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2.2 TEORIA BIOECOLÓGICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

2.2.1 Os sistemas e o Modelo Processo-Pessoa-Contexto-Tempo

Em relação aos parâmetros do contexto, Bronfenbrenner propõe um modelo

sistêmico em que os ambientes em que a pessoa em desenvolvimento participa

ativamente e que lhe constituem as dimensões tanto mais imediata quanto mediata,

nomeadas como microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema. Com

isto, Bronfenbrenner (2002) proporciona a compreensão de vários sistemas de

influência, desde os mais distais até os mais próximos, que acabam por formar o

entorno ecológico do indivíduo. Um aspecto marcante dessa concepção é que o

importante para o desenvolvimento é o ambiente na maneira como é percebido pelo

indivíduo, e não como ele existe na realidade objetiva.

Portanto, conforme o autor, os aspectos do meio são os mais importantes no curso

do crescimento psicológico, sendo aqueles que têm significado para a pessoa numa

dada situação. Estes ambientes são analisados em termos de quatro tipos de

sistemas que guardam uma relação inclusiva entre si, como já citada.

O Microssistema é o sistema bioecológico com nível mais interno com o ambiente

imediato que contém a pessoa em desenvolvimento. Compreende um conjunto de

relações entre a pessoa em desenvolvimento e seu ambiente mais imediato, como

por exemplo, a família, a escola, a vizinhança, a igreja e o clube social. Quando a

criança sai de um microssistema conhecido, como por exemplo, a família para

integrar um novo microssistema como a escola, dizemos que houve um fenômeno

de movimento no espaço ecológico, ou melhor, uma transição ecológica, ou

transição bioecológica (KOLLER, 2004).

O Mesossistema requer que olhemos além dos ambientes simples e para as

relações entre eles. Refere-se ao conjunto de relações entre dois ou mais

microssistemas dos quais a pessoa em desenvolvimento participa de maneira ativa:

as relações família-escola, ou escola-igreja, por exemplo. Essas transições

ecológicas ocorrem durante toda a vida.

Exossistema é o terceiro ambiente ecológico que nos leva mais longe e invoca a

hipótese de que o desenvolvimento da pessoa é profundamente afetado por eventos

que ocorrem em ambientes nas quais a pessoa nem sequer está presente, como por

exemplo, as influências das condições de trabalho dos pais. É a terceira força de

influência no desenvolvimento e compreende aquelas estruturas sociais formais e

informais que, mesmo que não contenham diretamente a pessoa em

desenvolvimento, influenciam e delimitam o que acontece no ambiente mais

próximo: a família extensa, as condições e as experiências de trabalho dos adultos e

da família, as amizades, a vizinhança do bairro em geral.

O Macrossistema é o sistema mais distante do indivíduo, incluindo os valores

culturais, as crenças, as situações e acontecimentos históricos que definem a

comunidade onde os outros três sistemas estão inseridos e podem afetá-los: assim

são exemplares os estereótipos e preconceitos de determinadas sociedades, os

períodos de grave situação econômica dos países, a globalização. Descreve a

existência de um fenômeno pertencente aos ambientes em todos os três níveis de

ambiente ecológico acima exposto: dentro de qualquer cultura ou subcultura, os

tipos de ambientes tendem a ser semelhantes, ao passo que entre as culturas elas

são distintamente diferentes. É como se houvesse em cada cultura, uma planta, um

molde, um esquema para a organização de cada tipo de ambiente.

Bronfenbrenner (2002, p.5) afirma que “Essas interconexões podem ser tão

decisivas para o desenvolvimento quanto os eventos que ocorrem num determinado

ambiente”. Como exemplo, mencionou a capacidade de uma criança aprender a ler

que pode depender tanto de como ela é ensinada, quanto da existência e natureza

de laços entre a escola e a família.

