INDÚSTRIA PETROQUÍMICA
2 O APOIO GOVERNAMENTAL À PETROQUÍMICA BRASILEIRA
República, Primeira República, República Velha, Estado Novo, País do Futuro, Nova República, Brasil Novo. Estamos sempre querendo passar uma borracha no passado e fincar um marco zero para começar tudo de novo. Estamos sempre reinaugurando o Brasil. Esta parece ser a tentativa de estar processando continuamente uma necessidade de renovação sob os auspícios do Estado.
47Para ilustrar tal comportamento cíclico, basta olhar em retrospectiva: ocorrência de boom no
início da década de 60; 67/68: queda de preços; início de reestruturação empresarial na Europa; 73/74: 1º choque do petróleo; elevação de preços; nova fase de prosperidade; anos de pico: 1979, 1988, 1995 (mini-pico ou surge) e1999; anos de fundo de poço: 1985, 1993 e 2001.
Os governos brasileiros, a partir da República, estiveram sempre buscando “reinventar a roda” e intervindo em todos os setores econômicos do país, no sentido de criar uma representação ufanista construída e difundida ao longo do tempo. E, foi na era Vargas, quando as nações européias já possuem contornos mais ou menos definidos, que se passou a viver da “fábula” de um Brasil desenvolvido independente dos mercados externos.
Segundo Bresser Pereira (1977) a economia passou por intenso processo de industrialização, mas nem por isso se tornou desenvolvida, já que os países ricos cresceram a taxas por habitante maiores e aumentaram a sua distância econômica e tecnológica em relação ao Brasil. A sociedade não mais é uma Sociedade Senhorial, de senhores e escravos, mas não se transformou em uma Sociedade Capitalista clássica, de burgueses e trabalhadores. Foi além e assume características crescentes de uma Sociedade Pós-Industrial, na medida em que o pequeno estamento burocrático estatal deu lugar a uma imensa nova classe média burocrática ou tecnoburocrática pública e privada, cujos estratos mais elevados passaram a dividir com a alta burguesia não apenas o poder, mas também o excedente econômico.
Ao intervir no processo de decisão do crescimento econômico e em particular da indústria petroquímica, o governo brasileiro irá buscar, a partir de “decisões racionais” promover modificações na estrutura econômica brasileira, sem levar em conta, no entanto a perspectiva de um processo de crescimento organizado e sustentável.
A primeira tentativa organizada em direção a este tipo de desenvolvimento, ainda que incipiente e marcado por processos decisórios “bastante ecléticos”, com vistas ao desenvolvimento nacional, através de investimentos subsidiados pelo governo, foi a partir do apoio à incrementação da indústria petroquímica, com o intuito de aprofundar o processo de substituição de importações. (OLIVEIRA, 1994).
O Estado, para tanto, articulou e coordenou interesses dos vários agentes, mobilizou suas agências de fomento e seus instrumentos de política econômica. Fez-se presente, em síntese, na qualidade de planejador, de agente ordenador, de proprietário de ativos reais e de financiador em sentido amplo. (OLIVEIRA, 1994).
A atuação do Estado como planejador, segundo Oliveira (1994 p. 95), está na própria decisão da tecnobuocracia estatal em incluir a petroquímica, “no rol dos mais prioritários do ponto de vista do estímulo ao investimento”, durante o I e o II PND’s.
Os estudos que determinaram a instalação de unidades, suas capacidades operacionais mínimas bem como a localização, ficaram a cargo do MINIPLAN (IPEA), do MME (PETROBRÁS/PETROQUISA) e do MIC (CDI/GEIQUIM), e, a associação com o capital privado nacional, garantia ao Estado o maior poder acionário e o risco compartilhado das decisões, que envolvia “[...] tecnologia a utilizar, tamanhos mínimo e ótimo, montante dos investimentos e seu funding [...]” (OLIVEIRA, 1994, p. 95).
Assim sob a liderança da tecnoburocracia da PETROBRAS/PETROQUISA o planejamento, dos complexos petroquímicos aprovados teria apoio de outras agências governamentais: CDI (incentivos fiscais); SUDENE (incentivos fiscais); BNDES e FINAME (financiamento e aval); BACEN (registro de capital estrangeiro e captação de empréstimos externos); CACEX (importação de bens e serviços sem similar nacional de forma incentivada); CPA (proteção aduaneira); INPI (registro de contratos de importação e tecnologia). (OLIVEIRA, 1994 e SUAREZ, 1986).
[...] isso reafirma o grau de planejamento sob o qual o setor se organizou no Brasil – que o Pólo Petroquímico de Camaçari (BA) resultou de decisão formal do Presidente Médici, e o Pólo Petroquímico de Triunfo (RS), do Presidente Geisel. (OLIVEIRA, 1994, p. 96).
