2. Imagem em triunfo
2.2 À procura da imagem.
Monsenhor Violante chegou em 1970 à paróquia do Senhor Bom Jesus. Professor do Seminário de Botucatu e membro do Cabido Metropolitano em 1959, Violante
passou a década de 1960 em Piraju, onde foi agraciado com o título de Monsenhor. Foi um dos signatários do primeiro manifesto contra D. Zioni, mas logo se retratou. Culto e diplomático, mas também, firme e sagaz, segundo os depoimentos de Norival Vieira, Rafael Conte e Lourival Argenta, Violante tinha as características necessárias para gerir uma das maiores e mais problemáticas paróquias da arquidiocese, cujo templo apresentamos na imagem abaixo.
A igreja do Senhor Bom Jesus, atual Catedral da Diocese de Ourinhos. Uma das mais belas construções locais tornou-se símbolo do município, cartão postal da cidade. Fonte: D’AMBRÓSIO, Oscar (org.). Ourinhos: um século de história. São Paulo: Noovha América, 2004. (Prefeitura Municipal de Ourinhos, SP). p.59.
Violante encontrou uma cidade com 49.221 habitantes, segundo os dados do IBGE. Ainda segundo os mesmos dados, 42.247 habitantes se diziam católicos, cerca de 85% da população. Mas, o crescimento das igrejas ditas “evangélicas” era expressivo, atingindo 9% da população. O espiritismo contava com 2%. Os números são significativos
e apontam para certa proximidade entre o campo religioso ourinhense e o nacional, caracterizado pelo declínio do Catolicismo e avanço de evangélicos e espíritas152. Eis um quadro do período
A partir de 64, vê-se a Igreja, que marcara a sua relação com o Estado por um movimento ambíguo e pendular – quer de apoio e colaboração, quer de críticas diante de antagonismos e entraves mais agudos -, necessariamente compelida a redefinir posições, a começar por sua própria estrutura interna. A repressão política dos movimentos de Ação Católica especializada nos anos pós-1964, que apressou a decisão da hierarquia de retirar-lhe o apoio institucional – que, de resto, já vinha sendo recusado pelos setores radicais desses movimentos -, obrigaria o episcopado a investir esforços e recursos em novas modalidades de apostolado leigo, que se configurassem como menos vanguardistas e menos arriscadas: a renovação da vida paroquial através daquilo que, já em 1965, o
Plano de Pastoral de Conjunto denominava de “comunidades de base”.
Nos anos de 1967 e 68, os conflitos entre Igreja e Estado se multiplicariam na medida mesma em que a nova ordem estatal escalava o caminho da direita e da força e voltava contra a sociedade o rosto do terror. (...)
Na década de 70 aprofunda-se o conflito entre a Igreja e o Estado que se manifesta de maneira multiforme, em níveis variados da estrutura hierárquica, tanto do Estado, como da Igreja. As mudanças do Catolicismo, apoiando
152PIERUCCI, Antônio Flávio. Secularização e o declínio do Catolicismo. IN: SOUZA, Beatriz M.;
MARTINO, Luis Mauro Sá (orgs.). Sociologia da Religião e Mudança Social. São Paulo: Paulus, 2004. p.11- 21. p.13-8. Sobre o tão mencionado Declínio do Catolicismo, urge mencionar, para estimulante reflexão, o alerta do sociólogo francês René Luneau, em texto de 1995: “a sociologia atual do Catolicismo, na França e alhures, ainda é mais complexa do que poderia parecer e que, talvez, seja imprudente anunciar, desde agora, ‘a crise terminal do Catolicismo’”. LUNEAU, R. A Igreja Católica no futuro. IN: ______; MICHEL, Patrick (orgs.). Nem todos os caminhos levam a Roma: as mutações atuais do Catolicismo. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999. p.386.
movimentos de emancipação de categorias sociais excluídas e defendendo os direitos humanos contra o arbítrio e a violência do Estado autoritário e ditatorial, parecem ocorrer de modo gradual, prosseguindo em ritmo irregular, mas seguindo tendência coerente153.
