DA LITERATURA SOBRE ENSINO SUPERIOR INDÍGENA: Situando o Campo
Capítulo 3 O CASO DA UFSCAR
3.2 A experiência do Vestibular Indígena da UFSCar
3.2.1 Novas demandas: Vestibular Descentralizado
A proposta de alteração do vestibular indígena surgiu por demanda do Centro de Culturas Indígenas (CCI), entidade representativa dos indígenas da UFSCar com o objetivo de
ampliar o acesso de indígenas na realização do vestibular através da oferta de avaliação em algumas capitais do país e não mais em São Carlos.
O vestibular específico da UFSCar apresenta-se como um diferencial na política de Ações Afirmativas para indígenas ao permitir que os indígenas concorram apenas entre si. Antes mesmo da proposta de mudança do modelo do vestibular, os estudantes divulgavam com bastante entusiasmo o processo seletivo entre comunidades e demais parentes.
No II Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas em Campo Grande, o estudante do curso de Ciências Sociais da UFSCar, Eri da etnia Machinery, aproveitou o espaço para divulgar o vestibular indígena de sua universidade. Ele comentou sobre a importância da presença indígena na universidade como forma de transformação da cultura, da ciência ocidental e para a formação da ciência brasileira e anunciou o programa da UFSCar com o destaque para o vestibular diferenciado.
Figura 3 – Divulgação do Vestibular Indígena da UFSCar no II ENEI.
Fonte: Juliana Jodas, 2014.
No encontro que ocorreu em Campo Grande em 2014, a coordenadora da CAAPE, Thais Palomino, esteve presente em todo o evento, e provavelmente ela tenha sido a responsável por levar os cartazes informativos sobre o vestibular indígena da UFSCar para o ENEI. No entanto, a divulgação, realizada por grande parte dos estudantes, não se tratou de uma solicitação por parte da instituição, mas uma apropriação dos próprios indígenas que se
reconhecem enquanto estudantes da UFSCar e divulgam o vestibular, não apenas nos eventos, mas em suas próprias comunidades, como forma de ampliar e fortalecer a presença indígena na universidade. Como será possível verificar ao longo da tese, é comum no período de férias, os estudantes divulgarem em suas aldeias, seja em escolas indígenas ou em encontros junto com as lideranças, o vestibular indígena e contarem sobre a universidade e o curso que estão realizando.
É interessante notar como os estudantes indígenas aos poucos se apropriaram da política de Ações Afirmativas da universidade, com novas questões e desafios para as instituições acadêmicas. E a mudança no formato do vestibular foi motivada pelo alto número de abstenções na realização das avaliações do total de inscritos para o vestibular. Os dados do total de inscrições em relação ao número de candidatos que compareciam as provas do vestibular indígenas sempre foram bastante discrepantes. No último ano da oferta do modelo antigo, para ingresso em 2015, houveram 237 inscrições deferidas e pouco menos da metade conseguiram comparecer as avaliações em São Carlos.
O quadro abaixo traz o número de inscrições deferidas para o vestibular indígena ao longo desses 12 anos e o salto quantitativo após a descentralização do vestibular em 2016, com a ocorrência de praticamente o dobro de inscrições:
Quadro 5. Relação de Inscrições no Vestibular Indígena da UFSCar por ano Ano do Vestibular Indígena Número de Inscrições Deferidas do Vestibular Indígena 2008 127 2009 102 2010 189 2011 142 2012 132 2013 98 2014 210 2015 237 2016 479 2017 747
O formato de vestibular descentralizado refletiu de imediato no número das inscrições, que deram um salto em relação aos anos anteriores que variavam em torno de 200, passou para 551 inscrições, sendo 479 deferidas para realizar o vestibular, no ano de 2016. O sucesso desse novo modelo de vestibular resultou no ingresso de 59 estudantes indígenas neste ano de 2016, ocupando quase a totalidade das vagas ofertadas, ano em que pela primeira vez que ingressaram indígenas nos quatro campi da UFSCar: São Carlos, Araras, Sorocaba e Lagoa do Sino, campus inaugurado em 2014.
A nova proposta, elaborada pelos estudantes indígenas, que foi aprovada pelo Conselho de Graduação (CoG) da UFSCar foi da realização do Vestibular Indígena em quatro capitais: São Paulo, Cuiabá, Manaus e Recife, com o objetivo de facilitar o deslocamento de candidatos de regiões com alta concentração de indígenas. Em 2018, os locais para realização das avaliações ficaram reduzidos para São Paulo, Manaus e Recife. E no último vestibular, para ingresso em 2019, além das três capitais já mencionadas, foi incluída a cidade de São Gabriel da Cachoeira como uma das sedes de aplicação do vestibular, cujo número de inscrições foi bastante expressivo: 477 inscritos para realizar a avaliação em São Gabriel, 277 para realizar em Manaus, 231 em Recife e 153 em São Paulo.
