4. A ORGANIZAÇÃO DISCURSIVA DO PERIÓDICO PEDAGÓGICO “NA PONTA
5.2 A OUTORGA DO PROFESSOR PARTICIPANTE E O DISCURSO DA QUALIDADE EM
Outra linha de construção do discurso autoral institucional é a defesa da competição ressemantizada como componente valorativa do modelo da Olimpíada. No processo de legitimação dessa orientação, o autor apoia-se no discurso dos educadores participantes e no da qualidade em educação. Para essa análise, selecionamos como enunciado representativo o editorial intitulado “Nossa chama é a palavra”, o qual foi publicado na edição n° 9 de junho de 2008, e, seguindo a dinâmica da análise anterior, remetemos a outros enunciados do gênero para mostrar o seu grau de incidência no corpus selecionado.
O conteúdo temático do editorial “Nossa chama é a palavra” é em si todo metafórico a começar pelo próprio título. O título é uma frase nominal em que o verbo de ligação de aspecto estático (ser) é empregado em um presente gnômico. Fiorin (1996) expõe que o presente gnômico ou omnitemporal é utilizado quando o momento de referência do enunciado é ilimitado. Para esse linguista, esse tempo é utilizado para enunciar verdades eternas ou que se pretendem como tais conforme aparece nas definições em que um “sempre” permanece implícito. No caso do título em análise, a relação entre os elementos da frase é definida como uma verdade pelo autor institucional (pronome possessivo nossa correlativo do pronome pessoal nós).
Consideramos que a expressão decidida do título não está orientada apenas para o objeto sobre o qual o autor declara uma verdade categórica, mas também para outro discurso sobre esse mesmo objeto, porém, com orientação contrária. Desse modo, o título antecipa uma
tensão no tratamento do objeto discursivo que se mostra, inicialmente, na forma de uma polêmica velada e, posteriormente, de uma polêmica aberta.
Para Bakhtin, na polêmica velada, o discurso está orientado para um objeto e para outro discurso que procura refutar no próprio objeto. Essa polêmica velada não se manifesta na orientação direta para o discurso do outro, mas na entonação e na construção sintática de modo que:
A ideia do outro não entra ‘pessoalmente’ no discurso, apenas se reflete neste, determinando-lhe o tom e a significação. O discurso sente tensamente ao seu lado o discurso do outro falando do mesmo objeto, e a sensação da presença desse discurso lhe determina a estrutura (BAKHTIN, 2010 [1929/1963], p. 224-225).
O conteúdo da definição, que constitui o título do editorial, é apresentado como uma verdade. Sob o discurso de verdade é possível perceber uma reação a outro discurso que coloca em dúvida essa validade do conteúdo do discurso do autor e que se manifesta nas réplicas antecipadas enquadradas no desenvolvimento do editorial.
A referência imagética “chama” aponta que a introdução e construção do objeto discursivo no editorial ocorre de modo metafórico e, em um primeiro momento, evoca o símbolo dos Jogos Olímpicos e, na base dessa simbologia, o discurso autoral constrói a analogia em relação ao objeto do editorial.
A chama da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro já percorreu todo o Brasil. Por onde passou, acendeu novas chamas que foram se espalhando por Estados e municípios, em escolas públicas do campo e da cidade (NPL, no 9, Editorial, 2008).
No trecho acima, introdutório do editorial, o discurso autoral reporta-se ao processo de expansão da Olimpíada de Língua Portuguesa pela analogia ao ritual de passagem da chama dos Jogos Olímpicos nos estados do país sede do evento. Nesse trecho, a analogia serve de recurso para informar em tom emocional (colorido lexical de determinadas expressões) a rápida expansão do Programa em âmbito nacional, a “Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro já percorreu todo o Brasil”.
Sob o discurso metafórico e emocional, a ampliação da Olimpíada é creditada a algo que, comparado ao processo do fogo, se acende, se espalha e contagia o público destinatário, e não a uma vontade política de diferentes instâncias da educação que se
mobilizam e utilizam os meios e os modos de que dispõem para convencer o público a participar.
Temos como pressuposto teórico que o exame dos discursos passa pela consideração do contexto social imediato dos textos, mas também dos distantes no qual o discurso foi produzido, em outras palavras, do momento histórico no qual o autor do texto mergulhou, bem como os destinatários presumidos desses discursos, além daqueles com os quais eles se cruzam, convergem e divergem no interior do próprio texto (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2009 [1929]; BAKHTIN, 2003 [1953-54]).
Com base nessa consideração, reportamos ao contexto político e educacional brasileiro que faz fundo à produção do editorial em análise. Ele aparece na segunda edição do periódico no formato revista da OLP, oficializada como política pública de ensino e de formação continuada no início do ano 2008 pela parceria entre o MEC, a FIS e o Cenpec, conforme expõe o editorialista na edição n ° 8 de fevereiro de 2008.