Ainda na tentativa de apresentar sumariamente o ambiente histórico e eclesiológico da época, recorremos às observações de Michael Lowy154 a respeito da Igreja na América Latina. Para Lowy, ela estaria dividida em quatro grandes vertentes: a primeira, caracterizada por um pequeno grupo ultra-reacionário, como a TFP (Tradição, Família e Propriedade); a segunda, representada por uma forte corrente tradicionalista e conservadora, ligada às classes dominantes, bem como à Cúria Romana; a terceira, manifesta em uma corrente reformista e modernista, com certa autonomia em relação à Cúria Romana, pronta a defender os direitos humanos e as necessidades dos setores populares; por fim, a quarta vertente seria representada por um pequeno e influente setor, próximos a Teologia da Libertação, engajados na luta ativa junto aos movimentos populares, trabalhadores e camponeses.
A Arquidiocese de Botucatu se enquadraria na segunda grande vertente: tradicionalista, ligada às classes dominantes e à Cúria Romana. E tal como a Cúria caracterizava-se por uma infinidade de contradições em relação às diretrizes e metas anunciadas pelo Vaticano II. De acordo com Beozzo, as contradições da Cúria Romana, nesse período, se revelariam no deslocamento de bispos “progressistas” do centro nervoso
153 PIERUCCI, Antônio F.; SOUZA, Beatriz M.; CAMARGO, Cândido P. F. de. Igreja Católica:1945-1970.
IN: PIERUCCI, Antonio Flavio et al. História Geral da Civilização Brasileira: o Brasil Republicano, v.4: economia e cultura (1930-1964). 2.ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. p.376-7.
154 LOWY, Michael. Marxismo e Teologia da Libertação. Tradução de Rogério Fernandes. São Paulo:
do país (Centro-Sul) para outras áreas menos expressivas, bem como pela ação da Cúria em desfazer as redes de articulação entre conferências episcopais de diferentes países e continentes, que não passavam pelo centro romano e seu controle155.
Acrescente-se a essas informações, as indicações de prelados, publicamente conservadores, aos altos cargos da Hierarquia Eclesiástica, como ocorreu, por exemplo, com os mencionados bispos D. Geraldo Proença Sigaud156 e D. Vicente Zioni, promovidos, respectivamente, aos arcebispados de Diamantina e Botucatu.
Monsenhor Violante se inseria nesse cenário arquidiocesano de modo sui generis. Formado na época áurea da “romanização”, ele foi signatário do primeiro manifesto anti-D.Zioni, de que se retratara rapidamente, optando por continuar na Igreja de Botucatu157. Todavia, essa atitude sinaliza para certa autonomia e vontade de transformar as práticas religiosas, a partir dos debates sobre a Igreja no mundo moderno. Ainda que os princípios do Catolicismo romanizado fundamentassem, em última instância, sua leitura de mundo.
Um homem culto como ele deve ter acompanhado o desenvolvimento das reflexões conciliares para a América Latina, essência da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, realizada em Medellín, Colômbia, no ano de 1968. Uma
155BEOZZO, José Oscar. Padres Conciliares Brasileiros no Vaticano II: Participação e Prosopografia – 1959-
1965. Tese (Doutorado em História).FFLCH, USP, São Paulo, 2001. p.247 e 251.
156 Sobre o conservadorismo de D. Sigaud conferir: SILVA JR., Alfredo Moreira da. Catolicismo, Poder e
Tradição. Dissertação (Mestrado em História). FCL, UNESP, Assis, 2006.
157DONATO, Hernani. Achegas para a história de Botucatu. 3.ed. Botucatu, SP: Prefeitura Municipal, 1985.
Igreja que opta pelos pobres e procura libertar o Homem, eis os princípios fundamentais emanados dessa CELAM, segundo o bispo D. Cândido Padin158.
