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O campo jurídico: conceito e características

5 A TRANSIÇÃO PARADIGMÁTICA

5.2 DIREITO MODERNO E A SUPERAÇÃO DOS BLOQUEIOS SISTÊMICOS

5.2.1 O campo jurídico: conceito e características

A compreensão do pensamento de Pierre Bourdieu (1930-2002) acerca do Direito está inserida em sua teoria social, razão pela qual é importante apresentar seus principais conceitos antes de enfrentar a análise do campo jurídico.

Bourdieu nomeou sua teoria social de construtivismo estruturalista, a fim de expressar sua ideia central, no sentido de que existem estruturas sociais capazes de condicionar a compreensão que os agentes possuem da realidade, determinando o modo como agem, mas essas estruturas objetivas são construídas socialmente e podem ser mudadas pelos agentes. Bourdieu apresenta uma teoria social a um só tempo objetiva e subjetiva, defendendo a interação entre a ação do agente que constrói a estrutura e a atuação da estrutura sobre o agir do agente.

Para Bourdieu, na medida em que as sociedades se tornam mais complexas, diferenciam-se espaços nos quais os agentes sociais travam lutas pelo poder simbólico, com

vistas a legitimar suas representações e práticas, nomeando estes espaços simbólicos de “campos”. Ou seja, campo é uma estrutura social, com regras que condicionam a percepção que os agentes possuem da realidade e orientam o seu o agir.

Nesse sentido, no interior de cada sociedade há espaços onde os agentes disputam a posse de capitais e os utilizam para legitimar suas práticas e suas cosmovisões. Observe-se que, em Bourdieu, o conceito de “capital” é amplo, ultrapassando a dimensão apenas econômica, alcançando qualquer espécie de poder no âmbito das relações sociais e não apenas o poder econômico. Desta forma, temos o capital social (rede de influência e conexões sociais), o capital cultural (conhecimento erudito, escolar) e o capital simbólico (prestígio dos agentes no campo, que lhes dá autoridade reconhecida).

A correlação de posse dessas várias espécies de capitais aproxima ou afasta os agentes, determinando as posições dentro do campo, delineando os contornos das relações de poder nele travadas. Essas relações de poder determinam a estrutura objetiva de cada campo, que é internalizada nos seus membros. Dentro do mesmo campo se desenvolvem identidades, a partir da qual os agentes se reconhecem como participantes de uma mesma cosmovisão, que se internaliza nos indivíduos.

Considerando a impossibilidade de justificar as práticas a não ser pela revelação sucessiva da série dos efeitos que se encontram na sua origem, a análise faz desaparecer, em primeiro lugar, a estrutura do estilo de vida característico de um agente ou de uma classe de agentes, ou seja, a unidade que se dissimula sob a diversidade e a multiplicidade do conjunto das práticas realizadas em campos dotados de lógicas diferentes, portanto, capazes de impor formas diferentes de realização, segundo a formula: [(habitus) (capital)] + campo = prática. (BOURDIEU, 2007, p. 97).

Bourdieu nomeia de habitus a este sistema de disposições para a prática, que se internaliza nos indivíduos, orientando sua conduta e determinando sua cosmovisão. Portanto, para Bourdieu, o habitus decorre dessa internalização da estrutura objetiva de ação e pensamento, que determina a identidade social dos agentes, condicionando sua representação da realidade e suas práticas.

Assim, agentes com habitus diversos veem o mundo de maneira diferente e travam uma luta simbólica para impor sua cosmovisão, utilizando o chamado “poder simbólico”, que é “(...) esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem” (BOURDIEU, 2009, pp. 7-8).

Os agentes disputam esse poder simbólico dentro de cada um dos diversos campos sociais para fazer prevalecer sua cosmovisão, mediante o uso da violência simbólica,

universalizando seus interesses para obter a concordância dos demais à sua própria visão de mundo. Portanto, o poder simbólico é utilizado para fazer com que os dominados aceitem a dominação, mediante um processo chamado por Bourdieu de “violência simbólica”, que consiste precisamente em fazer crer que os interesses particulares da classe dominante são universais, internalizando-os nos agentes, que terminam por legitimar a própria dominação. Os agentes que ocupam a posição de dominação em um campo utilizam o poder simbólico para mantê-la, universalizando o seu habitus e assim naturalizando a dominação, com vistas a legitimar suas práticas pela aceitação dos dominados.

