Releituras audiovisuais: a interatividade, o riso, o discurso e a
produção de sentidos outros
7.1 – 1º Objeto: Vôte Pranchei55 Título: Vôte Pranchei
Baseado em: Animação O Rei Leão, cena em que Mufasa apresenta o reino para Simba
Ano: 2015
Autor: K-Bça Pensante
Figura 12 - Quadro de prints das principais cenas do vídeo "Vôte Prantchei"
Trecho do roteiro original, referente à cena em que Mufasa apresenta o reino à Simba.
Mufasa
Olhe Simba, tudo isso o que o sol toca é o nosso reino.
Simba
Nooooossaaaa!!!
Mufasa
55 Segundo William Gomes (2000), no Dicionário cuiabanês, “vôte” é uma expressão de medo e
O tempo de um reinado se levanta e se põe como o sol. (Pausa) Um dia Simba... o sol vai se pôr com o meu tempo
aqui. E vai se levantar com o seu, como um novo rei.
Simba
Tudo isso será meu?
Mufasa Tudo isso!
Simba
Tudo isso, que o sol toca! (Pausa) E aquele lugar escuro lá?
Mufasa
Fica além de nossa fronteira. Jamais deve ir lá! Simba!
Simba
Mas um rei não pode fazer tudo o que quer?
Mufasa
(Sorrindo) Há muito mais o que um rei tem que fazer, além de sua vontade.
Simba
Há muito mais!?!
Na releitura, o autor do vídeo “K-Bça Pensante” apresenta a sua versão para a cena, como um texto carregado de humor e crítica, como é possível verificar no diálogo abaixo:
Mufasa
Simba
(suspira) Hum! Lindo demáx!!!
Mufasa
Essa é a nossa cidade verde de povo hospitaleiro. Mas um dia, um crápula vai acabar com a nossa cidade! Obras
inacabadas... buracos, sujeiras, desssviosss...
Simba
Vôte! Num credito!
Mufasa É verdade!
Simba
Uma cidade tão linda destruída (Pausa) E aquele lugar escuro lá?
Mufasa
Lá é Várzea Grande Xômano! Djamais deve ir lá!
Simba
Mas num pode nem dar uma “espiadinha”?
Mufasa
É melhor não. Conheço gente que se perdeu para sempre lá.
Simba
Vôte! Prantchei!
Mufasa Guri bão!
7.1.1 ...E o vento levou, ou Pulp Fiction virou?
A animação O Rei Leão é considerada um clássico, porque, após seu lançamento em 15 de junho de 1994, foi aclamada por crítica e público. A crítica o elogiou pela música, enredo e animação. Segundo Lucas Salgado (2014), em uma crítica para o site Adoro Cinema56, esse desenho “trata-se de um dos longas
mais mágicos da história da sétima arte”. Já Sydnei Cassal (2014), também crítico, que escreve para o site Portal Crítico57, cita alguns pontos interessantes
sobre o filme, que ajudam na compreensão da magnitude desta obra. Cassal (2014) afirma que
O Rei Leão faz parte da chamada nova era de ouro da animação
Disney, que se iniciou com A Pequena Sereia, em 1989, e continuou com A Bela e a Fera, Hércules, Aladdin, formando, na minha opinião, um quinteto que se completa com esta animação
clássica que já está fazendo 20 anos. (...) Além da qualidade
pictórica da animação, com sua exuberância de cores e detalhismos gráficos, a construção das personagens e principalmente a inspirada trilha sonora de Hans Zimmer, com canções compostas pelo cantor Elton John em parceria com o compositor Tim Rice, reservou de imediato a O Rei Leão o lugar de um novo clássico de animação da Disney. (...) O Rei
Leão resiste ao tempo. É uma das animações preferidas do
público de todas as idades há 20 anos, e fez de seus personagens Simba, Timão e Pumba dos mais apreciados pelas crianças em todo o mundo, tendo sido comercializados e reproduzidos de diversas maneiras pelo marketing que se seguiu ao sucesso do filme (CASSAL, 2014, grifos meu).
