3 CARACTERÍSTICAS DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM DOS
3.9 OBJETIVOS DAS APRENDIZAGENS E PRÁTICAS INUSITADAS
Quanto aos objetivos das aprendizagens e práticas, apresentados na Tabela 9, há diferentes conjuntos de objetivos que foram mencionados pela maioria dos sujeitos.
O conjunto de respostas com maior incidência diz respeito à criação de formas para os presos obterem algum tipo de satisfação e tornar mais ameno o ambiente em que vivem. Assim, procuram passar o tempo ocupados com as atividades, diminuir o estresse, fazer algo de que gostam e obter privilégios e reconhecimentos, conforme pode ser verificado pelo depoimento: “eu trabalho mais pra passar o tempo, não precisar depender dos outros, não precisar pedir nada para os outros e também pra mostrar para as pessoas que a gente tem condições de mudar” (Trabalhador 3).
O segundo conjunto de objetivos refere-se às modificações que os indivíduos vêm efetuando em suas vidas, seja nos planos espiritual, intelectual e social e para a própria satisfação, de uma forma geral. Para tanto, constata-se dedicação a uma nova vivência religiosa, o investimento de tempo nos estudos e em uma nova prática
126 profissional, a busca de conhecimentos e de informações, além do reconhecimento de uma nova identidade. A manifestação do estudante a seguir exemplifica algumas dessas intenções:
“Meu objetivo, ao estudar, é procurar um emprego melhor lá fora, lá não tá muito fácil. E também pra ter uma boa educação, poder passar isso para as outras pessoas também, para serem mais humanas umas com as outras... E procurar não errar mais na vida, não cair de novo num lugar desses, sofrer um monte aí, longe da família, das pessoas que a gente ama” (Estudante 3).
Tabela 9 - Síntese das informações sobre os objetivos das práticas inusitadas
Sujeitos Objetivos das práticas
Religioso 1 Atender à convicção pessoal de que é sua missão pregar a palavra de Deus
Religioso 2 Atender à convicção pessoal de que é sua missão pregar a palavra de Deus e
trazer outras pessoas para a prática religiosa. Além disso, com tal pregação, obter de Deus a bênção para sua família
Religioso 3 Não cometer mais crimes e evitar novas prisões
Estudante 1 Obter realização pessoal e facilitar a conquista de um emprego. Além disso,
ocupar seu tempo de forma proveitosa enquanto estiver cumprindo pena
Estudante 2 Obter formação pessoal, adquirir escolaridade (diplomas) e ocupar o tempo
disponível
Estudante 3 Preparar-se para conseguir um emprego melhor, uma boa educação e evitar erros
futuros
Estudante 4 Preparar-se para ter um emprego melhor, de preferência lecionar na faculdade.
Além disso, gosta e tem satisfação em estudar
Estudante 5 Aprender, ser alguém na vida, ter um emprego melhor, saber ler e escrever
Artista 1 Desenvolver um passatempo. É também uma forma de criar recursos para
adquirir os produtos vendidos na cantina, além de ser uma alternativa de trabalho para quando sair da prisão
Artista 2 Ganhar dinheiro para comprar material de higiene, cigarros e alimentos, além de
diminuir a tensão
Artista 3 Manter-se ocupado, passatempo, cuidar de seu comportamento e ganhar dinheiro
Artista 4 Conseguir dinheiro para comprar mantimentos na cantina, passatempo e
distração
Artista 5 Fazer algo de que gosta. Passatempo, melhorar a cabeça, é uma terapia
Trabalhador 1 Obter reconhecimento, ser olhado pela Direção, movimentar-se, ter a sensação
de liberdade
Trabalhador 2 Facilitar a obtenção dos benefícios jurídicos, conquistar a confiança da Direção, distrair-se, obter saúde e aprender mais
Trabalhador 3 Passar o tempo, ter mais autonomia e mostrar que tem condições de mudar
Leitor 1 Adquirir mais conhecimentos, ocupar a mente, entreter-se, aproveitar melhor o
tempo, trocar idéias com colegas mais esclarecidos, evitar a “manipulação da TV” e conhecer mais palavras
Leitor 2 Lazer, “fuga” do lugar, passatempo, aprender a conviver com outras pessoas e
tirar lições para a vida
Leitor 3 Aprender mais e adquirir conhecimento. Não parar no tempo, evoluir. Amenizar
o estresse e “sair” do sistema prisional
Leitor 4 “Abrir a mente e os horizontes” e ver o mundo de forma diferente. Ter mais
127 Um terceiro conjunto de objetivos está voltado para a aquisição de recursos a fim de atender as necessidades e desejos do dia-a-dia. É o caso dos artistas que, com suas produções, almejam também ganhar dinheiro e realizar negócios, adquirindo o que julgam prioritário. Tais finalidades diferem das apresentadas pelos religiosos, por exemplo, que destacam as mudanças que vêm efetivando em suas vidas no plano espiritual e a sua missão de pregar, compartilhando os ensinamentos e as convicções religiosas. Contudo, tais diferenças nem sempre são tão efetivas, na prática. De acordo com Pulakos, Arad, Donowan, e Plamondon (2000), aprender consiste num momento especial de adaptação. Quando aprendem a desempenhar novas tarefas, muitas vezes as pessoas passam também por mudanças, até mesmo nos seus estados cognitivo, motivacional e emocional, alterando inclusive os papéis que desempenham. Tudo isso, sem precisar interromper as atividades cotidianas, cujos encaminhamentos nem sempre dependem exclusivamente dos atores envolvidos. Enfim, mesmo que as pessoas aprendam novas ações visando atender a necessidades do dia-a-dia, ocorrem também processos de adaptação e mudanças em outras esferas de suas vidas.