A primeira edição da revista Na Ponta do Lápis, em 2008, é duplamente especial. A partir de agora ela passa a ser publicação da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, um projeto do Ministério da Educação em parceria com a Fundação Itaú Social e o Cenpec. Como uma das ferramentas de comunicação com educadores que participarão da Olimpíada, ela continuará a trazer informações, orientações e sugestões sobre o trabalho com a nossa língua em sala de aula (NPL, n° 8, Editorial, 2008).
A primeira realização do Programa no formato olimpíada ocorre em 2008 quando se torna política pública de ensino e formação continuada por força do Acordo de Cooperação Técnica n° 001, firmado com o MEC (cf. Diário Oficial da União, n° 32, 18 de fevereiro, 2008). Na condição de política pública, a Olimpíada encontra todo um aparato institucional montado pelo MEC que favorece sua rápida ampliação.
A partir de 2007, ano da assinatura do protocolo de intenções, o governo federal realiza uma série de alterações nas políticas de educação em um contexto de mobilização governamental e não governamental em prol da dita melhoria da qualidade da educação básica pública. Houve alterações no regime de colaboração e na política de avaliação (cf. Decreto 6.094 de abril de 2007), com implicações nas políticas de ensino e formação docente.
Nesse contexto, institui-se uma forte política de avaliação dos resultados da educação, sob o discurso da qualidade da educação, por meio de mecanismos de controle e medição, a exemplo do Ideb, um índice criado a partir do desempenho dos alunos em avaliações padronizadas e do fluxo educacional. O Ideb passa a conformar as políticas públicas da
educação básica de ensino e formação e sustenta em prol de sua evolução o discurso do consenso nacional em educação na construção do qual atuam agentes públicos e privados (cf. Capítulo II, Seção II, Decreto 6.094/2007).
Nessa mesma época, institui-se o regime de adesão e a gestão dos programas de formação continuada de maneira triparte em que entram o MEC na elaboração e coordenação dos programas; as faculdades e centros de educação e linguagem das universidades públicas e comunitárias na oferta dos cursos; e as secretarias de educação de estados e municípios no levantamento da demanda e divulgação dos cursos e os professores na sua recepção. Essa é a dinâmica de relação que constitui a Renaform –Rede de Formação Continuada dos Profissionais da Educação Básica.
No caso da Olimpíada, essa dinâmica altera-se de alguma maneira em decorrência de serem outros os meios de colaboração e gestão da política de formação, a saber, a parceria público-privada, de modo que junto ao MEC na elaboração e coordenação estão a FIS e o Cenpec, o qual também atua na oferta e realização dos cursos junto com as universidades. Juntam-se também às SEs – Secretarias de Educação, na divulgação e logística dos cursos, as Undimes – União Nacional dos Dirigentes Municipais – e o Consed – Conselho Nacional dos Secretários de Educação, além da propaganda na mídia, a exemplo do Canal Futura, entre outros. Com os professores na recepção, essa é a dinâmica de relações que constitui a Rede de Ancoragem da Olimpíada.
Assim, a Olimpíada, como política pública de ensino e formação continuada, surge em um contexto político-educacional em que há um aparato institucional a serviço da mobilização em torno de ações e programas tidos como de impacto positivo na evolução do Ideb (cf. Capítulo IV, Seção I, § 4º, Decreto 6.094/2007). Essas condições favorecem a rápida ampliação do programa, conforme evidencia o discurso autoral no editorial de uma edição posterior:
Um dos momentos mais importantes dessa trajetória foi a entrada do Ministério da Educação, em 2008, como parceiro institucional. Essa parceria permitiu que a Olimpíada se tornasse uma política pública e atingisse capilaridade inédita em programas dessa natureza, chegando a 90% dos municípios brasileiros (NPL, n° 21, Editorial, 2014, p. 4).
Não consta, no protocolo de intenções, informação de que essa ampliação fosse parte do acordo, mas uma notícia-propaganda, publicada na capa da edição n° 6 de agosto de 2007, sinaliza nessa direção:
O Ministério da Educação, a Fundação Itaú Social e o Cenpec assinaram protocolo de intenções para usar a metodologia pedagógica do programa Escrevendo o Futuro na Olimpíada Brasileira de Língua Portuguesa, prevista para 2008 e que irá atingir toda a rede pública do país. A olimpíada vai ampliar a abrangência do programa, envolvendo alunos do ensino médio, das sétimas e oitavas séries, além das quartas e quintas que já participavam. Segundo o ministério, a meta é atingir 80 mil escolas e 2 milhões de professores no Brasil (NPL, n° 6, Capa, 2007).
