas inacabadas. Os
206HELD, David; McGREW, Anthony. Prós e contras da globalização. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p.07; HOBSBAWM, Eric. Tempos interessantes: uma vida no século XX. Tradução de S. Duarte. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.p. 311-44 SILVA, Francisco C. T. da. Brasil em direção ao século XXI. IN: LINHARES, Maria Yedda (org.). História Geral do Brasil. 9.ed. Rio de Janeiro: Campus, 2000.p. 385-445.
conservadores, por outro lado, confiavam em que um prelado criado no Catolicismo da Polônia, tradicionalista e de uma rija têmpera provada ao longo da história, restabeleceria muitas disciplinas e valores, e baniria ao mesmo tempo quaisquer esperanças remanescentes alimentadas por católicos de um matiz socialista207.
Cornwell continua seu texto afirmando que poucos poderiam prever o quanto o pontificado de João Paulo II desapontaria os progressistas. Para delírio dos conservadores, o novo pontífice assumiria uma autoridade papal centrista e absolutista. Propunha uma verdadeira restauração católica assentada naquilo que Libâneo profeticamente denominou de “volta a grande disciplina”208, ou, em outras palavras, em um processo de recentralização da Igreja utilizando o ofício petrino e a expansão da Cúria Romana como instrumentos de disciplinarização e ordenamento autoritário a partir de concepções eclesiais neotridentinas209.
Essas afirmações podem soar estranhas a ouvidos desavisados. Isso porque João Paulo II aproveitou muito bem seu carisma de líder religioso, seu talento teatral e a necessidade compulsiva da mídia em encontrar personagens para seu system star,
207 CORNWELL, John. A face oculta do pontificado de João Paulo II. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de
Janeiro: Imago, 2005.p.83.
208 BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil: De João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo.
2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. p. 212. Nesta obra, padre Beozzo, em capítulo intitulado Tensão e diálogo
– as relações entre a Santa Sé e a Igreja do Brasil, analisa detalhadamente as contradições do pontificado de
João Paulo II e o explícito favorecimento dos movimentos conservadores na gestão desse pontífice.
209 Cf. CORNWELL, John. A face oculta do pontificado de João Paulo II. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de
Janeiro: Imago, 2005. p.83 e 326; ZYLBERG, Jacques; CÔTE, Pauline. Dominação teocrática, dissonâncias eclesiais e dissipação democrática. IN: LUNEAU, René; MICHEL, Patrick (orgs.). Nem todos os caminhos
levam a Roma: as mutações atuais do Catolicismo. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira.
Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.p.30-4; GUTTILLA, Rodolfo. A casa do santo e o santo de casa.São Paulo: Landy, 2006. p.150.
no sentido de construir uma imagem de si associada à luta pelos direitos humanos, pela liberdade e pela democracia e, sobretudo, pela luta anticomunista. A revista Time chegou a chamá-lo de John Paul Superstar. No entanto, essa imagem desaparecia quando, entre quatro paredes, reunia, advertia e exortava os bispos dos muitos países em que passava. Cornwell argumenta que seu pontificado foi marcado pela ambigüidade. Assim, de um lado, ele revelou ser um homem de rara profundidade de alma, um evangelista infatigável; de outro, mostrou-se extremamente dogmático e autoritário210.
O gesto de beijar o solo, característica marcante desse pontífice, pode revelar, por exemplo, tal ambigüidade: teatralmente e/ou misticamente, valoriza o solo que o recebe; despoticamente, confirma com um beijo, como fazia Cura D’Ars – santo de sua predileção, o domínio sobre sua paróquia. Concebendo a si mesmo como Pastor Universal ele teria direito sobre todas as paróquias. Bispos e padres seriam reles colaboradores. A colegialidade episcopal restringia-se a calorosos discursos e elegantes textos teóricos. Na prática nunca existiu.
Cornwell exemplifica suas análises com uma passagem acerca da visita de João Paulo II ao Brasil no ano de 1980. Segundo ele
(...) em 30 de junho, viajou para o Brasil, numa visita de 12 dias. Houve as habituais concentrações: meio milhão de jovens saudaram-no em Belo Horizonte, chamando-o em coro “João de Deus! Nosso Rei!”, que se tornou o estribilho salmodiado de um extremo ao outro desse vasto país quando viajou das planícies
210 CORNWELL, John. A face oculta do pontificado de João Paulo II. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de
aos desertos e às florestas, através de aldeias, cidades e grandes metrópoles. Por toda a parte foi afável, indulgente, compassivo, enquanto caminhava através de favelas ou era conduzido ao longo dos rios. Mas a portas fechadas com seus bispos, era o autoritário. Havia muita coisa que lhe desagradava no Brasil; as defecções em massa para o evangelismo protestante, o ativismo político de padres e a mistura de Catolicismo e magia local. No Recife, fez uma preleção de quatro horas para os bispos. A Igreja, disse-lhes ele, não é deste mundo; devem prestar mais atenção à doutrina social papal e fazer tudo o que estiver ao alcance deles para fomentar a unidade. Devem amar os pobres, mas evitar a luta de classes. Não contassem com seu apoio aos padres revolucionários. Deixou seus bispos atordoados211.
