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3. A PERSPECTIVA DIALÓGICA COMO TEORIA E METODOLOGIA DE

3.1 A PERSPECTIVA TEÓRICA E METODOLÓGICA DA PESQUISA

3.1.2. Os conceitos teóricos

3.1.2.1 O conceito de ideologia

A concepção de linguagem enunciativo-discursiva ressalta seu caráter histórico, social e ideológico, fundando a ideia de “língua como um fenômeno integral concreto” (BAKHTIN, 2010 [1963], p. 209). A observação da linguagem em uso leva Volochínov/Bakhtin a afirmarem que a “língua vive e evolui historicamente na comunicação verbal concreta, não no sistema linguístico abstrato das formas da língua nem no psiquismo individual dos falantes”, por isso, sua realidade fundamental é a interação verbal (2009 [1929], p. 128).

Essa percepção engendra o entendimento de linguagem como um signo ideológico na medida em que ela se manifesta duplamente, a saber, em sua materialidade física e em sentido sócio-historicamente construído pelas relações humanas em dado contexto social, revelando em si valores da realidade representada. Volochínov/Bakhtin (2009 [1929]) explicam que os signos são objetos naturais tais como os produtos tecnológicos e de consumo, mas que desempenham uma função que ultrapassa suas próprias particularidades. Para os autores:

Um signo não existe apenas como parte de uma realidade; ele também reflete e refrata uma outra. Ele pode distorcer essa realidade, ser-lhe fiel, ou apreendê-la de um ponto de vista específico, etc. Todo signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica (isto é, se é verdadeiro, falso, correto, justificado, bom, etc.) ” (VOLOCHÍNOV; BAKHTIN, 2009 [1929], p. 32).

Em um texto em que Volochínov (2013a [1930]) discute a essência da linguagem, a ideologia é associada à compreensão do homem no que respeita ao mundo que o circunda e à relação que com ele estabelece, gerada pela necessidade de organização das atividades produtivas. Nesse texto, ideologia é definida como “todo o conjunto de reflexos e interpretações da realidade social e natural que se sucedem no cérebro do homem, fixados por meio de palavras, desenhos, esquemas ou outras formas sígnicas (VOLOCHÍNOV, 2013a [1930], p. 138).

A formulação de Volochínov liga a ideologia a sentidos que são dados pelos homens à realidade, por meio do uso de produtos materiais dentre os quais se destaca como meio privilegiado o material verbal, porque todas as relações sociais em todos os contextos são tecidas com base na palavra, que é “o fenômeno ideológico por excelência” (VOLOCHÍNOV/BAKHTIN, 2009 [1929], p. 36). Para os autores, a ideologia e os signos são correspondentes de modo que toda ideologia possui um valor semiótico.

Medviédev (2012 [1928]), em uma crítica às inconsistências contidas no método formal aplicado aos estudos literários, define os signos ideológicos como elemento da realidade material e social que envolve o homem, isto é, do universo valorativo objetificado do homem, dado que são forjados nas relações entre os participantes de determinado contexto social. Por isso, a linguagem não pode ser percebida em sua essência como um sistema neutro nem como um fato individual da consciência, conforme aparece em duas correntes do pensamento linguístico com as quais Bakhtin e o Círculo dialogam, identificadas em seus textos como o objetivismo abstrato e o subjetivismo idealista (VOLOCHÍNOV, 2009 [1929]; BAKHTIN, 2003 [1952-1953]).

A primeira corrente, que tem em Saussure seu principal representante, concebe a língua como um sistema abstrato de normas, expresso em formas linguísticas isoladas a serem apreendidas pelo falante em sua conformidade, privilegiando os aspectos objetivos e formais da língua. A segunda, representada principalmente por Humboldt, percebe a língua como um fenômeno de expressão interna do falante, enfatizando a dimensão individual e criativa da língua. Em contraposição a essas percepções de língua, a ideia de signo ideológico compreende um fenômeno que emerge do processo ininterrupto da interação social no qual as formas linguísticas são assimiladas pelos participantes no sentido que assumem na corrente interacional, destacando o aspecto relacional e valorativo da língua (VOLOCHÍNOV, 2009 [1929]; BAKHTIN, 2003 [1952-1953]). Volochínov/Bakhtin ressaltam que:

[...] não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial. É assim que compreendemos as palavras e somente reagimos àquelas que despertam em nós ressonâncias ideológicas ou concernentes à vida (VOLOCHÍNOV; BAKHTIN, 2009 [1929], p. 98-99).

Ao discutir a diferenciação entre a linguagem na vida e a linguagem na arte, Volochínov (2013 [1926]) esclarece que a situação de interação imediata e o contexto social mais amplo penetram e exercem influência na palavra a partir do seu interior, por isso, cada palavra enquanto signo é a arena onde se desenvolvem as tensões sociais e se confrontam índices de valor contraditórios. Como fenômeno da interação verbal, a linguagem serve a diferentes grupos sociais de uma mesma comunidade semiótica e expressa as relações e tensões sociais que ocorrem em seus limites.

A percepção da linguagem como um fenômeno ideológico leva Volochínov/Bakhtin (2009 [1929]) a caracterizá-la como um produto social e histórico da atividade humana coletiva que reflete e refrata em seus elementos temáticos e formais os valores e posições sociais, as visões de mundo e as contradições do contexto econômico, social, político e cultural de uma dada sociedade. A ideologia como elemento da linguagem através de sua integração no signo adquire dentro de contextos distintos índices múltiplos de valores que expressam diferentes posições sociais.

Percebemos na concepção de linguagem de Bakhtin e o Círculo que a vida social em suas diferentes formas de manifestação e organização é determinante na constituição da linguagem (VOLOCHINOV; BAKHTIN, 2009 [1929]). Em contrapartida, a linguagem desempenha papel importante na organização da vida social. Em uma relação complexa com a vida, a linguagem em sua concreticidade reflete as condições específicas e as finalidades de cada espaço de atuação humana, tanto nos seus temas quanto nas suas formas (VOLOCHINOV; BAKHTIN, 2009 [1929]). Com isso, desponta mais um conceito basilar dessa teoria de linguagem que consideramos pertinente para este trabalho, a saber, a de campo ou esfera de atividade humana.