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Notícia

No documento O Supremo em 2015 (páginas 120-154)

A pesquisa no andamento dos processos mostrou ainda que o segredo se estendeu para outra classe processual. A PET 5.209 é invisível. Este caso trata da operação Lava Jato.

Só foi possível saber de sua existência porque a própria assessoria do STF publicou no site do tribunal uma matéria sobre o assunto.

Nesse simples pedido, os réus de uma ação penal aberta em meio às investigações solicitaram acesso integral às delações premiadas do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef. Apesar da publicação de seu teor, a petição sumiu do anda- mento processual.

Luiz Orlando Carneiro Felipe Recondo

À

s vésperas de completar 25 anos de Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Marco Aurélio Mello detalha em entrevista ao JOTA as diferenças no tribunal nessas duas décadas e meia e marca algumas distinções entre a nova composição e o que chama de velha guarda.

Quando assumiu o cargo, no dia 13 de junho de 1990, o minis- tro Marco Aurélio encontrou no tribunal os ministros Néri da Silveira (presidente), Moreira Alves, Aldir Passarinho, Sydney Sanches, Octavio Gallotti, Célio Borja, Paulo Brossard, Sepúlveda Pertence e os recém- -chegados Celso de Mello e Carlos Velloso.

A mudança de composição, especialmente nos últimos anos, trou- xe alterações em procedimentos e tornou o tribunal, ao ver do ministro Marco Aurélio, mais voluntarioso.

“Eu creio que os poderes são harmônicos e independentes e que têm áreas delimitadas na Carta da República. A velha guarda era mui- to mais ciosa quanto aos limites constitucionais. Talvez, ante a modi- icação substancial na composição, não haja corrido tempo suiciente para compreender essas nuances”, airma.

Indicado para o cargo pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, seu primo, Marco Aurélio deixaria a Corte em julho do ano que vem, quando completaria 70 anos de idade. Com a aprovação da PEC da Bengala, permanecerá no cargo por mais cinco anos.

“Alguns devem achar que sou um cricri, que eu não comungo. Por quê? Porque não componho ‘clube do bolinha’. Eu não sei se todos

torceram para a PEC da Bengala passar. Porque eu sairia daqui a um ano. Eu não sei. Tenho as minhas dúvidas”, diz.

Responsável pela criação da TV Justiça em 2002, o ministro Mar- co Aurélio airma que a transmissão ao vivo das sessões plenárias — criticada por muitos — foi sua redenção. Foi a forma de tentar mostrar que não recebera de presente do primo presidente da República a ca- deira de ministro do STF.

E conta que o ex-presidente Collor o chamou apenas uma vez no Palácio da Alvorada para discutir o processo de impeachment, o qual o retirou da Presidência. O ministro conta que aceitou o convite, avisou ao presidente do STF da época e se declarou suspeito, não julgando o primo. “Atuei com transparência. Não entrei camulado no Palácio da Alvorada”, pondera.

Como foram estes 25 anos?

Inicialmente, eu digo que os 25 anos passaram muito rápido. Eu hoje sou um juiz que presta melhores serviços ao jurisdicionado do que prestei há 10 anos, 15 anos. A experiência que você ganha — e até em termos de conhecimento, de vivência, em termos humanísticos — é enorme. E continuo com o mesmo entusiasmo. Aliás, antes de o ministro Xavier de Albuquerque morrer, eu perguntei a ele se depois da presidência o ministro devia deixar o tribunal, porque ele deixou o tribunal após ser presidente. Ele me disse: “Necessariamente não. Você tem que perceber se você tem o mesmo entusiasmo para analisar o caso, o processo. Se você continua com entusiasmo, deve icar”. Me sinto realmente um integrante do tribunal. Dou minha colaboração ao colegiado, que é o somatório de forças distintas. E o encantamento é como do primeiro dia. Ainda examino hoje o processo como se fosse o primeiro processo da minha vida de juiz. Ser juiz encerra, não há menor dúvida, uma missão sublime, a missão de julgar conlitos de interesse, personiicando o Estado, de forma coercitiva. Em última ins- tância, o julgador substitui a vontade das partes.

O que mudou de lá pra cá?

