Capítulo 3 Política Externa, risco comunista e crise institucional: Cuba, renúncia de
3. Quadros comunista?
A Igreja Católica constituiu-se em um dos maiores opositores ao comunismo no Brasil, um inimigo irreconciliável, e um desafio à própria sobrevivência da religião.59 Com isso, o elemento religioso contribuiu para tornar mais complexos os debates em torno do antiamericanismo e da Guerra Fria e da posição do Brasil diante dos desafios impostos. A religião, em contraposição ao caráter ateu do comunismo, facilitou o embate contra a PEI e o antiamericanismo pela confusão que se fez desses com a ameaça vermelha. A ala cristã do Parlamento, grosso modo, foi a primeira a se posicionar contrária ao restabelecimento das relações entre o Brasil e o Bloco ou a qualquer sinal de apoio a Cuba e a manter serrada oposição à PEI nos anos seguintes.60 De modo geral, os americanistas demonstravam inquietação com a PEI de Quadros. Tanto que, em junho, desejando dar ao governo uma advertência, conseguiram rejeitar a indicação de José Ermírio de Moraes para a embaixada do Brasil na República Federal da Alemanha, por 26 votos a 22.61
A acusação de cumplicidade ou tolerância da política externa de Quadros-Arinos ao comunismo se aguçou quando, em 19 de agosto de 1961, Quadros recebeu em Brasília Che Guevara, ministro da indústria de Cuba, e o condecorou com a Grã Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. A oposição a toda a PEI, nesse caso, já havia ultrapassado há muito os limites dos representantes da Igreja no Congresso ou de poucos americanistas que não faziam parte do governo. A cerimônia, ocorrida no Planalto, durou apenas cinco minutos. Esse ato foi visto como uma provocação, irritando muitos oficiais superiores das Forças Armadas que, em protesto, ameaçaram restituir suas comendas.62 A concessão da condecoração foi extremamente explorada pelos americanistas de oposição (que já se opunham ao governo ou passaram a se opor depois disso), por contrariar a tradição de país livre e democrata e representar a adoção de uma política crescentemente esquerdista.63 Desse modo,
59
MOTTA, 2002, p. 18.
60 Discursos Câmara dos Deputados. Deputados Arruda Câmara (PDC-PE), em 29/10/1962, Othon Mader
(UDN-PR) e Abel Rafael (PRP-MG), em 22/05/1962. Discursos Senado Federal. Senador Padre Calazans (UDN-SP), em 10/03/1961. BARBOSA, 2000, p. 134.
61
Discursos Senado Federal. Senador Vitorino Freire (PSD-MA), em 07/06/1961.
62 “Che” Guevara recebe de Jânio a Ordem do Cruzeiro do Sul. Jornal do Brasil, 21/08/1961. CERVO, 1994, p.
161. MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 80. BANDEIRA, 2007, p. 562.
63 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Dirceu Cardoso (PSD-ES), em 19/08/1961. CIA, Central
Intelligence Bulletin, 22 de agosto de 1961. Disponível em: www.foia.cia.gov. Acesso em: 20/fevereiro/2013. No ano seguinte, o deputado Othon Mader (UDN-PR) apresentou projeto de lei (n.º 4.785/1962) que declarava sem efeito o decreto de 18 de agosto de 1961 que conferiu a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul a Ernesto
a Ordem do Cruzeiro foi menoscabada por Jânio Quadros. (...) A tradição cristã da nação brasileira repele condecorações a servos do comunismo na América.64
Os movimentos da PEI de Quadros – notadamente a aproximação ao Bloco e o posicionamento contrário à invasão de Cuba – haviam provocado preocupações com a ameaça de expansão do comunismo no Brasil. Ainda assim, a UDN, que mantinha o apoio a Quadros, durante e após a convenção em Recife, manifestou a sua aprovação também das diretrizes da política externa brasileira conduzida pela pasta cedida a um correligionário, pois visava “ao engrandecimento do Brasil e à conciliação do seu prestígio no conserto das nações, notadamente no interesse da preservação da independência dos países americanos, bem como do sistema de segurança continental contra o comunismo”.65
Carlos Lacerda, no entanto, não se enquadrou nas diretrizes de disciplina do partido. A política externa do presidente – ainda que este eleito com o apoio do partido e aquela executada justamente por um de seus membros fundadores66 – consistia no maior problema a que o governador da Guanabara se dedicara a combater e razão de ter abandonado o “barco vermelho em que [navegava] o presidente da República, rumo ao Oriente”, justificado pelo deputado americanista Último de Carvalho.67 A condecoração a Che era a evidência que faltava para a montagem do quadro de uma cruzada anticomunista no Brasil. Denúncia de infiltração comunista ou tendência comunista no governo, seja ele qual fosse, não era novidade na biografia política de Lacerda. Era a reedição do golpismo “preventivo”. Antes, ele havia incriminado os governos de Vargas e Kubitscheck de estarem infiltrados de elementos comunistas. No início de agosto, bem antes do episódio da condecoração a Che, Lacerda vinha declarando que a política externa do governo estava destruindo a unidade do continente e servindo de cabeça-de-ponte diplomática para a Rússia completar o que
Guevara, “cidadão apátrida, aventureiro internacional, profissional de revoluções comunistas de ódio e sangue”. O projeto não foi aprovado, sendo arquivado em 1973. No Congresso Nacional, a concessão da Ordem continuou sendo objeto de críticas por longo tempo ainda, como a constante do discurso do senador Padre Calazans, em abril de 1962, e do senador Lima Teixeira, em dezembro de 1962. Discursos Senado Federal. Senadores Padre Calazans (UDN-SP), em 12/04/1962, Lima Teixeira (PTB-BA), em 12/12/1962.
