Como descreve Maldidier (2003), o pensamento pecheuxtiano passou por algumas fases, indo da Análise Automática do Discurso até o que se convencionou chamar de movimento do RCP ADELA, sendo uma das últimas fases do pensamento e produção intelectual deste autor com suas publicações ainda em vida. Nesta fase, foi escrito o texto “Ler o arquivo hoje” e também “Discurso: estrutura ou acontecimento”.
Nos textos iniciais, assinados como Thomas Herbert, a Análise de Discurso é pensada como um instrumento científico das ciências sociais e humanas. Há, neste contexto de formação da teoria, o jogo com o político. No texto “Ler o arquivo hoje”, Pêcheux ratifica este posicionamento e descreve, segundo Curcino (2016, p.233), “a constituição dos consensos compartilhados sobre a leitura no âmbito da produção das ciências, responsáveis pela naturalização do que ele observou como sendo uma ‘divisão social do trabalho da leitura’ estabelecida entre os profissionais dos campos ‘letrado’ e ‘científico’, diante do desafio de
construir, organizar e analisar seus arquivos. Apesar de suas diferenças de método, esses profissionais teriam em comum o fato de contornarem a reflexão acerca do que é ler [...]”.
Na história das ideias, o período do século XVIII ao século XX, com a tradição da filosofia positivista proposta por Auguste Comte, ficou conhecido como “a era da ciência”. Dessa forma, acentuou-se a distância entre literatos e cientistas, na leitura de arquivos. Pensando na problemática da leitura e no fato de que existem maneiras diferentes e contraditórias de se ler, o arquivo é definido por Pêcheux (1997) como “campo de documentos pertinentes e disponíveis sobre uma questão” (p. 57). Nessa problematização da leitura e do arquivo evidencia-se o olhar apurado que se deve ter para os “gestos de leitura”. Conceitua Pêcheux:
Seria de maior interesse reconstruir a história deste sistema diferencial dos gestos de leitura subjacentes, na construção do arquivo, no acesso aos documentos e a maneira de apreendê-los, nas práticas silenciosas da leitura “espontânea” reconstituíveis a partir de seus efeitos na escritura: consistiria em marcar e reconhecer as evidências práticas que organizam estas leituras, mergulhando a “leitura literal” (enquanto apreensão-do-documento) numa “leitura” interpretativa – que já é uma escritura. Assim começaria a se constituir um espaço polêmico das maneiras de ler, uma descrição do “trabalho do arquivo enquanto relação do arquivo com ele-mesmo em uma série de conjunturas, trabalho da memória histórica em perpétuo confronto consigo mesma”. (PÊCHEUX, 1997, p.57)
O apreço forte pela objetividade da Ciência é posto em xeque a partir do momento em que se afirma a opacidade da língua e os diversos posicionamentos dos sujeitos. A noção de arquivo, definido como campo documental, possibilita a subjetividade, ao reunir um conjunto de enunciados e dizeres sobre uma questão por meio dos quais é possível identificar os discursos que se constroem a partir das posições dos sujeitos.
Para Pêcheux, tanto aos primeiros (letrado/literatos) quanto aos segundos (cientistas) faltaria a consideração da condição inerentemente discursiva da composição de seus arquivos e da forma de seleção e análise dos dados. Sem a sustentação de uma teoria da leitura ou da interpretação e sem a compreensão da dimensão ideológica que regula toda e qualquer produção simbólica, esses intelectuais leriam acreditando e apostando na transparência do sentido das palavras e acreditando serem, individualmente, a origem de suas intepretações (CURCINO, 2016, p.233).
Quando se pensa no jogo das leituras, pensa-se na relação de dominação política. O político se estabelece no processo discursivo e no exercício da análise discursiva, pois toda análise é também uma tomada de posição.
No processo interpretativo, por meio de gestos de leitura, há a constituição então de “um espaço polêmico das leituras de arquivo” (PÊCHEUX, 1997, p.64), que se faz através
desta relação entre língua e discurso: “É esta relação entre língua como sistema sintático intrinsecamente passível de jogo, e a discursividade como inscrição de efeitos linguísticos materiais na história, que constitui o nó central de um trabalho de leitura de arquivo” (PÊCHEUX, 1997, p.63). Dizer que o discurso é sócio-histórico-ideologicamente construído significa dizer que todo sujeito dentro de uma prática social já está dentro de uma historicidade e que produz sentido por meio das posições “políticas” que assume, que são as práticas ideológicas. E é assim que a Análise de Discurso é uma disciplina de interpretação que confirma a não-neutralidade dos sujeitos e a não-transparência da linguagem.
