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Capítulo IV. Impacto das Medidas de Política

IV.2.1 O Apoio Agroambiental ao Douro Vinhateiro

A preservação dos socalcos do Douro Vinhateiro foi das poucas medidas de apoio aos sistemas tradicionais em risco que mantiveram a sua operacionalidade ao longo de todo o período de aplicação das MAA, desde que foram introduzidas em 1994 pelo Reg. (CEE) 2078/92.

Arquitetada grandemente na então DRATM, a medida inicial destinava-se exclusivamente à manutenção das formas tradicionais de vinha em socalcos suportados por muros em pedra posta com patamar de largura média inferior a 40 metros (DGDR, 1998), ao contrário da medida atual em que o apoio é concedido ao comprimento total dos muros presentes numa determinada área de vinha, independentemente da distância entre muros. A medida teve continuidade no RURIS, com pequenas alterações nas condições de elegibilidade e de compromissos (Portaria n.º 475/2001). De forma a salvaguardar as condições de

elegibilidade das parcelas de vinha com árvores em bordadura, passou a ser possível, para cada patamar, a existência de oliveiras, amendoeiras ou fruteiras até um valor limite de 30% da sua área. Como compromisso, foi introduzida a obrigatoriedade de recuperar os muros em mau estado no prazo de 2 anos. Mais tarde, na revisão de 2003 do RURIS, com a participação da DRATM, o limite de 30% atrás referido passou a ser à candidatura e não ao patamar, o que deu abertura à preservação de socalcos ocupados por outras culturas tradicionais, para além da vinha. Na proposta da DRATM remetida à Autoridade de Gestão do RURIS em 2002 propunha- se ainda uma majoração da ajuda em 50% nas parcelas incluídas na área classificada pela UNESCO como Património Mundial por se considerar necessário proporcionar-se um incentivo particular à preservação das formas tradicionais de exploração da vinha em socalcos nas áreas classificadas. Contudo, a proposta não foi acolhida.

Durante a revisão de 2003 do RURIS houve abertura para que fossem apresentados Planos Zonais agroambientais em áreas protegidas, para além do Plano Zonal que desde o início fazia parte das MAA: O Plano Zonal de Castro Verde. Nas então DRAEDM e DRATM foram preparados os Planos Zonais da Peneda-Gerês, Montesinho e Douro Internacional. O Plano Zonal do Douro Vinhateiro, apesar de não pertencer à Rede Nacional de Áreas Protegidas, geridas pelo então Instituto da Conservação da Natureza teve igualmente luz verde para avançar. O documento final foi apresentado em 2004 por uma equipa da qual fizemos parte, composta pelo GTI-ADV, DRATM e IDRHa (GTI-ADV, et al., 2004).

O Plano Zonal do Douro Vinhateiro do RURIS foi implementado em 2005, muito embora as restrições orçamentais a partir dessa data tivessem limitado a operacionalidade de todas as medidas preconizadas e que iam para além do apoio aos socalcos, como a medida de requalificação de novas armações do terreno que pagava uma ajuda para manter e/ou incrementar árvores em bordadura nas vinhas ao alto ou em patamares não suportados por muro de pedra posta. Nesta altura surge igualmente uma Estrutura Local de Apoio (ELA) que, entre outras atribuições, tinha como obrigação autorizar as intervenções que implicassem a destruição de muros em pedra posta.

Ao Plano Zonal do Douro Vinhateiro sucedeu a Intervenção Territorial Integrada do Douro Vinhateiro do PRODER, no período de 2007 a 2013. Uma vez que o Plano Zonal do RURIS atribuía um valor para o 1.º escalão de área correspondente ao máximo de ajuda regulamentar, de € 900 /ha, por questões orçamentais, foi introduzido um fator relacionado com o comprimento do muro, € 1,25 por metro de muro, o que fez reduzir a ajuda para cerca de € 500 /ha (IFAP, 2012), ainda assim muito superior à ajuda média dirigida aos sistemas

tradicionais em risco. Para além das ajudas relacionadas com compromissos agroambientais, o PRODER introduziu uma nova medida relativa aos Investimentos Não Produtivos (INP) cujo objetivo era a realização de investimentos que salvaguardassem o cumprimento dos compromissos agroambientais nas zonas abrangidas por ITI. No caso do Douro Vinhateiro, para além da ajuda agroambiental para preservação dos socalcos, foi operacionalizada uma medida que previa investimento na recuperação de muros de pedra posta destruídos e na requalificação de estruturas tradicionais desativadas (ETD), como os cardanhos, casebres e pombais. A ELA teve assim no PRODER competências acrescidas, nomeadamente de validação prévia dos investimentos realizados no âmbito de recuperação das ETD. Por outro lado, o próprio financiamento da ELA era assegurado pelo PRODER, o que permitiu a elaboração de prospetos e cadernos técnicos com vista à assunção, por parte dos proprietários de socalcos elegíveis, dos compromissos assumidos no âmbito das medidas agroambientais, bem como nas condições de acesso aos projetos dos INP.

