2. Imagem em triunfo
2.1 Nossa Senhora des-Aparecida.
O encontro da imagem intacta de Nossa Senhora Aparecida causou espanto e temor na população ourinhense. A veneração foi imediata. Os bombeiros paulistanos até queriam levar consigo a imagem miraculosa. Foram impedidos, como informa o artigo do Correio de Notícias, pelo delegado local e, por fim, entregaram-na ao prefeito Domingos Camerlingo Caló. Fotos registraram a ocasião. A que reproduzimos abaixo configurou a memória histórica desse evento.
O tenente Marcondes entrega a imagem ao prefeito Caló. Fonte: Acervo do Santuário de NSAVQ.
A pequena imagem está no centro da fotografia. E é em torno dela que as pessoas, significativamente, se reúnem. Ela é o ponto de convergência, símbolo de identidade e unicidade, acima das contradições e dos conflitos sociais. É sinal de poder. Por isso as principais autoridades estão em primeiro plano. Efetiva-se uma recíproca legitimação. As demais pessoas estão atrás, esforçam-se para serem vistas e para
aproximarem-se da imagem santa. É uma explícita representação das estratificações sociais e do poder simbólico que emana de um ícone sagrado119.
Ainda sobre essa situação, mas, por outro viés, devemos pensar a respeito da fotografia transformada em documento/monumento, isto é, determinando a imagem do evento, sendo, não obstante, produto da sociedade que o fabricou, segundo as relações de força que aí detinham o poder120. Por isso devemos entender que a fotografia
É agente do processo de criação de uma memória que deve promover tanto a legitimação de uma determinada escolha quanto, por outro lado, o esquecimento de todas as outras121.
Nesse sentido, Norival Vieira afirmou em depoimento que, o prefeito Caló122, proprietário do Correio de Notícias, fez questão de divulgar essa foto em que recebia a imagem de Nossa Senhora. Pretendia associar seu governo à imagem da Santa seguindo o exemplo do presidente da época, Getúlio Vargas, que incentivou a devoção a Nossa Senhora Aparecida, como instrumento nacionalista, no bojo de sua política populista123.
No dia seguinte ao acidente, a imagem foi levada ao hospital da cidade, dirigido pelo doutor Monzillo. Ela ficou ali durante alguns dias antes de ser levada a um
119 STEIL, Carlos Alberto. Catolicismo e cultura.IN: VALLA, Victor V. (org.). Religião e cultura popular.
Rio de Janeiro: DP&A, 2001. p.38-9.
120 LE GOFF, Jacques. Documento/Monumento. IN: ENCICLOPÉDIA EINAUDI. Lisboa: Imprensa
Nacional/Casa da Moeda, 1984. v.1, Memória/História, p.102.
121CARDOSO, Ciro F.; MAUAD, Ana M. História e Imagem: os exemplos da fotografia e do cinema. IN:
CARDOSO, Ciro F.; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p.407.
122 Domingos Carmelingo Caló foi prefeito de Ourinhos de 1952 a 1959 e de 1968 a 1969.
123 SANTOS, Lourival dos. Igreja, Nacionalismo e Devoção Popular. Dissertação (Mestrado em
dos altares laterais da igreja matriz de Ourinhos. Mas, surpreendentemente, contrariando todos os sinais que apontavam para o desenvolvimento de uma linear, feliz e tranqüila devoção a Nossa Senhora Aparecida, nos deparamos com o desaparecimento do culto a Virgem, encontrada intacta no vagão queimado. O que teria acontecido?
Entramos em terreno pantanoso. Defrontamo-nos com uma “realidade opaca”. Todavia, acredito que uma possível resposta a essa questão, passa pela compreensão do impacto e da incidência de alguns acontecimentos nacionais e locais sobre a comunidade ourinhense. O impacto nacional viria naquele mesmo mês de Agosto de 1954: o suicídio de Getúlio Dornelles Vargas, que comoveu todo o país e centralizou as atenções. Nas palavras do historiador Boris Fausto
O suicídio de Getúlio teve efeito imediato. A massa saiu às ruas em todas as grandes cidades, atingindo os alvos mais expressivos de seu ódio: caminhões que carregavam a edição do jornal antigetulista O Globo foram queimados e houve tentativas de tomar de assalto a representação diplomática dos Estados Unidos, no Rio de Janeiro124.