Para viabilizar tal proposta, a prova oral foi excluída do processo seletivo, mantendo apenas as avaliações do vestibular tradicional, a prova objetiva e prova de redação. Isto porque, segundo os gestores do PAA, a experiência da avaliação oral mostrou que não se constituía em um diferencial no ingresso dos indígenas, já que os alunos aprovados no vestibular e com desempenho satisfatório na avaliação oral, eram os mesmos com desempenho satisfatório nas demais etapas de avaliação, a prova múltipla escolha e a prova de redação.
A repercussão do novo formato de vestibular foi bastante favorável para a UFSCar, que tem se destacado nacionalmente em relação ao vestibular específico e pelo número crescente de indígenas nos cursos de graduação ofertados. Essa mudança apenas foi
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possível pelas constantes discussões e percepção dos estudantes indígenas em facilitar o acesso para a realização do vestibular aos seus parentes.
A proposta, elaborada em conjunto com a entidade representativa dos estudantes indígenas representou importante alteração da política institucional – formato do ingresso da política de Ações Afirmativas – cujo resultado tende a fortalecer sua própria representação coletiva com o ingresso cada vez maior de indígenas de diferentes regiões e etnias no interior da universidade.
Desde 2010 os estudantes indígenas promovem atividades de integração aos calouros no início do ano, participando e organizando junto com a universidade das atividades de recepção que tem como objetivo apresentar a universidade, informar sobre procedimentos importantes da vida acadêmica, além é claro de integrar os novos estudantes. Nas últimas edições dos vestibulares, os estudantes indígenas participam da divulgação do vestibular com apoio institucional, em formatos de mídia digital, por meio de vídeos e áudios, para serem divulgados pela internet, rádio, whatsapp e soundclound. Nas chamadas, o estudante se apresenta, descreve a etnia que pertence, a região de onde vem, o curso que realiza e explica um pouco sobre a UFSCar, o coletivo dos estudantes indígenas e os prazos do vestibular.
As duas principais dificuldades apontadas eram relacionadas a dificuldade de deslocamento devido a grandes distâncias e a falta de recursos para apenas realizar o processo seletivo sem a garantia de aprovação no vestibular. Muitos, como Lennon, conseguiram prestar o vestibular com apoio da FUNAI para o transporte, outros obtiveram recursos de Associações Indígenas que selecionam alguns candidatos como representantes para realizar as provas. De todo modo, podemos encarar a alteração do formato do vestibular como uma importante mudança política na universidade, cuja tendência é ampliar cada vez mais o número de indígenas a ocuparem todas as vagas a eles destinados.
Outra conquista recente é a ampliação das vagas ofertadas para indígenas, cujo formato é o de vaga suplementar em cada oferta de curso. A UFSCar possui a modalidade de reserva de vagas para refugiados, sendo da mesma forma, com uma vaga a mais em cada curso. Como a demanda de alunos em situação de refúgio não é alta comparada as demais modalidades de Ações Afirmativas, foi acordado que as vagas ociosas do vestibular para refugiados poderão ser transferidas aos candidatos indígenas.
A relevância do vestibular específico é notória quando observamos os dados de acesso de povos indígenas, das mais diferentes regiões do país, se deslocando até São Carlos.
Há um reconhecimento e legitimidade do processo de escolarização indígena, além do fato dos candidatos concorrerem apenas entre si. Em diversas edições do ENEI os ingressos específicos são ressaltados enquanto um método eficaz que garante o acesso dos diferentes povos.
Outro fator, implícito, na realização de um vestibular específico é o fato dele escancarar entrada de indígenas e evidenciar, portanto, a necessidade e o compromisso da universidade com uma política de acolhimento e permanência específica para estes estudantes. Se compararmos com a então política de acesso da Unicamp até 2018, realizada pelo PAAIS, na qual candidatos indígenas estavam contemplados dentro do público alvo específico, o resultado, ao longo de mais de dez anos de política era o silenciamento, por parte dos ingressantes indígenas, e a falta de compromisso da universidade em pensar em políticas específicas, cujo resultado era a homogeinização. O vestibular indígena torna visível para a comunidade acadêmica a presença de indígenas nela e a necessidade de atender a demandas específicas para este grupo de estudantes.