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O Código de Defesa do Consumidor do Brasil

IV. Direito à informação no sistema brasileiro

4.2. Direitos dos consumidores

4.2.2 O Código de Defesa do Consumidor do Brasil

A Lei Federal n. 8.078/90 instituiu o Código de Defesa do Consumidor (“CDC”), estabelecendo “normas de proteção e defesa do consumidor, de ordem pública e interesse social”.

Enfrentando o recém-aprovado código, Cláudia Lima Marques pontua:

“De uma visão liberal e individualista do Direito Civil, passamos a uma visão social, que valoriza a função do direito como ativo garante do equilíbrio, como protetor da confiança e das legítimas expectativas nas relações de consumo no mercado”158.

À luz do que dispõe o artigo 2º do CDC, consumidor é toda pessoa física ou jurídica, incluindo coletividade de pessoas, que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final159, equiparando-se a consumidor, nos termos do artigo 29 do CDC, “todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas nele previstas” (chamadas de “consumidores por equiparação”160).

156 Comentário contextual à constituição, 6ª ed., São Paulo: Malheiros, 2009, p. 127.

157 Sobre o tema, v. Marcus Vinicius Fernandes Andrade da Silva, O direito do consumidor e a publicidade, São

Paulo: MP Editora, 2008, p. 171/172.

158 Contratos no Código de Defesa do Consumidor: o novo regime das relações contratuais, 5ª ed, São Paulo:

RT, 1992, p. 12.

159 Tendo em vista o fato de que, para os fins desta tese, o consumidor que se objetiva tutelar será sempre o

consumidor final do produto alimentício, não serão trazidas à baila as discussões acerca da extensão do conceito de consumidor. Sobre o tema, v. Defesa da concorrência e bem-estar do consumidor. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010, p. 34/47.

160 Sobre o tema, Newton de Lucca esclarece: “(...) esse alargamento do conceito de consumidor, especialmente

destinado a estender a proteção legal igualmente aos adquirentes de bens e serviço em potência encontra seu fundamento na garantia de prevenção de dano” (Teoria geral da relação jurídica de consumo, São Paulo: Quartier Latin, 2003, p. 117).

50 Quando o CDC se refere à coletividade de pessoas, está tutelando direitos transindividuais, abordados com maior detalhamento no parágrafo único do artigo 81, segundo o qual:

(i) direitos difusos seriam aqueles de natureza indivisível de titularidade de pessoas indeterminadas cuja inter-relação se dê por circunstâncias de fato;

(ii) direitos coletivos seriam aqueles de natureza indivisível de titularidade de grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base161; e

(iii) direitos individuais homogêneos são aqueles que advêm de origem comum.

Assim, embora haja liame entre todas estas espécies (a satisfação do interesse de um, implica necessariamente na satisfação de todos pertencentes ao grupo), temos que os direitos difusos se distinguem dos direitos coletivos pelo fato de que, naqueles, a relação entre os titulares é baseada em fato, ao passo que, neste, há uma prévia relação jurídica entre eles (contratual, por exemplo), do que resulta que, nos direitos coletivos, os titulares são determinados e, nos difusos, são apenas determináveis.

A indivisibilidade dos interesses decorre de sua natureza, sendo impossível que haja a satisfação de parte dos interesses sem que haja a realização dos interesses da totalidade do grupo162. No referente aos direitos individuais homogêneos, são direitos “acidentalmente supraindividuais”163, eis que se tratam de direitos cujos “sujeitos são sempre mais de um e

determinados”164; sendo direitos uniformizados pela origem comum, embora permaneçam

individuais, o que não impediria a sua tutela coletiva sob o manto dos “direitos individuais de massa”165, tendo em vista a sua relevância social pela “potencialidade da proliferação do

dano”166, a qual deve ser prevenida por meio da tutela coletiva.

Para que possamos ter uma relação de consumo, deve haver, de um lado, o consumidor, já definido, interessado em um produto ou serviço, e, de outro, o fornecedor167.

161 Sobre o conceito, Rodolfo de Camargo Mancuso esclarece: “Não se trata, tampouco, de mera soma ou

justaposição de interesses integrantes do grupo; trata-se de interesses que passam esses dois limites, ficando afetados a um ente coletivo, nascido a partir do momento em que certos interesses individuais, atraídos por semelhança e harmonizados pelo fim comum, se amalgamam no grupo. É a síntese, antes da mera soma” (Interesses difusos: conceitos e legitimação para agir. 4ª ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 55).

162 Sobre o tema, Gianpolo Poggio Smanio, Teoria dos interesses difusos e sua tutela penal. Tese (Doutorado) -

Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2000, p. 34.

163 Claudia Lima Marques, Antonio Herman V. Benjamin e Bruno Miragem (org). Comentários ao Código de

Defesa do Consumidor. 3ª ed., rev, ampl e atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010, p. 1303.

164 Rizzatto Nunes, Comentários ao Código de Defesa do Consumidor, 2ª ed, 3ª tiragem. São Paulo: Saraiva,

2006, p. 728.

165 Gianpolo Poggio Smanio, Teoria dos interesses difusos e sua tutela penal. Tese (Doutorado) - Pontifícia

Universidade Católica, São Paulo, 2000, p. 20.

166Roberto Senise Lisboa e Priscila Senise Lisboa. “O direito ao desenvolvimento dos consumidores e a tutela

coletiva”. In MORATO, Antonio Carlos; e NERI, Paulo de Tarso. 20 anos do Código de Defesa do Consumidor. São Paulo: Atlas, 2010, p. 126.

