Capítulo 1 Conceitos e histórico do antiamericanismo e do americanismo e suas
3. O antiamericanismo brasileiro: aspectos gerais
O paradigma desenvolvimentista da política externa brasileira, em que os anos 1961- 1964 estão inseridos, tinha na autonomia de atuação um de seus principais pilares. A consciência a respeito do subdesenvolvimento econômico do País demandava a liberdade de ação de sua política externa como um instrumento necessário para a promoção de sua prosperidade. O desenvolvimentismo pressupunha crescente grau de autonomia das políticas exteriores, entendida essa autonomia como conformação das decisões externas, em primeiro lugar, à percepção de interesses próprios. A dizer isso, sem autonomia decisória não haveria projeto nacional. Tanto que o modelo autonomista de desenvolvimento latino-americano confrontava, com freqüência, com a hegemonia dominadora da economia norte-americana, de restringir a margem de manobra da economia do Brasil a uma lógica em que os principais ganhos eram ditados pela grande potência do norte.30
Desse modo, era indispensável liberdade de ação (mesmo que relativa) para a política externa desempenhar de forma eficiente o seu papel supletivo do grande projeto de desenvolvimento econômico do Brasil. Soberania com autonomia decisória vinculados ao projeto de desenvolvimento-industrialização foram ideias-força de todo o paradigma desenvolvimentista, alcançando sua definição conceitual mais elaborada a partir dos anos 1960, com a Política Externa Independente (PEI). Por diversos motivos, as relações entre o Brasil e os Estados Unidos não foram, ao longo desses anos (assim como nos demais, no geral), tranqüilas e, em parte, podem ser explicadas com base na desconfiança do Brasil das intenções dos Estados Unidos.31
Esse sistema ideacional tem suas raízes muito tempo antes do surgimento do paradigma desenvolvimentista no Brasil e que, por conseqüência, contribuiu para avolumar um expressivo estoque de antiamericanismo no País. O lema “a América para os americanos”, proposto pelo presidente James Monroe em 1823, reiterava a neutralidade dos EUA em questões que envolviam as nações européias para, em seguida, declarar qualquer intromissão no continente americano como um passo perigoso para sua paz e segurança. Aplicava aqui no
30 CERVO, 2007, pp. 32, 71. SARAIVA, José Flávio Sombra (Ed.). Concepts, Histories and Theories of
International Relations for the 21th Century. Brasília: IBRI, 2009, p. 52.
31 CERVO, 2008, pp. 35, 232. ARINOS FILHO, Afonso. Diplomacia Independente: um legado de Afonso
continente “as lições dos colonialistas europeus”32
. Mais tarde, à doutrina Monroe seria acrescentado o corolário de Theodore Roosevelt, o “big stick”, “fale macio e carregue um porrete grande: você irá longe” – exercício do poder, se necessário com o uso da força. O processo de enriquecimento material do país exacerbou o seu expansionismo e a sua belicosidade, amplificado por uma tendência ao messianismo nacional, da ideia de povo eleito, resumido no conceito de destino manifesto. Décadas depois, durante a Guerra Fria, a América Latina continuava sendo tratada de forma semelhante, por meio da doutrina da reserva estratégica na zona de influência global dos Estados Unidos frente à União Soviética.
Nesse contexto, ainda na primeira metade do século XIX, as atenções norte- americanas se voltaram para o Amazonas, seja pela abertura à navegação, seja pela colonização direta de seu território, por meio da transplantação de parte de sua população negra e, consequentemente, constituição da República Amazônica. A desconfiança do governo brasileiro fazia sentido pelo histórico expansionista dos Estados Unidos nos territórios do México – primeiro ocupar pela população, depois anexar formalmente. Provável que datam dessa época os primeiros esquemas ideacionais de criação e consolidação do antiamericanismo no Brasil. O próprio ministro americano Robert C. Schenk admitia que “a atividade e o espírito aventureiro do povo e do governo dos Estados Unidos somente excita, no Brasil de modo geral, o medo de que o mais pacífico empreendimento possa ocultar algum desígnio mau contra a sua prosperidade e possessões”. Outro diplomata norte-americano, Richard Meade, constatou, em 1858, que “nossas ameaças oficiais, ou por outras formas, têm criado preconceitos contra nós na comunidade” brasileira. As expressões “confiança” e “respeito” conviviam, agora, com as de “desconfiança”, “ódio”, “ressentimento” e “ceticismo” na gramática do relacionamento bilateral entre os dois países.33
As ações norte-americanas, então, eram vistas, primeiro, como motivadas por um interesse egoístico, ambicioso e tendente a prejudicar os interesses brasileiros. Eduardo Prado considerava “deletéria e perniciosa” a influência dos Estados Unidos no Brasil, afirmando que os laços que uniam os dois países não passavam de ficção, com ganhos apenas para um lado (os Estados Unidos) e que, a todo momento, ameaçavam a autonomia e a soberania brasileiras. O fantasma de uma intervenção armada dos Estados Unidos em cidades brasileiras em decorrência de crises políticas (Revolta da Armada, suicídio de Getúlio Vargas, golpe
32 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Pereira Nunes (PSP-RJ), em 27/07/1961. 33 BANDEIRA, 2007, pp. 137 e 247. CERVO, 2008, p. 69.
