Introdução: a justiça socioambiental.
PARTE 3: Novas perspectivas para as cidades com a Rio+20?
A conferência Rio+20, cúpula mundial sobre o meio ambiente realizada na cidade do Rio de Janeiro duas décadas depois da Eco92, representou uma boa possibilidade de se avaliar em que medida as questões levantadas neste texto estão avançando rumo a uma nova consciência sobre o papel das cidades na discussão ambiental e as possíveis ações para enfrentar os impactos da (má) urbanização mundial.
A questão não é simples. Vimos até aqui que o desafio está em construir uma agenda para a justiça ambiental que coloque efetivamente a cidade no centro da discussão ambiental, face ao ritmo acelerado de urbanização que o planeta vive e o cenário de generalização da precariedade urbana que se apresenta. Além disso, mostrou-se que tal agenda tem caráter essencialmente político, ou seja, deve ser reestruturadora não só das formas de governança, mas também das correlações de forças políticas que sistematicamente relegam a questão da desigualdade social a um segundo plano. A questão ambiental, portanto, não pode mais ser tratada como um conjunto de iniciativas, do poder público e dos atores sociais, mais ou menos técnicas, que somadas teriam o potencial de amenizar ou quiçá reverter o processo de degradação ambiental em curso. Ela deve ser o motor de uma transformação muito mais profunda do próprio modelo econômico e da matriz urbana atualmente em voga mundo afora, no bojo das sociedades de consumo de massa. Uma tarefa, portanto, bastante árdua.
Na conferência Rio+20 a questão da sustentabilidade urbana foi reconhecida como problema, e incorporada à agenda da política ambiental, mesmo que de forma um tanto periférica e não com o papel central e estruturador que preconizamos, mas isso sem dúvida já é ao menos um começo. Começa a generalizar-se a constatação de que a matriz urbana mundial é ambientalmente desastrosa e dramaticamente desigual, ensejando reflexão sobre ações possíveis para sua superação.
No documento oficial “O futuro que queremos” , no tema específico do “desenvolvimento sustentável” (Tema 19), há menção à necessidade premente de “eliminar as diferenças entre países desenvolvidos e em desenvolvimento” , em função de declarada preocupação com o fato de que “uma a cada cinco pessoas do planeta, ou seja mais de 1 bilhão de pessoas, continue vivendo na extrema pobreza. (...) Reconhecemos que, considerando que para 205º se projeta uma população mundial superior a 9 bilhões de pessoas e que se estima que 2/3 dessa população viverá em cidades, devemos intensificar os esforços para alcançar o desenvolvimento sustentável, e em particular a erradicação da pobreza, da fome e das doenças evitáveis”.
Ainda assim, há de se constatar que a questão urbana, mesmo que pareça tão assimilada na citação acima, pouco aparece no conjunto do documento. E, sobretudo, está longe de aparecer como elemento estrutural que permeie todas as questões ambientais (já que até mesmo a dimensão rural está cada vez mais atrelada à economia urbana), aparecendo ainda como um tema específico, entre outros. A
mudança do tratamento da questão urbana é elemento imprescindível para alcançar as transformações que aparentemente começam a ser desejadas.
Evidentemente, dentre as abordagens segmentadas da questão, alguns temas, felizmente, já têm aparente consenso, mesmo que isto não signifique, nem de longe, que ações mais significativas sejam iniciadas rapidamente. A necessidade de ampliação dos serviços de água e saneamento, de adoção de modalidades de transporte sustentáveis que garantam mobilidade urbana, de redução os riscos de desastres, são temáticas “urbanas” que aparecem no “Marco para a ação e seguimento” do documento oficial, no quesito das “esferas temáticas e questões intersetoriais”, demonstrando que, mais uma vez, a questão da sustentabilidade urbana não se constitui como uma agenda centralizadora, mas é tratada pelo viés das ações setoriais interligadas.
O tema urbano, então, aparece como mais uma das questões setoriais a se pensar, sob o título de “Cidades e assentamentos humanos sustentáveis”. Sobre ela, se reconhece a necessidade de promover o planejamento “integrado” de assentamentos humanos “sustentáveis”, o que envolve, segundo o documento, ações locais de conscientização da população, de aumento da participação – “inclusive dos pobres” – nas tomadas de decisões . Os países assinantes se comprometem a “promover políticas de desenvolvimento sustentável que apoiem a prestação de serviços sociais e de moradia includentes, condições de vida seguras e saudáveis para todos (...), transporte e energia acessíveis e sustentáveis, fomento à proteção e reestabelecimento de espaços urbanos verdes e seguros, água potável e saneamento, boa qualidade do ar, geração de empregos decentes, e melhoria do planejamento urbano dos bairros marginais”.
