I. 4. Dos “relatos brutos omitidos” da e na escritura etnográfica
I. 4.1. Notas sobre duas anedotas extraídas do caderno de campo
Além dos treze processos e dos seis acórdãos que compõem o objeto analisado nesta tese, fiz o trabalho de campo que consistiu: na coleta tanto de documentos de outros processos quanto de outros acórdãos, em conversas formais (gravadas) e informais estabelecidas com alguns dos advogados que atuaram nesses processos, e com algumas mulheres que os protagonizaram.
Quanto aos processos, todos eles foram acessados através do vínculo que estabeleci com as mulheres litigantes – Amélia, Madalena, Agnes, Iolanda e Clarinda. Por conseguinte, a primeira idéia previa conciliar as entrevistas (como discursos pós-vivências processuais) com os discursos contidos nos processos. Antes de aprofundar os motivos que me levaram a focar meu olhar interpretativo apenas nos discursos jurídicos – deixando de lado as entrevistas, discutirei o que denomino de “relatos brutos omitidos” da ou na “escritura etnográfica”, tomando como exemplo algumas passagens de minha pesquisa de campo.
Após entrevistar Amélia, protagonista de um processo de disputa pela guarda e responsabilidade de seu filho de “criação”, a referida colocou-me em contato com seu advogado Miguel, para que eu pudesse acessar os documentos judiciais integrantes do processo. No dia e hora marcados, Miguel além de me passar as fotocópias que ele reputava mais interessantes para a minha pesquisa, concedeu-me uma longa entrevista contando-me como se deu o percurso da disputa judicial de Amélia. Durante as duas horas de nossa conversa, algumas vezes Miguel solicitou que eu desligasse o gravador, pois em sua visão aquela informação não poderia ser veiculada. Destaco uma delas, com todas as modificações de nomes e de circunstâncias capazes de não identificá-lo, aliado a um episódio que marcou nosso contato após a entrevista.
Na área cível e/ou de família, o nascimento de um processo de guarda e responsabilidade de crianças, seja como parte integrante de um processo de “separação judicial” e/ou de um “divórcio”; seja como “processo autônomo”, inicia- se (geralmente) com o encaminhamento de uma “petição” elaborada pelo advogado de uma das partes interessadas pela guarda, a um dos cartórios judiciais existentes na cidade onde seu cliente e a criança residem. Como nas capitais (ditas “comarcas finais”) existem mais de um cartório de família, se faz necessário que o documento elaborado pelo advogado seja “sorteado” ou
“distribuído” para um dos cartórios. Para isso, há os denominados “cartórios de distribuição” nos “Fóruns Cíveis”. Assim, a petição será enviada para aquele Cartório que naquele dia e naquela hora em que o advogado ali está aguardando na fila para a distribuição, encontra-se na vez de receber aquela demanda e/ou petição. A distribuição, portanto, se concretiza com o encaminhamento igualitário e sucessivo dos litígios aos Cartórios de Família (ou “Varas de Família”) “competentes”23 para julgar aquele pedido de guarda.
No caso de Miguel, esse me contou in off (com o gravador desligado) que antes de realizar a distribuição da petição de Amélia, havia procurado um de seus juízes conhecidos que atuava em uma das Varas aptas para julgar o pedido de sua cliente. Como existe mais de uma Vara ou Cartório em sua capital, Miguel, sabendo que seu processo poderia com aquele juiz (face à conversa de bastidores) ser julgado procedente, no momento da distribuição, aguardou para entregar a petição somente quando a “bola da vez” fosse o Cartório/Vara do “juiz conhecido”, com quem já havia conversado antes. Tomadas estas precauções, Miguel tranqüilizou-se, pois o primeiro passo fora dado para afastar o caminho de incertezas quanto ao destino de um processo. Eis a primeira anedota.
Passados alguns meses, comprometi-me de enviar-lhe as transcrições das entrevistas realizadas com ele e com sua cliente. Desde então, nosso diálogo se deu via e-mail, e em uma de nossas trocas internáuticas Miguel deixou claro que eu deveria mostrar-lhe todos os escritos que viesse a produzir a respeito de seu processo e de sua cliente, mesmo trocando os nomes e as informações. Frisou: incluindo a conversa gravada, pois o seu “relato foi o mais informal possível”. Depois de muito ruminar, respondi-lhe que sua vigilância procedia em relação às falas que foram transcritas e gravadas, mas nunca em relação à minha análise.
Ledo engano, o meu, pois se eu tivesse me predisposto a analisar os processos de Amélia (e demais informantes) aliados às entrevistas, acredito que teria incorrido na própria descaracterização do fazer antropologia. Para que eu pudesse perceber, por exemplo, os meandros de bastidores que contribuem para a produção da(s) “verdade(s)” e das “provas judiciais”, a omissão de algumas informações de situações observadas ou gravadas comprometeria a minha
23
- A citada competência se dá a partir do disposto nas leis dos Tribunais de Justiça, também denominadas de “Regimentos Internos”, bem como, nas diferentes legislações que regem a temática em questão, por exemplo, Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Civil Brasileiro, dentre outras.
própria análise, na justa medida em que elas poderiam contribuir para o entendimento das relações supostamente impessoais formadoras dos processos, cuja lógica se alimenta também de relações pessoais e inacessíveis ao público, posto serem sigilosas. Sigilosas, não apenas face ao segredo de justiça, mas por comporem as relações jurídicas travadas nos bastidores das salas de audiência, e, que por serem produzidas nos bastidores, não são feitas para virem à tona no contexto processual. Não esqueçamos que as situações processuais sob o segredo de justiça, são assim definidas somente para o público em geral, mas não para os operadores do direito e para as partes litigantes do processo, o mesmo não se estendendo para as situações de bastidores que são sigilosas para determinados personagens da relação processual quer transcorra em segredo de justiça ou não.
Conseqüentemente, ambas as situações, seja das trocas de e-mails entre eu e doutor Miguel, seja do próprio significado jurídico-penal que advém da quebra do segredo de justiça24, levam-me a uma sugestão: quando o antropólogo deixa de incorporar à análise etnográfica o que denomino de “relatos brutos” – situações gravadas ou grafadas de observações diretas25 e/ou de entrevistas realizadas pelo pesquisador, ora a pedido (ou “ordem”) dos operadores do direito (como foi o caso do Dr. Miguel), ora porque suas explicitações podem comprometer o anonimato de nossos informantes, acaba alçando o Direito ao status de “ciência verdadeira” (FOUCAULT apud RABINOW & DREYFUS, 1995:201). À luz desse raciocínio, o Direito caracterizar-se-ia como um produtor de conhecimento mais legítimo do que a própria antropologia, seja pelo poder jurídico de impor sua autoridade ditando o que deve ou não ser incorporado à análise antropológica, seja pela conseqüência que tal autoridade acarreta ao próprio fazer antropologia, pois se o antropólogo omite informações ou as descontextualiza, acaba por incorrer em um outro fazer, que não o antropológico em seu sentido teórico.
24
- Imposição de processo criminal a todos aqueles que expõem nome de litigantes ou narrativas contidas nos autos sigilosos.
25
- Quando me remeto às observações ditas “diretas”, refiro-me a observações que mesmo sem serem analíticas (mas simplesmente transcritas no caderno de campo da maneira como foram vistas ou escutadas), configuram-se como “interpretações (...) na verdade, de segunda e terceira mão” (GEERTZ, 1978:25).
I. 5. Quando o “interesse público” exige que o “público” se torne