No atual QCA a medida agroambiental de preservação dos socalcos do Douro é incluída fora dos apoios zonais, na Ação Culturas Permanentes Tradicionais – Douro Vinhateiro. No entanto, é igualmente mantida medida de INP com vista à recuperação dos muros de pedra posta. A ELA é extinta, deixando de haver estrutura regional de acompanhamento da medida agroambiental de preservação dos socalcos de pedra posta. Já em relação aos INP, deixa de ser contemplada a recuperação das ETD e as competências da ELA são integradas na DRAPN.

No PDR 2020 foi ainda introduzido um mecanismo que tornou mais eficiente a aplicação da medida: A obrigatoriedade da apresentação de um Plano de Recuperação de Muros (PRM) previamente aprovado pela DRAPN. A aprovação do PRM era precedida de controlo prévio à existência de risco de duplicação de ajudas, nomeadamente com o VITIS e os INP do PRODER e de verificação da elegibilidade na ocupação cultural, bem como uma visita prévia aos locais do investimento para determinação da elegibilidade da recuperação dos muros e determinação, troço a troço, das dimensões estimadas na sua recuperação.

A caracterização das várias MAA operacionalizadas ao longo dos diversos QCA, dirigidas ao apoio à manutenção dos muros de suporte em pedra posta dos socalcos encontram-se expressas nos Quadro 16 a

Quadro 18. Os Investimentos Não Produtivos serão apresentados mais tarde, de forma individualizada.

Im p ac to d as M ed id as d e Po líti ca 87

Quadro 16 – Designação da medida, Diploma Legal e Valor de ajuda* por ha nas medidas Agroambientais relacionadas com a preservação dos Socalcos do Douro.

REG 2078/92 RURIS – Vinha em Socalcos RURIS-Plano Zonal PRODER PDR 2020

Vinha em Socalcos na Região Demarcada do Douro

Vinha em Socalcos do Douro Plano Zonal do Douro Vinhateiro Intervenção Territorial Integrada Douro Vinhateiro - Manutenção de Socalcos

Culturas permanentes tradicionais - Douro Vinhateiro Portaria n.º 698/94; Reg.(CEE) N.º 2078/92 Portarias n.º 475/01 e 1212/03 Reg.(CE) N.º 1257/99. Programa RURIS Portaria n.º 176/2005; Programa RURIS Portaria n.º 232-A/2008; Programa PRODER Portaria n.º 50/2015 de 25 de fevereiro Até 5 ha - 200 (320) ECU/ha; 1 ECU = €1 € 374 (449) – até 5 ha; € 299 (359) – de 5 ha a 10 ha; € 224 (269) – de 10 ha a 25 ha; € 75 (90) – mais de 25 ha. € 900 (1044) – até 5 ha; € 760 (882) – de 5 ha a 10 ha; € 615 (713) – de 10 ha a 25 ha; € 475 (551) – mais de 25 ha Parcelas com vinha de idade inferior a 30 anos não implantada em socalcos - €152 (176)/ha.

Comprimento do Muro X €1,25 (1,34) até ao limite de €450 (482)/ha no caso dos matos mediterrâneos e €900 (963)/ha nos restantes.

Comprimento do Muro X €1,25 até ao limite de €900/ha.

*Entre parêntesis o valor atual aplicando os coeficientes de desvalorização a que se refere a Portaria n.º 316/2016 de 14 de dezembro

Quadro 17 – Comparação das condições de acesso nas medidas Agroambientais relacionadas com a preservação dos Socalcos do Douro.

REG 2078/92 RURIS – Vinha em Socalcos RURIS-Plano Zonal PRODER PDR 2020

• Área mínima de vinha de 0,3 ha;

• Densidade mínima de 3000 cepas/ha;

• Toda a vinha em socalcos e aramada;

• Muros de suporte em pedra posta com patamar de largura média inferior a 40 m.