É à existência desta materialidade da língua na discursividade do arquivo que é urgente se consagrar: o objetivo é o de desenvolver práticas diversificadas de trabalhos sobre o arquivo textual, reconhecendo as preocupações do historiador tanto quanto as do linguista ou do matemático-técnico em saber fazer valer, face aos riscos redutores do trabalho com a informática – e, logo, também nele – os interesses históricos, políticos e culturais levados pelas práticas de leitura de arquivo (PÊCHEUX, 1997, p.63).
Se há interesses (históricos, políticos e culturais) é possível concluir que as ciências humanas e o gesto interpretativo daquele que se propõe a uma análise discursiva não são neutros. Então, pode-se questionar: como ler o arquivo? Como a memória (no caso, a
memória discursiva) atua nessa leitura de arquivo? O que é e como se dá o posicionamento do
sujeito perante o arquivo, ou seja, na leitura de arquivo(s)? Antes de se chegar às respostas para essas questões, necessário se faz também reforçar o papel do sujeito na Análise de Discurso que não é o sujeito epistêmico. Sendo o sujeito tomado como posição ou posições, a AD se lança na aventura teórica e epistemológica de delinear o conceito de sujeito do discurso ou sujeito discursivo. Em um texto que trata da “Análise do Discurso na França”, Denise Maldidier, Jacques Guilhaumou, o próprio Michel Pêcheux, Françoise Gadet, Bernard Conein e Jean-Marie Marandin afirmam que: “A AD não pode satisfazer-se com a concepção do sujeito epistêmico, ‘mestre de sua morada’ e estrategista nos seus atos (salvo, nas coerções biossociológicas); ela supõe a divisão do sujeito como marca de sua inscrição no campo do simbólico” (PÊCHEUX, et. al., 2011, p.103).
O homem é por natureza um ser simbólico e assim o é, principalmente, porque é um ser de linguagem, a qual é sempre simbólica. Na atuação na vida em sociedade, diante de crenças, sistemas, opiniões, injunções, conceitos e preconceitos, o homem constrói sua marca e ao construir-se e, por meios das práticas discursivas, ele se constitui enquanto sujeito.
A dimensão discursiva também está ligada ao universo simbólico. No uso da língua, que é “condição de possibilidade de um discurso, materialidade ao mesmo tempo linguística e histórica, produto social que resulta de um trabalho com a linguagem no qual coincidem o histórico e o social” (FERREIRA, 2001, p.20), o sujeito (re)significa seus dizeres, atribui sentido, ou seja, simboliza. Por meio da língua, o sujeito é passível (e está sempre sujeito a) à interpretação. A historicidade, constitutiva dos processos discursivos, marca esta simbolização. Ao tecer narrativas e modos próprios de registrar o percurso humano na Terra, há a construção de metáforas, comparações e diversos outros recursos que se dão no uso da língua. E o Inconsciente, que na visão freudiana é uma instância do ego, aquilo que falha à consciência do sujeito, faz do sujeito nunca completo, assim como a linguagem. Para Freud:
O inconsciente é a verdadeira realidade psíquica; em sua natureza mais íntima, ele nos é tão desconhecido quanto a realidade do mundo externo, e é apresentado de forma tão incompleta pelos dados da consciência quanto o mundo externo pelas comunicações de nossos órgãos sensoriais (2001, p.584).
O exercício do sujeito com o simbólico é mostrado em Orlandi (2009) ao escrever sobre a “incompletude: movimento, deslocamento e ruptura” e pontua que:
A condição da linguagem é a incompletude. Nem sujeito nem sentidos estão completos, já feitos, constituídos definitivamente. Constituem-se e funcionam sob o modo do entremeio, da relação, da falta, do movimento. Essa incompletude atesta a abertura do simbólico, pois a falta é também o lugar do possível (p. 52)
Já antecipando o que será tratado no próximo tópico que é a condição do discurso como estrutura ou acontecimento, a autora também volta o olhar para a movência à qual o sujeito está submetido, pois os discursos se constroem como encadeamentos e sequências não lógicas, cronológicas e pré-determinadas que se configuram em sequências discursivas, de onde são elencadas as formações discursivas e que configuram o “modo próprio de dizer sobre uma questão”. É assim que:
Em termos teóricos, isso significa que trabalhamos continuamente a articulação entre estrutura e acontecimento: nem o exatamente fixado, nem a liberdade em ato. Sujeitos, ao mesmo tempo à língua e à história, ao estabilizado e ao irrealizado, os homens e os sentidos fazem seus percursos, mantêm a linha, se detêm junto às margens, ultrapassam limites, transbordam, refluem. No discurso, no movimento do simbólico, que não se fecha e que tem na língua e na história sua materialidade (ORLANDI, 2009, p.53).