E, de acordo com a historiadora Solange Ramos David, essa mesma Conferência havia determinado uma nova postura diante da religiosidade popular: a Igreja deveria agora acolher tais práticas religiosas com o intuito de impregná-las com o evangelho do Cristo Ressuscitado. A partir de Medellín foram incentivados inúmeros estudos e trabalhos sobre a religiosidade do povo159.
Não posso afirmar exatamente quando o Monsenhor soube da história da imagem de Nossa Senhora Aparecida, encontrada no vagão queimado. O certo é que em seus primeiros anos de paroquiato, procurou reorganizar os movimentos e associações religiosas, interagir com as autoridades locais e envidar esforços no trabalho de evangelização, via jornais e rádios da cidade, como atestam Rafael Conte e Lourival Argenta. Visitava as famílias e procurava se relacionar com todas as pessoas, obtendo, em pouco tempo, o afeto e o respeito da população. Sua atuação foi reconhecida pelo próprio arcebispo, que o designou Vigário Geral da Arquidiocese de Botucatu e Vigário Episcopal da Região de Ourinhos.
Lutar contra a perda de fiéis tornou-se, segundo Rafael Conte, um desafio da Igreja Católica de Ourinhos naquele período. Para isso, templos deveriam ser
158MORAIS, João F. R. de. Os bispos e a política no Brasil: o pensamento social da CNBB. São Paulo:
Cortez: Autores Associados, 1982. p.41.
159DAVID, Solange Ramos. O Catolicismo Popular na Revista Eclesiástica Brasileira (1963-1980). Tese
(doutorado em História). FCL, UNESP, Assis, 2000. p. 50-3. Urge citar que a Cúria Romana, em mais uma ação contraditória, procurou desarticular o CELAM de Medellín, tecendo estratégias para colocar na presidência da Conferência o tutelado Cardeal Trujillo. Cf. CABRAL, Newton D. de Andrade. Contextualização para o Estudo de Instituições Eclesiais Católicas atuantes no Brasil após 1960: um esboço a partir da Arquidiocese de Olinda e Recife. IN: BRANDÃO, Sylvana (org.). História das Religiões no Brasil. Recife: UFPE, 2004. v.3. p.80-1.
construídos nos novos bairros, afastados da igreja matriz, mas, também, os fiéis deveriam ser atraídos por uma Igreja mais viva e significativa.
Desse modo, a história do acidente de 1954 ia ao encontro do desejo de Violante de construir um templo dedicado a Nossa Senhora, no bojo das transformações que procurava realizar. É isso que se depreende da entrevista que concedeu ao jornal Diário da Sorocabana, em 1973,
Tudo começou quando, conversando com um dos paroquianos, vim a saber do fato de 1954, que eu também desconhecia. Julguei que isso pudesse enriquecer a idéia da construção de um Santuário160.
Assim, a mesma Igreja que negara o prodígio de 1954, acolhia, agora, a sugestão do povo, mas sob controle da hierarquia. Ainda que boa parte da população ourinhense desconhecesse o evento, ou, talvez, por isso mesmo, a história de uma imagem intacta em um vagão queimado poderia unir a comunidade católica local, após as crises do final da década de 1960 e no interior do novo contexto religioso dos anos 1970. Sobretudo, porque a história tinha por protagonista Nossa Senhora Aparecida, cuja devoção, nesse momento, já havia se consolidado161. Contribuiu para isso a ação dos militares que, entre
160 INICIADA campanha para construção do Santuário de Nossa Senhora Aparecida – falta ainda encontrar a
imagem. Diário da Sorocabana, Ourinhos-SP, 26 ago. 1973, p.01.