• Área mínima de vinha de 0,2 ha;

• Densidade mínima de 3000 cepas/ha;

• Toda a vinha em socalcos e aramada;

• Muros de suporte em pedra posta com patamar de largura média inferior a 40 m;

• Patamares ocupados

exclusivamente com oliveiras, amendoeiras ou fruteiras não podem representar mais de 30% da área candidata.

• Área mínima de 0,1 ha; Densidade mínima de 3000 cepas/ha (vinha, exceto sistema pré-filoxérico), Olival, amendoal ou citrinos (40 arv./ha);

• Muros de suporte em pedra posta com patamar de largura média inferior a 40 m(a, b e c):

a) Vinha tradicional em socalcos; b) Vinha em sistema pré- filoxérico;

c) Olival de sequeiro ou amendoal em socalcos;

d) Citrinos;

e) Parcelas com vinha, com idade

inferior a 30 anos,

não implantada em socalcos.

• Área mínima de 0,1 ha; Densidade mínima de 3000 cepas/ha (vinha, exceto sistema pré-filoxérico);

• Candidatar toda a área elegível da exploração;

• Parcelas armadas em socalcos suportados por muros de pedra posta:

• Vinha tradicional ou em sistema pré-filoxérico;

• Olival ou amendoal de sequeiro; • Citrinos;

• Matos mediterrânicos, também designados «mortórios»;

• Pomares de cerejeira (incluído pela Portaria n.º 1234/2010).

• Área mínima de 0,1 ha; • Densidade mínima de 3000

cepas/ha (vinha, exceto sistema pré-filoxérico); • Parcelas armadas em socalcos

suportados por muros de pedra posta: • Vinha tradicional ou em sistema pré -filoxérico; • Citrinos; • Pomares de cerejeiras; • Mortórios; • Amendoeiras ou oliveiras de sequeiro.

tr ib u to d o s Ser v iço s A g ríc o las n a P reser v aç ão d o Valo r Am b ien tal d o A lto Do u ro Vi n h ateir o

Quadro 18 – Comparação dos compromissos nas medidas Agroambientais relacionadas com a preservação dos Socalcos do Douro.

REG 2078/92 RURIS – Vinha em Socalcos

RURIS-Plano Zonal PRODER PDR 2020

• Manter as vinhas em bom estado sanitário; • Manter os muros de suporte e escadas em boas condições de construção. • Manter as vinhas em bom estado sanitário

realizando os tratamentos tecnicamente adequados, nomeadamente os preconizados pelo Serviço Nacional de Avisos Agrícolas da região; • Recuperar, no prazo de dois anos após a candidatura, os muros que eventualmente se encontrem destruídos ou deteriorados; • Manter os muros de suporte e escadas em boas condições de conservação;

• Não tratar os muros com herbicida.

• Manter as culturas em bom estado de produção;

• Recuperar os muros que se encontrem destruídos ou deteriorados até à data da segunda confirmação;

• Manter os muros de suporte e escadas em boas condições de conservação; • Utilizar apenas os produtos

fitofarmacêuticos autorizados em proteção integrada;

• Manter as oliveiras, amendoeiras e espécies de fruteiras autorizadas pela estrutura local de apoio que existam na parcela ou na sua bordadura; • As intervenções que impliquem

destruição de muros em pedra posta têm de ser autorizadas pela estrutura local de apoio;

• Restrições na mobilização do solo e não mobilização entre 31 de outubro e 31 de março;

• Plantar na bordadura da parcela oliveiras, amendoeiras, figueiras ou pessegueiros na densidade mínima de 20 árv./ha nas parcelas com vinha de idade inferior a 30 anos, não implantada em socalcos.

• Manter as árvores, os muros de pedra posta e outros elementos patrimoniais importantes para a paisagem; • Manter os pontos de água acessíveis à fauna;

• Manter a vegetação arbórea e arbustiva ao longo das linhas de água;

• Utilizar apenas os produtos fitofarmacêuticos aconselhados para a proteção integrada ou modo de produção biológico

• Não efetuar queimadas;

• Manter as culturas em bom estado de produção; • Manter os muros de suporte e escadas em boas

condições de conservação;

• Recuperar os muros danificados no prazo máximo de dois anos (três pela Portaria 1234/2010);

• Manter as oliveiras, amendoeiras e citrinos que existam na parcela ou na sua bordadura;

• Não efetuar mobilizações com reviramento do solo nas parcelas ocupadas com amendoeiras ou oliveiras; • Não efetuar mobilizações do solo entre 31 de outubro e

31 de março;

• Não realizar mobilizações do solo nas parcelas ocupadas com matos mediterrânicos;

• Manter a compartimentação e melhorar os acessos nas parcelas ocupadas com matos mediterrânicos;

• Eliminar as espécies lenhosas exóticas nas parcelas ocupadas com matos mediterrânicos de acordo com as indicações da ELA;

• Manter o controlo das infestantes nas parcelas ocupadas com matos mediterrânicos.