A imprensa ourinhense, no rastro da imprensa nacional, acompanhou atentamente o desenrolar dos acontecimentos em torno da morte de Getúlio Vargas: a multidão que acorreu ao seu velório, as inúmeras manifestações de afeto e apoio ao “pai dos pobres” e o tumultuado interregno do governo Café Filho125.
124FAUSTO, Boris. História do Brasil. 11.ed. São Paulo: EDUSP, 2003. p.418.
125MENDONÇA, Sônia Regina de. As bases do desenvolvimento capitalista dependente. IN: LINHARES,
Localmente, outro processo atraía a atenção da comunidade católica ourinhense: a atuação dos Oblatos de São José na construção de seu santuário. Se, por um lado, a ereção do Seminário de Nossa Senhora de Guadalupe contribuiu para a consolidação da identidade mariana do Catolicismo ourinhense, favorecendo a leitura mariofânica do acidente de 1954, como vimos no capítulo anterior; por outro lado, a devoção a essa Virgem, invocada como Padroeira da América Latina desde 1910, concorreu para o desaparecimento da veneração a imagem encontrada no vagão queimado. Pensemos um pouco mais sobre essa última afirmação.
Desde sua chegada em Ourinhos, a Missão Josefina propunha expandir seu campo de atuação. Concluído o seminário, chegou a vez de envidar todos os esforços na construção de um santuário digno da Virgem de Guadalupe. Para isso, ao longo dos anos 50 e 60, foram realizadas e promovidas festas, quermesses, apresentações artísticas, campanhas na imprensa escrita e falada, nas associações de leigos atuantes, enfim, de diferentes modos os padres procuraram reunir a comunidade católica ourinhense em torno de sua causa126.
O apoio dos bispos regionais, do pároco local e a ação do Superior Geral dos Oblatos, enviando mais padres para a casa de Ourinhos, contribuíram decisivamente para o crescimento da Ordem no Brasil e para sua influência no Catolicismo ourinhense da época. Em 1956, Ourinhos torna-se a sede da Delegação Josefina brasileira. Nos anos que seguem, envia inúmeros noviços e freis para finalizarem seus estudos filosóficos e teológicos na Itália. Em 1961, é ordenado o primeiro padre brasileiro da Congregação. A
126CONGREGAÇÃO DOS OBLATOS DE SÃO JOSÉ. Seminário Josefino Nossa Senhora de Guadalupe: 50
cerimônia ocorreu em Ourinhos e movimentou toda a comunidade católica. Em 1964, o evento se repetiu127.
Os devotos deambulam em torno de Nossa Senhora de Guadalupe, promovida pelo Catolicismo ourinhense nos anos 50 e 60 do século passado. Fonte: Acervo pessoal de Norival Vieira da Silva.
A marcante presença Josefina, promovendo a devoção a Nossa Senhora de Guadalupe, como atesta a foto acima, atraindo e movimentando a comunidade católica local, contribuiu para o desaparecimento da veneração a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Entretanto, acredito que a efemeridade do culto deu-se, em grande parte, pela postura da Igreja local, mais especificamente pela ação do pároco da igreja do Senhor Bom Jesus, diante do encontro da imagem. A Igreja Católica não reconheceu o fato como prodígio sobrenatural. Na verdade, nem foi chamada para isso. Na fotografia que analisamos o padre não está presente, a imagem foi entregue ao prefeito. O reconhecimento do fenômeno partiu do povo, dos leigos, algo menos desvalorizado do que combatido pela
127
CONGREGAÇÃO DOS OBLATOS DE SÃO JOSÉ. Seminário Josefino Nossa Senhora de Guadalupe: 50 anos. Ourinhos, SP. 1998. p.15-20.
Igreja da época, afinal, o clero romanizado pretendia controlar as devoções, novas e/ou antigas. Ainda que a (tardia) entrega da imagem ao padre Murante indique, conforme analisei, a bem sucedida romanização do Catolicismo ourinhense, o clero havia sido excluído da legitimação do sagrado.
E, talvez, por isso, padre Murante não tenha se preocupado em divulgar a história e o culto à imagem encontrada no vagão queimado. Apenas colocou-a em um canto de um dos altares laterais, do qual, segundo testemunho de Norival Vieira, recebeu inicialmente certa veneração particular, traduzida no desfiar do rosário, de algumas pessoas que conheciam o fato de 1954.
Padre Murante, que auxiliara padre Magnone na implantação da Casa Josefina, talvez estivesse mais propenso a valorizar a devoção a Nossa Senhora de Guadalupe – Virgem da América, sob total controle do clero. Como a História confirmou, Murante não acolheu o “evento miraculoso” e, muito menos, demonstrou qualquer atitude em promover a devoção em torno da imagem encontrada no vagão incinerado. Os meses passaram e a história do acidente e do milagre foi esquecida. A imagem desapareceu simbólica e fisicamente da igreja ourinhense.