Um tema constante em toda a obra de Bronfenbrenner diz respeito à pesquisa em

desenvolvimento humano. Suas críticas não poupam os delineamentos

reducionistas que tentam investigar o desenvolvimento humano numa perspectiva

não ecológica. Essas pesquisas foram classificadas por ele como de

desenvolvimento, mas sem contexto. Ele também criticou aqueles delineamentos

que investigam as características do contexto sem considerar a pessoa em

desenvolvimento, como um ser ativo, capaz de interferir em seus próprios contextos.

Essas pesquisas o autor denominou como de contexto, mas sem desenvolvimento.

Em 1995, desenvolvendo suas ideias para oportunizar um avanço nas pesquisas de

desenvolvimento humano, Bronfenbrenner integra duas propostas dos seus modelos

em uma só, composta pelos elementos pessoa-processo-contexto-tempo, conhecida

como PPCT (2005). Esse modelo integra as características biológicas e sociais

(pessoa), as mudanças que foram ocorrendo ao longo da vida (processo), as

características físicas, políticas, econômicas, culturais, etc. dos ambientes (contexto)

e os eventos de ordem biológica e sociocultural que tiveram impacto na vida da

pessoa (tempo). Esses elementos todos constituem o que Bronfenbrenner propõe

como Paradigma Bioecológico. Embora nunca tenha proposto uma

operacionalização de um método de pesquisa para adotar seu modelo, o

pesquisador deve delinear a pesquisa e sua análise a partir dos quatro

elementos-chave (PPCT) para uma maior exploração (BRONFENBRENNER; EVANS, 2000). .

As características dos elementos do modelo PPCT são:

- Processo – O desenvolvimento humano acontece quando se estabelece um

padrão de interação estável e recíproco entre pessoas e seus ambientes

através de longos períodos de tempo denominados de processos proximais.

Essas interações incluem o investigador e sua equipe.

- Pessoa – O ser humano é um ente biológico e psicológico que interage

constantemente com seu contexto e é produto deste processo de interação

numa concepção de espiral, multicausal e processual.

- Contexto – O ambiente tem papel decisivo no desenvolvimento humano e

difere entre as pessoas em extensão e tipo de consequências. Atua como

uma fonte de informações com a qual a pessoa interage em vários níveis de

complexidade, delineando os quatro níveis de interação (microssistema;

mesossistema; exossistema e macrossistema), como já informado.

- Tempo – Quando afirma que o desenvolvimento ocorre através de

processos proximais, Bronfenbrenner deparou-se com a questão do tempo e

sua influência natural no desenvolvimento humano. Observou que num ciclo

de desenvolvimento de um ser humano as interações duradouras entre as

pessoas se alteram ao longo dos anos (BRONFENBRENNER, 1979; 1995).

Posteriormente, o autor apresenta exemplos de processos proximais afirmando a

necessidade de regularidade de tempo para que ocorra um desenvolvimento

saudável e estabeleça vínculos. Entre os protagonistas de processos proximais cita

as interações entre pais, filhos e avós, irmãos, vizinhos, professores e alunos,

colegas e amigos (BRONFENBRENNER, 2005).

Ceconello e Koller (2003) propõem uma metodologia que sistematiza os quatro

aspectos do modelo Processo-Pessoa-Contexto-Tempo (PPCT). Denomina Inserção

Ecológica, método que tem o objetivo de avaliar os processos de interação das

pessoas com o contexto no qual estão se desenvolvendo. Contrapõem-se aos

estudos psicológicos que enfatizam apenas as características dos indivíduos, sem

valorizar o contexto, ou apreender o processo de desenvolvimento. O ambiente tem

neste tipo de investigação um papel chave, já que é nele que as interações e os

processos proximais acontecem (pessoas, objetos e símbolos).

Valemo-nos dos conhecimentos sobre a Teoria Bioecológica do Desenvolvimento

Humano (2002) porque apresentam uma perspectiva nova na concepção da

interação da pessoa em desenvolvimento com o ambiente e participa das

concepções da Psicologia Sócio histórica com as quais compartilhamos.