64
Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Padre Vidigal (PSD-MG), em 19/08/1961.
65 Moção de apoio à política interna e externa de Jânio Quadros aprovado pelo diretório nacional da UDN em 24
de maio de 1961, por proposta do deputado Epílogo Cunha. In: UDN reafirma apoio à política interna e externa de Jânio. Jornal do Brasil, 25/05/1961.
66
Em decorrência das críticas de Carlos Lacerda em relação à política exterior comandada por seu pai, o deputado estadual da Guanabara Afonso Arinos Filho renunciou ao posto de vice-líder do governo em fins de maio de 1961. In: Afonso Arinos Filho renuncia à vice-liderança do governo. Jornal do Brasil, 27/05/1961. Outros partidários de Arinos também o atacaram gravemente em função de suas ações à frente do Itamaraty, como o senador Padre Calazans (UDN-SP), que ao fim do governo o classificou de “moço de recados”. In: Padre Calazans rompe com Jânio, no Senado, por discordar de política. Jornal do Brasil, 25/08/1961.
militarmente havia iniciado em Cuba, a pretexto de conquistar novos mercados, catalisando a oposição à PEI. Assim, pela PEI, entravam “os russos de fora para estimular os russos de dentro”, transformando o Brasil no grande salto da Rússia na América do Sul. Nessa empreitada anti-PEI, Lacerda contava além do apoio de parlamentares e outros políticos, com a importante ajuda de alguns meios de comunicação, como os jornais O Globo e O Estado de
S. Paulo, além, claro, do de sua propriedade, o Tribuna da Imprensa.68
Na tarde do mesmo dia em que Che foi condecorado em Brasília, Lacerda entregou as chaves da Guanabara ao líder anticastrista Manoel Antônio Verona, dando início a uma campanha de “tumulto na nação”, ou uma “verdadeira revolução”, em torno da concessão de uma simples condecoração, que não possuía valor algum.69 Na oportunidade, o mais combativo dos anticomunistas apoiava a ideia de que vastas áreas da América seriam, em breve, transformadas em novas Cubas, reafirmando que “apenas comunistas apoiam a política do presidente Jânio Quadros”. Entre eles, inclusive na defesa da concessão da medalha a Che, um dos mais aguerridos foi o líder do PTB, fato que teria importância amplificada com os acontecimentos seguintes que colocariam o partido na condição de titular do governo federal.70
De todo modo, essa política anticomunista chefiada por Lacerda, com seu “talento para a demolição”71
, obteve forte apoio no Congresso de parlamentares de diversos partidos. Foi apontado como um “democrata”, acepção que fazia mais sentido como o contrário de comunista do que defensor das regras do regime democrático propriamente dito.72 Para o deputado Feliciano Pena (PR-MG), Lacerda, “com sua costumeira coragem e decisão, impede que o comunismo se instale em nosso País”. Pena também fez parte dos políticos que haviam apoiado a candidatura de Quadros e que não haviam atribuído importância fundamental à sua promessa de reatar relações diplomáticas com a União Soviética, considerando também que Jânio era o candidato “então apontado pelos próprios comunistas brasileiros como o seu inimigo”.73
A situação se reverteu, como dito acima, quando os anticomunistas testemunharam que às promessas de campanha eram dados passos concretos para
68 Carlos Lacerda contra UDN e a política internacional. Jornal do Brasil, 25/04/1961. Política externa serve à
URSS, afirma Lacerda. Jornal do Brasil, 04/08/1961. BENEVIDES, 1981, pp. 114, 117. BANDEIRA, 2007, p. 562.