militar de 196434) encontrava exemplos abundantes no subconsciente coletivo da sociedade e dos homens de Estado brasileiros. No fim, isso não ocorreu, mas as interferências concretas, mesmo que indiretas, no processo político brasileiro (redemocratização de 1944, participação ativa da embaixada dos Estados Unidos nos acontecimentos que culminaram no golpe de 1964) foram frequentes. E essas passagens históricas, se reais ou imaginárias, faziam parte do estoque de argumentações antiamericanas e, portanto, com consequências concretas no processo político brasileiro.
Essas ideias serviram como matéria-prima para o antiamericanismo no Brasil (ou as causas do ressentimento contra os Estados Unidos35), disseminando-se, ao mesmo tempo, na sociedade e na elite política do País. O estoque de antiamericanismo pode ser, por meio de um mecanismo social e histórico, legado de geração a geração, mantido por memórias do passado, ainda que longínquo. A partir daí, as opiniões da população podem ser institucionalizadas em um período de grande antagonismo pelas elites políticas, que então criam uma barreira para relações mais profícuas com os Estados Unidos. A memória coletiva e o legado existentes condicionaram substancialmente a probabilidade de conflitos.36
Nesse aspecto, a “rivalidade emergente” entre Brasil e Estados Unidos pode ter seu embrião não na década de 1950, quando à política exterior dos Estados Unidos repugnava a industrialização brasileira, como argumenta Moniz Bandeira, mas em anos mais longínquos do século XIX.37 Segundo a tese da “rivalidade emergente”, o processo brasileiro de modernização e industrialização resultou no aumento das áreas de atrito e choque com os Estados Unidos. Ainda de acordo com essa perspectiva, os diversos governos norte- americanos existentes percebiam o Brasil como um real ou potencial desafio à sua hegemonia, sendo imprescindível, portanto, limitar o seu desenvolvimento. Para outros defensores dessa tese, sempre que um país periférico se desenvolve, gera uma reação por parte dos países centrais. Isso, portanto, faria com que os Estados Unidos minassem qualquer tentativa de o Brasil superar sua condição de país periférico do sistema internacional, levados por uma questão estrutural.
De qualquer modo, a desigualdade de poder entre Brasil e Estados Unidos compelia as autoridades brasileiras a adotarem uma posição defensiva, de desconfiança. Era necessário
34 BANDEIRA, 2007, p. 634. 35 CERVO, 2008, p. 29. 36 KATZENSTEIN; KEOHANE, 2007, pp. 21, 37, 129. 37 CERVO, 2008, p. 232.
certo distanciamento e, ao mesmo tempo, maior autonomia dos Estados Unidos, evitando compromissos e resistindo ao crescimento da interdependência entre as duas economias e sociedades. A vasta assimetria de poder combinada a uma aproximação entre os dois países poderia produzir atritos, o que seria sentido desproporcionalmente pelo lado mais fraco.