Leonardo Boff, em texto recente por ocasião da primeira visita do Papa Bento XVI ao Brasil, corrobora as afirmações de Cornwell e apresenta um quadro eclesiástico das últimas décadas. Para esse autor existiriam duas posições eclesiais ante a modernidade: uma de confronto, outra de diálogo. O Concílio Vaticano II foi fruto de uma opção pelo diálogo, foi um verdadeiro “aggionarmento”. Nas palavras de Boff
211 CORNWELL, John. A face oculta do pontificado de João Paulo II. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de
Este “aggionarmento” trouxe grande vitalidade em toda a Igreja, especialmente na América Latina, que criou espaço para aquilo que se chamou de Igreja da base ou da libertação e da Teologia da Libertação. Mas acirrou também as frentes. Grupos conservadores, especialmente incrustados na burocracia do Vaticano, conseguiram se articular e organizaram um movimento de restauração, de volta à grande tradição.
Este grupo foi enormemente reforçado sob João Paulo 2º, que vinha da resistência polonesa ao marxismo. Chamou como braço direito e principal conselheiro, seu amigo, o teólogo Joseph Ratzinger, elevando-o diretamente ao cardinalato e fazendo-o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, a ex-Inquisição212.
Boff continua o artigo afirmando que Ratzinger213, atual Bento XVI, foi o mentor intelectual da opção pelo confronto com a modernidade. A partir de Boff, Cornwell e Joanoni Neto pode-se afirmar que o pontificado de João Paulo II (seguido nesses itens por Bento XVI) caracterizou-se, de um lado, pela perseguição aos membros de correntes
212 BOFF, Leonardo. Bento 16 e a guerra na Igreja. Folha de São Paulo, São Paulo-SP, 13 maio 2007, p. A-
12. Conferir também CORNWELL, John. A face oculta do pontificado de João Paulo II. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Imago, 2005. p.111s.
213 Como prefeito da CDF, o cardeal Ratzinger perseguiu inúmeros teólogos. Entre estes estava o ex-frade
franciscano Leonardo Boff. Sobre essa e outras perseguições da Santa Sé conferir: BEOZZO, José Oscar. A
Igreja do Brasil: De João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes,
teológicas pouco alinhadas a ortodoxia romana (como a Teologia da Libertação e a Teologia Feminista);e, de outro, pelo favorecimento explícito aos integrantes de movimentos católicos conservadores, dos quais retirou a maioria dos novos bispos e assessores, como Opus Dei, Legionários de Cristo, Neocatecumenato, Focolari, Comunhão e Libertação, Renovação Carismática Católica entre outros214. Significativamente, o primeiro bispo de Ourinhos, Salvador Paruzzo, saiu de um desses movimentos conservadores.
Ele nasceu em 15 de outubro de 1945, na cidade de Montedoro, província de Caltanisseta, Itália. Após concluir os estudos filosóficos e teológicos no Seminário Episcopal de Caltanisseta, foi ordenado sacerdote em 1969. Trabalhou na diocese local até o ano de 1979 quando, como missionário Fidei Donum, veio para o Brasil. Primeiro, na Diocese de Piracicaba, onde permaneceu dez anos. Depois, na Diocese de Osasco, onde liderou as ações do movimento Focolari, de origem italiana, e das revistas “Perspectivas de Comunhão” e “Cidade Nova”, ambas desse mesmo movimento. No dia 30 de Dezembro de 1998215 o papa João Paulo II o nomeou como primeiro bispo da Diocese de Ourinhos.
D. Salvador foi ordenado em 19 de março de 1999. Dois dias depois assumiu oficialmente a nova diocese. O grande desafio do novo bispo era preparar, em um
214 JOANONI NETO, Vitale. Fronteiras da Crença: da libertação ao carisma, a presença católica na cidade de
Juina (1978-1998). Tese (doutorado em História). FCL, UNESP, Assis, 2003. p.162; CORNWELL, John. A
face oculta do pontificado de João Paulo II. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Imago, 2005.p.111 et passim.
215 Não parece acaso o fato de inúmeros padres de movimentos conservadores, isto é, alinhados a restauração
católica efetivada pela Cúria Romana, serem eleitos para o episcopado em 1998, afinal, esse é o ano da carta apostólica Apostolus Suos que essencialmente exige ligação direta das conferências episcopais com Roma, origem institucional do sacerdócio. Tal medida enfraqueceu ainda mais as conferências e impediu a atuação de assessores e peritos nesses órgãos. Sobre a autoritária política de nomeação de bispos efetivada pelo Vaticano e suas relações, não menos autoritárias, com os episcopados locais conferir: BEOZZO, José Oscar.