Isso mesmo. A imagem desapareceu no final dos anos 1960. Mas, sinal da negação eclesiástica e da amnésia popular, seu desaparecimento só foi notado em 1973 quando monsenhor Violante, motivado por alguns leigos, dentre eles os nossos conhecidos Rafael Conte e Lourival Argenta, iniciou a busca pela imagem, como veremos adiante. Em agosto de 1973 o jornal Diário da Sorocabana estampava a reveladora manchete:
“OURINHENSES QUEREM SABER ONDE ESTÁ A IMAGEM SALVA DO INCÊNDIO DE 1954”128.
Além de saber sobre o onde, quero analisar o porquê e o como desse fenômeno. Para isso não devemos nos ater apenas a dinâmica religiosa local. O fenômeno da Nossa Senhora des-Aparecida situa-se no contexto mais abrangente da recepção das idéias do Concílio Vaticano II pelas lideranças da Igreja Católica no país.
Em Janeiro de 1959, o papa João XXIII anunciou a convocação do Concílio Ecumênico Vaticano II. O Concílio foi inaugurado em outubro de 1962. Interrompido pela morte de João XXIII, em junho de 1963, e pelo conclave que se seguiu, elegendo Paulo VI como novo pontífice, o Vaticano II foi encerrado em dezembro de 1965. Esse Concílio mudou a face da Igreja Católica ao questionar sua relação com a sociedade moderna, com as diferentes religiões e religiosidades, com os governos, com os mais necessitados... e, ao suscitar tais questionamentos, rever a própria organização e dinâmica interna da Ecclesia. As idéias e ações incitadas por esse Concílio tiveram efeitos de caráter global, transformando relações sociais e práticas religiosas, fazendo do Vaticano II um evento ímpar no cenário religioso do século XX129.
Para Beozzo, esse foi o Concílio da Igreja do Brasil. Se o Vaticano I contou com apenas 7 Padres Conciliares Brasileiros, o Vaticano II, em sua abertura, acolheu 204 deles. Se entre esses concílios o episcopado mundial havia pouco mais que dobrado, o brasileiro havia se multiplicado por dezessete, e tinha um peso considerável à
128 NUNES, Sérgio. Ourinhenses querem saber onde está a imagem salva do incêndio de 1954. Diário da
Sorocabana, Ourinhos, 19.08.1973, p.01.
129BEOZZO, José Oscar. Padres Conciliares Brasileiros no Vaticano II: Participação e Prosopografia – 1959-
época do Concílio, sendo o terceiro maior do mundo. As intervenções brasileiras foram significativas ao longo das sessões conciliares, corroborando sua relevância no contexto eclesial. O Concílio contribuiu, outrossim, para a inserção da Igreja do Brasil “num complexo tecido de relações com as demais igrejas do mundo todo, com as outras igrejas da América Latina e redefinindo suas relações com o centro romano”130.
Internamente, a inexorável permanência dos Padres Conciliares Brasileiros em Roma ensejou experiências comunitárias, relações de cumplicidade, situações de estudos e debates sobre a realidade sócio-eclesial do Brasil. Esboçou-se, assim, uma identidade própria da Igreja do Brasil, caracterizada, como as discussões e ações revelavam, por uma pluralidade de concepções acerca da inserção da Igreja no mundo moderno131. Tudo isso em um momento nevrálgico e fatídico da História do Brasil. Nas palavras de Beozzo
O Concílio encaixa-se ainda num período de dramáticas mudanças políticas e sociais no país. O fato de os bispos encontrarem-se regularmente ao longo dos quatro anos que antecederam a crise (1962-3), com ela coincidirem (1964) e a sucederem (1965), do início dos anos sessenta, ao golpe militar de 1964, permitiu à instituição Igreja-católica situar-se como corpo episcopal, frente a estas mudanças, talvez como nenhuma outra instituição ou grupo nacional, com exceção dos militares132.
130 BEOZZO, José Oscar. Padres Conciliares Brasileiros no Vaticano II: Participação e Prosopografia –
1959-1965. Tese (Doutorado em História).FFLCH, USP, São Paulo, 2001.p.28.