Muito. A mudança foi substancial. Eu, quando cheguei, encontrei um colegiado que não é o de hoje. Era um colegiado que — hoje eu digo — que compôs a velha guarda. E tivemos ante a alternância e

algumas aposentadorias precoces, porque entendo que a cadeira da envergadura do Supremo você não pode abandoná-la, nós tivemos uma modiicação substancial na composição do tribunal. A este fato se junta outro, que foi a vinda da Constituição Federal de 1988, uma Constituição ampla, analítica, calcada principalmente nos direitos dos cidadãos e que ensejou o surgimento de várias controvérsias.

Aumentou signiicativamente o número de legitimados, facilitou o acesso ao tribunal…

Exato. Para os processos objetivos, havia o monopólio do procu- rador da República.

O senhor falou de mudança da composição. Que mudança o se- nhor viu de lá pra cá? Houve perda de qualidade de alguma forma?

Cada composição é uma composição. Claro que no passado nós tínhamos, por exemplo, como tivemos em períodos anteriores, a parti- cipação de egressos do parlamento. Quando eu cheguei encontrei já no tribunal o ministro Paulo Brossard, o ministro Célio Borja e outros co- legas. Eu não faço comparação em termos de perda de qualidade, por- que cada integrante tem uma formação própria técnica e humanística. E, na dinâmica, vamos tendo modiicação da ótica do Supremo ante a composição, em que pese às vezes termos a mesma regência normativa da matéria e os mesmos fatos.

O senhor considera que algum presidente do Supremo digniicou mais o cargo do que outros? E o senhor mencionaria algo?

O que penso é que cada presidente atuou de acordo com a for- mação técnica e humanística possuídas e nós somos unos. Tivemos a diversiicação de enfoques. O que se nota no tribunal é que, a partir da presidência do ministro José Paulo Sepúlveda Pertence, houve uma aproximação maior do Supremo da sociedade. Porque antes — o Luiz Orlando é testemunha, porque acompanha o Supremo há mais tempo do que eu — antes o presidente do STF não tinha… os jornalistas não tinham acesso maior. O ministro Moreira Alves, por exemplo, não fa- lava aos jornalistas.

E o ministro Moreira Alves continua não falando com a imprensa… Talvez por isso mesmo aquele que o sucedeu também não gos- tasse de falar com os jornalistas, o ministro Joaquim Barbosa. O que

eu acho é que o integrante do Supremo é acima de tudo um servidor público. E um servidor público que também tem o peril de um grande interlocutor. Uma coisa é você não antecipar o seu entendimento, sua compreensão sobre um conlito que você ainda julgará; outra coisa é você participar, até exercendo um direito inerente à cidadania, da vida nacional, falando aos jornalistas.

Por isso o senhor sempre fala com os jornalistas?

Eu falo. Eu falo porque, em primeiro lugar, eu reconheço a valia da imprensa, a valia dos jornalistas. Graças à imprensa, por exemplo… não diria investigativa, porque vocês não saem propriamente para fa- zer investigações. Quem faz investigações é a polícia, já que eu não admito nem que o Ministério Público assim proceda. Mas vocês levan- tam, escancaram, acabam escancarando as mazelas do País. E escanca- rando as mazelas, dão a oportunidade a que as instituições atuem. Nós temos, sendo alvo de louvor, a Polícia Federal, o Ministério Público e a própria magistratura. Isso é muito bom. Porque, básico para se ter a eiciência, para se ter o avanço cultural, é não se escamotear as maze- las, os desvios de conduta, especialmente no campo da administração pública, os problemas do Brasil, que não são poucos, são muitos.

O senhor sofre algumas críticas, algumas em público e algumas reservadamente, por conceder muitas entrevistas.

Pela minha mulher eu não falaria a vocês. A Sandra, por exemplo, é avessa. É claro que quando você entra nesse circuito, é muito difícil depois você recuar. Eu não me arrependo da abertura que eu sempre dei aos jornalistas. Estou em casa e atendo a qualquer momento. O meu celular é público. Quando eu posso me pronunciar, eu me pro- nuncio. E não me pronuncio em off, porque acho que é uma covardia você icar por trás da parede fustigando. Quando eu me pronuncio, eu coloco as minhas impressões digitais, até porque o meu vocabulário se tornou conhecido. Agora é difícil você contentar a todos. O que seria melhor: ter um juiz, como eu sou, um juiz aberto, ou um juiz se encas- telando, se colocando numa redoma, até para se autoproteger quanto a qualquer deiciência? Claro que é um juiz aberto.

