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3.2 Norma e Obriga¸c˜ ao

3.2.2 O caso das normas jur´ıdicas

De acordo com Kelsen ([Kelsen1999]), as normas jur´ıdicas v´alidas em um de- terminado estado teriam todas o mesmo fundamento, “devemos obedecer `a constitui¸c˜ao”. Uma vez aceita esta posi¸c˜ao kelseniana, a ado¸c˜ao da hip´otese de que a l´ogica deˆontica trata apenas das normas que possuem o mesmo fundamento parece ser perfeitamente adequada a qualquer tentativa de re- presentar argumentos jur´ıdicos. Uma obje¸c˜ao a ser levantada contra a ado¸c˜ao desta hip´otese ´e que existe a possibilidade de uma mesma pessoa estar, pelos mesmos fatos, sujeita a normas de estados diversos, que por sua vez seriam normas com fundamentos diferentes. Argumentos jur´ıdicos envolvidos em situa¸c˜oes deste tipo seriam exclu´ıdos da an´alise pela l´ogica deˆontica, caso adotemos a hip´otese de fundamento ´unico. Obje¸c˜ao mais radical seria n˜ao aceitar a citada posi¸c˜ao kelseniana, e realmente h´a na teoria geral do Direito quem defenda que dentro de um mesmo estado existem normas com funda- mentos diferentes, o que tornaria despropositada a ado¸c˜ao da hip´otese de fundamento ´unico. Mesmo aceitando a posi¸c˜ao de Kelsen, entendemos que seria importante o desenvolvimento de um formalismo que nos desse a origem de uma norma a partir da senten¸ca que a representa. Ao inv´es do pressuposto fundamental “devemos obedecer a constitui¸c˜ao”, a origem de uma norma N seria entendido como a norma constitucional N0 com que se inicia a trans-

miss˜ao da autoridade para prescrever e que culmina com a prescri¸c˜ao de N . Por exemplo, a origem da norma “deve ser que se pare o carro e se entregue os documentos”, veiculada pelo policial, seria a norma constitucional que es- tabelece o poder de pol´ıcia do estado. Ainda que se admita que a norma que estabelece o poder de pol´ıcia do estado tenha o mesmo fundamento que, por exemplo, a norma constitucional que determina que a intimidade ´e inviol´avel, isto n˜ao impede que estas duas normas constitucionais originem normas infe- riores que se conflitem de alguma maneira, e veremos que ´e uma caracter´ıstica de certo tipo de argumento jur´ıdico resolver o conflito das normas inferiores considerando as suas origens. Lembremos que, al´em da que atribui autori- dade, h´a a pressuposi¸c˜ao inaugural em que uma certa prescri¸c˜ao especial deve ser obedecida devido ao seu conte´udo, e todas as prescri¸c˜oes que visem garantir a realiza¸c˜ao do que ela prescreve devem tamb´em ser obedecidas6, in-

6Kelsen ([Kelsen1999]), na verdade, assevera que deveriam ser obedecidas todas as

prescri¸c˜oes que fossem consequˆencia l´ogica da prescri¸c˜ao especial que se pressup˜oe como devendo ser obedecida por seu conte´udo. Por´em, como veremos adiante, esta restri¸c˜ao parece ser muito forte.

dependentemente de qualquer atribui¸c˜ao de autoridade para prescrever. Por exemplo, consideremos a seguinte prescri¸c˜ao: “devemos garantir a ampla de- fesa aos cidad˜aos”. A defesa a que se refere a prescri¸c˜ao ´e aquela contra condena¸c˜oes baseadas em normas jur´ıdico-administrativas, e o significado in- tuitivo da prescri¸c˜ao ´e mais ou menos claro. Pois bem, pressupondo que por seu conte´udo deve ser obedecida esta prescri¸c˜ao, pode-se alegar que, na medida em que assegura o respeito `a ampla defesa, deve ser obedecida uma prescri¸c˜ao como: “nas reuni˜oes da congrega¸c˜ao do Instituto de Filosofia e Ciˆencias Humanas da Unicamp em que se decidirem puni¸c˜oes administrati- vas, deve ser que o prov´avel punido seja ouvido”, mesmo que esta prescri¸c˜ao n˜ao esteja determinada em nenhum regimento da universidade e, portanto, n˜ao tenha sido estabelecida por nenhuma autoridade. Acontece que ´e uma caracter´ıstica do Direito que prescri¸c˜oes deste ´ultimo tipo aqui consideradas sejam feitas na pr´opria Constitui¸c˜ao de um pa´ıs, sob o nome especial de princ´ıpios constitucionais, e, por raz˜oes que veremos mais adiante, pode ser importante que marquemos em uma norma que ela se origina de um princ´ıpio qualquer ou mesmo de um espec´ıfico princ´ıpio.