Bourdieu explica esse mecanismo complexo:

Os agentes que estão em concorrência no campo de manipulação simbólica têm em comum o fato de exercerem uma ação simbólica. São pessoas que se esforçam para manipular as visões de mundo (e, desse modo, para transformar as práticas) manipulando a estrutura da percepção do mundo (natural e social, manipulando as palavras, e, através delas, os princípios da construção da realidade social (a chamada teoria de Sapir-Worf, ou de Humboldt-Cassirer, segundo a qual a realidade é construída através das estruturas verbais, é totalmente verdadeira quando se trata do mundo social). Todas essas pessoas que lutam para dizer como se deve ver o mundo são profissionais de uma forma de ação mágica, que, mediante palavras capazes de falar ao corpo, de “tocar”, fazem com que se veja e se acredite, obtendo desse modo efeitos totalmente reais, ações (BOURDIEU, 2004, pp. 121-122).

A estrutura do campo funciona para reproduzir a ordem simbólica dos dominantes, universalizando e internalizando o seu habitus nos agentes, que passam a legitimar as práticas sociais, aceitando a dominação.

O campo jurídico também é um espaço social de luta simbólica, no qual os agentes disputam o poder simbólico para legitimar sua cosmovisão e suas práticas, mediante a instituição e aplicação de normas jurídicas que pretendem generalidade e universalidade, internalizando no ser humano padrões de comportamento, cuja observância é garantida pelo monopólio estatal da violência física.

Bourdieu aclara que o campo jurídico possui conexão com os demais campos sociais e expressa as relações de poder existentes na sociedade, o que tende a prestigiar os interesses dos agentes que dominam os capitais econômico e político.

Tratando deste aspecto do campo jurídico, o sociólogo anota:

É pois um campo que, pelo menos em período de equilíbrio, tende a funcionar como um aparelho na medida em que a coesão dos habitus espontaneamente orquestrados dos intérpretes é aumentada pela disciplina de um corpo hierarquizado o qual põe em prática procedimentos codificados de resolução de conflitos entre profissionais da resolução regulada dos conflitos (BOURDIEU, 2009, p. 214).

Utilizando a terminologia de Kuhn, no período normal, o campo jurídico se aproxima da ideia de aparelho superestrutural, servindo para a universalização e internalização dos interesses da classe dominante, a fim de obter a legitimação dos dominados mediante o uso de violência simbólica. Ou seja, para Bourdieu, o campo jurídico é um meio por excelência de reprodução da ordem simbólica dominante.

Bourdieu avança esclarecendo que campo jurídico possui uma autonomia relativa em decorrência de uma estrutura simbólica peculiar (profissional e hierarquizada), cuja pretensão de neutralidade e de universalidade impõe a observância de regras procedimentais pelos agentes autorizados a nele atuar, interpretando os textos jurídicos. Dentro do campo do Direito há uma luta pelo capital jurídico, que se trava em dois momentos: (i) entre os iniciados e os profanos, isto é, entre os profissionais do direito, detentores do conhecimento técnico para atuar no campo jurídico, e os leigos, que não possuem o conhecimento técnico para atuar no campo jurídico, mas precisam defender seus interesses mediante o Direito; (ii) entre os próprios profissionais do direito (advogados privados, advogados públicos, promotores de justiça, juízes e doutrinadores), que disputam o direito de definir o que o direito é.

No tocante aos profissionais do direito, Bourdieu explica que esses agentes se classificam em duas categorias, organizadas em dois polos:

(...) de um lado, a interpretação voltada para a elaboração puramente teórica da doutrina, monopólio dos professores que estão encarregados de ensinar, em forma normalizada e formalizada, as regras em vigor; do outro lado, a interpretação voltada para a avaliação prática de um caso particular, apanágio dos magistrados que realizam atos de jurisprudência e que podem, deste modo – pelo menos alguns deles – contribuir também para a construção jurídica (BOURDIEU, 2009, p. 217).

Esta divisão do trabalho simbólico no campo jurídico implica em habitus e capitais distintos, embora complementares, que atuam na disputa de poder pela definição da interpretação dos textos jurídicos. Essa exegese jurídica deve ocorrer mediante regras previamente determinadas e de observância obrigatória pelos agentes profissionais autorizados a atuar no campo jurídico.

Bourdieu esclarece:

A interpretação opera a historicização da norma, adaptando as fontes a circunstâncias novas, descobrindo nelas possibilidades inéditas, deixando de lado o que está ultrapassado ou que é caduco. Dada a extraordinária elasticidade dos textos, a operação hermenêutica de declaratio dispõe de uma imensa liberdade (BOURDIEU, 2009, p. 223).