Quais os processos o senhor diria terem sido os mais difíceis de julgar nestes 25 anos?

Não há processos [mais difíceis]. O que ocorre é que quando você se habitua a enfrentar essa avalanche de processos, não há processos difíceis.

Mas eu digo desaiador, pela tese, pelo momento do país. Eu me recordo do caso de aborto de fetos anencefálicos, por exemplo.

Teve esse, teve a liminar pelo que implementei, por exemplo, ante o que entendi de transgressão do devido processo normativo, suspen- dendo uma revisão da Constituição. Há essas decisões de repercussão maior, mas em termos de diiculdade. Não é que me sinta tão seguro e tão conhecedor do Direito, mas depois de 36 anos fazendo a mesma coisa, e fazendo a mesma coisa na linha de frente, você já atua com espontaneidade e naturalidade maior.

O senhor tem um exemplo de como o voto vencido que o senhor proferiu passou, com o transcorrer dos anos, a ser jurisprudência?

Agora posso citar de cabeça dois casos. Quando nós, pela primeira vez, enfrentamos a problemática da progressão do cumprimento da pena, considerados os crimes hediondos, eu sustentei a inconstitucio- nalidade. Naquela época, apenas um juiz me acompanhou, que foi o ministro Pertence. Posteriormente, acho que quatro, cinco ou seis anos depois, tendo em conta a mesma norma e ante a modiicação da com- posição do tribunal, houve uma outra visão. E aquela ótica minoritária passou a ser majoritária. Um outro caso: alienação iduciária e a prisão pelo débito, por dívida civil. Quando eu sustentei a primeira vez, não houve o acolhimento da tese. Depois o tribunal evoluiu e veio a aceitar a tese de que não pode haver a prisão do depositário iniel. Eu, por exemplo, não conheço na minha vida, especialmente no Supremo, o instituto da ressalva. “Ah, ressalvo entendimento pessoal e acompanho a maioria.” Eu não, eu insisto. Até o ministro Nelson Jobim brincou uma vez comigo e disse: “Você é como o ferrinho do dentista que ica lá no nervo exposto cutucando.” E insisto porque não estou conven- cido. Agora mesmo, por exemplo, a minha resistência à modulação. A modulação pra mim é um equívoco. De duas, uma: ou a Constituição esteve em vigor e como lei das leis tem que ser observada, ou não esteve em vigor. Agora a modulação passou a ser a regra. Outro dia mesmo julgamos um caso, matéria superpaciicada, sobre guerra iscal, um

processo originário do Paraná. Quando eu percebi, o relator (ministro Luís Roberto Barroso) propôs a modulação. Eu levantei o dedo para dizer que não cabia modulação e iquei vencido de forma isolada. Eu inicialmente quando icava vencido podia passar a impressão de que tinha recebido a cadeira de presente do meu primo presidente (Fernan- do Collor). A redenção pra mim — aí a comunidade especialmente a jurídica passou a acompanhar o dia a dia dos julgamentos do plenário —, a redenção foi a TV Justiça.

Por que, ministro?

Porque na TV Justiça cada qual se revela e revela as razões pela qual vota neste ou naquele sentido.

Foi uma das razões para o senhor criar a TV Justiça?

Não, não. O objetivo não foi esse. São essas coisas que a ideia sur- ge e você não sabe nem como ela surge. Foi um sonho e depois uma ou- sadia. E deu certo. Quando as coisas têm que dar certo, elas têm uma força muito grande, porque eu me lembro bem que o ministro Pimenta da Veiga, que era o ministro das Comunicações, me disse: “Olha, não há como, não se tem como obter um canal especíico para a Justiça. Nós abrimos a oportunidade numa TV Pública para o Judiciário trans- mitir o que quiser”. E eu insisti. E da apresentação do projeto, saindo do meu gabinete, até a sanção da lei, foram oito meses. Um período muito curto.