167 Neste mesmo diapasão, Vidal Serrano Nunes Junior e Antonio Carlos Alves Pinto Serrano pontuam: “(...)

51 Ao tratar do fornecedor, o artigo 3º do CDC estabeleceu que o conceito abrange “toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de produtos ou prestação de serviços”.

Por produto, compreende-se “qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial” e, por serviço, “qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista”.

Estando presentes os elementos que configuram uma relação de consumo, aplicam-se as disposições contidas no CDC, que estatuiu um admirável sistema de proteção dos consumidores, individualmente falando, e das relações de consumo, sob o prisma coletivo, prevendo uma série de princípios e regras próprios do direito do consumidor, com força irradiante sobre qualquer norma que verse sobre tema afeto ao direito consumerista168-169.

Com efeito, referido código estatui a política nacional das relações de consumo, a qual tem “por objetivo o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo”.

Só se pode pensar em efetiva tutela do direito do consumidor quando há o respeito à dignidade, saúde e segurança do consumidor por parte dos atores das relações de consumo.

Frise-se, inclusive, que, com vistas a se atingir este objetivo, o CDC indicou expressamente o dever de serem tomadas medidas governamentais “no sentido de proteger efetivamente o consumidor”, inclusive no referente à garantia de padrões adequados de qualidade e segurança, características, que guardam relação mais estreita com o objeto do presente trabalho (alínea “d” do inciso II do artigo 4º do CDC170).

Ademais disso, de acordo com o estabelecido no inciso V do artigo 4º do CDC, um dos princípios da política nacional das relações de consumo é o “incentivo à criação pelos

sendo certo que tais conceitos, ademais, se implicam” (“Direito do consumidor” in Manual de direitos difusos, p. 208).

168 Sobre o tema, v. Vidal Serrano Nunes Junior e Antonio Carlos Alves Pinto Serrano, “Direito do consumidor”

in Manual de direitos difusos, p. 204/205.

169 Sobre a aplicação do CDC em todas as relações em que haja um consumidor e um fornecedor, v. ADI

2591/DF, rel. orig. Min. Carlos Velloso, rel. p/ o acórdão Min. Eros Grau, 7.6.2006, por meio da qual o STF “entendeu-se não haver conflito entre o regramento do sistema financeiro e a disciplina do consumo e da defesa do consumidor, haja vista que, nos termos do disposto no art. 192 da CF, a exigência de lei complementar refere- se apenas à regulamentação da estrutura do sistema financeiro, não abrangendo os encargos e obrigações impostos pelo CDC às instituições financeiras, relativos à exploração das atividades dos agentes econômicos que a integram - operações bancárias e serviços bancários -, que podem ser definidos por lei ordinária”.

170“Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o atendimento das necessidades dos

consumidores, o respeito à sua dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios: (...) II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor: (...) d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de qualidade, segurança, durabilidade e desempenho”.

52 fornecedores de meios eficientes de controle de qualidade e segurança de produtos e serviços”.

Especificamente no que se refere aos produtos para consumo (como alimentos, medicamentos, produtos de higiene e beleza), há que se destacar que, por controle de qualidade, deve se compreender a capacidade de o fornecedor identificar, sem qualquer omissão ou falha, todos os componentes de um dado produto, ainda que o percentual de um dado elemento seja baixo.

Isso se torna especialmente relevante no caso das pessoas com hipersensibilidade alimentar, pois, como já mencionado nos Capítulos I e II, o desencadeamento de uma reação alérgica muitas vezes independe da quantidade de exposição ao alérgeno; bastando que ele esteja presente, ainda que na forma de traços involuntários.

Não é por outra razão que se sustentará, aqui, a necessidade de controle, não apenas dos ingredientes de um dado produto, mas também dos resquícios involuntariamente presentes advindos do processo de produção, transporte ou armazenamento dos produtos, resguardando-se, assim, o pleno direito à informação dos consumidores (Capítulo IV, item 4.2.3).

A proposta de haver regulamentação da rotulagem de alérgenos e da obrigatoriedade de controle no manejo de substâncias alergênicas objetiva tutelar os direitos difusos de todos aqueles com alergia alimentar e que precisam garantir uma dieta livre dos alérgenos para terem sua saúde preservada.

Exatamente por conta da necessidade de se assegurar a proteção da saúde deste grupo de pessoas (e de seus cuidadores, em sentido amplo171), defende-se a necessidade de se garantir uma alimentação adequada aos indivíduos com hipersensibilidade alimentar, o que se daria por meio da correta rotulagem dos alérgenos nos produtos alimentícios, assim como a disponibilização de tais informações junto aos canais de atendimento aos consumidores, seja sítio eletrônico, seja serviço telefônico de atendimento ao cliente.

É sabido que os direitos básicos do consumidor estão previstos no artigo 6º do CDC, destacando-se, para a presente, o disposto nos seguintes incisos:

 a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou nocivos (inciso I)

 a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas contratações (inciso II)

 a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características, composição, qualidade e preço, bem como sobre os riscos que apresentem (inciso III)

171 O termo cuidadores abrange não apenas a família, mas os profissionais de saúde envolvidos no tratamento e

acompanhamento da evolução da alergia alimentar, para os quais o acesso a informações claras e precisas é fundamental.

53  a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos e difusos (inciso VI)

 o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos necessitados (inciso VII)

Sendo a proteção à saúde um dos direitos básicos dos consumidores, devem ser tomadas medidas que permitam a fruição de tal direito, o que, no caso da população alérgica, demanda a disponibilização de informações quanto à presença de alérgenos, direito fundamentado na Constituição Federal e no CDC.