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2.5 FALANDO DA ADOLESCÊNCIA

2.5.4 O Autoconceito como constructo

Gecas (1982, p. 152) em sua definição, afirma que “o autoconceito é o conceito que

o indivíduo faz de si próprio como um ser físico, social e espiritual ou moral”. Já

Serra (1986) refere que o autoconceito é um constructo psicológico que permite ter a

noção da identidade da pessoa e da sua coerência e consistência. E acrescenta que

é um constructo teórico que:

- esclarece sobre a forma como um indivíduo interage com os outros e lida

com áreas respeitando as suas necessidades e motivações;

- leva a perceber aspectos do autocontrole, porque certas emoções surgem

em determinados contextos ou porque é que uma pessoa inibe ou desenvolve

determinado comportamento;

- permite compreender a continuidade e a coerência do comportamento

humano ao longo do tempo.

Ainda no preâmbulo da definição do autoconceito geral, Burns (1986) refere que

uma vasta gama de designações (autoimagem, autodescrição, autoestima, etc.) tem

vindo a ser utilizada para referenciar a imagem que o indivíduo tem de si, contudo,

em sua opinião, estes termos são designações excessivamente estáticas para uma

estrutura dinâmica e avaliativa como é o autoconceito, o qual, na sua perspectiva,

engloba uma descrição individual de si própria (enquanto autoimagem) e uma

dimensão avaliativa (autoestima).

Admitindo estas deficiências terminológicas e a grande multiplicidade de conceitos,

Shavelson e Bolus (1982) apresentam uma definição operacional na qual entendem

que o autoconceito se poderá definir como um constructo hipotético, cujo conteúdo

seria a percepção que um indivíduo tem do seu Eu, percepção essa que se formaria

por intermédio de interações estabelecidas com os outros significativos, bem como

através das atribuições do seu próprio comportamento.

Para além do aspecto salientado na definição estrutural proposta por Shavelson e

Bolus (1982), o autoconceito tem determinadas características que, na opinião

destes mesmos autores, são fundamentais para uma definição mais precisa. Assim,

o autoconceito possui múltiplas facetas, é estável, avaliativo, diferençável, e tem

capacidade para se desenvolver e se organizar hierarquicamente.

A estabilidade que se observa no topo da hierarquia, ou seja, quando o autoconceito

é encarado na sua globalidade, diminui à medida que as suas facetas se tornam

mais diferenciadas, mais específicas de uma determinada situação.

O aspecto avaliativo do autoconceito permite que o indivíduo se autoavalie, o que

lhe possibilita a realização de uma retrospectiva dos seus comportamentos em face

de uma determinada situação, averiguando quais são os mais adequados e daí

retirar informação que lhe seja útil em novas situações (id. ibid.).

No que se refere ao aspecto organizativo do autoconceito, e de acordo com

Shavelson e Bolus (1982), o indivíduo, ao receber informação acerca de si próprio,

vai estabelecer categorias que se refletem nas diferentes facetas, tornando o

autoconceito multifacetado, ou multidimensional. O autoconceito possui, assim, uma

organização hierárquica das suas diferentes facetas. Isto é: as diferentes

percepções que o indivíduo tem de si próprio vão sendo orientadas a partir da base

da hierarquia, onde se encontram as facetas mais diferenciadas, para o seu topo,

onde se encontra o autoconceito geral.

Relativamente ao aspecto desenvolvimentista do autoconceito, Marsh e Shavelson

(1985) consideram que este se torna cada vez mais específico e diferenciado à

medida que a idade avança. Um último aspecto, referido pelos autores, é que o

autoconceito é diferençável, isto é, o autoconceito pode facilmente diferenciar-se de

outras variáveis (por exemplo, estado de saúde) permitindo compará-las entre si, de

forma a averiguar possíveis relações.

Na opinião de Byrne (1986), entre outros autores, uma das razões dos progressos

verificados, nas últimas décadas, no que concerne ao desenvolvimento da

investigação científica no autoconceito, se prende com o aparecimento deste modelo

hierárquico e multidimensional. Contudo, referem que, neste novo modelo, as

ligações do autoconceito geral com as restantes facetas, são bastante complexas,

salientando-se a relação com os pais, à qual estão ligados, quer o autoconceito não

escolar, quer os autoconceitos escolares. Consideram assim existir um autoconceito

acadêmico e um autoconceito não acadêmico. Numa cadeia interligada, verificamos

que ao autoconceito acadêmico se encontram ligadas áreas muito específicas como

a Geografia, a Matemática, a História, entre outras.