O preciosismo técnico/artístico não foi recompensado apenas pelas críticas positivas, como visto acima, conta também com vários prêmios, dentre eles: um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original (Hans Zimmer), outro de Melhor Canção Original ("Can You Feel the Love Tonight", de Elton John e Tim Rice), além do Globo de Ouro de Melhor Filme Comédia ou Musical. Desta maneira, impôs-se como inesquecível e nas palavras ditas por Cassal (2014) acima, ele é resistente ao tempo, duas características que, para Calvino (2007, p. 10-11), descrevem uma obra clássica. Todos esses fatores consolidam sua posição
56 Disponível em: <<http://www.adorocinema.com/filmes/filme-10862/criticas-adorocinema/>> 57 Disponível em: <<http://www.planocritico.com/critica-o-rei-leao/>>
como clássico do cinema de animação e o tornam um ícone da cultura contemporânea, ainda que seu enredo seja, “não baseado em uma história existente. Em outro sentido, é baseado em metade das histórias na mitologia clássica58 (ROGER,1994, p.01, tradução minha). No mesmo caminho, os
próprios produtores do filme confirmaram, que o roteiro havia sido baseado em Hamlet, de Willian Shakespeare, como comprova Caio Raphael Passamani (2013), em sua apurada análise comparativa entre as obras.
Aqui ou acolá ouve-se recitar: “Ser ou não ser… Eis a questão.”. Neste momento, quem há de alegar completo desconhecimento de tal fala teatral? De fato, no presente contexto social em que vive o homem moderno e em que reina a difusão da informação, a grande maioria, pelo menos uma vez na vida, ouviu o célebre início do tal monólogo: o monólogo do príncipe Hamlet. Autor? William Shakespeare. Agora, para além deste questionamento filosófico eternizado pelo Bardo de Avon, que mais sabe o leitor sobre Hamlet: a obra prima da dramaturgia shakespeariana? A verdade é que, para aqueles que nasceram da década de 90 pra cá, pouco se sabe que, de maneira lúdica, o enredo desta peça foi enraizado no ideário comum. Mas, como assim?! Pergunte isso a alguém que, frente ao singular vocabulário elisabetano da obra de Shakespeare, encarou-o de frente e disse “Perigo… Ha! Eu ando na selva braba! Eu rio na cara do perigo! Ha, ha, ha, ha…” (PASSAMANI, 2013).
O Rei Leão foi a maior bilheteria de 1994 e uma das maiores de todos os tempos. Voltou aos cinemas em 2011, na versão em 3D, ocasião em que proporcionou a Disney arrecadar ainda muitos milhões de dólares em bilheterias ao redor do mundo. Depois disso, tornou-se a animação desenhada à mão de maior bilheteria da história. Mesmo mantendo este recorde, pois não há mais animações desenhadas à mão, sua bilheteria foi superada em 2015 por Frozen: uma aventura congelante, também dos estúdios Disney (que também compõe nosso universo de análise, nos objetos 2 e 3). De acordo com Cassal (2014), O Rei Leão é a décima oitava maior bilheteria da história.
O sucesso levou a uma adaptação teatral na Broadway que está em cartaz desde 1997, duas sequências diretamente em vídeo, O Rei Leão 2 e O Rei Leão 3, e duas séries televisivas, Timão e Pumba e A Guarda do Leão.
58 "[...] not based on an existing story. In another sense, it is based on half the stories in
Diante da provocação suscitada pelo título, pode-se dizer que O Rei Leão, na atualidade, é uma Pulp Fiction, melhor dizendo, resistiu ao tempo e é um clássico, tanto pelo seu enredo, quanto pelas características técnicas, mas, sobretudo, pela sua capacidade de capitalização. Eu mesma tinha, quando criança, uma coleção inestimável de figurinhas de chiclete, com todas as cenas do filme, que embora tenha se perdido ficará sempre em minha lembrança.
7.1.2 Nada se cria, tudo se recria
O que deu origem ao vídeo Vôte Prantchei foi a intervenção realizada pelo sujeito-autor K-Bça Pensante quando da transposição do diálogo entre os leões de O Rei Leão, para a realidade e o contexto político-social da Cuiabá de 2015. Para Lótman (1998, p.88), esse tipo de ação diz respeito à segunda função do texto, que se refere à geração de sentidos, em que a mudança ou o ruído se converte na possibilidade de renovação. O autor a nomeia como função criadora, e toda a mudança de sentido que ocorre dentro desta perspectiva “se converte em um mecanismo de geração de novos sentidos” (LÓTMAN, 1998, p. 88).
