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O caso do “Armazenamento na forma de patrimônio” e projeto do sistema

4. MÉTODOS E PROCEDIMENTOS DE PESQUISA

5.4 O caso do “Armazenamento na forma de patrimônio” e projeto do sistema

A competência incorporada do operador “A” se materializa também nas suas contribuições para o aprimoramento dos projetos desenvolvidos na empresa. Embora não seja comum, ainda, a participação dos operadores desta empresa quando da concepção de projetos, o operador “A” diz que apenas posteriormente, quando as alterações se fazem necessárias, surge oportunidade para manifestar o conhecimento sobre o modo de funcionamento das instalações.

O conhecimento aprofundado que o operador “A” possui do processo de fabricação da fábrica poderia se converter numa ferramenta poderosa para a concepção de novos projetos. Infelizmente, não é isso que ocorre na empresa. Para fazer valer os seus conhecimentos, “A” deve, em certas ocasiões, utilizá-los para prever falhas futuras nos projetos. Somente quando os seus prognósticos se concretizam é que ele é ouvido e pode, efetivamente, fornecer aquilo que se faz tão necessário na concepção de novos projetos: O conhecimento e os saberes de quem participa diretamente do dia-a-dia da produção.

Um caso típico ocorreu quando o engenheiro projetista da empresa modificou uma válvula que controla a vazão de ar do principal ventilador da grelha. O projeto realizado para tal alteração previa o aumento da vazão de ar.

Entretanto, segundo “A”, “o que a gente precisava neste caso não era mais vazão e sim mais pressão”. O que foi desenvolvido pelo projetista consistia em duas válvulas operando em conjunto de maneira análoga: Ou as duas abrindo juntas ou as duas fechando juntas. Mas, na visão de “A”:

“Isso está errado. Não pode as duas abrir e fechar ao mesmo tempo. Quando uma abre, a outra tem que fechar e vice-versa. Por que? Porque o que a gente precisa lá é de pressão e não de vazão. Assim, se uma abre e a outra fecha, dá para a pressão que sai bombardear o monte que forma e ajudar a espalhar o material. Do jeito que está aí, isso não funciona assim. Eu já falei. Mas deixa quieto... Quando der problema eles vão lá e fazem o que a gente fala” (Operador “A”).

Algumas semanas após este depoimento, entrevistando o supervisor responsável pelo forno, ele próprio declarou que a válvula em questão tinha sido alterada, alguns dias antes, de acordo com o que o operador “A” havia proposto. O supervisor reconheceu que houvera uma falha no projeto e que se o operador participasse da sua elaboração desde o início e pudesse ter dado a sugestão antes da instalação da válvula incorreta, dificilmente seria necessário refazer o trabalho. Mas não soube responder porque os novos projetos não incluem a participação dos operadores.

Mesmo os projetos que são concebidos sem a menor participação dos operadores, que somente vão conhecer os mesmos e ter contato com eles após a instalação, são largamente modificados pelos próprios agentes da produção. Além das calhas da grelha, cujo projeto inicial praticamente já não corresponde ao que existe atualmente, pode-se citar o caso dos bloqueios do sistema.

Segundo alguns operadores, após a instalação do novo sistema, eles viveram situações difíceis pelo fato de que não havia bloqueios no sistema.

“Acontecia, às vezes, do forno parar e a alimentação continuar caindo como se nada tivesse acontecido. O exaustor também não bloqueava nada. Imagine só o risco” (Operador de forno).

Se toda atividade de trabalho é sempre, em certo grau, possível de ser descrita, por um lado, como seguimento de um protocolo experimental se desenrolando em conformidade com a imagem deste protocolo, por outro lado envolve o exercício de habilidades que não cabem em normas prescritas e que se referem ao histórico desse protocolo, embebido na historicidade que as dimensões mais formais e conceituais ignoram. Não se trata de distinguir “saber”, “saber-fazer” ou conhecimento, mas sim de entender que certas características da ação são determinadas por este patrimônio

adquirido ao longo de uma história específica. No caso dos projetos dos quais o operador “A” dificilmente é convocado a contribuir com este patrimônio, pode-se perceber a dificuldade de integração entre estes dois lados.

Por um lado, as representações dos engenheiros não englobam o segundo lado, referente ao que se situa na esfera do patrimônio adquirido. Ou, como nos diz Wisner (1994), essas competências pertencem aos operadores e à direção de baixo escalão. É a capacidade da instauração de uma dialética entre estes dois lados (ou ingredientes 1 e 2, como prefere Schwartz) que se pode denominar como ingrediente 3. É graças a ela que o método dos engenheiros pode produzir algo que se torna útil ao se conformar à singularidade ou aos casos específicos com os quais o operador se depara no cotidiano da produção. Essa junção entre o geral, o método, o teórico... e o singular, o particular, o específico, o caso... é tratada pelo ingrediente 3 da competência. Algo muito delicado temos aqui, essa negociação que opera ajustamentos felizes entre o singular – a pessoa e seu pedido – e essas definições regulamentadas de casos.

“Você sabe como é, né. Os caras (engenheiros) acham que sabem fazer o projeto lá na sala deles e depois que ele vai pra funcionar é que eles vão ver que só a teoria de lá não vai fazer sumir os pepinos todos que a gente sabe que vai dar aqui” (Operador “A”). No caso da válvula, o operador demonstrava um certo domínio da dimensão mais formal que se configura pelo conhecimento do modo de funcionamento de uma válvula dupla, as suas partes, formas de abrir e fechar, etc. Enfim, aquilo que se situa no campo do ingrediente n. 1 e que pode ser encontrado em forma de explicações técnicas sobre o funcionamento do dispositivo, repletas de desenhos, medidas, esquemas de funcionamento, etc., como trazidas por manuais de mecânica. Isso ficou evidente nas explicações por ele fornecidas sobre esse tipo de válvula.

Como o operador “A” poderia melhor auxiliar os projetos mediante a sua capacidade de por em exercício esse ingrediente n. 3, ou seja, esse encontro entre o método e o caso, essa transdução que permite conciliar os ingredientes 1 e 2 em benefício do bom funcionamento do sistema, ficou ilustrado nesse caso das válvulas. Além disso, é somente o ingrediente 4, que trata dos valores a que os indivíduos são convocados a

tem que, às vezes, peitar esse pessoal (gerentes) e dizer pra eles: olha, esse negócio não vai funcionar...”(operador “A”). Daí, porque é necessário ressaltar tanto a heterogeneidade e ao mesmo tempo a fusão desses ingredientes numa massa disforme que se materializa em sua síntese ou competência, no interior da qual alguns ingredientes heterogêneos se situam em pólos opostos da relação entre inteligência e meio da ação.