Por seu lado o autoconceito não acadêmico pode ainda ser dividido, tal como o faz

Serra (1986), em autoconceito físico (aptidões e aparência física).

Os vários teóricos referem-se ao autoconceito como sendo a imagem que fazemos

de nós mesmos, ás crenças e atitudes internas que temos a nosso próprio respeito,

sendo altamente influenciado pela percepção que temos dos outros sobre nós.

Assim sendo, significa as várias visões do si mesmo, incluindo os vários papéis que

assumimos e os atributos que fazem parte da nossa vida.

O autoconceito exerce um papel fundamental no processo de construção da

identidade. Duas condições externas são importantes nesse processo: a segurança

psicológica de ser aceito como ele é - sujeito singular e único - e a compreensão

empática, quando é visto a partir do seu próprio ponto de vista e assim aceita e

compreendida.

Se considerarmos que o significado do termo autoconceito tem variado em função

do quadro de referência dos autores, é fácil concluir que a investigação teórica,

nesta área se caracteriza por uma grande imprecisão da terminologia e discordância

das definições. Contudo, Byrne (1986) refere que apesar da literatura não revelar

uma definição operacional clara, concisa e universalmente aceite, existe certa

concordância em torno da definição geral do autoconceito como sendo a percepção

que o indivíduo tem de si.

Dentre os muitos conceitos disponíveis por diferentes autores apresento a seguir

alguns deles citados em Virgolim et al (1999, p.22):

Autoconceito consiste em crenças que o indivíduo tem a respeito de si

mesmo, nos quais ele baseia suas expectativas e, à luz desses, os seus

atos e realizações (PERES, 1966, p.22).

Autoconceito é composto por todas as crenças e atitudes que o indivíduo

mantém sobre si mesmo, e que determinam quem você é, e o que pensa

que é, e o que você pensa que pode se tornar (CANFIELD; WELLS, 1976,

p.22).

Autoconceito diz respeito á imagem subjetiva que cada pessoa tem de si

mesma e que passa a vida tentando manter e melhorar. Ele é formado

pelas crenças e atitudes que a pessoa tem a respeito de si próprio, sendo

altamente influenciado pela sua percepção do que os outros pensam dela.

Constitui um determinante importante da pessoa que somos; determina

ainda o que pensamos a respeito de nós mesmos, o que fazemos e o que

acreditamos que podemos fazer e alcançar (ALENCAR, 1993, p. 22).

Autoconceito se refere a quem e o que, conscientemente e

inconscientemente achamos que somos – nossas características físicas e

psicológicas, nossos pontos positivos e negativos, e, acima de tudo, nossa

autoestima. A autoestima é a disposição para experimentar a si mesmo

como alguém competente para lidar com os desafios básicos da vida e ser

merecedor de felicidade (BRANDEN, 1991, p.22).

Observamos que todos os conceitos possuem uma linha condutora única, embora

ressaltem as percepções, valores, olhares, amores, reprimendas, pensamentos e

atitudes que, por ser determinantes num momento, desencadeiam as atitudes e

comportamentos em relação a si mesmo, em relação aos outros e ao mundo.

Utilizamos neste estudo o conceito de Branden (1991) por considerá-lo mais

completo e abrangente, incluindo a autoestima, a competência e a auto eficácia e

uma positivação da vida e do ser merecedor de felicidade.

Como podemos perceber pelas exposições teóricas, o autoconceito se constrói

desde os primeiros anos da criança (microssistema) e acompanha o processo de

desenvolvimento durante todas as etapas da vida emergindo a partir das

aprendizagens que realiza na interação com as outras pessoas e o que introjeta

sobre o que os outros dizem sobre ela, como qualidades e defeitos que são

percebidos e comunicados. Assim sendo, a pesquisadora apresenta um

autoconceito ecológico, em consonância com a Teoria Bioecológica de

Bronfenbrenner, em que o desenvolvimento humano depende dos sistemas

ecológicos e vivencia inúmeras transições ecológicas, numa construção que se

prolonga na trajetória da vida, levando diante das novas oportunidades tudo o que

carregou no bojo das “bonecas russas”, para ressignificar o seu autoconceito, agora

reeditado.