Em termos técnicos, o interator manteve as imagens do clássico da Disney, quer dizer, não editou a parte imagética, nem suprimindo fotogramas — que Aumont (2006, p.136) define como sendo a menor parte de um filme —, nem alterando as cores, a respeito das quais Matheus Fragata (2011) diz o seguinte:
As cores primárias fortes dos animais desenhados com um traço bem realista contrastam diretamente com as cores mais elaboradas dos cenários. Também nesta cena, o espectador perceberá o esquema fotográfico que predominará durante o resto do longa. A luz incidente sempre deixa os contornos dos personagens com um aspecto leitoso e condensado denotando a forte riqueza de vida e calor [...] (FRAGATA, 2011, p. 07).
Suas modificações aconteceram, notadamente, no âmbito da sonoridade, principalmente no que diz respeito às falas dos personagens, uma vez que, até mesmo a música que compõe a trilha de fundo, é mantida.
A cena em análise se inicia com um Plano Geral da Pedra do Reino, algo bastante apropriado para um início de narrativa, já que, de acordo com Paulo
Barbosa, este tipo de plano “registra a acção e o espaço em continuidade”
(BARBOSA, 2011, p.16). Neste trecho, a iluminação é trabalhada por um feixe
central, que representa a luz solar incidindo perpendicularmente sobre os dois personagens, talvez como se a equipe de direção quisesse dizer que os dois eram os “iluminados pelos céus” para serem reis, apropriando-se do antigo discurso monarquista. Com relação aos os tipos de enquadramentos utilizados nesta animação,
Logo na majestosa e inesquecível sequência de abertura, os animadores mostram um trabalho de tirar o fôlego. Os planos gerais cheios de detalhes são uma representação fiel de toda a fauna, flora e geografia terrestre de uma porção do terreno africano (FRAGATA, 2011, p.07).
Em seguida, a câmera corta para os leões (pai e filho), a esta altura já posicionados no meio da pedra e contemplando o horizonte. No diálogo original, Mufasa (pai) apresenta o reino ao seu filho Simba. Esse importante momento da trama promove o avanço da mesma, ao revelar o contraste entre a exuberante natureza da savana e aridez do distante lugar escuro fora das terras do reino. No vídeo, ao invés de apresentar a savana, o leão mais velho apresenta Cuiabá, identificando-a como Cidade Verde, num casamento perfeito com a imagem apresentada no filme original, de uma vegetação permeada pelo verde. Na linguagem cinematográfica, esta cor, tradicionalmente, representa: natureza, calma, equilíbrio, esperança, saúde e/ou coragem.
Grande parte das cidades brasileiras possui uma alcunha, recebida sempre de acordo com alguma característica particular. Cuiabá recebeu o apelido “cidade verde” por sua vasta arborização, que permaneceu ao longo dos anos desde a sua fundação. Porém, atualmente, o verde vem dando lugar a construções e obras de grande porte que visam o desenvolvimento urbano. Podemos relacionar isso com a rapidez com que os frames de vegetação verde aparecem no vídeo, demonstrando assim que o verde que dava sentido ao apelido cede lugar hoje à expansão urbana, devido a interesses econômicos e políticos.
Em sua fala, ele caracteriza o povo como hospitaleiro, tudo isso com a câmera posicionada de contra, ou seja, nas costas dos personagens. Sobre os planos cinematográficos, Lótman (1979, p.60) explica que “El plano, pues, ante todo nos transmite información sobre um objeto determinado”.
Na adaptação, os personagens são mantidos e ainda que não haja identificação deles por nome, a ideia original de relação pai e filho é preservada. Tanto que, a mesma preocupação que envolve Mufasa no filme original é retratada no vídeo Vôte Prantchei, por meio da preocupação do pai, com relação aos cuidados que o filho deve ter na cidade, demonstrando, dessa forma, para o filho sua sabedoria e experiência de vida.
7.1.3 Tá rindo de quê?!
Assim, como a clássica cena dos leões na Pedra do Reino, o vídeo de K- Bça Pensante começa em tom sério, com a apresentação de Cuiabá — a cidade verde, de povo hospitaleiro — ao leãozinho. Porém a seriedade é quebrada no momento em que o quadro se abre em Plano Geral, aos 30 segundos e o Leãzinho pergunta: “E aquele lugar escuro lá?”, repetindo a frase dita por Simba na cena de O Rei Leão. A respeito da repetição Bergson (1980, p.20) vai dizer que onde “haja repetição ou semelhança completa, pressentimos o mecânico funcionando por trás do vivo”. Neste caso, “a verdadeira causa do riso é esse desvio da vida na direção da mecânica” (BERGSON, 1980, p.20), fato que no vídeo modificado indica o início da quebra do tom sério, para a inserção do viés cômico.