69 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Salvador Lossaco (PTB-SP), em 22/08/1961.
70 Lacerda entrega a chave do Rio a anticastrista e anuncia “atitude grave”. Jornal do Brasil, 21/08/1961. 71
Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Derville Allegretti (PR-SP), em 26/06/1961.
72 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Último de Carvalho (PSD-MG), em 22/08/1961. 73 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Feliciano Pena (PR-MG), em 25/08/1961.
implementá-las. No Senado, o vice-líder da maioria, Lima Teixeira, reconhecia que a intenção de Quadros de promover o reatamento de relações diplomáticas com a União Soviética e sua condução como um todo da política externa vinha gerando inquietações no País.74
Na Câmara dos Deputados, Ernâni do Amaral Peixoto, presidente do PSD, não via motivos para crise. Afinal, era praxe conceder uma condecoração a todo ministro estrangeiro que visitasse o país, o que era “perfeitamente razoável”. Fernando Santana, do PTB da Bahia, compartilhava a mesma opinião: era costume condecorar ministros, sem considerações da pessoa, da geografia nem do mérito, ou seja, “a ordem conferida a Guevara não significa nada”75
, ou um ato típico do cerimonial de recebimento de representantes de governos estrangeiros no Brasil76 ou de rotina diplomática77. Para os antiamericanos que ainda criam na autenticidade da PEI de Quadros, a condecoração se revestia sim de valor no sentido de apoiar um movimento de resistência ao imperialismo operado não apenas em Cuba, mas no mundo todo.78 No Senado, Caiado de Castro apontou que o País caminhava inexoravelmente para a esquerda e que a concessão da comenda ultrapassava qualquer critério de tolerância. O senador Padre Calazans (UDN-SP), que havia contribuído para a vitória de Quadros nas urnas, criticou duramente a concessão da comenda, para em seguida romper com o presidente Quadros:
Política se faz com mais seriedade, menos uísque e menos outras coisas. Não sei por que Che Guevara foi condecorado. Por ter as mãos ensanguentadas como Fidel Castro? Porque se fez assassino milhões de cubanos? Porque saqueou terras? Porque tomou propriedades particulares? Porque aprisionou o povo e enganou uma nação? Porque entregou Cuba a Kruschev para que tivesse um baluarte, uma trincheira, um bastião dentro do continente americano, para ameaçar todas as nações da América?79
A preocupação com as repercussões da Guerra Fria, nesse sentido, ganhou maior atenção pelos americanistas a partir do avanço das negociações com a União Soviética e, finalmente, um ponto de esquizofrenia com a entrega da comenda a Che, “um assassino argentino a soldo de Cuba”. Principiava um processo de criação da imagem de Quadros à
74 Discursos Senado Federal. Senador Lima Teixeira (PTB-BA), em 25/08/1961. 75
Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Fernando Santana (PTB-BA), em 18/08/1961.
76 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Adahil Barreto (PTB-CE), em 18/08/1961.
77 Discursos Senado Federal. Senadores Lourival Fontes (PTB-SE) e Heribaldo Vieira (UDN-SE), em
18/08/1961.
78
Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Campos Vergal (PSD-SP), em 22/08/1961.
79 Apud MARKUN; HAMILTON, 2011, p. 79. Jânio Quadros mantinha fama de que fazia uso de uma
semelhança dos “ditadores vermelhos”. Em um mundo “ideologicamente dividido em dois campos nitidamente opostos – de um lado os governos democráticos, eleitos pelo povo, na mais plena liberdade; de outro, os governos ditatoriais” – Jânio era inquinado de tentar destruir a democracia em nossa terra.80 Mais comedido, Adauto Lúcio Cardoso (UDN-GB), que ainda fazia parte da base de apoio a Quadros, classificou a homenagem de “provocação inútil”.