Como agente ordenador, o papel do Estado era fundamental para garantir o sucesso dos projetos e conseqüentemente dos participantes privados, e, segundo Oliveira (1994, p. 97), cuidava ainda “para que os agentes empreendedores se julgassem satisfatoriamente protegidos da concorrência predatória”. Para este fim as agências governamentais tiveram, segundo Oliveira (1994), mais uma vez papel significativo:
CDI – somente mereciam aprovação projetos destinados a dar conta de todo o consumo interno projetado. Projetos petroquímicos não submetidos à aprovação corriam o risco de tornar-se inviáveis, já que não lhes era garantido suprimento firme de matérias-primas da área do monopólio estatal do petróleo. CNP – decisivo na viabilização dos projetos. Responsável por garantir cota de matérias-primas o que só ocorria após consulta do CDI, e resultava formalizada em atas do CNP.
BACEN – somente os projetos recomendados (aprovados) mereciam prioridade para os fins de registro e conseqüente pagamento ao exterior, bem como para captar empréstimos e financiamento no exterior.
CACEX – através dos acordos CACEX, havia garantia aos projetos recomendados de prioridade de importação de máquinas e equipamentos, sem substituto nacional, com isenção de impostos;
RECEITA FEDERAL – somente os projetos aprovados podiam beneficiar-se do sistema de depreciação acelerada de máquinas, equipamentos e construções, circunstâncias que lhes conferia substancial redução do imposto de renda a pagar nos primeiros anos de operação.
CPA – aos empreendimentos considerados prioritários era considerada a proteção tarifária evitando-se assim a concorrência externa.
CIP – a política de preços objetivou, fundamentalmente garantir remuneração do investimento, fixando preços controlados (preços máximos permitidos). O setor ficou condicionado a não praticar os níveis de preços que a estrutura oligopolista em tese sugeriria. INPI – os projetos aprovados pelo CDI recebiam tratamento prioritário para os fins de registro de contratos de importação de tecnologia, sem o que o BACEN não permitia a remessa de divisas para pagamento ou registro de capital estrangeiro e o BNDES não concedia apoio financeiro, qualquer que fosse a modalidade. (OLIVEIRA, 1994, p. 97-99).
A condição de Estado proprietário pode ser observada através da posse expressiva dos ativos do setor, especialmente através da PETROBRÁS, através da sua subsidiária integral (PETROQUISA) criada para apoiar o desenvolvimento da indústria química no país.
A atuação da PETROBRAS, na qualidade de proprietária deu-se duas outras formas:
[...] garantidora do suprimento firme de matérias-primas ao setor a preços competitivos [...] e compradora firme dos excedentes não absorvidos pelo mercado doméstico de produtos petroquímicos [...] praticou venda financiada de nafta para os seis primeiros meses, prorrogáveis por igual período. Tratou-se de singular e importante mecanismo de financiamento de capital de giro, já que a nafta participa com 70% na formação de custos desembolsáveis na central de matérias-primas. (OLIVEIRA, 1994, p. 100).
As outras duas agências que mais se destacaram foram: a FIBASE, subsidiária do BNDES, criada exclusivamente para apoiar o setor de insumos básicos, participava sob a forma de ações não votantes e com cláusula de recompra aos sócios privados nacionais; e o FINOR, operado pela SUDENE, mediante renúncia fiscal (dedução do imposto de renda a pagar por pessoas físicas e jurídicas), formava-se capital de risco nas empresas, afinal o setor petroquímico era caracterizado como prioritário para o desenvolvimento da região Nordeste.
Como financiador, o Estado atuou através de amplo e variado apoio financeiro à petroquímica brasileira, tendo por via o sistema BNDES (BNDES, FINAME e FIBASE), acabou por constituir-se no principal organizador do funding (OLIVEIRA, 1994, p. 101), operando variadas modalidades de crédito pois era considerável a fragilidade dos sócios privados nacionais nas joint-ventures para enfrentar o investimento do porte que a petroquímica requeria.
Como pode ser observado acima, o Estado não poupou esforços no sentido de organizar, implantar e garantir a boa operação do parque petroquímico
e na sua gênese compartilhou riscos na condição de acionista e financiador, sua atuação só pode ser comparada às grandes empresas do setor.
Assim, a um só tempo, estimulou-se a implantação da indústria, a ela se reservou o mercado interno e fez com que praticasse preços relativamente baixos. Esses níveis de preços praticados, por sua vez proporcionaram níveis de custos satisfatórios à indústria de segunda geração usuária dos petroquímicos básicos, contribuindo assim para se transmitissem a toda a cadeia produtiva, o que facilitou igualmente as exportações brasileiras em momentos ou períodos de excesso de capacidade instalada. (OLIVEIRA, 1994, p. 112).
Em tais condições, a decisão estratégica de introduzir a indústria petroquímica no Brasil, pode ser considerada um grande sucesso, pois o jogo estabelecido entre o governo, a tecnoburocracia e o setor privado, para garantir a substituição de importações, oferecendo barreiras à entrada e preços subsidiados da nafta pela PETROBRÁS, impeliram a alavancagem competitiva do setor no cenário mundial, criando uma expectativa de contínua ascensão.
3 A INDUSTRIALIZAÇÃO TARDIA DA BAHIA E O PÓLO PETROQUÍMICO DE