161 Em 1967, na celebração do 250º aniversário do encontro da imagem, o Papa Paulo VI outorgou a imagem
de Nossa Senhora Aparecida a Rosa de Ouro, insigne honraria. A cerimônia de entrega aconteceu em agosto pelo legado papal, cardeal Amleto Cicognani, ao cardeal arcebispo de Aparecida, D. Carlos Motta. Estiveram presentes na solenidade, o presidente Costa e Silva e o governador de São Paulo Abreu Sodré. Na ocasião, D. Motta afirmou que Aparecida havia se tornado a “metrópole espiritual da pátria”.SANTOS, Lourival dos.
Igreja, Nacionalismo e Devoção Popular. Dissertação (Mestrado em História).FFLCH, USP, São Paulo,
2000. p.180-2. Para o historiador oficial do Santuário de Aparecida do Norte, o Jubileu de 1967 “marcou o extraordinário crescimento do Santuário”. BRUSTOLONI, Júlio João. História abreviada do Santuário de
1965 e 1969, promoveram inúmeras peregrinações da imagem pelo país, com ampla cobertura da imprensa162, procurando associar a imagem da Santa ao novo regime instaurado no Brasil em 1964163.
Segundo testemunho de Lourival Argenta, ele e Violante procuraram a imagem em todos os lugares possíveis da igreja matriz. Não encontraram. Inferiram então que a imagem teria sido doada, como tantas outras, na reforma litúrgica pós-Vaticano II. Desse modo, o Monsenhor inicia uma campanha à procura da imagem de Nossa Senhora Aparecida que rapidamente ganha a mídia local. Primeiro, nos programas radiofônicos eclesiais, dirigidos pelo próprio Monsenhor, depois, através dos jornais ourinhenses. Sem mencionar, a divulgação oral da campanha feita durante as missas e nas conversas do cotidiano.
Em agosto de 1973 se intensificam a campanha de procura da imagem e o debate em torno do significado do evento de 1954. Os jornais locais, sobretudo, o Diário da Sorocabana, abordaram esse momento. De um lado, porque estavam socialmente ligados aos ferroviários e ao Monsenhor, de outro, porque esse tema mostrou-se polêmico e interessante podendo aumentar a tiragem das edições164.
162 A cobertura da imprensa foi importante para divulgar a campanha nacional dos devotos em prol da
construção do novo santuário. Vale lembrar que recursos federais foram usados para construir a passarela que liga a antiga Basílica à Nova e a Praça em torno do Santuário. Cf. SANTOS, Lourival dos. Igreja,
Nacionalismo e Devoção Popular. Dissertação (Mestrado em História).FFLCH, USP, São Paulo, 2000. p.184.
Segundo Brustoloni, “entre 1965 e 1969, aconteceu a peregrinação da Imagem pelas capitais do Brasil e cidades maiores. Foi um triunfo mariano”. BRUSTOLONI, Júlio João. História abreviada do Santuário de
Aparecida. 8.ed. Aparecida, SP: Editora Santuário, 2004. p.41.
163 SANTOS, Lourival dos. Igreja, Nacionalismo e Devoção Popular. Dissertação (Mestrado em
História).FFLCH, USP, São Paulo, 2000. p.183-8.
164 Os jornais ourinhenses não dispõem de verdadeiros arquivos. Muitos jornais funcionaram por pouco tempo
ou esporadicamente. É muito difícil encontrar jornais anteriores a 1985. Mais difícil ainda é encontrar dados relativos ao número de vendas. Mas é estimulante pensar na intrínseca relação entre o interesse mercadológico dos jornais e as devoções locais, como apontou Solange Ramos David. Cf. DAVID, Solange R. de Andrade. Um estudo de religiosidade popular: O Santo Menino da Tábua. Dissertação (Mestrado em História). FLC, UNESP, Assis, 1994.p.82.
