BOLÍVIA
NOTES ON THE HISTORICAL TRAJECTORY OF CHILD LABOR AMONG INDIGENOUS PEOPLE IN
BOLIVIA
Abstract: The paper provides a brief historical reflection on child labor among indigenous people in Bolivia. Since the Spanish colonization of the Andean territory, indigenous labor has become the basis of the Hacienda Real. During the emancipation of the Bolivian state, it continued to be a structure for the promotion of the National Treasury. In 2014, Bolivia legalized child labor in its territory. It is currently estimated that 60% of working children are of indigenous descent. The aim of the study is to reflect on the historical trajectory that involves the indigenous question in the country, the relations of exploitation between the hegemonic and subaltern classes and the reproduction of the colonizing ethos in the present day.
Keywords: Child labor, Bolivia, Cultural History.
INTRODUÇÃO
No século XVI, a prata de Cerro Rico, na Bolí-via, financiava o império espanhol. Em determinado momento, Potosí era uma das cidades mais ricas do
mundo. A produção atingiu o pico em 1650 e depois entrou em um declínio de um século, quando o México entrou no mercado (BETHELL, 2012). Para concorrer com o México, os administradores da província de Potosí aumentaram o número de trabalhadores nas minas, sobretudo o de crianças indígenas (FARIÑAS, 2000).
O tamanho pequeno e a agilidade das crianças fomentavam a produção nas minas e seria uma lógica comum de produção capitalista dois séculos mais tarde, durante a Primeira e a Segunda Revolução industrial.
Fora das minas de prata, as crianças indígenas seriam utilizadas nas lavouras de coca, em La Paz e, durante a ascensão da República, dividiriam diferentes se-tores de trabalho, como na abertura de rodovias (BOLAÑOS, 1999). A lógica do trabalho infantil se perpetuaria na Bolívia, sobretudo entre as comunidades indíge-nas, contrariando as convenções globais de Direitos Humanos e tornando-se uma questão crítica no país ainda neste século XXI.
Estima-se que quase um terço das crianças do país (Bolívia) seja impulsionado pela pobreza para trabalhar em condições perigosas. Essas crianças podem ser encontradas em minas artesanais que produzem ouro, prata e estanho, onde trabalham por longas horas em espaços fechados e são frequentemente expos-tas a produtos químicos perigosos. Elas são encontradas entre os indígenas guaranis, forçados pela servidão por dívida, a fazerem seus filhos trabalharem em grandes fazendas de gado na região do Chaco. E elas são encontradas em grande número trabalhando na produção de cana-de-açúcar em departamentos como Pando, Beni e Santa Cruz. Os crescentes preços mundiais viram uma dramática reversão no declínio do cultivo de açúcar na Bolívia. O período de colheita, de abril a novembro, atua como um ímã para os trabalhadores das partes mais pobres do país: cerca de 60% dos colhedores de cana-de-açúcar são migrantes temporários. A maior parte do trabalho pesado de colheita ainda é feito manualmente. Crianças de até sete anos estão envolvidas nas plantações para remover a folhagem indesejada, cortar a cana com facões e empilhar e carregar. (SCHIPANI, 2009).
Para analisarmos a “lógica” dos trabalhadores infantis na Bolívia, é neces-sário olharmos a história da população indígena naquele território, uma vez que se estima que 60% das crianças nessa condição são de ascendência indígena. Para tanto, o leitor deve tomar previamente a informação de que, em 2013, grupos de trabalhadores infantis representados pela Unión de Niños, Niñas y Adolescentes Trabajadores de Bolivia protestaram publicamente contra todos os esforços inter-nacionais de barrarem o trabalho infantil no país. O protesto antecedeu as reformas que regularizaram a idade mínima de 10 a 12 anos como permissível para a
inser-ção do sujeito no trabalho boliviano dentro do Codigo Niño, Niña y Adolescente.
Nesse sentindo, questiona-se: por que as crianças, sobretudo as indígenas, desejam trabalhar na Bolívia? E por que as comunidades indígenas defendem o trabalho remunerado de suas crianças?