131BEOZZO, José Oscar. Padres Conciliares Brasileiros no Vaticano II: Participação e Prosopografia – 1959-
1965. Tese (Doutorado em História).FFLCH, USP, São Paulo, 2001. p.226.
132BEOZZO, José Oscar. Padres Conciliares Brasileiros no Vaticano II: Participação e Prosopografia – 1959-
As contradições e disparidades do episcopado brasileiro quanto a inserção da Igreja no mundo moderno, apareceram também no posicionamento eclesial diante da Ditadura Militar, como lemos em Beozzo. Se, por um lado, a Igreja deveria colocar-se a favor dos princípios evangélicos e conciliares, sobretudo provenientes da Gaudium et Spes, lutando com autonomia para transformar realidades marcadas pelo desrespeito à dignidade humana e à fé cristã; por outro, ela ainda dependia dos recursos financeiros provenientes do governo, o que desembocava na manutenção permanente ou esporádica dos antigos laços, sem falar, que o governo autoritário caiu como uma luva para o episcopado conservador e tridentino, servindo de álibi para a recusa e resistência, moderada ou radical, das idéias reformistas propostas pelo Vaticano II.
É ainda Beozzo que nos ajuda a compreender esse período. Segundo ele, ante esse cenário
A Igreja passou por muitas crises, na aplicação dos decretos e conclusões do Concílio, recebidos com alívio e entusiasmo pelas classes médias e intelectuais, com certa resistência popular às mudanças bruscas na liturgia, à supressão de devoções populares, retirada dos santos da Igreja e apresentação de um cristianismo secularizado133.
Os anos imediatamente posteriores ao Concílio exemplificariam essas antíteses e abririam inúmeras feridas134 no Catolicismo brasileiro. A temporalidade e a
133BEOZZO, José Oscar. História da Igreja no Brasil. IN: ARNS, Paulo Evaristo; BEOZZO, J.O. O que é
Igreja. São Paulo: Brasiliense, 1981. p.161.
134 Aludo aqui à afirmação de Beozzo a respeito das mudanças oriundas do Vaticano II: “A onda iconoclasta,
retirando os santos das igrejas, suprimindo procissões e proibindo manifestações populares, como congadas, reizados, dissolvendo associações e irmandades e ridicularizando devoções tradicionais, inauguraram um
espacialidade foi desigual nesse complexo processo. Uma breve e simples comparação, entre os casos do santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia, e de São Judas Tadeu, em São Paulo, pode nos ajudar a entender tal situação histórica.
Sob a bandeira do Vaticano II, os padres redentoristas holandeses, responsáveis, em 1965, pelo santuário de Bom Jesus da Lapa, procuram racionalizar o Catolicismo local, desvalorizando a piedade popular e retirando as imagens da igreja. Propunham um culto sem imagens. Típico desse momento da Igreja do Brasil, como se percebe na análise de Steil,
Especialmente os primeiros anos do Concílio foram marcados por uma onda iconoclasta que tirou das igrejas as imagens em muitas dioceses e paróquias, considerando essas devoções como expressões alienadas da fé tradicional que deveria ser erradicada para que se pudesse ser cultivada uma fé autêntica135.
Ainda segundo Steil, essa situação prolongou-se até 1973 quando, após inúmeros embates, os redentoristas holandeses são substituídos por redentoristas poloneses, que por conta da Cortina de Ferro não haviam vivenciado os princípios do Vaticano II, sendo, em razão disso, mais transigentes com as práticas devocionais. A substituição revela as relações de força na Lapa, bem como o processo de negociação de sentidos entre a Igreja e os devotos. Sob pena de perder os fiéis ou o controle do santuário, os Redentoristas alteram sua estratégia.
conflito agudo e abriram uma ferida profunda na alma popular”. BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil: De João XXIII a João Paulo II, de Medellín a Santo Domingo. 2.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. p.87.
Já no santuário de São Judas Tadeu, os primeiros anos pós-Vaticano II não alteraram, segundo Guttilla, a orientação pastoral paroquial – até 1974. Entre 1974 e 1979, ocorreram mudanças no sentido de transformar o devoto em agente pastoral, mantendo-se as práticas devocionais a São Judas Tadeu. Mas
Esse ponto de vista não prevalecerá no paroquiato seguinte, entre os anos de 1979 e 1983. Totalmente identificado com as teses conciliares, o vigário assumirá a Paróquia de São Judas Tadeu disposto a restituir simbolicamente ao Cristo Crucificado o altar até então ocupado pelo santo Apóstolo do Jabaquara136.