Este viés atinge seu ápice no momento em que o Leão adulto diz: “Lá é Várzea Grande Xômano! Djámax deve ir lá!”, ainda em alusão ao texto canônico, que apresenta frase semelhante. Porém, no filme, o tom ainda era de seriedade, enquanto, no vídeo, o vocativo Xômano indica um estreitamento de laços afetivos entre os personagens da cena, ao mesmo tempo, em que brinca com o nome do outro sujeito-autor desta tese, que é o Xômano que mora logo alí”, parceiro do K-Bça no programa televisivo “Pop Show” que vai ao ar de segunda
a sexta pela TV Band Mato Grosso, chamando a atenção do público e inserindo- o na intimidade dos dois produtores audiovisuais, numa linguagem popular dir- se-ia que isso “quebrou o gelo” entre os produtores do vídeo e o público.
Ao dizer: “Djamais deve ir lá” referindo-se a Várzea Grande, o leão adulto apresenta essa cidade como um lugar perigoso, que está à margem da capital — assim como o cemitério de elefantes, na obra original, estava para as terras do reino — e que oferece muitos riscos, afinal, ele conhece “gente que se perdeu pra sempre lá”. Aliado a isso, é possível fazer uma leitura de que o pai esteja protegendo o filho desta periculosidade contida em Várzea Grande e do futuro sombrio que poderá se instalar. E mesmo ele prevendo, que um dia, a cidade verde se igualará a sua vizinha Várzea Grande, no momento de sua fala, essa última já destruída, feia, escura, perigosa, por isso, é taxada de lugar escuro.
Assim, o pai, numa atitude protetiva e partindo de sua própria experiência de vida, procura impedir o contato do filho com o lugar escuro, que, em uma leitura associativa entre ética e estética, já realizada por Bakhtin,
O homem tem uma necessidade estética absoluta do outro, do seu ativismo que vê, lembra-se, reúne e unifica, que é o único capaz de criar para ele uma personalidade externamente acabada; tal personalidade não existe se o outro não a cria; a memória estética é produtiva, cria pela primeira vez o homem exterior em um novo plano da existência (BAKHTIN, [1920-1923] 2003, p. 33).
Ao retomar a associação proposta pelos autores citados, em que o belo é ligado ao bom e o feio ao ruim, Ignácio, Campos e Lemes (2009, p.18) apresentam a afirmação de que “o agir de cada indivíduo corresponde ao contexto social dado, a sua realidade de mundo, a soma destes irá determiná-lo ou criá-lo em termos estéticos”, ou seja, ao adiar o contato do filho com o lugar escuro, o pai estaria tentando evitar também o contato deste com o que é mal.
Na fala seguinte, o pequeno, talvez, na tentativa de arrancar uma resposta diferente do pai, desfere mais uma sacada, de inferência cômica: “Mas não pode nem dar uma espiadinha?!”. Na perspectiva da Análise do Discurso, esta seria uma forma de atenuar a ação, pois como explica Juliana Peres Araújo (2008)
Muitas vezes, os brasileiros procuram formas discursivas que atenuem o dizer. Essa atenuação seria no sentido de tornar menos grave, amenizar, suavizar algo que não é bom e poderia se tornar uma ofensa, por exemplo. Esses discursos atenuadores estão relacionados ao que se percebe como formas de polidez, e que compõem as memórias discursivas em cada língua/cultura (ARAUJO, 2008 p. 21).
Nesse sentido, prossegue Araújo,
[...] dizer que se vai dar uma “limpadinha” ou uma “olhadinha” pode ser uma forma de garantir que o interlocutor saiba que a limpeza não será profunda e completa e a olhada será rápida e superficial. Aqui poderíamos pensar, então, em atenuação no sentido de diminuir certas expectativas do interlocutor [...] (ARAUJO, 2008 p. 35).
A partir de tais palavras, a personalidade curiosa e insistente do leãozinho vai se desvelando. E, assim como Simba, no filme, parece ser um jovem disposto a correr riscos, para saciar sua curiosidade, pelo menos até o momento de alerta do pai, sobre “gente que se perdeu pra sempre lá”. Quando responde: “Vôte! Prantchei!”, que como verificável na figura 5 que está adiante, significa sair, escapar, se livrar de alguma situação embaraçosa. Segundo Bergson (1980, p.58) “A interferência de dois sistemas de ideias na mesma frase é fonte inesgotável de efeitos engraçados. Há muitos meios de obter interferência, isto é, de dar à mesma frase duas significações independentes e que se superpõe”.
