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O celular e o surgimento da Realidade Híbrida

CAPÍTULO II Tudo é uma questão de tempo

2.5 O celular e o surgimento da Realidade Híbrida

Os recursos tecnológicos, muitas vezes, distantes da maioria da população (por exemplo, os caríssimos equipamentos de cinema), agora estão à disposição de quase todos nós. Tal revolução deve-se, como já mencionado, em grande parte à popularização dos smartphones. Esses “telefones inteligentes” diferenciam-se dos seus antecessores, os telefones celulares, pela união entre recursos computacionais e a funcionalidade dos aplicativos. Esses rodam com a ajuda de sistemas operacionais, que permitem a criação de milhares de programas para os mais diversos usos.

Os smartphones hoje são utilizados inclusive em produções audiovisuais de cunho estudantil, como ilustrado pelo comercial do Iphone626. Nesta

propaganda, um filme é apresentado a um renomado diretor de cinema, que se impressiona com a qualidade das imagens e o requinte da produção, mas se surpreende ao descobrir que as filmagens foram realizadas por estudantes usando apenas o celular.

Assim é que um aparato se torna instrumento de uma revolução, como vem acontecendo contemporaneamente. A partir de seus estudos sobre as interfaces móveis de comunicação, Silva explica que

25Vídeo: CONECTA – Entrevista de André Lemos concedida à WebTV da UFBA. Disponível

em: https://www.youtube.com/watch?v=D4x5tIiWGpA

26iPhone 6s - Ridiculously Powerful. Disponível em:

O modo de utilização do celular difere substancialmente em diversas partes do mundo, dependendo de fatores culturais e sócio-econômicos. Sendo assim, os usos específicos em determinados lugares criam novos significados para o telefone celular como interface (SILVA, 2006, p. 26).

A autora esclarece que a visão “do ciberespaço como um espaço outro para se habitar ou um lugar que demandava a desconexão do espaço físico para ser acessado, não existe mais”. Segundo ela, “as tecnologias móveis de comunicação transformam as maneiras de interagir com os outros através da criação de um espaço híbrido que combina o físico e o virtual, a voz e a Internet, sons e imagens”. Este espaço híbrido, ao qual ela se refere

[...] é produzido quando “lugares” virtuais migram para espaços híbridos. Com as tecnologias avançadas de transporte e comunicação, as cidades se tornaram espaços de circulação, e lugares de encontro foram parcialmente transferidos para a Internet, dentro da qual ambientes de multiusuários foram considerados como lugares ideais de liberdade do sujeito. Hoje, as tecnologias móveis trazem esses “ambientes de multiusuários” novamente para os espaços físicos, modificando o modo como experimentamos os espaços urbanos. (...) Um espaço híbrido não é definido por fronteiras físicas, mas, mesmo assim, é um “lugar” de comunicação e sociabilidade. (...) Hoje, percebemos que os cidadãos também habitam espaços: não o espaço virtual de informação constituído pela Internet, mas os espaços híbridos urbanos (SILVA, 2004, p. 137).

A autora explica, ainda, que com a passagem do virtual ao híbrido, os ambientes de multiusuários são reterritorializados em espaços híbridos. E que esses ambientes emergem

Eliminando-se a distinção tradicional entre espaços físicos e digitais, um espaço híbrido ocorre quando não mais se precisa “sair” do espaço físico para entrar em contato com ambientes digitais (SILVA, 2006, p. 28).

O acúmulo de espaços híbridos, ou alastramento deles, gradualmente, passa a constituir uma realidade híbrida. Este é o ponto de destaque das tecnologias móveis, pois quando a principal via de acesso ao ciberespaço ainda eram os desktops, ou se estava na primeira realidade, ou se imergia no ciberespaço, principalmente com auxílio de acessórios, como os óculos 3D ou capacetes simuladores de realidade virtual. A partir do desenvolvimento dos

smartphones e todos os aparelhos móveis, não apenas se formam espaços híbridos, mas conjecturou-se toda uma realidade híbrida, caracterizada pela conexão constante e perene.

Assim, o celular não é mais tão análogo ao “espelho de Alice”, como o era o computador desktop. Em seu ápice, os computadores de mesa funcionavam como uma ponte, pois assim como o espelho que levava Alice a um outro mundo, ele era a passagem que levava o usuário a imergir na segunda realidade, como vemos em Matrix, por exemplo. A partir da propagação dos smartphones, “as bordas entre os espaços digitais e físicos, aparentemente claras com a internet fixa, tornam-se difusas e não mais completamente distinguíveis”, como explica Silva (2006, p. 28). Ela segue dizendo já não ser mais possível saber onde começa uma e onde termina outra realidade, porque elas tornaram-se imbricadas, uma está contida na outra o tempo todo. Por exemplo, as redes sociais permitem que qualquer pessoa interaja com outra, mesmo quando essa última não estiver online. A única questão é que neste caso a interação não será imediata.

Em relação às outras, a realidade híbrida se diferencia pela não necessidade de uso de equipamentos imersivos, como capacetes ou HUD (Head Up Display) ou programas/aplicativos específicos, uma vez que, ao acessar a internet de qualquer maneira, já significa estar na realidade híbrida. Quando Adriana de Souza e Silva (2004) escreveu sua tese, o acesso à realidade aumentada27 ainda dependia exclusivamente do uso dos equipamentos

imersivos citados acima, todavia, com o passar dos anos, a tecnologia avançou bastante e agora é possível adentrar a essa realidade usando somente um smartphone, desde que ele tenha o aplicativo específico para fazer a decodificação dos objetos da realidade aumentada, como é o caso do jogo Pokemón Go. Hoje, a principal diferença entre essas duas formas de realidade é que a realidade aumenta literalmente e cria um mundo novo a partir do mundo real, só visto ou percebido por quem a deseja. E, mesmo que no conceito de Silva (2004), a realidade híbrida não seja considerada totalmente imersiva

27http://www.realidadeaumentadabrasil.com.br/realidade-aumentada-tenha-uma-nova-

experiencia/

http://www.tecmundo.com.br/realidade-aumentada/2124-como-funciona-a-realidade- aumentada.htm

(porque o usuário conectado fica com um pé na primeira realidade e com o outro na segunda), talvez seja possível dizer que as duas formas de realidade (híbrida e aumentada) estejam imbricadas, bem como a primeira e a segunda realidades atualmente o são.

A respeito da imersão, alguns teóricos, e até o discurso cotidiano do senso comum, propagam a ideia de que hoje o celular é o centro das atenções dos indivíduos na sociedade contemporânea. Tanto é assim, que inúmeras peças de áudio e vídeos28 circundantes pelo ciberespaço reiteram a ideia de imersão e

ilustram como as pessoas vivem dentro do universo do celular, ou mais especificamente, do WhatsApp29, cenário desta pesquisa.

Contudo, contrariamente a esse discurso corrente de que os celulares removem seus usuários do espaço físico em que se encontram, Silva (2006) explica que, ao invés disso, a realidade híbrida promove a união entre espaços físicos e espaços digitais. Ao observar os grupos de WhatsApp, por exemplo, pudemos constatar que uma das primeiras coisas, quando da formação do grupo, é a busca por encontros presencias, ou como coloca Maffesoli (2009), elas buscam exercitar a socialidade, o estar junto sem compromisso.

28https://www.youtube.com/watch?v=RmQ8wRiRXw4 29https://www.youtube.com/watch?v=-5828Zk_2oE

https://www.youtube.com/watch?v=H23yIDG-jZg https://www.youtube.com/watch?v=JpfwVpqScPA