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NARRANDO TRAJETÓRIAS: Deslocamentos de indígenas até a UFSCar

5.6 Universidade em Movimento: território político

5.6.1 Tornar-se militante: narrativas exemplares

Os compromissos com as comunidades e as demandas do movimento indígenas são comumente reforçados não apenas pelas lideranças, mas pelos próprios estudantes indígenas. Os eventos são momentos de reafirmarem os vínculos com suas comunidades e pensar em estratégias políticas enquanto universitários e pesquisadores, e, por este motivo, alguns participantes utilizam de suas próprias trajetórias como forma de elucidar o envolvimento com o movimento indígena no ingresso ao ensino superior.

Luiz Henrique Eloy é indígena Terena, do Mato Grosso do Sul, formado em Direito em 2011 pela Universidade Católica Dom Bosco, mestre em Desenvolvimento Social pela mesma universidade e defendeu seu doutorado em Antropologia Social em março de 2019 no Museu Nacional (UFRJ). Ele participou enquanto coordenador e palestrante do II e III ENEI em mesas que envolviam a questão da luta pelo território indígena. No V Encontro, participou da mesa sobre Direitos Indígenas, Avanços, Violações e Retrocessos.

No III ENEI em Florianópolis, Eloy participa da mesa intitulada “Demarcação de Terras Indígenas e os Desafios da atualidade: criminalização do Movimento Indígena”, e em sua fala, descreve sua trajetória enquanto indígena, universitário, advogado e militante. Trazemos aqui um pouco de sua história como referência para os debates sobre o envolvimento dos universitários com o movimento indígena já que Eloy utiliza de sua própria

história para endossar a importância da luta e do envolvimento político dos estudantes indígenas na universidade.

Luiz Henrique Eloy nasceu e cresceu na aldeia Ipegue, no município de Aquidauana e realizou seus estudos na escola indígena de sua comunidade em que, boa parte, com professores indígenas. Eloy conta que fez parte da leva de estudantes que nos últimos 10 anos deixaram suas comunidades para ir até a universidade, ocupar novos espaços e aprender novos cursos. Inicialmente pensava em fazer biologia e dar aulas, mas foi convencido pela irmã, Simone Eloy, em cursar direito.

Ele ganhou uma bolsa do PROUNI e foi cursar direito na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) onde estudou com desembargadores, promotores e em sua sala de aula tinha contato com os filhos de ruralistas. Luiz Eloy conta que em pouco tempo estava seduzido e deslumbrado com o curso: “logo no primeiro ano eu já queria usar roupa social, frequentar os melhores lugares. Eu já não era mais aquele Terena, né?”.

Neste período, em seu primeiro ano de curso, ele dizia que queria ser advogado Tributarista, ou seja, aquele advogado que trabalha para empresários para justamente ganhar dinheiro. Durante o primeiro ano de Direito essas eram as pretensões de Eloy com o curso até participar de um evento com estudantes indígenas em junho de 2006. Ele relata que em uma roda de conversa com Guarani, Terena, Kaiowá, o professor Antônio Brand perguntou para ele: e você, Eloy? Você quer ser advogado, o que você pretende fazer? E ele respondeu: que quero ser advogado tributarista e me especializar em direito empresarial.

A resposta dele gerou incomodo no professor e passaram a dialogar sobre o histórico que os fizeram estar ali, na universidade, as demandas dos povos indígenas, o que serviu para todos que estavam ali, já que segundo Eloy, ele não era o único estudante indígena que estava ali com outras intenções.

Porque de fato, a gente vai para a universidade a gente quer estudar, quer ter um bom emprego, quer ter um mínimo existencial, uma casa, um carro, dinheiro para dar para família também... Mas eu tinha me esquecido que no Mato Grosso do Sul tem um número muito grande de comunidades indígenas que naquele momento, e até hoje, tem uma carência muito grande por acessória jurídica (...). Porque a primeira coisa que o professor Brand disse e depois as lideranças confirmaram é que se hoje nós estamos nas universidades não é por acaso. [Luiz Henrique Eloy, Terena, III ENEI,

Foi a partir daí que ele passou a repensar “que negócio é esse de querer ser advogado de empresário?” e começou a iniciar visita junto aos documentos indígenas, aos Guarani-Kaiowá, Terena, Kadiwéu e se aproximar das lideranças. Em um primeiro momento, Luiz Eloy diz que, ao menos na experiência do Mato Grosso do Sul, houve um mal-estar dentro das comunidades devido o desencontro de perspectivas e gerações, pois os jovens saem, vão estudar e voltam com um estudo diferenciado, com palavras bonitas já participando das reuniões. Esse desentendimento se deu até sentarem juntos e explicarem as lideranças que não queriam ocupar o lugar deles na aldeia, mas sim contribuir com os conhecimentos aprendidos.