• Manter os muros de suporte em boas condições de conservação, conforme orientações da DRAP.

(Portaria n.º 698/94 de 26 de julho, 1994) (Portaria n.º 1212/2003 de 16 de outubro, 2003) (Portaria n.o 176/2005 de 14 de Fevereiro, 2005) (Portaria n.º 232-A/2008 de 11 de março, 2008) (Portaria n.º 1234/2010 de 10 de Dezembro, 2010) (Portaria n.º 316/2016, de 14 de dezembro, 2016) (Portaria n.º 50/2015 de 25 de fevereiro, 2015)

Como foi já referido, Andersen & Rebelo, 2013 estimaram uma diminuição de cerca de 30% da área de vinha armada em socalcos suportados por muros de pedra posta, entre 2001 e 2012 no ADV-U. Uma vez que a zona classificada é a que apresenta socalcos de muro de pedra posta melhor preservados, é de supor que a realidade em toda a RDD possa apresentar ainda uma diminuição mais acentuada. Apesar de não ser possível estabelecer em rigor o efeito positivo das medidas de apoio à manutenção dos muros de pedra posta nos socalcos, isto é, qual teria sido a diminuição calculada pelos referidos autores caso estas medidas não tivessem existido, a verdade é que, face aos apoios concedidos, seria de esperar uma maior manutenção na área de vinha instalada em patamares suportados por muros de pedra posta.

A Figura 43 ilustra a evolução das ajudas à manutenção dos muros de pedra posta dos socalcos entre 2004 e 2016.

Figura 43 – Valor dos pagamentos Agroambientais realizados no Douro Vinhateiro34 entre 2004 e 2016 (gráfico de barras) e área sob compromisso em milhares de ha (gráfico de área). A verde as ajudas durante o RURIS,

Azul durante o PRODER e a roxo o PDR 2020 (IFAP, 2004-2016).

A criação em 2005 do Plano Zonal Agroambiental do Douro Vinhateiro veio aumentar significativamente o nível de ajudas pagos à medida de manutenção dos socalcos do Douro suportados por muros de pedra posta. Nessa altura, a ajuda unitária duplicou, passando de uma média de € 357 /ha em 2004 para € 719 /ha em 2006. O sucesso do Plano Zonal Agroambiental de 2005 e a divulgação da ITI do Douro Vinhateiro realizada pela ELA-DV, já no âmbito do

34 Inclui as medidas Socalcos do Douro e Plano Zonal do Douro Vinhateiro no âmbito do RURIS, os compromissos agro e silvoambientais da

ITI do Douro Vinhateiro do PRODER e a medida Culturas Permanentes Tradicionais - Douro Vinhateiro do PDR 2020

0 2 4 6 8 10 12 14 16 0 1 2 3 4 5 6 7 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016 × 1 0 3 h a × 10 6 €

PRODER, vieram aumentar significativamente as ajudas dirigidas ao ADV e, sobretudo a área sob compromisso agroambiental, muito embora, como se constatará adiante, grande parte desse aumento de área não é real, mas resulta de uma alteração das condições de elegibilidade à medida. Como é possível observar no gráfico, comparando o último ano do PRODER, 2014, com 2005, ano da introdução do Plano Zonal do Douro Vinhateiro, verifica-se um aumento de 113% no valor da ajuda, que atingiu cerca de 9% de toda a ajuda agroambiental do continente nesse ano, e de 220% na área sob compromisso. O PDR 2020 veio simplificar os compromissos da medida mas não alterou as condições de acesso, pelo que a medida de apoio às Culturas Permanentes – Douro Vinhateiro apresenta valores semelhantes ao último ano do PRODER, quer em termos de ajuda, quer da área sob compromisso. Já em relação ao peso da ajuda ao Douro Vinhateiro no contexto da totalidade das MAA do Continente, verifica-se um decréscimo acentuado, fixando-se atualmente em menos de 4% das ajudas para o continente, em resultado da totalidade das ajudas agroambientais, como se verificou anteriormente, ter mais do que duplicado entre o fim do PRODER e o início do PDR 2020.