Há quem diga que a TV Justiça tem um efeito negativo. Que os ministros proferem votos longuíssimos. Isso é por causa da TV?

A sua colocação, Luiz Orlando, é muito adequada. Se nós izermos um cotejo entre o que ocorria, na época da velha guarda, e hoje em dia, nós vamos ver que houve uma modiicação substancial. A chegada de novos, realmente, torna as discussões mais projetadas no tempo. Mas se veriica também um fenômeno hoje que não se veriicava antes. O relator sempre levou ao plenário o voto confeccionado. E os demais in- tegrantes, como vogais, votavam no gogó, de improviso. Hoje o que eu percebo, e eu já disse em plenário, é que nós temos vários revisores no plenário que inclusive mergulham fundo no processo e levam o script próprio do voto. Por que não aceito voto de colega antes de aprego- ado o processo e nem proporciono meu voto aos colegas? Porque eu

penso que no colegiado tem que vingar a espontaneidade, você tem que prestar atenção às discussões, ao voto do relator, às sustentações da tribuna, e formar o seu convencimento na hora, fazendo algumas anotações para depois discorrer sobre as matérias. Eu não tenho tempo para estar zerado com os meus processos, porque recebo uma média de 150 processos por semana. Vou ter tempo para confeccionar voto em processo em que não sou relator? Não sei como se consegue esse milagre. Mas os colegas levam voto pronto.

Qual a diferença entre ser ferrinho de dentista e ser do contra? Alguns devem achar que sou um cricri, o que eu não comungo. Por quê? Porque não componho “clube do bolinha”. Eu não sei se todos torceram para a PEC da Bengala passar. Porque eu sairia daqui a um ano. Eu não sei. Tenho as minhas dúvidas. Mas eu não ocupo cadeira voltada a relações públicas. E não transijo com o meu ofício. Foi o que falei: julgar é uma missão sublime.

Houve momentos em que o senhor teve, não diria conlitos, em plenário. Alguns episódios são memoráveis. Como o senhor classiica estes episódios? São parte do julgamento? São coisas que as pessoas às vezes não compreendem?

A divergência é a tônica num colegiado. Agora, há uma diferen- ça substancial entre divergência e tentativa de desqualiicar o colega. Evidentemente é intolerável essa tentativa. Se alguma vez eu reagi — e devo ter reagido —, o iz porque provocado. Eu não me aborreço, eu não entro em casa estressado, considerada uma sessão no plená- rio ou na Turma. O sorriso que me acompanha na entrada da sessão me acompanha também na saída. E atuo com maior espontaneidade possível. Agora, claro que se tem coisas que discrepam da liturgia do tribunal. Isso não é desejável. Cada qual tem que se policiar um pouco para que essas coisas não se veriiquem.

O senhor diria que nestes 25 anos houve alguns momentos cons- trangedores?

Houve, sem dúvida. Por exemplo, no julgamento da ação penal 470. O descompasso havido entre relator e revisor. Eu me lembro que logo a seguir a um desses descompassos, no início do julgamento, eu estava saindo, e os jornalistas me perguntaram se eu tinha gostado da

sessão. Eu disse claramente que não. E me perguntaram por quê. Eu disse que pela falta de urbanidade do relator (ministro Joaquim Bar- bosa), que depois se tornou notória, tanto que ele deixou cinco meses de presidência no Supremo e mais de dez anos de ocupação da cadeira. E perguntaram como eu via a divergência. Eu disse: olha, eu vejo com muita tranquilidade, porque começa lá em casa no campo futebolísti- co. Eu sou lamenguista e minha mulher é Fluminense. A diversidade é que é comum à vida social.

O senhor passou por cinco presidentes da República. Como o se- nhor analisa a evolução do país vistos os presidentes?

Nós tivemos uma época em que todo presidente que chegava à cadeira tinha o plano milagroso para afastar o mal maior que era a inlação. E implementava o plano fazendo surgir “n” conlitos de in- teresses, “n” processos e buscando, eu compreendo, o melhor para o país. Agora, quanto à atuação judicante, pelo menos digo por mim, o que posso dizer é que sempre houve uma elegância muito grande por parte dos presidentes.