E faz muita diferença. Eu vejo lá nas Assembleias, as lideranças estão discutindo as demandas da terra, as vezes um simples documento que você senta para ajudar para fazer para as lideranças já é uma ajuda muito grande. Os professores ajudando, os advogados, os antropólogos fazendo os registros necessários. [Luiz Henrique Eloy, Terena, III ENEI, Florianópolis,

2015]

Luiz Henrique Eloy se tornou advogado em 2011 e em 2013 ingressou no mestrado. Em sua dissertação ele realizou um levantamento dos processos de demarcação de terra no Mato Grosso do Sul, o que gerou muita revolta por parte dos fazendeiros. Antes de ocorrer sua banca de defesa do mestrado, a Federação dos Fazendeiros do Mato Grosso do Sul (Famasul) entrou com uma ação judicial tentando suspender a defesa. Eles alegavam que o trabalho de mestrado de Eloy não era uma dissertação científica, mas uma dissertação política. A justiça federal interferiu, não considerou crime e atribuiu autonomia a universidade autorizando a realização da defesa do mestrado.

O incomodo se deu também pela banca de defesa ter ocorrido em uma área de retomada, o que levou a Comissão dos Assuntos Agrários e Agronegócio da Ordem dos Advogados do Brasil a instaurar procedimento disciplinar para cassar o registro profissional do advogado indígena, apesar de ter sido refutado pela justiça federal. Atualmente, além de cursar doutorado em Antropologia no Museu Nacional, Luiz Eloy se engajou no Conselho Indigenista Missionário (CIMI), onde trabalha na assessoria jurídica da APIB.

A trajetória de Eloy se apresenta enquanto resultado de uma das dimensões do acesso de indígenas na universidade: a produção de um projeto universitário não apenas individual, mas também coletivo. A experiência de Eloy individualizada é acionada e utilizada enquanto referência para compromissos coletivos dos estudantes indígenas para com

suas comunidades. O ENEI aparece enquanto ferramenta para viabilizar e reatar o percurso individual com o coletivo em que a narrativas exemplar se torna efeito dessa convergência.

No ano de 2017, Eloy retorna ao ENEI como participante da mesa intitulada “Direitos Indígenas, Avanços, Violações e Retrocessos”, e, em sua fala, chama atenção para a importância de acompanhar as organizações indígenas, as notícias e informações dadas pelas associações das diferentes regiões como forma de compreender o cenário político:

É importante que vocês, estudantes indígenas, estejam atentos aquilo que o movimento indígena está sempre chamando atenção. Por exemplo, quem aqui lê as convocatórias da APIB? Levanta a mão. Quem aqui lê a convocatória da APOINME? Quem lê a carta da COIAB, da ARPINSUDESTE, da ARPINSUL, do Conselho Aty Guassú? Pois é, vocês estão alienados ao movimento indígena, precisam estar alinhados ao que as lideranças indígenas estão dando recado. Todos os meses, as vezes todas as semanas, a gente tem lançado cartas, dizendo e denunciando o que está acontecendo em Brasília, o que está acontecendo nas cortes internacionais. E é preciso que você estudantes, profissionais do direito, pesquisadores indígenas estejam atentos a estes sinais que o movimento indígena tem dado, para que vocês, no local onde vocês estiverem, possam de alguma forma contribuir. Não precisa ser advogado, estudante de direito para lutar por direitos. Cada um na sua área tem muito a contribuir. [Luiz Henrique Eloy,

Terena, V ENEI, Salvador, 2017]

Há um chamado para que os estudantes estejam em diálogo com as associações indígenas locais. Eloy aproveita também para contextualizar e explicar sobre algumas tramitações no Congresso Brasileiro, como parecer nº001 da AGU, que resgata da tese político-jurídica do marco temporal, em que só poderiam ser demarcadas terras que estivessem sob posse das comunidades indígenas até 05 de outubro de 1988, e quais os encaminhamentos e notas realizadas pela APIB como forma de combater este ataque nos direitos dos povos indígenas.

É comum relatos como o de Luiz Eloy do envolvimento com o movimento indígena a partir da universidade. Na mesa sobre “Mulheres indígenas e movimentos sociais: quebrando paradigmas do universo acadêmico”, que ocorreu no IV ENEI em 2016, Rayanne, do povo Baré, na época estudante de enfermagem da UnB descreve que quando entrou na universidade a primeira coisa que pensou foi que não queria nada relacionado ao movimento indígena em sua vida, devido a todo contexto histórico e familiar relacionado ao ativismo indígena.

Alguns meses depois do ingresso na universidade ela conta com ironia “lá estou eu, envolvida em reunião de Associação Indígena. Vem da gente, do ser indígena, ser