Sendo assim, surgem duas possibilidades: a primeira seria compreender o leãozinho como alguém que segue as ordens do pai e prefere sair, escapar de tal situação e nem mesmo arrisca conhecer o lugar escuro. A segunda probabilidade é de ele ser um jovem astuto, que diz ao pai “Vôte! Prantchei!” (saí dessa, escapei), apenas para tranquilizá-lo, mas, que, como Simba arrisca e quando o pai não está por perto, vai ao local proibido... No entanto, essa segunda versão permanece apenas como uma projeção, uma vez que o vídeo se encerra. De qualquer forma, ambas possibilidades estariam contidas, no que Bergson (1980, p.62) aponta como a comicidade de caráter, que ele define da seguinte maneira: “...a comicidade de palavras segue de perto a comicidade de situação e vem se perder, como por sua vez este último gênero de comicidade, na comicidade de caráter”.
Mesmo sendo uma situação que cause o riso, este acontecerá com mais facilidade para o público familiarizado, tanto com o discurso social vigente, que reforça uma suposta disputa simbólica entre Cuiabá e Várzea Grande; quanto com o que compreenda, minimamente, o peculiar linguajar cuiabano, posto que K-Bça Pensante, assim como fazia o cronista Juó Bananére “reproduz graficamente tudo aquilo que capta foneticamente” (SALIBA, 2002, p.171). Caso o público não faça parte de nenhum dos grupos, a graça será bem menor ou inexistente. Afinal, como esclarece o historiador Moisés Martins (1995, p.95)
O forasteiro em bem chega a Cuiabá, tem certa dificuldade para entender a fala do cuiabano, pois apesar do ritimar embalado da fala, os grupos vocálicos são pronunciados unidamente dificultando o entendimento de pronto, entretanto, quando a fala é pausada e há dicotomização das palavras, o entendimento torna-se mais fácil, sem considerarmos as possíveis frases como idiomáticas regionais (MARTINS, 1995, p.95).
Portanto, é necessário explicar o significado de algumas palavras e expressões, a fim de ampliar a compreensão do vídeo e tomar distância da familiaridade para com estes termos e expressões, já que a Análise do Discurso “recusa a transparência da linguagem e faz intervir não a vontade do saber (da verdade) no analista, mas o inconsciente e a ideologia na consideração do sujeito” (ORLANDI, 1996, p. 99).
Consequentemente, faz-se necessário dizer que, de acordo com o Dicionário Cuiabano, a palavra “vôte” é uma expressão de medo e espanto, algo como “Deus me livre!”; já “Xômano” ou “Xô mano” é um tipo de vocativo e também cumprimento a um amigo ou pessoa próxima; já o termo “prantchei”ou “pranchei” significa: saí, escapei, “tô fora” (GOMES, 2000). Os sujeitos-autores estudados, nesta tese, também colaboram para a elucidação destes termos. Na imagem abaixo, produzida por K-Bça Pensante, compreende-se o significado de algumas, dentre as quais “pranchei” ou “prantchei”.
Figura 13 - Dicionário cuiabano
Essas são apenas algumas expressões e verbetes do linguajar cuiabano, que voltarão a aparecer nos próximos objetos de análise, acompanhados por outros termos, os quais, os sujeitos-autores, buscando a comicidade por meio das palavras, empregam com intuito de promover o riso, porque como aponta Bergson
Sem dúvida, as frases não se fazem por si sós[...] A frase, a palavra, terão aqui uma força cômica independente. A prova disso é que ficaremos embaraçados, na maioria das vezes, para dizer do que rimos, embora sintamos confusamente que existe uma causa para rir (BERGSON, 1980, p. 51).
O autor explica que a linguagem é a possibilitadora de grande parte dos efeitos cômicos, uma vez que ela é a grande geradora de sentidos da/na cultura. O filósofo prossegue fazendo uma distinção entre o cômico que a linguagem exprime e o que ela cria, em sua perspectiva,
O primeiro poderia, a rigor, traduzir-se de uma língua para outra, sob pena, entretanto, de perder grande parte do seu vigor ao transpor-se para uma sociedade nova, diferente por seus costumes, literatura e sobretudo por suas associações de ideias.