De um modo geral, s˜ao admitidas em Direito algumas regras informais de inferˆencia baseadas em propriedades de normas, como suas diversas ori- gens, por exemplo, e se quisermos representar estas regras ´e importante que o formalismo possibilite expressar as citadas propridades. Na verdade, o que poderia ter de mais caracter´ıstico uma l´ogica do Direito seriam estas regras de inferˆencia espec´ıficas e n˜ao propriamente o fato de que os argumentos jur´ıdicos envolvem normas. Mais adiante, ao estudarmos em mais detalhe os argumentos jur´ıdicos, poderemos justificar melhor esta alega¸c˜ao. Por en- quanto, esperamos ter dado uma forte indica¸c˜ao de que n˜ao basta apenas uma l´ogica das normas para dar conta dos argumentos jur´ıdicos, ´e preciso para tanto levar em conta algumas outras especificidades destes ´ultimos.

Cap´ıtulo 4

A resolu¸c˜ao de problemas

jur´ıdicos concretos e os

argumentos jur´ıdicos

4.1

Os tipos de justificativas aceitos na res-

olu¸c˜ao de problemas jur´ıdicos concretos

No Cap´ıtulo 1, dissemos que um problema jur´ıdico concreto - daqui em di- ante chamado apenas de problema concreto - consiste numa certa providˆencia solicitada ao juiz e nos fatos nos quais se baseia esta solicita¸c˜ao. No presente cap´ıtulo, chamaremos a providˆencia solicitada de solu¸c˜ao, e os fatos em que se baseia a solicita¸c˜ao chamaremos de caso individual. Assim, resolver um problema concreto ´e justificar a atribui¸c˜ao de uma solu¸c˜ao a um caso individ- ual, atribui¸c˜ao esta que se d´a indiretamente por meio da classifica¸c˜ao do caso individual em um caso gen´erico - o que corresponde ao que antes chamamos de “dar qualifica¸c˜ao jur´ıdica aos fatos” - e da atribui¸c˜ao da solu¸c˜ao a este caso gen´erico - que antes chamamos de “determina¸c˜ao das consequˆencias atribu´ıdas pelo Direito aos fatos como qualificados juridicamente”1. Ent˜ao, justificar a atribui¸c˜ao de uma solu¸c˜ao a um caso individual ´e justificar a classifica¸c˜ao do caso individual em um caso gen´erico e tamb´em justificar a atribui¸c˜ao de tal solu¸c˜ao ao caso gen´erico em quest˜ao. Aqui nos interessa especificamente saber quando poderemos considerar justificada a atribui¸c˜ao

1Estas adapta¸oes da nomenclatura visam a utiliza¸c˜ao neste cap´ıtulo de alguns con-

de uma solu¸c˜ao a um caso gen´erico, ou seja, o que vale como justificativa para a atribui¸c˜ao de uma solu¸c˜ao a um caso gen´erico em uma senten¸ca judicial? Especificamente no Direito continental, esta justificativa tem que ser baseada nas leis de um pa´ıs. Mas baseadas de que maneira? Qual a liga¸c˜ao com a lei que deve ter uma justificativa para que conte como tal? Em suma, neste cap´ıtulo discutiremos as justificativas aceit´aveis na resolu¸c˜ao de um problema concreto em uma senten¸ca judicial, levando em conta principalmente os ar- gumentos que as comp˜oem e sua poss´ıvel validade l´ogica, para que possamos na conclus˜ao tentar responder se h´a alguma l´ogica em senten¸cas judiciais.

Tentaremos executar esta tarefa com o uso de alguns conceitos definidos por Alchourr´on e Bulygin em [e E. Bulygin1998]. O livro [e E. Bulygin1998] n˜ao trata diretamente da resolu¸c˜ao de problemas concretos tal como foi car- acterizada aqui, e sim de uma atividade que os juristas chamam de sistem- atiza¸c˜ao. Ao desenvolverem uma metodologia para a sistematiza¸c˜ao, Al- chourr´on e Bulygin tornaram mais precisos diversos conceitos utilizados no estudo do Direito, e com isso esclareceram a estrutura de diversos de seus problemas tradicionais. A seguir vai uma breve exposi¸c˜ao dos conceitos de caso gen´erico, caso individual, solu¸c˜ao, sistema normativo e de alguns out- ros que utilizaremos posteriormente, com a omiss˜ao de alguns detalhes que julgamos n˜ao prejudicar nosso prop´osito neste cap´ıtulo.