A Igreja do Brasil: De João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes,
1996. p. 279-89; HERVIEU-LERGER, Daniele. O Bispo, a Igreja e a Modernidade. IN: LUNEAU, René; MICHEL, Patrick (orgs.). Nem todos os caminhos levam a Roma: as mutações atuais do Catolicismo. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p. 297.
curto período de tempo, sua diocese para o Grande Jubileu do ano 2000. A relevância desse evento para a Igreja Romana manifesta-se na carta apostólica de 1994, Tertio Millenio Adveniente, na qual João Paulo II não hesitou em propor a preparação para o Jubileu do ano 2000 como uma das chaves de interpretação de seu pontificado, bem como de todos os pontificados do século XX. Antes e depois dessa carta convidou todos a envidarem esforços na tarefa de uma nova evangelização. Talvez porque, como afirmou René Luneau, o mundo, se algum dia o foi, deixou de ser cristão216.
Em Ourinhos D. Salvador procurou travar contato com as autoridades locais, visitar as comunidades e planejar as ações rumo ao Grande Jubileu. E foi nesse contexto que ele conheceu a história da imagem encontrada no vagão queimado.
Nesse tempo a devoção novamente arrefecera. Segundo os depoimentos de Lourival Argenta e Norival Vieira, a saúde fragilizada e a sobrecarga de tarefas impediram que o monsenhor Violante continuasse a promover a vida religiosa do santuário dedicado a Nossa Senhora Aparecida. A leitura do Livro Tombo da paróquia do Senhor Bom Jesus, referente aos anos de 1980 a 1998, aponta para a decrescente realização de atividades religiosas e sociais nesse santuário. A missa de 12 de outubro aconteceu invariavelmente, mas, a antiga ênfase à sua particularidade e ao milagre de 1954 desaparecem.
O arrefecimento das práticas tradicionais de devoção a Nossa Senhora Aparecida, salva do vagão queimado, não ocorreu apenas pela ausência do Monsenhor. Acredito que tal fato tenha ocorrido, outrossim, pela chegada de atitudes e práticas religiosas ligadas à Teologia da Libertação, promovidas pelos padres e irmãos da
216LUNEAU, René. Quando se aproxima o terceiro milênio...IN: ______; MICHEL, Patrick (orgs.). Nem
todos os caminhos levam a Roma: as mutações atuais do Catolicismo. Tradução de Guilherme João de Freitas
Congregação dos Oblatos de São José e da Ordem dos Teatinos, recém chegados a região, além dos padres diocesanos admirados com as técnicas e as metodologias (a famosa tríade recuperada da Ação Católica: “ver, julgar, agir”) das Comunidades Eclesiais de Base217.
Assim, sobretudo a partir da Pastoral da Juventude, foram difundidas novas práticas religiosas assentadas na leitura social da Bíblia, em procissões no estilo de passeatas, em cantos profanos entoados como hinos sacros, enfim, nas diversas possibilidades de inserir a religião na vida cotidiana, o evangelho no chão que se pisa...
Porém, o Catolicismo ourinhense é, por sua trajetória histórica, preponderantemente mariano e tradicional. Os que não nutriam simpatias pela nova versão do Catolicismo que chegara a cidade, preferiam apegar-se aos santos de casa e a dimensão privada da fé. O próprio sentido atribuído à devoção a Nossa Senhora Aparecida, salva do vagão queimado, favorecia tal atitude, afinal, seu significado nacional absorvia o local. Na tensão entre o nacional e o local, o primeiro sobrepunha-se ao segundo. Sendo assim, o devoto não precisaria dirigir-se apenas ao templo da Avenida Gastão Vidigal, geralmente fechado nesse período, mas poderia cultivar sua devoção rezando diante das estampas e das imagens domésticas ou expostas nos templos paroquiais, ou, ainda, participando periodicamente de romarias ao “coração católico do Brasil”, como o papa João Paulo II se referiu a Basílica de Aparecida.
