CRIANÇAS E ADOLESCENTES
RESILIENCE IN THE FACE OF VIOLENCE AGAINST CHILDREN AND ADOLESCENTS
Abstract: The paper investigates, from a psychoanalytic point of view, the resilience of children and adolescents who were victims of violence in the family environment and are being assisted and in a therapeutic process at the Specialized Reference Center for Social Assistance (CREAS).
According to Winnicott, the quality of early mother-baby relationships enable the introjection of the required resources for the acquisition of self-resilience. Based on projective techniques and the resilience scale adapted to childhood, the study addressed the perceptions and feelings of children and adolescents regarding their current living conditions and perspectives for the future. The qualitative method adopted to focus on the subjective nature of the object analyzed was the case study, based on clinical procedure adopted for children and adolescents who were victims of violence. The results showed that the subjects, even in the face of the violence suffered, have internal resources introjected from their object relations, which gives them the necessary conditions to experience a perspective for the future.
Keywords: Resilience; Violence; Children and Adolescents.
INTRODUÇÃO
O presente trabalho visa a contribuir com a prevenção e a promoção de saúde, pois aborda um tema de grande relevância entre os problemas sociais contemporâ-neos, a violência contra crianças e adolescentes, que ameaça a ruptura de vínculos e a perda de perspectiva de um futuro promissor.
Há problemas sociais que permeiam as relações interpessoais desde os pri-mórdios da civilização, mas surgem também demandas novas, com o avanço do tempo e as consequentes transformações culturais. Disso decorre a necessidade hu-mana de aumentar os aparatos emocionais e psicológicos que subsidiam a resolução dos problemas ou a sua ressignificação.
Durante o estudo da literatura, apreende-se que a resiliência pode ser com-preendida, também, como a representação de um novo olhar, uma ressignificação do problema, que não o elimina da vida do sujeito, pois faz parte da sua constituição.
O termo resiliência é originário da Física. Designa a capacidade elástica que certos corpos têm de voltarem ao estado anterior após sofrerem uma deformação (CYRULNIK, 2004).
A resiliência é um conceito relevante para a Psicologia, uma vez que corrobo-ra o estudo da elabocorrobo-ração simbólica diante do sofrimento humano, que é o cerne da abordagem psicanalítica. O fenômeno, no entanto, não pode ser compreendido de modo generalizado, visto que parte de aspectos subjetivos, que relacionam recursos internos e externos, abrangendo a infância e as primeiras relações objetais. A resi-liência configura-se de forma diferente, dependendo das variadas circunstâncias, ou seja, não deve ser considerada como um processo linear.
Diante do tema exposto, acredita-se que resiliência é um conceito de saúde da contemporaneidade. Para Freud, a noção de resiliência está ligada ao período narcísico das primeiras relações pais e bebês, ou seja, caracteriza essa etapa como o amor dos pais e todos seus desejos renascendo nos filhos e para os filhos. Assim, a importância das primeiras relações é determinante para o desenvolvimento psíquico saudável da criança, fazendo com que construam um eu resiliente.
Além disso, a resiliência é investigada a partir da teoria das relações objetais, que assinala a importância de um ambiente facilitador para que a criança tenha re-cursos para a constituição do psiquismo desde a primeira infância.
Para Winnicott (1983), a saúde psíquica deve ser considerada em termos de crescimento emocional, consistindo, assim, em uma questão de maturidade,
que envolve gradualmente o ser humano, em relação de responsabilidade com o ambiente.
Seguindo a mesma linha de pensamento, Klein (1959), em “Nosso mundo adulto e suas raízes na infância”, relaciona diretamente a mente infantil e os proces-sos mentais adultos, o que reafirma a importância de investigar a infância, a fim de compreender as bases estruturantes da personalidade adulta, bem como a origem de comportamentos e de patologias de ordem psicológica.
A relevância deste projeto justifica-se pela promoção de saúde, sobretudo a saúde mental, que ainda é muito negligenciada na sociedade moderna, através da compreensão dos recursos psicológicos utilizados por crianças e adolescentes que sofrem violência, propiciando um desenvolvimento mais saudável.
Como expõem Moraes e Macedo (2011), é na qualidade dos atendimentos às demandas da criança e do adolescente, via ação específica proporcionada pelo semelhante, que está o alicerce para fundar o sujeito como “sujeito psíquico”. En-tão, fica atribuída às experiências infantis a condição de ponto de partida, de base de desenvolvimento do psiquismo. Isso ratifica a ideia psicanalítica de que o outro tem papel fundamental nas funções inaugurais das primeiras marcas psíquicas do sujeito, isto é, da criança e do adolescente.
A importância dessa temática na área da Psicologia está relacionada a uma demanda cada vez maior, por parte da população, por intervenção visando à supe-ração desses casos traumáticos. A compreensão da resiliência possibilita a obten-ção de subsídios teóricos que deem suporte às intervenções necessárias. “Como capacidade de reaprender a viver após um ferimento, a resiliência é um processo que se instala já na primeira infância com a tessitura dos laços afetivos e, depois, a expressão das emoções”. (CREMASCO, 2008, p. 224).
Junqueira e Deslandes (2003, p. 6) dizem que:
Se a resiliência pode ser desenvolvida através de relações de confiança e apoio, o foco de atenção na saúde das crianças e adolescentes desloca-se para o cui-dar, isto é, para o fato de elas serem cuidadas e acreditadas como sujeito em desenvolvimento.