Uma possível explicação seria encontrada na trajetória histórica da Bolívia:
a exploração. A mão de obra indígena, desde a chegada dos espanhóis no território andino, seria a base de fomento da Hacienda Real, enquanto na República, não obstante, a exploração engordaria o Tesouro Nacional. Com remuneração baixíssi-ma ou nenhubaixíssi-ma, além de castigos físicos e psicológicos, as crianças eram explora-das sem nenhum recurso formal de defesa. Pode-se refletir que a formalização do trabalho infantil, para grupos historicamente escravizados e violentados pela elite dominante tornou-se, de certo modo, na Bolívia, uma espécie de catalisador de uma exploração pior (MAYTA, 2017). Entende-se que as crianças, sobretudo as indíge-nas, são vítimas de um sistema econômico que as obriga a buscarem mecanismos de sobrevivência, situação que não só é incompatível com a simples erradicação do trabalho infantil, mas que demanda medidas de proteção e direitos especiais para grupos étnicos historicamente marginalizados na América Latina.
METODOLOGIA
O presente trabalho integra os estudos do projeto de pesquisa de mestrado em andamento “Paradigmas sócio-históricos da educação em perspectiva comparada (Brasil/Bolívia): o papel da educação nas rupturas e permanências do sistema hege-mônico”, que busca entender os esforços da Educação, tanto como instrumento de emancipação da perspectiva eurocêntrica colonial, como também legitimadora de discursos hegemônicos na América Latina.
Restrito a este artigo, foram utilizados os métodos de análise bibliográfica sob a perspectiva da História Cultural. Importante salientar que as transformações no campo da História propiciaram um surgimento de orientações historiográficas, como a História Cultural, cujas abordagens são dedicadas às diferenças, debates e conflitos das tradições em culturas inteiras, mas especificadamente pelo “choque de civilizações”.
Com a influência da Escola dos Annales, no século XX, os historiadores pro-curaram superar os limites da historiografia tradicional de fundo positivista, até então predominantemente aceita pela maioria dos estudiosos (BURKE, 2008). Essa nova abordagem abre-se a estudos dos mais variados, como a “cultura popular”, a
“cultura letrada”, as “representações”, as práticas discursivas partilhadas por
diver-sos grupos sociais, os sistemas educativos, a mediação cultural através de intelec-tuais, ou a quaisquer outros campos temáticos atravessados pela polissêmica noção de “cultura”.
Além da História Cultural, a abordagem histórica deste trabalho se insere na corrente investigativa da Etno-história. À esteira da nova historiografia, a aborda-gem sobre o indígena, nas ciências humanas, ainda desperta um complexo de es-peculações, equívocos e divergências. O fato de os grupos indígenas não terem nos deixado testemunhos documentados sobre a própria atuação obriga o pesquisador a ter que trabalhar com o discurso feito pelo outro, e não o discurso de si. Somos le-vados a concordar com De Certeau (1982), quando alerta que a palavra do possuído se torna, eventualmente, uma linguagem alterada.
A fim de sanar as lacunas e parcialidades da questão metodológica do dis-curso sobre os grupos indígenas, desenvolveram-se, no século XX, na América do Norte, os métodos da Etno-história. A Etno-história apresenta-se, atualmente, não como uma área isolada de estudos, mas como um conjunto de técnicas para elucidar a cultura a partir do uso de tradições orais e escritas (TRIGGER, 2009). Dentro da investigação da Etno-história, recorremos aos estudos da Antropologia, da História e da Arqueologia, a fim de garantir que não se realize uma visão simplista ou ge-neralizada sobre a constituição de grupos étnicos. E também a respeito do próprio conceito de etnicidade, que foi banalizado pela primeira leva de antropólogos e etno-historiadores, e ainda gera o que Poutignat e Streiff-Fenart (1998, p. 55) cha-mam de “negação de historicidade dessas sociedades”.
Neste trabalho, além de fonte bibliográfica secundária, foram revisitados os manuscritos inseridos no Catalogo de documentos de Mojos y Chiquitos atendidos por La Audiencia de La Plata, 1640-1823, o documento da Leys de Indias, bem como os comentários do historiador Gabriel René Moreno.