Como se não bastassem as ações concretas de país a país, as atitudes dos homens que representavam as negociações bilaterais oficiais concorriam para fixar uma percepção antiamericana do lado brasileiro. Desde o século XIX pelo menos, houve relatos de enviados do governo norte-americano ao Brasil que utilizavam de expedientes de ameaça, provocação, insulto, arrogância, grosseria e prepotência. E, ainda na década de 1960, a diplomacia norte- americana persistia na utilização de ferramentas como chantagem, corrupção e ameaça a fim de convencer a favor de seus interesses.38
Ainda assim, os Estados Unidos representaram um exemplo de democracia, de federação e de república para o Brasil. O progresso simbolizado pelos Estados Unidos reunia experiências e expectativas para “nações jovens” do continente.39
O americanismo das primeiras horas da República, por exemplo, procurou instituir o nome, a constituição e até mesmo a bandeira copiada dos Estados Unidos. Esse mimetismo não significava, contudo, uma colaboração tendente ao servilismo, mas apenas como um exemplo de sucesso a ser seguido, de modelo de desenvolvimento econômico e social, um laboratório de práticas para um futuro mais moderno.40 Com os anos, os Estados Unidos continuariam a representar um ideal, um exemplo, pelo prestígio da imagem do “american way of life”, por meio da música, do cinema, dos produtos. Ademais, os atritos políticos e as desconfianças de lado a lado não afetavam o crescimento do comércio bilateral, como questões distintas. O mesmo não ocorreu em relação aos aspectos de ajuda financeira que, principalmente em relação a governos reticentes quanto a um apoio mais firme para os Estados Unidos, sofreram limitações como forma de pressionar por mudanças de atitudes.
De todo modo, a política externa brasileira que não defendesse a soberania e o espaço de autonomia do País frente aos Estados Unidos foi sendo denominada por grande parte da historiografia e segmentos políticos como entreguista, servil e aduladora. Cabia ao
38 BANDEIRA, 2007, pp. 104, 157 e 576. CERVO, 2008, p. 16. ARINOS FILHO, 2001, p. 181. SPEKTOR,
2009, p. 68.
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KOSELLECK, 2006, passim.
40 CERVO, 2007, p. 8. KENNEDY, David M. Imagining America: the promise and peril of boundlessness. In:
Brasil um espaço isonômico nesse relacionamento, e não apenas caudatário e que não permitisse um avanço econômico e social do País. Mais lógico, portanto, era “procurarmos ser nós mesmos, da mesma forma que eles procuram ser eles mesmos”41. O uso do termo “americanófilo” servia para designar, muitas vezes, como um rótulo e um instrumento deslegitimador das credenciais de oponentes políticos na dinâmica dos embates entre grupos domésticos. O antiamericanismo, com isso, foi institucionalizado com o respaldo e a legitimação de parte da sociedade brasileira.
As discussões acerca da maneira mais apropriada de o Brasil estabelecer relações com os Estados Unidos, desde Rio Branco pelo menos, movimentaram-se entre os pêndulos de um alinhamento automático e de uma amizade pragmática, ou seja, com maior grau de autonomia e liberdade.42 Grosso modo, americanistas e antiamericanos foram preenchendo, respectivamente, um e outro polo desse debate.
No que concerne à análise do antiamericanismo no Brasil até a década de 1960, talvez os principais conceitos explicativos residam na busca do desenvolvimento econômico e de um maior grau de autonomia para se atingir esse objetivo. Todo esse movimento, sem embargo, sofreu influência decisiva do cenário internacional em que as preocupações em torno da Guerra Fria limitavam qualquer margem de manobra dos países satélites.
De outro modo, desenvolvimento e autonomia podem estar na base daquilo que poderia representar as principais causas do fenômeno do antiamericanismo observado no meio político brasileiro ao longo do período 1961-1964. O conceito de antiamericanismo conjugava-se com a noção de dominação e despojo dos interesses nacionais. Nesse período, avanços dos interesses norte-americanos eram percebidos como o outro lado da mesma moeda da drenagem dos recursos nacionais, que por meio de remessas de lucros, juros, royalties e dividendos, causavam um déficit estrutural do balanço de pagamentos e eram considerados a principal causa da inflação. Em suma, a simples presença dos Estados Unidos no Brasil atingia aquilo que havia de mais caro entre os objetivos da política externa brasileira: desenvolvimento econômico e autonomia política. Natural, portanto, uma reação de desconfiança e mesmo de preconceito contra os Estados Unidos, tanto por parte da diplomacia como dos grupos políticos representados no Congresso Nacional.
41 Tristão de Ataíde. Apud BANDEIRA, 2007, p. 299. 42 MANZUR, 2009, p. 50.