As intenções estão presentes. O texto segue com outras tantas, sempre com a mesma tônica de erradicação da pobreza, acesso aos serviços básicos, o que é sem dúvida um avanço fundamental, mas já haviam sido reconhecidos como tal desde a Rio92. Obviamente, resta saber como ultrapassar o campo das intenções, no que o documento é definitivamente pouco efetivo, e é até mesmo um tanto otimista com alguma suposta capacidade técnica milagrosa do “planejamento urbano” em poder ser o instrumento das transformações: “reconhecemos que as cidades que tenham sido bem planejadas (grifo dos autores) e desenvolvidas, inclusive aplicando enfoques integrados do planejamento e da gestão, podem fomentar sociedades sustentáveis desde os pontos de vista econômico, social e ambiental” . Mais à frente, o documento volta a citar a aplicação de “políticas de planejamento e desenho urbano sustentáveis para responder eficazmente ao crescimento da população nas próximas décadas”.
Excetuado esse item específico sobre a questão das cidades, além das referências setoriais, as menções ao urbano param por aí, e não aparecem mais, exceto em um ou outro ponto, no documento, em assuntos nem sempre associados à sustentabilidade urbana, mas que sabemos, como dito anteriormente neste texto, que são elementos estruturais dessa agenda: consumo e produção sustentáveis, preservação de bosques e áreas verdes, resíduos urbanos e de produtos químicos, saúde pública, etc. Nos itens sobre os meios de execução das políticas ambientais, a questão das cidades não aparece de forma específica.
Mas os trechos acima citados mostram que, se por um lado é importante a incorporação da questão urbana à agenda ambiental, com enfoque claro às relações desta com a desigualdade social, por outro lado é no campo das propostas mais efetivas de ação, justamente o aspecto mais complexo a enfrentar, que a fragilidade do documento se evidencia.
A crença um pouco ingênua no “planejamento urbano” mostra uma visão tecnicista da questão, que se apoia na ideia de que políticas tecnicamente “bem realizadas” seriam capazes de resolver, a longo prazo, o problema da insustentabilidade urbana. Ora, viu-se anteriormente neste texto como, no caso emblemático da (não) aplicação do Estatuto da Cidade no Brasil, leis e instrumentos de gestão por si só não fazem nada sem uma transformação estrutural – e política – mais profunda.
O fenômeno da crise ambiental urbana ainda é analisado muito mais pela ótica de seus efeitos do que das suas causas. As problemáticas apontadas no documento partem de uma já inevitável constatação da injustiça socioespacial, e da listagem dos problemas mais visíveis: enchentes, trânsito, poluição, desigualdade habitacional, segregação espacial, etc. Porém, pouco se avança na constatação de que todos esses problemas deveriam ser vistos sob um único prisma, o da agenda ambiental urbana, e mais ainda, que eles dizem invariavelmente respeito a uma questão mais profunda, que não poderá ser resolvida apenas com a aplicação de técnicas sustentáveis ou de uma maior participação nas decisões de políticas públicas: a da inviabilidade ambiental do atual sistema de consumo de massa e da relação de forças econômicas que gera cada vez mais desigualdade no mundo.
Assim, as soluções sugeridas nos textos oficiais tendem invariavelmente a certa setorialização e segmentação da problemática urbana, e a uma crença um pouco superficial nos poderes de transformação do “planejamento urbano”, sem que este seja, de fato, melhor discutido e claramente definido. “Cidades bem planejadas” é um eufemismo pouco preciso, que serve para tudo, e pode esconder diversas visões: bem planejada na ótica de quem? De que interesses? Com quais objetivos? Sabemos que as respostas a estas perguntas são infindáveis e podem ser absolutamente antagônicas.
Talvez seja por esta razão que a participação dos especialistas no Painel Diálogos Cidades Sustentáveis e Inovação, proposto pelo Governo Brasileiro na Rio+20 , tenha se dividido com certa clareza em dois grupos: aqueles que tendem a propor soluções de caráter mais técnico, que seriam capazes de “corrigir” os rumos da urbanização dando-lhe uma roupagem “sustentável”, e aqueles com uma postura mais crítica, que tendem a apontar elementos estruturais do sistema econômico vigente como a causa central da problemática ambiental urbana.