De todos?

De todos. De não interferir no Judiciário. Eu tive um primo presi- dente da República. Ele poderia até me chamar, pois eu era egresso da Justiça do Trabalho, para me ouvir sobre um problema governamental ligado ao Direito do Trabalho. Mas jamais, jamais me chamou. Sempre me tratou com deferência, com um respeito muito grande, como eu também o tratei.

Mas o senhor disse na semana passada, no programa Espaço Pú- blico, do qual participei, que o presidente Collor o chamou, uma vez, para falar do processo de impeachment.

Sim, sim. Foi um episódio que ocorreu… Eu estava no aparta- mento, no prédio dos ministros (bloco B da quadra 313) e recebo um telefonema dele (Collor), pedindo que eu fosse encontrá-lo no Palácio da Alvorada. E fui. Mas tive o cuidado — e isso foi à noite, e eu iria nas primeiras horas da manhã — de subir ao apartamento do presidente do Supremo à época, Sydney Sanches, e comunicar a ele. “Olha, Sydney, o presidente está me chamando. É meu sangue. Eu irei ao encontro dele. Quero lhe dizer uma coisa: não vou participar do julgamento de

qualquer caso que o envolva”. E atuei com transparência. Não entrei camulado no Palácio da Alvorada.

O senhor acha que paga um preço por ter sido indicado por um parente?

Olha, quando cheguei ao Supremo, eu já tinha atuação como ad- vogado, tinha atuação como membro do Ministério Público, como juiz do Tribunal Regional do Trabalho, como ministro do Tribunal Supe- rior do Trabalho — havia 8 anos que eu lá estava — e fui deslocado. O primeiro do Judiciário do Trabalho a ser deslocado para o Supremo. Mas a leitura que a sociedade fez foi única. Que ele teria me escolhido por eu ser parente. Isso realmente é ruim. Porque você acaba pagando um preço injusto pelo deslocamento. Agora, tive o apoio nesse deslo- camento da advocacia trabalhista, de meus colegas juízes do trabalho. Havia a vaga do ministro Carlos Madeira, que preenchi, e surgiu com a saída do ministro Francisco Rezek para o Ministério de Relações Exteriores, uma segunda vaga. Foram feitos à época dois ofícios. Um ofício ao Superior Tribunal de Justiça, perguntando quem seria o can- didato, e outro ofício ao TST. O STJ disse que todos eram candidatos. O TST — e vejo que não era tão cricri assim, a não ser que quisessem me ver pelas costas —, o TST disse: “nosso candidato continua a ser o ministro Marco Aurélio”. O meu nome surgiu no governo Sarney. Mas aí houve obstáculo inverso à minha indicação. Que obstáculo foi esse? O primo era o maior desafeto do presidente da República. E não me escolheria, muito embora eu tivesse o respaldo da comunidade jurídica trabalhista.

A judicialização da política aumentou nestes 25 anos?

Eu tive a oportunidade de ressaltar umas três ou quatro vezes no plenário que nós precisamos observar a autocontenção. Quase sempre o tribunal atua segundo o direito posto, mas eu percebi em alguns casos uma tentativa — pelo menos tentativa — de avançar. Cheguei mesmo a dizer, e não tirei das notas degravadas, que quando nós avançamos e invadimos uma seara que não é nossa, nós lançamos um bumerangue que pode voltar na testa.

Com essa modiicação substancial (da composição), eu já ouvi propostas mil. Quer ver uma coisa que eu penso inconcebível e que ocorre vez por outra? Julgamos algo, aí modulamos e ixamos prazo para que o Poder legislativo legisle. Se você for à disciplina da ação direta de inconstitucionalidade por omissão, você vai ver que o Su- premo só pode ixar prazo se obrigada a prática do ato, que se mostre omisso, pela administração. Em relação a outro poder, não podemos. Nós somos legisladores negativos. Eu, por exemplo, ico assustadíssi- mo quando abandonamos a postura de legislador negativo e partimos para a estipulação de regras, de regras totalmente estranhas às apro- vadas. Isso ocorreu por exemplo — vou citar um exemplo! — com o julgamento da emenda constitucional 62, dos precatórios. Aí é um pro-

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