De fato, a devoção a Maria não declinou nesse período. Para o antropólogo social Carlos Alberto Steil, o início do processo de desinstitucionalização da fé nos anos 1970 não impediu a proliferação de aparições marianas e a repotencialização
217CONGREGAÇÃO DOS OBLATOS DE SÃO JOSÉ. Seminário Josefino Nossa Senhora de Guadalupe: 50
anos. Ourinhos, SP. 1998.p.25s.; LIVRO TOMBO da Paróquia do Senhor Bom Jesus de Ourinhos – 1980- 2000.
popular de antigas venerações à mãe de Jesus. Ainda segundo esse autor, os anos 1980 e 1990 e o início do século XXI “têm assistido a uma proliferação significativa de aparições marianas não só no Brasil, mas em todos os países de tradição católica ou com número expressivo de católicos em sua população”218. O documento Aparições e revelações particulares da CNBB, de outubro de 1989, indica a preocupação da Igreja Católica ante o fenômeno aparicional destacado por Steil. As primeiras palavras do texto são esclarecedoras
Nos últimos anos, o número de “aparições” e “revelações” particulares, principalmente de Nossa Senhora, tem aumentado significativamente. A própria repercussão desses fenômenos junto aos meios de comunicação social indica que também têm crescido a expectativa desses fenômenos, no meio do povo.
Tudo isso coloca à Igreja e, mais especificamente, ao seu ministério hierárquico, algumas questões de ordem doutrinal e pastoral219.
Esse fragmento e o restante do texto apontam para certa impotência da hierarquia católica ante esse fenômeno devocional. Não é mais possível controlar tais práticas, como outrora. Por isso o documento termina sugerindo ao clero que trate o
218 STEIL, Carlos Alberto; MARIZ, Cecília L.; REESINK, Mísia L. (orgs.). Maria entre os vivos: reflexões
teóricas e etnografias sobre aparições marianas no Brasil. Porto Alegre: UFRGS, 2003. p.08.
fenômeno de modo objetivo, mas sem se esquecer que ele representa um “potencial evangelizador, ligado à religiosidade popular, que não pode ser deixado de lado”220.
A socióloga Cecília Loreto Mariz também enfrentou essa questão. Em texto de 2002, intitulado Aparições da Virgem e o Fim do Milênio, Mariz discorda das teorias que afirmam existir uma relação necessária entre aparições-mensagem apocalíptica- fim de milênio, como se esses eventos se explicassem mutuamente. Para essa socióloga o fenômeno aparicional de fins do século XX foi engendrado pela maior divulgação desses eventos pela mídia.
Assim, criou-se certas expectativas miméticas e uma impressão de surto aparicional quando, na verdade, ocorreria simplesmente um maior registro e troca de informações sobre estes. Ainda segundo Mariz, esse fenômeno, mais registrado e midiático, só é possível em um contexto de mudança de atitude da Igreja em relação ao mesmo. No passado a Igreja reprimia bastante esses relatos. Atualmente ela não pode se dar a esse luxo. Isso porque, de um lado, a Igreja perdeu parte de seu poder sobre a população, de outro, em razão desses relatos serem ótimos aliados da instituição em um mundo caracterizado pela secularização e pelo pluralismo religioso221.
Essa junção entre impotência da hierarquia, autonomia devocional, pluralismo religioso e mídia aparece na tese de doutoramento do historiador Lourival dos Santos intitulada A família Jesus e a Mãe Aparecida: História Oral de devotos negros da Padroeira do Brasil (1951-2005). No último capítulo de sua tese, defendida em 2005, afirma que Nossa Senhora Aparecida tornou-se a santa pop do Brasil contemporâneo.
220CNBB. Aparições e revelações particulares. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 1990., p.60.
221
MARIZ, Cecília Loreto. Aparições da Virgem e o Fim do Milênio. Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, 4:35-45, 2002.
Desde os anos 1960 a imagem encontrada no rio Paraíba transcende as dimensões do Catolicismo e aponta para questões de identidade nacional, negritude, liberdade entre outras. A formação de uma sociedade consumista aprofundou esse processo. Assim
O ícone de Nossa Senhora Aparecida tornou-se concretamente onipresente na sociedade brasileira graças à capacidade de reprodução industrial de sua imagem. Estou falando da multiplicação da imagem encontrada em todas as partes: em altares improvisados de bares e pequenos comércios; em camisetas, “santinhos”, pingentes e outros suvenires; tatuada na pele de presidiários; nas oferendas em encruzilhadas e nos terreiros de candomblé e altares domésticos de todo tipo. À presença material da imagem corresponde também outra, virtual. Nos meios de comunicação, por meio de celebridades, nas telenovelas, nas bancas de jornal: Nossa Senhora Aparecida está na moda222.
Lourival dos Santos continua suas reflexões afirmando que o episódio que ficou conhecido como “o chute na santa” demonstrou a popularidade da Nossa Senhora Aparecida e repotencializou o seu uso. O fato aconteceu em 12 de Outubro de 1995. Nesse dia o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio von Helde, chutou a imagem de
222 SANTOS, Lourival dos. A família Jesus e a Mãe Aparecida. Tese (Doutorado em História).FFLCH, USP,
Nossa Senhora Aparecida durante seu programa televisivo na Rede Record como se observa na foto a seguir. A estratégia do bispo von Helde para corroborar sua pregação a