Em 19 de Agosto, o Diário da Sorocabana, trazia a seguinte manchete: “OURINHENSES QUEREM SABER ONDE ESTÁ A IMAGEM SALVA DO INCÊNDIO DE 1954”. O artigo retoma a história do acidente e procura mostrar sua relevância a partir das explicações de antigos ferroviários que testemunharam o fenômeno. O termo milagre não aparece neste artigo. A imagem é concebida como elemento de memória do evento, como lemos nesse fragmento
Rafael Conte, José de Carvalho, Jorge Franula, José Eurípedes, José Damasceno, são alguns dos ferroviários que presenciaram o acontecimento que hoje volta a ser comentado pelo que dele restou: uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que foi encontrada intacta entre os destroços do incêndio165.
Ainda nesse tom, o artigo continua
O Monsenhor já se manifestou sobre a necessidade de se localizar a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Ela está ligada a um episódio bastante significativo para o qual se voltaram todas as atenções e, por isso mesmo, ligou-se à história do município, onde muitos de seus devotos estão empenhados em construir o seu santuário166.
165 NUNES, Sérgio. Ourinhenses querem saber onde está a imagem salva do incêndio de 1954. Diário da
Sorocabana, Ourinhos, 19 ago. 1973, p.01.
166 NUNES, Sérgio. Ourinhenses querem saber onde está a imagem salva do incêndio de 1954. Diário da
A imagem foi concebida como artefato histórico do município. Os devotos mencionados poderiam ser devotos da (nacional) Nossa Senhora da Aparecida, atraídos pela réplica local. O milagre ocorrido em Ourinhos estaria implícito ou, talvez, nem existisse no imaginário de muitos. Mas, um santo existe sem milagre? Segundo a antropóloga Josildeth Gomes Consorte, a resposta é negativa. Para ela,
Santos e milagres são um par constante. Andam juntos no imaginário católico, por todo o mundo, cultuados pela Igreja e venerados pelos fiéis. Sua popularidade está diretamente ligada ao número e à natureza dos milagres que lhe são atribuídos167.
Daí a relevância do tema “milagre” para devotos, clero e sociedade. Por isso, a polêmica em torno do caráter miraculoso da imagem viria à tona, na edição do Diário da Sorocabana, de 23 de agosto de 1973, na seguinte manchete: “TESTEMUNHA DO INCÊNDIO DE 1954 DEPÕE PARA O REPÓRTER: ENTREGUEI A IMAGEM AO PREFEITO, MAS NÃO ACREDITO QUE FOI MILAGRE”. O debate, trazido à arena do jornal, punha de um lado, Jorge Franula que afirma
O que aconteceu foi coincidência, mais nada. O fogo, apenas, não chegou onde se encontrava a imagem, e por esse motivo, não a atingiu. O vagão onde ela se encontrava só queimou até a metade168.
167CONSORTE, Josildeth Gomes. Apresentação. IN: GUTTILLA, Rodolfo W. A casa do santo e o santo de
casa: um estudo sobre a devoção a São Judas Tadeu, do Jabaquara. São Paulo: Landy, 2006. p.13.
168ENTREGUEI a imagem ao prefeito, mas não acredito que foi milagre. Diário da Sorocabana, Ourinhos-
O jornalista conclui
Ele insiste sobre a “coincidência que preservou a imagem das chamas”, preferindo essa hipótese. Não acredita em milagre169.
E o texto segue indagando: “a presença da imagem naquela composição, foi ou não a responsável pela preservação da própria cidade de Ourinhos?”. E logo em seguida, como que uma resposta do próprio jornal à pergunta suscitada, apresenta-se a entrevista com Marcilio Juliano, que acompanhou de perto o acidente e auxiliou no trabalho de remoção dos escombros. Segundo esse ‘debatedor’
Só mesmo um milagre pode explicar o fato da cidade inteira não ter sido destruída, porque o fogo estava muito perto dos depósitos de gasolina. É claro que o trabalho do pessoal da SANBRA também tem que ser levado em conta, mas só mesmo a providência poderia ter atendido o apelo de muita gente. Porque, quando os bombeiros chegaram de São Paulo, já estava quase tudo apagado170.