A revisão de literatura é um processo contínuo na elaboração de uma pes-quisa, bem como em sua própria realização e coleta de dados. Assim, pensa-se nas contribuições teóricas e práticas que a presente pesquisa objetiva compor sobre o contexto abordado e decorrido. A investigação da resiliência está associada ao
estudo de aspectos individuais, como fase de desenvolvimento, experiência, his-tórico de vida etc. Também se ponderam os elementos contextuais, como o nível sociocultural, o ambiente e o suporte social. Discutir as contribuições teóricas de resiliência no campo da saúde abre portas para um debate contemporâneo muito construtivo, com o intuito de se ter uma compreensão esclarecedora do indivíduo.
(ANAULT, M. apud CABRAL; LEVANDOWSKI, 2013). Por isso, faz-se ad-missível refletir sobre a práxis do psicólogo nas Políticas Públicas de Assistência Social e as suas responsabilidades nos atendimentos realizados segundo a sua competência.
Isso só se tornou possível por meio da Lei Orgânica de Assistência Social nº 8.742, aprovada em 1993, que criou condições para institucionalizar a Assistência Social como política, a fim de garantir direitos para a população que necessitasse de seus serviços. Mas foi somente em 2004 que um novo modelo de gestão, centrali-zado na família, alterou o LOAS para SUAS (Sistema Único de Assistência Social), que se regulamenta como uma política não contributiva, dever do Estado e direito de todo cidadão que dela necessitar.
Dessa maneira, a Psicologia busca construir vínculos sociais, formando redes de apoio e de fortalecimento comunitário, assegurando a presença de tais profissio-nais inseridos nas Políticas Públicas de Assistência Social, atuando em Centros de Referências como, por exemplo, o CRAS e o CREAS.
O Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), se-gundo os apanhados teóricos da rede e conforme o Guia de Orientação do CREAS (Brasil, 2005), presta atendimento a crianças e adolescentes em situação de risco e violação de seus direitos, direcionando os focos das ações para a família, com a perspectiva de potencializar sua capacidade de proteção a suas crianças e adoles-centes por ocorrência de negligência, abandono, ameaças, maus tratos, violência física/psicológica/sexual, discriminações sociais e restrições à plena vida com au-tonomia.
O abuso sexual e a violência doméstica contra crianças e adolescentes, são os tipos de violências mais frequentes; são vistos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como alguns dos maiores problemas de saúde pública existentes.
Este trabalho objetiva analisar as bases estruturantes da resiliência em crian-ças e adolescentes que sofreram violência, considerando os impactos emocionais resultantes dessas vivências.
METODOLOGIA
O método utilizado nesta pesquisa é qualitativo, com foco na natureza subje-tiva do objeto analisado, do tipo estudos de caso, a partir do procedimento clínico, no contexto de atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência.
Para Minayo (2001), a pesquisa qualitativa responde a questões muito parti-culares. Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, aspira-ções, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacio-nalização de variáveis.
A investigação teve a psicanálise como eixo teórico, pois possibilita a com-preensão do desenvolvimento infantil abordado por Freud e os impactos emocio-nais determinados pelas primeiras relações, quando não se adéquam às necessida-des da criança.
PROCEDIMENTOS
A instituição Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS foi contatada por meio de uma Carta de Apresentação da UFMS. Em se-guida, foi assinado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) pelo responsável, contendo as explicações sobre o que a investigação pretendia.
Foram realizadas cinco visitas ao Centro de Referência Especializado de As-sistência Social – CREAS. Participaram do estudo três crianças e adolescentes do sexo feminino, com idades entre 09 e 11 anos, cursando o nível fundamental em es-cola pública da região, que se encontravam em atendimento psicológico no CREAS de Corumbá.
Os sujeitos foram selecionados segundo a sua disponibilidade de horário e a anuência da família em participar da investigação, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), autorizado pelos pais no primeiro encontro realizado em conjunto com as crianças.
Os instrumentos utilizados para a consecução dos objetivos propostos foram:
- O desenho da família, que configura um importante recurso na compreensão das vivências emocionais de crianças e adolescentes que sofrem violência doméstica.
Para Vagostello (2007), a vitimização incide diretamente sobre o corpo da criança
nos casos das violências física e sexual e, indiretamente, nos casos de negligência e de violência psicológica. As crianças foram solicitadas a fazer um desenho da família, o que já revela um pouco do seu quadro familiar, ali representado de forma lúdica.
- O Teste de Apercepção Infantil com figuras de Animais – Children’s Apper-ception Test – CAT-A. Conforme Bellak & Bellak (1949/1991), o CAT-A é com-posto por pranchas com figuras de animais em várias situações humanas. Destina-se a crianças de 03 a 12 anos, de ambos os sexos.
- A escala de resiliência para crianças e adolescentes de Prince-Embury (2007), com seus itens de leitura de forma bem simplificada, buscando identificar os traços e/ou as características pessoais de resiliência dos participantes.
- Entrevista semiestruturada com a psicóloga do CREAS, com o objetivo de compreender o modo como atua em suas atividades e suas percepções acerca do contexto das violências sofridas pelas crianças e adolescentes em âmbito familiar.