A historicização hermenêutica da norma decorre da luta simbólica travada no interior do campo jurídico, mediante o embate de agentes com competências profissionais, que são desiguais, que utilizam dos capitais jurídicos possíveis para defender os seus interesses em disputa. A atuação desses agentes jurídicos profissionais ocorre dentro do campo e de acordo com regras predefinidas, com vistas à universalização dos interesses para que a decisão judicial final seja percebida como aplicação de uma norma geral e abstrata, e não como uma decorrência de uma luta simbólica que reproduz a ordem social.

Para Bourdieu, a estrutura formal do campo jurídico permite a reprodução dos habitus dos agentes que dominam o campo social, universalizando-o na forma de decisões judiciais pretensamente neutras, que legitimam a dominação. A codificação escrita dos textos jurídicos utiliza uma linguagem técnica aparentemente neutra, que estabiliza o campo jurídico e a sua distribuição de poder, fazendo-o parecer equitativo e totamente autônomo, ocultando a luta simbólica desigual travada em seu interior, bem como a sua relação com os demais campos.

Ademais, o método do Direito toma as palavras do vernáculo e atribui novo sentido, um conteúdo técnico-jurídico, que possibilita a domesticação dos conflitos de interesse ao tempo em que afasta os não iniciados do debate jurídico. Com efeito, o funcionamento do campo jurídico exige a mediação dos agentes profissionais dotados dessa competência técnica específica, capazes de conformar os conflitos de interesse em um debate racional. Bourdieu ressalta essa separação entre os iniciados e os profanos:

Em resumo, a transformação dos conflitos inconciliáveis de interesses em permutas reguladas de argumentos racionais entre sujeitos iguais está inscrita na própria existência de um pessoal especializado, independente dos grupos sociais em conflito e encarregado de organizar, segundo formas codificadas, a manifestação pública dos conflitos sociais e de lhes dar soluções socialmente reconhecidas como imparciais, pois que são definidas segundo as regras formais e logicamente coerentes de uma doutrina percebida como independente dos antagonismos imediatos (BOURDIEU, 2009, p. 228).

O ordenamento jurídico aceito como conjunto de normas abstratas e gerais, é interpretado por profissionais tecnicamente preparados, que manejam um vocabulário próprio, a fim de compor os conflitos sociais em um espaço mediado por regras, no qual se trava um debate racional com vistas à prevalência e universalização de interesses. A decisão judicial também fundamentada racionalmente é percebida como resultado desse processo argumentativo técnico, sendo aceita como a conciliação tão neutra quanto possível dos interesses em conflito, garantida pela coerção estatal.

Desta forma, o campo jurídico reproduz a luta simbólica existente na sociedade, convertendo-a em um processo argumentativo racional, submetido a regras predeterminadas e resolvido por uma decisão judicial dotada de coercitividade garantida pelo monopólio estatal da violência legítima. Discorrendo sobre o pleito judicial, Bourdieu anota:

Confrontação de pontos de vista singulares, ao mesmo tempo cognitivos e avaliativos, que é resolvida pelo veredicto solenemente enunciado de uma “autoridade” socialmente mandatada, o pleito representa uma encenação paradigmática da luta simbólica que tem lugar no mundo social: nesta luta em que se defrontam visões do mundo diferentes, e até emsmo antagonistas, que, à medida da sua autoridade, pretendem impor-se ao reconhecimento e, deste modo, realizar-se, está em jogo o monopólio do poder de impor o princípio universalmente reconhecido de conhecimento do mundo social, o nomos como princípio universal de visão e de divisão (nemo significa separar, dividir, distribuir), portanto, de

distribuição legítima (BOURDIEU, 2009, p. 236).

O campo jurídico não se desconecta do mundo social, ao tempo em que o conforma é formado por este, de modo que se influenciam reciprocamente. O capital jurídico não pode se dissociar da realidade social sob pena de se esmaecer, uma vez que os agentes tentam utilizar os conceitos para transformar as ações no mundo, nomeando tecnicamente a realidade a fim de que esta seja percebida segundo as necessidades do intérprete. Mas a normatização só terá eficácia se ressoar em alguma medida na realidade, de modo que a eficácia jurídica depende de um mínimo de eficácia social.