Sonnentag et al. (2004) destacam que as atividades de desenvolvimento informal envolvem ações pouco estruturadas, com aprendizagens até mesmo incidentais, que poderão ser úteis em situações futuras, como na aquisição de conhecimentos, habilidades e comportamentos. A prática voluntária de leituras é uma dessas atividades que podem vir a trazer ganhos posteriores. Dados os escassos recursos e alternativas, a maioria dos tipos de aprendizagens acabam sendo aproveitados pelos reclusos, de alguma maneira. Mesmo aquilo que é aprendido, numa primeira análise, para atender a necessidades contemporâneas, poderá ser utilizado em ocasiões futuras, pois o processo de socialização continua, ininterruptamente, consoante o ambiente em que a pessoa se encontra. Mais que isso, o simples fato de estar convivendo com outras pessoas implica participar de modificações da realidade objetiva (BERGER e LUCKMAN, 2004).
De acordo com Wenger (1998a), viver é estar em contínuo engajamento em empreendimentos dos mais diversos tipos, desde a sobrevivência física até a busca dos mais elevados prazeres. Para o autor, é atuando em um contexto histórico e social que se dá estrutura e significado ao que se faz. Daí a prática ser sempre uma prática social. No interior de uma organização prisional não é diferente. Pelos dados apresentados pelos sujeitos, as aprendizagens ocorrem e, na maioria das vezes, com a intervenção dos colegas. Ainda conforme Wenger (1998a), aprendizado é também participação. Refere- se a processos de interação ativa em comunidades sociais, nas quais o indivíduo
128 constrói identidades. Ou seja, por meio da participação e do próprio pertencimento, a pessoa molda não apenas o que faz, mas também quem ela é e como interpreta o que faz.
Goffman (2005) destaca a recorrência a mecanismos que os internos utilizam para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia no estabelecimento e obter algum tipo de satisfação. Nesse sentido, tanto podem ocorrer os chamados ajustamentos primários, quanto os secundários. No primeiro caso, os internos mantêm uma postura de colaboração com os dirigentes da organização, possuem condutas que não ameaçam a rotina prisional e apresentam comportamentos que se coadunam com o que deles é esperado. De forma geral e, principalmente os trabalhadores, os sujeitos pesquisados apresentam tais comportamentos. Ainda que suas ações ocorram de maneira informal, são consideradas legais, não infringindo leis e regulamentos. O outro tipo de mecanismo desenvolvido refere-se aos ajustamentos secundários, práticas que também não chegam a ameaçar a equipe dirigente. Nesse caso, o indivíduo utiliza de meios não autorizados ou ilícitos para obter satisfações permitidas, ou utiliza de meios lícitos para obter satisfações proibidas. Parece ser este o caso dos artistas que confeccionam ferramentas proibidas, ainda que com a finalidade de fazer artesanato. Esse assunto será retomado mais adiante, na discussão a respeito da influência do regime disciplinar sobre os comportamentos inusitados.
Com o desenvolvimento das novas tarefas e, conseqüentemente, com o desempenho de novos papéis, os sujeitos pesquisados parecem remodelar suas identidades em seu contexto social. A manifestação do Leitor 2 exemplifica a busca e a (re)construção da própria identidade, ao descrever a sua convivência com a leitura e os diferentes objetivos de sua prática:
“É uma fuga, um passatempo. Eu aprendo muito com qualquer tipo de leitura, sempre se tira lições de alguma coisa, se tira proveito. A fuga que eu falo, é como se o cara saísse desse lugar. Quando você está entretido ali, naquele livro, você não está aqui dentro, preso. Seu corpo está, mas sua mente está longe, você está viajando, está entretido. Essa fuga permite ao cara enfrentar isso aí... Se o cara ficar com a mente 24 horas só aqui dentro, ficar olhando para aquela janela, ou em volta, naquela cela em que o cara está, com aquela grade ali... Olha, o cara pira! Quando eu sair para a rua, não vou viver só no meio da malandragem, no meio de ladrão. Vou conviver no meio de outras pessoas, eu não vou poder ter essas idéias, essas conversas que têm aqui dentro da cadeia. Vou ter que estar atualizado, vou ter que saber alguma coisa. Então, isso aí me ajuda, a leitura ajuda a me expressar, a falar” (Leitor 2).
129 Independente de estarem obtendo ou não algum tipo de recurso, vantagem, abrandamento, conforto, apoio ou reconhecimento na prática de suas ações, os sujeitos participam do mundo social. E cada um deles representa dois tipos de papéis: o primeiro, refere-se ao que o indivíduo atribui a si mesmo. O segundo, articulado conforme o que o meio espera dele. De acordo com Berger e Luckmann (2004), o desafio de cada um consiste em harmonizar o sentido que dá à sua biografia, com o sentido que a sociedade lhe atribui. A identidade, elemento crucial da realidade subjetiva, encontra-se numa relação dialética com a sociedade. Essa identidade, ainda que com tendências duradouras, é mantida, modificada e remodelada pelas relações sociais que o sujeito estabelece ao longo de sua vida.
3.10 O QUE FACILITA A OCORRÊNCIA DAS APRENDIZAGENS DOS