O pânico anticomunista, inadvertidamente, ganhou vulto, forma e imagem real com a comenda a Che. A partir de um gesto definitivamente sem importância política de relevo, a histeria anticomunista vislumbrou uma forma eficiente de dar sentido às críticas antes formuladas à PEI, ao “sadismo” de Quadros e à “marcha inexorável para a esquerda” vivenciada no Brasil.81 Os americanistas conciliavam a crítica ao comunismo soviético com elogios aos Estados Unidos. Eram, pois, dois lados de uma mesma moeda:
(...) os Estados Unidos (...) sempre ajudaram os povos fracos a se levantar, e nunca se apoderaram de terras de outros países, quando estes deles necessitaram. Inegavelmente, os Estados Unidos sempre foram defensores assíduos da liberdade, e eu prefiro que falte pão à minha mesa, mas não a liberdade.82
Além disso, a comenda a Che parecia aos americanistas uma predileção a Cuba e à União Soviética, em detrimento dos Estados Unidos, pois se fosse ato de rotina diplomática a concessão da ordem a visitantes estrangeiros,
por que razão Che Guevara foi condecorado? [Douglas] Dillon [secretário do tesouro norte-americano] veio aqui deixando milhões de dólares. O irmão do presidente Kennedy também esteve aqui. Esses não foram condecorados.83
Parte dos antiamericanos tentou diminuir o grau de polêmica criado sobre a entrega da medalha, pois de fato girava em torno do secundário, em que os temas a respeito dos projetos de desenvolvimento econômico e social do Brasil deixaram, temporariamente, de serem debatidos. Não seria motivo para tanta celeuma.84 Mais importante seria adotar uma
80 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Último de Carvalho (PSD-MG), em 22/08/1961. 81
Discursos Senado Federal. Senadores Lima Teixeira (PTB-BA), Caiado de Castro (PTB-DF), Fernandes Tavora (UDN-CE), em 18/08/1961.
82 Senador Padre Calazans (UDN-SP). In: Padre Calazans rompe com Jânio, no Senado, por discordar de
política. Jornal do Brasil, 25/08/1961. Discursos Senado Federal. Senador Padre Calazans (UDN-SP), em 24/08/1961.
83 Discursos Senado Federal. Senador Padre Calazans (UDN-SP), em 24/08/1961. 84 Discursos Senado Federal. Senador Heribaldo Vieira (UDN-SE), em 18/08/1961.
política externa efetivamente independente, sem subordinações ao FMI ou sujeições aos Estados Unidos:
Ora, podem colocar no peito de cem Gagárins, de duzentos Che Guevaras estrelas e comendas, que isto não tem grande significação para certo grupo de brasileiros que raciocinam muito mais objetivamente.85
Retomando a acusação de que Quadros adotava uma política externa vanguardista apenas para mascarar o “processo de desnacionalização da nossa indústria, de pauperização do povo brasileiro”, os antiamericanos reclamavam da efetivação das promessas feitas por ele na ocasião da campanha eleitoral à Presidência da República. A concessão de comendas, nesse ponto, fazia parte da grande estratégia janista de defender na política interna os interesses dos grupos econômicos internacionais, que mantinham nossa economia em total dependência, e aparecer sintonizado com a luta contra o imperialismo ianque. Che, para alguns desses antiamericanos, fora simplesmente utilizado como instrumento da propaganda sistemática e deliberada de Jânio, uma prática diversionista que evitava atacar os problemas mais sérios do Brasil.86 Do mesmíssimo modo que as críticas à dualidade entre PEI e política econômica doméstica conservadora, a acusação não fazia sentido. Afinal, o gesto de condecoração ao ministro da economia de Cuba significou custos políticos imensuráveis a Quadros.
Tomada isoladamente, a condecoração a Che não teria repercutido tão mal assim no meio anticomunista brasileiro. Ocorre que ela fora interpretada como um crescente de uma obra iniciada pela nova política externa de Quadros, com afirmações no plano externo que não condiziam com a suposta tradição ocidental brasileira e de aproximação com o Bloco Socialista, sob qualquer que fosse o pretexto. A oposição à PEI, encabeçada por americanistas, explorou o gesto com bastante estardalhaço. A partir daí, o Brasil seria jogado nos braços do comunismo sino-soviético. O deputado João Mendes, presidente da ADP, tecia a profissão de fé do anticomunismo ao afirmar que
o Brasil é nitidamente uma nação cristã e democrata, devotada ao respeito à pessoa humana. Trairá o mandato dela recebido, porque estará em choque com os próprios sentimentos do povo brasileiro, que, no exercício desse mandato, aceitar o “paredón” cubano como forma de justiça. E como não se considerasse bastante conferi-la aos
85 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Aurélio Vianna (PSB-AL), em 18/08/1961. 86 Discursos Câmara dos Deputados. Deputado Salvador Lossaco (PTB-SP), em 22/08/1961.
membros de certa missão soviética, secundários representantes de interesses comerciais russos, escolheu-se o peito de Che Guevara, argentino que renegou sua pátria a fim de servir ao comunismo internacional, para nele colocar, profanando-a, a Cruz de Cristo.87