Em Bourdieu, o campo jurídico é eminentemente um meio de reprodução e legitimação da ordem social vigente, mediante o processo de universalização de interesses, o que assegura a manutenção das posições dos agentes no campo, uma vez que a “instituição jurídica contribui, sem dúvida, universalmente para impor uma representação da normalidade em relação a qual todas as práticas diferentes tendem a aparecer como desviantes, anómicas, e até mesmo anormais, patológicas” (BOURDIEU, 2009, p. 247).

Em passagem extensa, mas que merece transcrição, Bourdieu resume a dinâmica paradoxal entre opostos que permeia o campo jurídico:

A função de manutenção da ordem simbólica que é assegurada pela contribuição do campo jurídico é – como a função de reprodução do próprio campo jurídico, das suas divisões e das suas hierarquias, e do princípio de visão e de divisão que está no seu fundamento – produto de inúmeras acções que não têm como fim a realização dessa função e que podem mesmo inspirar-se em intenções opostas, como os trabalhos subversivos das vanguardas, os quais contribuem, definitivamente, para determinar a adaptação do direito e do campo jurídico ao novo estado das relações sociais e para garantir assim a legitimação da forma estabelecida dessas relações (BOURDIEU, 2009, p. 254).

Desse modo, para o sociólogo francês, há uma resistência à mudança no campo jurídico, que tende à manutenção do status quo e da ordem simbólica dominante, em face da estrutura formal do campo jurídico.

No entanto, é possível partir da teoria dos campos de Bourdieu e avançar, para entender o Direito Moderno como espaço de construção, e não apenas de reprodução da ordem social, mediante uma luta simbólica com uma paridade razoável de armas.

Inicialmente, é preciso reconhecer que o Direito estabiliza as relações sociais de longo prazo, possibilitando a previsibilidade de ações e resultados, na medida em que as regras de conduta predefinidas são uniformes e de conhecimento geral. Precisamente por almejar a universalização, o processo judicial abre espaço para a retomada da crise como processo de transformação, assegurando o direito de defender outros pontos de vista, que podem assumir a centralidade do debate.

A hermenêutica jurídica é realizada sempre sob o pano de fundo da realidade social e há um limite para a desconexão a partir do qual a decisão judicial perde coerência lógica interna, de modo que o processo de interpretação judicial parte do texto jurídico, com base em competências técnicas e segundo regras predefinidas, mas tem que regressar ao campo social para se fundamentar com base em fatos reais, o que permite a introdução de novos olhares e novos valores no processo decisório. Este aspecto aliado à necessidade de fundamentar as decisões judiciais, com base em fatos reais e em boas razões, mantém a conexão da decisão judicial com o fundamento social, fragilizando a capacidade do Sistema em manter artificialmente decisões sem lastro social, apenas para reproduzir o habitus dominante.

Outrossim, na modernidade tardia, o Estado se encontra submetido a pressões de uma ordem externa, que repercutem no Direito nacional, que se vê forçado a reconhecer direitos construídos no plano internacional, a fim de manter as relações diplomáticas e comerciais cada vez mais globalizadas. Esse aspecto, aliado à estrutura formal do campo jurídico, permite a democratização do campo jurídico, que se abre a novos habitus e equilibra a luta pelo reconhecimento de novos direitos.

Esse cenário permite que novos direitos sejam instituídos e reconhecidos no campo jurídico, ainda que a tendência seja o fortalecimento do status quo. De fato, ainda que um texto jurídico tenha sido editado para universalizar os interesses setoriais, há a possibilidade de uma construção hermenêutica alternativa, em decorrência da luta simbólica travada no campo jurídico, liberando o potencial emancipador do Direito.

O Direito Moderno não é um instrumento superestrutural de repressão da classe dominada nem a panaceia geral para todos os males que afligem a sociedade moderna, mas

um espaço simbólico mediado por regras coercitivas que possibilitam um procedimento racional de resolução dos conflitos de interesse, com imenso potencial emancipador, no qual novos direitos podem ser engendrados, reconhecidos e garantidos. Ou seja, Direito na modernidade tardia não se limita a assegurar a reprodução da ordem simbólica dominante, configurando essencialmente um espaço onde se trava uma luta simbólica pelo reconhecimento, legitimação e universalização de interesses e novos direitos.

Essa relação entre o Direito e a Democracia com a heurística de novos direitos fundamentais pode ser melhor compreendida com a análise do pensamento habermasiano sobre a teoria jurídica.