Antes de comentar as falas dos convidados, vale relembrar um pouco da própria dinâmica do evento Diálogos para o Desenvolvimento Sustentável, realizado no dia 18 de junho, no Riocentro. Ele foi proposto pelo governo brasileiro e recebeu suporte e apoio das Nações Unidas, com o objetivo de promover a participação de representantes da sociedade civil por meio do debate. Os Diálogos se organizaram em torno de dez temas , dentre os quais o de “Cidades sustentáveis e inovação”, supostamente voltado para a problemática urbana. A divisão dos temas já mostra o quanto uma agenda ambiental urbana única inexiste, e o quanto a setorialização da questão ambiental ainda impera. Dentre os demais temas, encontramos “Desemprego, trabalho decente e migrações”, “Energia”, “Água”, ou ainda “Economia do desenvolvimento sustentável”, todos aspectos essenciais à discussão urbana, sendo as cidades cada vez mais as protagonistas do consumo, da geração de empregos, do consumo de água, de energia, etc. Não houve um momento em que esses temas, que contém especificidades, pudessem ser debatidos em conjunto sendo a cidade o elemento motor da discussão.
Para cada tema haviam sido anteriormente selecionadas 10 recomendações , feitas e escolhidas em uma plataforma on line por pessoas com interesses diversos, militantes de organizações da sociedade civil e especialistas nos temas em debate, que promoveram também a seleção. Durante a Conferência, cada tema foi palco de painéis compostos por 10 especialistas convidados e público. Pela internet, uma das recomendações foi indicada como a mais votada, e não podia ser alterada pela plenária. Além dessa, palestrantes e público presente escolheram, por sua vez, mais uma recomendação cada. Essas três recomendações foram então endereçadas aos governantes de países durante as rodadas do segmento de alto nível da Conferencia Rio+20. Apesar de contribuir para o debate e envolver o público, já se sabia desde o inicio que tais recomendações não seriam incorporadas ao documento final da Conferência, sendo esta uma de suas principais limitações.
A falta de clareza sobre o engajamento e representatividade dos participantes limitou a legitimidade e representatividades dos Diálogos, diminuindo o peso político das posições da sociedade civil, ainda que essas sejam muitas vezes divergentes entre si. O resultado é que os conflitos e multiplicidade de posições que poderiam enriquecer as discussões ficaram neutralizadas sob a elaboração de recomendações demasiadamente genéricas . Mais uma vez, a dinâmica acabou favorecendo uma visão
segmentada da questão ambiental urbana, fato observado com precisão por Mitullah , em seu relatório síntese sobre o debate ocorrido na plataforma on-line. Para ele, embora reconhecendo a boa qualidade das contribuições dos internautas, “somente poucos participantes estavam aptos a se envolver para além dos tópicos específicos de seu interesse e expertise”, reforçando visões setoriais, específicas ou “enviesadas” do tema sustentabilidade e inovação que, segundo ele, e como insistimos neste texto, “requerem uma compreensão holística das dinâmicas das cidades” e são interdependentes.
Assim, a recomendação apontada na votação das pessoas que participaram da plataforma on-line foi a de “Promover o uso de dejetos como fonte de energia renovável em ambientes urbanos”, ou seja, uma solução técnica relativa à questão das energias renováveis, um aspecto restrito dentro da discussão do desenvolvimento urbano sustentável, ainda que importante.
Mas voltemos às posições avançadas pelos palestrantes do painel sobre as cidades. Como sempre, as questões já assimiladas, as consequências da falta de justiça ambiental urbana foram bastante lembradas: critica ao modelo do automóvel individual e necessidade de revisão do padrão de mobilidade urbana, a desigualdade social e espacial, as diferenças nas políticas públicas nas decisões sobre a condição de vida nas cidades, o uso não planejado dos recursos naturais, a necessidade de desenvolvimento de tecnologias para aumento de eficiência, reuso, diminuição de desperdício, etc. Muitos palestrantes alertaram que pouco se avançou na solução desses problemas. Assim, uma questão central do debate foi qual prioridade política que deve ser dada aos investimentos e projetos, sem que se avançasse na discussão sobre os conflitos e limitações que se colocam face à possibilidade de redefinir profundamente o próprio padrão atual de acumulação. Como já dito, uma clara divisão surgiu.