E o artigo, após informar sobre a campanha de procura da imagem, finda- se assim
169ENTREGUEI a imagem ao prefeito, mas não acredito que foi milagre. Diário da Sorocabana, Ourinhos-
SP, 23 ago. 1973, p.01.
170 ENTREGUEI a imagem ao prefeito, mas não acredito que foi milagre. Diário da Sorocabana, Ourinhos-
A história que durante 19 anos, só foi conhecida pelos moradores mais antigos de Ourinhos, começa a ser recontada sob múltiplas versões, em decorrência do desaparecimento da imagem que se tornou objeto de todas as atenções171.
Três dias depois, em 26 de agosto, o debate continua. Na verdade, as informações são no sentido de confirmar o caráter miraculoso do evento, assumido pelo próprio jornal. Rafael Conte, nosso conhecido depoente, é entrevistado pelo Diário, que escreve
O sr. Conte, que é católico praticante, afirma que a realização de um milagre não se dá somente na cabeça do povo. Ele é um fato concreto. Há motivos de sobra para essa crença, ainda mais para quem presenciou a tragédia de 1954. A Providência Divina evitou que houvesse maior número de vítimas. Deus atendeu o apelo do povo ourinhense, que conservou a sua fé até que o fogo fosse dominado172.
O artigo enfatiza o “cenário dantesco” do evento, afirmando ser o maior incêndio da história de Ourinhos, indelével na memória de seus mais antigos moradores. Por fim, atualiza os leitores a respeito da procura da imagem e do início de uma nova campanha: a da construção de um santuário para Nossa Senhora Aparecida.
Finalmente, em 2 de setembro, o Diário estampa a esperada notícia: “ESTAVA EM IPAUÇU A IMAGEM DE NOSSA SENHORA APARECIDA –
171ENTREGUEI a imagem ao prefeito, mas não acredito que foi milagre. Diário da Sorocabana, Ourinhos-
SP, 23 ago. 1973, p.01.
172INICIADA campanha para construção do Santuário de Nossa Senhora Aparecida – falta ainda encontrar a
MONSENHOR VIOLANTE INTENSIFICA A CAMPANHA PARA A CONSTRUÇÃO DO SANTUÁRIO”. Segundo o artigo, D. Irene Nicolau soube da campanha de procura da imagem por meio do jornal Diário da Sorocabana e depois foi até o Monsenhor. Mas, a filha de Irene, Sônia Nicolau, explicou a situação de outra maneira ao repórter do jornal Debate, na edição de 31 de julho de 2005,
Uma prima que morava em Ourinhos, ouviu no rádio sobre a procura da santa e ligou para minha mãe contando. Ela devolveu imediatamente a imagem à igreja173.
Na realidade a entrega não foi imediata, como veremos adiante – deslizamentos típicos da memória. Por outro lado, tudo leva a crer que o Diário queria se autopromover. Mas, continuemos. A reportagem de 2 de setembro, outrossim, põe um ponto final no debate, ao menos no âmbito do jornal, em torno da existência de um milagre no evento de 1954. Dessa vez, a palavra não é dada a uma testemunha ocular, mas, ao líder espiritual da comunidade católica local. Nas palavras do artigo
Referindo-se ao episódio, monsenhor Violante declara: “Não existe nada que impeça uma inclinação piedosa transformar um fato, por mais natural que ele seja, num milagre. Vários fenômenos naturais podem ter contribuído para que o fogo não atingisse a imagem, mas a preservação de uma cidade inteira, que não
sofreu nenhuma conseqüência, é alguma coisa um pouco mais além de um simples fato natural”174
E o Monsenhor, no mesmo artigo, afirma
Já que encontramos a imagem, organizaremos uma procissão apoteótica, altamente significativa, e a sugestão de um milagre, estará colorindo e enriquecendo tudo aquilo que for feito em torno de N.S. Aparecida175.