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3 CARACTERÍSTICAS DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM DOS

3.22 NOVOS COMPORTAMENTOS, MODALIDADES E PRÁTICAS

Pela Tabela 22, pode ser observado que a maioria dos sujeitos relata ter criado algo ou desenvolvido novas modalidades de suas práticas, na prisão. Ou seja, não se restringiram ao que inicialmente aprenderam, pois acrescentaram ou modificaram algum aspecto em suas práticas inusitadas. De acordo com Abric (1985), a criatividade consiste no processo pelo qual um indivíduo ou grupo elabora um produto novo ou original, adaptado às condições e finalidades de determinada situação. Para Ocaña (1997), inovação seria a habilidade de otimizar os recursos e a capacidade mental de redefinir funções e usos, efetuar transformações e conseguir novos papéis. O indivíduo é mais ou menos criativo, conforme suas capacidades para atuar nesse novo processo.

Os sujeitos dessa pesquisa, em diferentes graus, criaram alguma coisa, seja um novo produto, uma modificação, ou a própria maneira de realizar alguma ação, o que os tornou diferentes dos demais. Além disso, as ações criativas dos sujeitos parecem ter adquirido valor criativo ainda maior, dadas as precárias condições que enfrentam para gerar tais resultados. Segundo Alencar (2001), idéias criativas podem encontrar

170 dificuldade para frutificar, quando não há permissão do ambiente para que prosperem, além de reconhecimento, receptividade e estímulo.

Tabela 22 - Síntese das informações relativas aos comportamentos ou tipos de práticas inusitadas criadas na prisão

Sujeitos Comportamentos ou práticas criadas na prisão

Religioso 1 Cada reunião ou outro evento religioso ocorre de forma diferente, não há um

formato ou modelo a ser seguido

Religioso 2 Não há uma forma repetida, pois cada evento ocorre conforme a direção que

é dada por Deus

Religioso 3 A decisão de praticar a religião e de batizar-se

Estudante 1 Além de desenvolver o hábito de “passar a limpo” para o caderno os

principais pontos de seus estudos, sempre que possível, pede a um professor para que procure, na Internet, informações atualizadas sobre assuntos de interesse escolar

Estudante 2 Não houve uma criação. Apenas melhorou o local, adaptando uma lâmpada

ao ventilador, aumentando a luminosidade

Estudante 3 Procura ler e fazer anotações no caderno

Estudante 4 Procura livros de exercícios das matérias em que não se saiu bem, para

praticar, nas férias

Estudante 5 Não houve

Artista 1 Procura inovar em cada obra, sempre criando algo diferente

Artista 2 Vem aprimorando nos detalhes, melhorou sua atenção e a criatividade, de

forma geral

Artista 3 O modelo de bolsa, é seu. Nas outras obras, sempre cria algum detalhe

Artista 4 Sempre cria novas formas, a cada obra que faz

Artista 5 Sempre cria novas formas, a cada obra que faz

Trabalhador 1 Procura inovar, criando sempre novos tipos de lanches

Trabalhador 2 Não criou, mas gosto muito de utilizar o carrinho e do trabalho pesado

Trabalhador 3 O artesanato, não fazia. Sempre cria coisas novas

Leitor 1 Com a prática, consegue ler com grande rapidez e seu gosto pela leitura tem

aumentado sempre mais

Leitor 2 Costuma tentar prever o final do livro

Leitor 3 Não houve

Leitor 4 Não houve. Apenas repete a leitura, quando não entende algo

Os religiosos, principalmente em suas reuniões de culto e de pregação, procuram realizar os encontros de forma diferente, não seguindo modelos, mas levando em conta o momento vivido pelos participantes naquele grupo. Ainda que façam um planejamento do culto ou pregação, costuma haver modificações, adaptações e improvisos, conforme o desenrolar do evento junto aos que os acompanham.

Os estudantes, em sua maioria, desenvolveram novos comportamentos e formas de estudar, objetivando obter melhor resultado na aprendizagem, como demonstra este dedicado ao estudo: “Eu sempre vou anotando num caderno as coisas que acho mais

171 difíceis, que são mais importantes. Então, é assim que procuro manter gravado na mente” (Estudante 3). Por sua vez, há quem tente manter o ritmo o ano inteiro e crie uma alternativa para utilizar também o tempo disponível fora do período letivo:

“No período das férias escolares, procuro conseguir um livro e cadernos, para fazer todos os exercícios que estão naquele livro. Depois, entrego o caderno para um professor, se ele tiver disposição pra corrigir, tentar encontrar onde eu errei, já é uma maneira de eu aprender...” (Estudante 4).