Esses exemplos apontam para o fato da recepção do Vaticano II não seguir um modelo linear, ainda que tendencial, influenciado, indubitavelmente, pelas especificidades de cada Igreja local.
A paróquia do Senhor Bom Jesus, em Ourinhos, dirigida pelo clero secular, seguiu a tendência geral dessa nova fase da Igreja do Brasil. Entre o fim do Concílio e a CELAM de Medellín (1968), o pároco local, padre Arnaldo Beltrami, protagonizou uma onda iconoclasta e colocou em xeque a autoridade episcopal.
Arnaldo Beltrami nasceu em Ourinhos, no dia 21 de Fevereiro de 1937. De 1958 a 1962, estudou Teologia e Jornalismo em Roma. Foi ordenado sacerdote, também em Roma, no ano de 1961. Esses poucos dados biográficos nos ajudam a compreender as veementes ações de Beltrami a favor das teses conciliares. Afinal, os seus estudos
teológicos e a especialização em Jornalismo, ocorreram concomitantemente às etapas preparatórias e iniciais do Vaticano II.
O Concílio marcou a trajetória desse sacerdote. Ainda que não tenha participado diretamente do Vaticano II, podemos inferir, inspirados em Beozzo, que a experiência tão próxima das discussões conciliares transformou a vida de Arnaldo Beltrami, tal como aconteceu com os prelados brasileiros diretamente ligados a esse evento137.
De volta ao Brasil, padre Beltrami trabalha como cooperador na pequena cidade de Pederneiras. Até que em 1966, aos 29 anos de idade, assume a paróquia do Senhor Bom de Jesus, em sua terra natal. A população ourinhense da época aproximava-se rapidamente dos cinqüenta mil habitantes. Vivenciava, em ritmo lento, mas crescente, as inflexões do êxodo rural e as mutações peculiares da sociedade moderna.
E é nesse período, entre 1966 e 1968, que a imagem de Nossa Senhora Aparecida, encontrada intacta no vagão queimado em 1954, é tirada do altar e colocada, com tantas outras, em uma das salas da sacristia. Era exigência litúrgica e ideológica da época retirar as imagens do templo, como que para purificá-lo das superstições e desvios rituais oriundos da ignorância religiosa do povo.
Segundo o testemunho da empresária ourinhense Sônia Nicolau, sua mãe, Irene Nicolau, foi chamada, junto com uma amiga, pelo padre Beltrami até uma sala repleta de imagens, nas dependências da igreja do Senhor Bom Jesus. Ele queria que elas escolhessem algumas delas. Era uma forma de agradecer aos auxílios financeiros que
137BEOZZO, José Oscar. Padres Conciliares Brasileiros no Vaticano II: Participação e Prosopografia – 1959-
1965. Tese (Doutorado em História).FFLCH, USP, São Paulo, 2001. p.390. Adiantando algumas considerações apontamos para o fato de Arnaldo Beltrami, depois monsenhor, ser reconhecido atualmente como um dos grandes comunicadores da História da Igreja Católica no Brasil. Entre 1983 e 1991, atuou como assessor de imprensa da CNBB em Brasília. Em 1992, foi convidado pelo Cardeal Arns para assumir o Vicariato Episcopal da Comunicação da Arquidiocese de São Paulo. Exerceu essa função até 11 de outubro de 2001, quando faleceu, vitima de infarto.
recebera para a sua paróquia. Dona Irene disse a filha que escolheu a imagem da Virgem Aparecida sem saber que era a mesma encontrada no vagão queimado em 1954, não obstante, conhecesse a história do acidente. Dona Irene levou a imagem para sua casa, em Ipaussu, cidade vizinha, e colocou-a sobre uma cômoda, que fazia às vezes de oratório, em seu quarto. Inúmeras imagens do patrimônio espiritual e histórico da igreja tiveram o mesmo destino.
Foi uma verdadeira “violência simbólica” impetrada aos participantes do culto às imagens, atestada por meio de recentes testemunhos que deixam entrever certa mágoa e aversão ante essa atitude de padre Beltrami. Rafael Conte e Lourival Argenta assinalam que tal atitude “foi um exagero”, enquanto Norival Vieira, afirmou, em um de seus artigos, que a ação do padre foi um “arroubo de modernismo”138.
Beltrami também se envolveu nas “crises” que assolaram a Arquidiocese de Botucatu em 1968. Ano de convulsões estudantis. Ano também do AI-5 e da Conferência de Medellín.
Em 19 de Abril de 1968, o arcebispo D. Henrique Golland Trindade torna