Um primeiro grupo, composto principalmente pelos arquitetos que participaram do painel, ressaltou o caráter prático e o potencial que poderiam ter soluções de planejamento e projeto urbano associadas a soluções tecnológicas para a construção de uma “cidade sustentável”. Não foi discutido por esse grupo, em que medida tais projetos seriam capazes de alterar as lógicas estruturais do sistema econômico, da matriz urbana, das prioridades políticas, ou ainda se estariam ou não articulados a demandas e reivindicações da população mais pobre, geralmente marginalizada das decisões políticas sobre sua própria condição de vida. Quando muito, avançou-se na idéia que o projeto urbano pode representar uma síntese organizadora da intervenção na cidade, a partir da discussão e mobilização de moradores em debate com o poder público, possibilitada somente com o acesso à informação por parte da população, como defendeu Alejandro Aravena (Chile). Nesse sentido, a “sustentabilidade” é fruto de uma melhor coordenação (ou governança), e do uso do bom senso. Tal visão, se bem intencionada, parece entretanto esvaziar-se da questão política, ignorando o quanto esta pode dar ao termo “bom senso” formatações tão variadas quanto o são os interesses em jogo no território urbano.
O segundo grupo de palestrantes, composto de personalidades mais engajadas na militância civil, expressou uma visão critica e mais estrutural sobre a produção desigual da sociedade, o que gera situações assimétricas de acesso à terra e aos serviços urbanos, ao “direito à cidade” e às decisões políticas, tornando a vida nas cidades insustentável.
Enrique Ortiz, do México, por exemplo, enfatizou sua decepção com a votação das recomendações, pois para ele apenas tecnologia e dinheiro não resolverão os problemas reais, que são mais profundos e complexos. Para ele, é a lógica da mercadoria que orienta a produção dos espaços da cidade, e as questões políticas e sociais dela decorrentes que determinam a degradação dos recursos naturais. O brasileiro Oded Grajew ressaltou que o desenvolvimento sustentável requer mudança no modelo de desenvolvimento, e o senegalês Khalifa Sall salientou que a sustentabilidade não é possível “num mundo onde pobres se tornam mais pobres e ricos se tornam mais ricos”. No contexto dos países norte- americanos, o canadense David Cadman apelou para uma vida de paz e não de guerra, defendendo que os investimentos em armas e guerras cessem e sejam redirecionados para a promoção da justiça e da equidade social. Para ele, o lixo deve ser um ônus para quem o produz. “Nós somos o que nós consumimos”, declarou, questionando o modelo do consumo de massa exacerbado.
Se tais observações podem parecer mais genéricas, por não serem técnicas e setoriais, elas são, entretanto, mais políticas e mais radicais, e portanto mais próximas de um entendimento necessariamente mais radical profundo da urgência de transformações estruturais nas lógicas de funcionamento da sociedade e de produção das cidades. A adoção de uma “agenda da justiça socioambiental urbana”, ainda mais na escala mundial, deve certamente guiar-se mais por essa postura transformadora, capaz de provocar mudanças nos diferentes aspectos que destacamos anteriormente neste texto (a questão da propriedade da terra, a correlação de forças na disputa pelo espaço urbano, o controle sobre o uso do solo, a implementação de governança participativa e descentralizada, etc.).
A guisa de conclusão, se parece consolidar-se a ideia que os conflitos e problemas ambientais urbanos são gerados pelas desigualdades sociais, econômicas e culturais, os pontos eleitos para serem debatidos, embora obviamente bem-intencionados, ainda são vagos e generalistas, e sobretudo reproduzem o automatismo de enxergar a questão ambiental urbana como uma somatória de problemáticas setoriais, sem entende-las como parte de um mesmo problema estrutural. As sugestões mais propositivas ainda são dispersas, misturam propostas específicas com outras muito gerais, e são sempre voltadas à conscientização da problemática ambiental muito mais como uma questão passível de solução sobretudo pelas atitudes individuais e comunitárias, pelo diálogo mais intenso entre sociedade, mercado e estado em torno da questão ambiental. Aspecto sem dúvida necessário e fundamental, mas que por si só não aponta as causas estruturais que inviabilizam a matriz urbana que predomina hoje no mundo.
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