Os artistas, de forma unânime, relatam que criam algo e inovam a cada obra que produzem, evitando repetições. Esses criadores de arte, assim como o estudante que adaptou uma lâmpada em seu ventilador, estão entre os que mais teriam utilizado o pensamento lateral (DE BONO, 2007a; 2007b). Conforme esse autor, nesse tipo de pensamento, a pessoa gera novas idéias reestruturando modelos já existentes, com novos dados, assimetricamente. Para More (2006), o pensamento lateral trata de idéias criativas e inovadoras diferentes do padrão habitual das pessoas que as executam. Ele adquire importância fundamental na geração de novas idéias e maneiras de ver as coisas (MENTRUYT, 1997). Enfim, independente do tipo de pensamento, a pessoa cria sob a influência do percurso que realizou até chegar ali e do contexto sócio-histórico em que ocorre (MORAIS, 2002), considerando também os aspectos culturais (CSIKSZENTMIHALYI, 1995; 1999). A seguir, dois depoimentos de artistas sobre suas criações:

“Sempre crio coisas novas naquilo que eu faço. Criei uma peça feita só de canudos [pedaços de papel, enrolados, em forma de canudos, encaixáveis um no outro], que é o abajur. Até agora, ninguém havia feito de canudos. Crio abajur de canto de sala, abajur de mesa e de criado-mudo” (Artista 5).

“Eu só criei o modelo dessa bola que estou fazendo. O cara que me ensinou, fazia meio feínha... Estas, estão bonitas. Na cadeia, você sempre tem que criar coisas novas, não pode fazer de um jeito só. Num dia você faz de um tipo, noutro dia você faz de outro, com isso nada fica parado... Tudo o que a gente faz, é vendido. Se um não compra, outro vem, compra e leva para a família” (Artista 3).

Por sua vez, os trabalhadores procuram sempre diferenciar-se dos demais, seja criando produtos diferenciados, seja pela própria dedicação ao trabalho:

172 “O lanche da turma, sou eu quem invento. Posso criar o que eu quiser. Vejo os ingredientes que estão disponíveis, o que é possível fazer e meto ficha, faço o que dá!... A dona D. disse que eu tenho mil e uma utilidades (risos)...” (Trabalhador 2).

Por fim, os leitores são os que menos referem ações criativas, mas relatam algumas modificações em suas práticas, como o aumento da velocidade da leitura, a tentativa de prever o final do livro e a repetição da leitura quando não conseguem entender alguma parte.

De acordo com Ruscio e Amabile (2007), as pessoas são especialmente mais criativas quando se sentem motivadas por seus próprios interesses, prazeres, satisfações e desafios pessoais, mesmo diante de revezes. As constatações a que chegaram os autores parecem encontrar corroboração nas práticas do sujeitos dessa pesquisa, uma vez que os mesmos não dispõem de apoios e recursos adequados para fomentarem suas práticas. Além disso, a própria situação de aprisionamento, com todas as peculiaridades e dificuldades decorrentes, sugerem um aumento na condição de desafio pessoal para seguir em frente, ou seja, uma vez mais um fator intrínseco obtém destaque. Por outro lado, essas atividades e maneiras de fazer constituem um diferencial, cada sujeito as pratica de livre vontade, sem cobranças e pressões por resultados, e isso pode igualmente contribuir para o êxito de suas empreitadas (AMABILE, 2007).

A manutenção da prática dos sujeitos, apesar das dificuldades enfrentadas, podem também encontrar explicação nas crenças de auto-eficácia. Ou seja, nos julgamentos das próprias capacidades para levar a cabo os objetivos almejados (BANDURA, 1986), ultrapassando assim as limitações ambientais. Clegg et al., (2002) destacam a importância de os indivíduos confiarem nos resultados de seus intentos, principalmente no que se refere aos possíveis benefícios que podem advir de seus próprios esforços. Tanto as crenças na auto-eficácia, quanto a confiança nos resultados, parecem intensificar ainda mais o comportamento apresentado, como ilustra o leitor a seguir:

“Eu me aperfeiçoei na leitura, leio muito mais rápido. Também consigo assimilar mais, antes tinha que ler mais pausadamente. Hoje em dia não, hoje em dia eu já consigo ler várias palavras em um minuto. De repente, até uma centena” (Leitor 1).

Abric (1985) ressalta a importância do grupo no incremento da ação criativa. De fato, os sujeitos pesquisados, em sua maioria, não apenas aprenderam a desenvolver as

173 atividades junto a seus pares, mas tiveram também a influência deles para a criação de novos produtos e ações. Ocorre a participação do grupo nas práticas e pregações dos religiosos, nas trocas de “know how” dos estudantes, na interação com os colegas e com os eventuais “clientes” dos artistas, na busca de apoio e reconhecimento dos trabalhadores e nas trocas de idéias e de livros entre os leitores. De acordo com Abric (1985), o grupo estimula os intercâmbios por meio de suas interações sociais e cognitivas, diminuindo a resistência às mudanças e incrementando o surgimento de novas idéias. Além disso, favorece a aceitação da possibilidade de riscos e, com isso, escolhe soluções menos banais e mais originais. Por fim, a própria heterogeneidade do grupo, tanto em atitudes quanto em aptidões caracteriza riqueza potencial para a produção de soluções criativas, pois permite o confronto entre diferentes idéias, bem como a utilização de competências.

3.23 OBJETIVOS DOS NOVOS COMPORTAMENTOS, MODALIDADES OU