Na vivência do processo da adolescência, o jovem passa pelas modificações

fisiológicas da puberdade e se soma ás vivências e relações escolares, com os

comentários verbais e percepções de novos amigos, incluindo as expectativas do

seu papel de gênero e de sua forma de ser. Alguns rótulos, tidos pelo adolescente

com AH/SD como verdades absolutas, que os levam ao sofrimento psíquico e a

questionamentos, são negados, ou aceitos sem questionar.

Teoricamente, essa avaliação pode acontecer tanto nas relações e atitudes de

rejeição como nas de superproteção, que distorcem a realidade e não permitem o

desenvolvimento do discernimento e da autocrítica de forma adequada. O

autoconceito vai passar por uma reedição a partir do início das manifestações da

puberdade e da adolescência, promovendo a oportunidade de reflexão. Nessa fase

da vida, o adolescente está enfrentando, na maioria das vezes, problemas pessoais,

conflitos e frustrações, quiçá infelizmente, como a sina de crianças e adolescentes

que diariamente são massacrados pelo sistema educacional tradicional e repressivo.

Esses sentimentos só podem ser alterados se passaram para a consciência e forem

reelaborados. Como o autoconceito é fundamental para a tomada de qualquer

decisão frente ao futuro, uma atitude distorcida sobre si mesmo pode tolher o

desenvolvimento das potencialidades. Os professores exercem grande influência na

constituição do autoconceito e na formação da personalidade. As primeiras

impressões recebidas na vida são as mais fortes e as mais ricas em consequências.

Ficam indelevelmente gravadas como imagens no psiquismo e assim permanecem

durante grandes períodos da vida, às vezes para sempre. Para provocar a alteração

do autoconceito devemos torná-lo consciente das sensações, dos sentimentos e

ideias que compõem esse núcleo de conteúdos latentes.

Esses conteúdos com forte carga afetiva constituem a subjetividade de cada pessoa,

e estando em estado latente, necessitam passar a manifestos e ser alvo de um

trabalho de ressignificações. Em suas palavras: viver conscientemente significa

querer estar consciente de tudo o que diz respeito as nossas ações, nossos

propósitos, valores e objetivos, ao máximo de nossa capacidade, qualquer que ela

seja, e comportar-nos de acordo com aquilo que vemos e conhecemos (BRANDEN,

1991, p. 98).

A autoconsciência é um processo que demora a se configurar no desenvolvimento

do estudante adolescente, pois enquanto a construímos, aprendemos. Até os três

anos, quase tudo fica no nível do inconsciente; a partir de três ou quatro anos,

ocorre um movimento significativo em termos de consciência de si próprio, quando

ela passa a utilizar o pronome eu. Até então podemos observar a criança utilizar o

pronome ela para referir-se a si mesma, imitando como é referida pelos outros.

Segundo Alencar e Virgolim (1999), ao ingressar na escola o estudante adolescente

já carrega consigo conceitos sobre ele mesmo, aos quais vai agregando as novas

percepções advindas desse novo contexto social. A construção de um autoconceito

consistente e positivo, portanto, também é tarefa da família e da escola e um

aspecto importante para a formação da personalidade. Conscientemente ou não, os

pais e professores influenciam na formação do autoconceito dos adolescentes.

Com base em todas essas considerações teóricas um autoconceito saudável e

positivo é fundamental para que as potencialidades possam vir a se desenvolver e

embasem as ações de um futuro pessoal e profissional produtivo.

A literatura corrente que trata da educação inclusiva, enfatiza que existe uma

significativa relação entre o que o educando é capaz de elaborar nas diversas fases

do desenvolvimento e da construção da sua história de vida. Novas aprendizagens

mantêm estreita ligação com os conhecimentos anteriores do estudante adolescente

e os educadores, que representaram figuras significativas, enquanto mediadores do

conhecimento. Trazem ao contexto da relação pedagógica compreensões e

elaborações próprias, pois as interpretações dos professores contribuem no

processo da construção saudável do autoconceito. Dessa forma, é importante que o

estudante adolescente tenha consciência do seu próprio autoconceito, pois sabemos

que é um processo que se aprende no decorrer do desenvolvimento e a atitude de

viver conscientemente é um dos pilares que constituem a nossa autoestima.

Em suas palavras:

...viver conscientemente significa querer estar ciente de tudo o que diz

respeito a nossas ações, nossos propósitos, valores e objetivos – ao

máximo de nossa capacidade, qualquer que ela seja – e comportar-nos de

acordo com aquilo que vemos e conhecemos (BRANDEN, 1991, p.98).