• Nenhum resultado encontrado

4 A PRESENÇA MONSTRUOSA

4.3 Nuvens do desconhecido

No prefácio do livro “In the dust of this planet”, Eugene Thacker (2011) escreve que vivemos em um mundo cujas ameaças, cada vez mais catastróficas, de dimensões planetárias, ameaçam também nossa inteligibilidade do mundo e de nós mesmos, isto é, nossa própria consciência. Sob muitos aspectos, nós, com nossa terrível humanidade, podemos ser o

outsider, o horror, por ser os culpados – provavelmente – por uma suposta e inevitável

destruição dos recursos do planeta. Recursos esses dos quais necessitamos para viver.

Bem, ainda segundo Thacker (2011), a filosofia e o horror estão conectados um ao outro através da ideia de “mundo”. Contudo, o mundo pode significar muitas coisas, desde a experiência subjetiva de viver no planeta, ao estudo objetivo e científico das condições geológicas. O mundo é humano e não-humano, antropocêntrico e não-antropomórfico, às vezes até mesmo misantrópico – ou seja, avesso à própria natureza humana.

Um dos maiores desafios que a filosofia enfrenta atualmente reside em compreender o mundo no qual vivemos tanto como humano, quanto não-humano e, ainda, compreendê-lo politicamente.

Se, por um lado, nós estamos cada vez mais e mais cientes do mundo em que vivemos como um mundo não-humano, um mundo externo, que se manifesta nos efeitos da mudança climática global, dos desastres naturais, da crise energética, e da extinção progressiva de espécies ao redor do mundo inteiro. Por outro lado, todos esses efeitos estão conectados, direta e indiretamente, com o nosso viver em e viver como parte deste mundo não-humano. Consequentemente, esta contradição leva ao seguinte desafio: nós não podemos deixar de pensar no mundo como um mundo humano, em virtude do fato de que somos nós, seres humanos, que raciocinamos (os únicos, até onde sabemos) sobre ele.

De qualquer forma, este dilema não é necessariamente novo. Segundo Thacker (2011), a filosofia tem repetidamente voltado a este problema do mundo não-humano. Enquanto os filósofos de hoje podem chamar essa questão de “correlativismo”, “aceleracionismo” ou, ainda, “políticas atmosféricas”, para os pensadores de antigamente o mesmo dilema era expresso em terminologias diferentes: o problema do “estar-no-mundo”, a dicotomia entre niilismo “ativo” ou “passivo”, ou os limites do pensamento humano nas “antinomias da razão”.

As barreiras entre o natural e o sobrenatural, por exemplo, é uma barreira muito antiga herdada em muito pelas culturas clássicas, mas também, claro, pela história da religião. Este é um interesse recorrente tanto no horror quanto na filosofia e fundamentalmente a questão que ele trata é se o mundo à nossa volta, ao qual estamos de certa forma submetidos, é tudo o que existe mesmo ou se há algo além das aparências, ou seja, por “baixo da superfície”, tanto no que diz respeito a um significado mais profundo para o indivíduo ou para a humanidade.

É interessante citar aqui que para Lovecraft, a raiz do horror sobrenatural estaria no medo do desconhecido. Em suas palavras: “A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido” (LOVECRAFT, 2008, p. 13). Thacker (2011), por sua vez, retomou Lovecraft para investigar filosoficamente o desconhecido, que ele denomina “mundo impensável” (THACKER, 2011, p. 01). Ele, então, define o mundo impensável como aquele no qual a filosofia revela seus próprios limites, já que ela “não pode se expressar de outro modo que não

seja o de uma linguagem não-filosófica” (THACKER, 2011, p. 02). Nesse sentido, o autor aponta o horror sobrenatural como gênero privilegiado no qual o impensável assume lugar de destaque. Este, por sua vez, seria o horror em que tanto o monstro não morre, como ele possui poderes paranormais. Para o autor, ainda existe uma complicação: o horror supernatural pode ser aquele em que talvez não exista diferença entre nós e o monstro ou, ainda, um mundo no qual talvez o mundo em si seja um monstro ou tenha características monstruosas.

Thacker (2011) ressalta três maneiras básicas de conhecer o mundo que nos ajudam a compreender a função do horror sobrenatural como um tipo de “não-filosofia” ou “filosofia negativa” buscada por ele. A primeira maneira seria o “mundo para nós”, que é antropocêntrico, conforme compreendido pela filosofia ocidental. A segunda seria o “mundo ele mesmo”, composto pela humanidade e também pela Natureza que a cerca, sem que o homem esteja considerado como o centro da indagação filosófica. E, a terceira e última maneira seria o “mundo sem nós”, categoria especulativa que adotaria a perspectiva do Universo – para o qual, até onde sabemos, nós e a natureza de nosso planeta não fazemos diferença alguma. A partir dessas formas de compreender o mundo, Thacker sugere que o horror sobrenatural pode ser compreendido como um espaço de confronto entre o “mundo para nós” e o “mundo ele mesmo” ou o “mundo sem nós”. O gênero do horror e seus monstros, para o autor, apontariam para o espaço imaginário sugerido por Lovecraft (THACKER, 2011, p. 08) em que nos deparamos com um universo no qual não somos nada, não sabemos nada, e quanto mais o compreendermos, mais próximos ficaremos do desespero e da loucura (CÁNEPA E FALCÃO, 2016). Logo, podemos dizer que não se trata do simples e puro medo de encarar a morte, mas de deparar-se com o enigma final. O horror como uma tentativa de pensar o impensável.

Sobre este ponto, Cánepa e Falcão (2016) explanam que o zumbi seria um monstro muito potente, pois, diferente de outros – como vampiros, bruxas e lobisomens –, ele elimina o fantasma que existe em nós (nosso ghost, nossa alma), ou seja, o lugar destinado à individualidade e à consciência – justamente aquilo que nos oferece controle ou compreensão da imensidão misteriosa à nossa volta. Nas narrativas de zumbis, não há qualquer pista do destino da mente ou da alma daqueles que são infectados ou comidos. O zumbi aniquila qualquer traço de consciência, deixando sobrar só “a casca”, o nosso corpo (ou partes dele) – que, mesmo apodrecendo, é o que ainda resiste, junto com a matéria do mundo. O monstro- zumbi empurra um horizonte de tempo vazio à sua frente (LARSEN, 2010). Ele é, de certo

modo, o grau máximo em que somos capazes de imaginar o futuro inevitável: o “mundo sem nós”. Um mundo em que não temos absolutamente nenhuma consciência de quem somos ou o que estamos fazendo a nós mesmos e aos outros, nos tornando simplesmente seres que agem por instinto.