Assim, no editorial em análise, as relações político-institucionais que viabilizam a ampliação do programa são apagadas em prol da adoção de um discurso metafórico de colorido emocional que atribui à natureza do objeto do programa e ao seu objetivo a sua força de ampliação:
Essa chama não seguiu numa tocha levada por atleta famoso, acompanhada por batedores e seguranças: ela caminhou livre, como idéia luminosa, não apenas para ser vislumbrada, mas para ser apresentada e compartilhada por meio da palavra. Foi por isso que contagiou e envolveu tanta gente (NPL, no 9, Editorial, 2008).
A construção do objeto discursivo do editorial avança até certo ponto na base da analogia com o ritual de passagem da chama dos Jogos Olímpicos, embora ela não recaia sobre os processos, mas sobre os objetos que o termo “chama” representa, no caso, o fogo dos Jogos Olímpicos e a palavra na condição de objeto da Olimpíada.
Nessa analogia ficam subjacentes dois movimentos, um de aproximação, outro, de distanciamento. O autor aproxima os dois eventos quando a comparação envolve o seu escopo. No caso, a analogia ao evento esportivo serve para celebrar a “grandeza” estrutural do projeto educacional. Contudo, quando a comparação abrange a sua natureza, o autor estabelece o devido distanciamento.
Por exemplo, a partícula “não” estabelece uma relação de negação entre o que representa os Jogos, de um lado, e a Olimpíada, de outro: “Essa chama não seguiu numa tocha levada por atleta famoso, acompanhada por batedores e seguranças [...]” (NPL, n° 9, Editorial, 2008). Se, no primeiro período, a analogia entre o ritual de passagem dos Jogos e o processo de expansão da Olimpíada permite uma aproximação quanto ao escopo dos dois eventos, no segundo, quando a correlação envolve suas propriedades, a imagem em negação desfaz essa aproximação.
Se a imagem referente ao ritual de passagem dos Jogos insinua que sua chama simboliza fama “atleta famoso” e ostentação “batedores e seguranças”, a imagem criada para representar o processo de ampliação da Olimpíada sugere outra orientação: “ela caminhou livre, como idéia luminosa [...]” (NPL, n° 9, Editorial, 2008). Nesse momento, a analogia desloca-se para outro campo semântico, instaurando a antiga metáfora das luzes, a qual é clássica na linguagem educacional e filosófica.
A metáfora das luzes está presente na anedota contada por Diógenes Laertios, em sua “Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres” (1977), sobre Diógenes de Sinope, que viveu entre 412/403 a.C. a 323 a.C, cujo dito “procuro o homem”, com uma lamparina acessa, sugere a ideia de busca da essência. Também aparece na “Alegoria da Caverna”, uma passagem do livro “A República” (1956), do filósofo grego Platão. Na teoria platônica das ideias inatas, as percepções no mundo exterior, à luz do sol, correspondem ao mundo inteligível, isto é, ao conhecimento produzido pelo intelecto, à luz da razão.
Na Europa do século XVIII, a metáfora das luzes se popularizou com o Iluminismo, movimento filosófico, político, social, econômico e cultural, que tem a razão como uma força intelectual original cuja função principal consiste em conduzir o intelecto no caminho que o leva à verdade (FALCON, 1994). Por isso, preconiza a razão como o melhor caminho para a liberdade, a autonomia e a emancipação do homem, ocupando nele posição privilegiada a educação (PUJOL et al., 2015).
Assim, a sequência, “ela caminhou livre, como ideia luminosa”, remete não apenas ao objeto da Olimpíada, mas insinua também um ideal de educação que repousa em determinada pedagogia. Bakhtin (2003 [1953-54]) ensina que os enunciados se conhecem e ecoam e ressoam outros enunciados com os quais se ligam pela identidade da esfera de comunicação. Ainda o filósofo da linguagem observa que as formas de introdução do discurso do outro no enunciado são variadas, podendo ser o discurso pleno ou apenas uma palavra ou oração que o representa plenamente.
Na defesa do modelo da Olimpíada, o autor evoca metaforicamente o já-dito de certo pensamento filosófico sobre o conhecimento e, por extensão, sobre a educação. Com isso, permite sugerir que o programa se insere na tradição da pedagogia das luzes em que a educação comparece a serviço de um projeto maior de emancipação do homem por meio de uma razão esclarecida e de seu progresso em termos intelectual, que permite ao homem a verdadeira liberdade (FALCON, 1994; PUJOL et al., 2015).
A sequência “não apenas para ser vislumbrada, mas para ser apresentada e compartilhada por meio da palavra” (NPL, n° 9, Editorial, 2009), articulada à sequência anterior, reforça a interpretação de que o autor dialoga com a pedagogia das luzes na definição do objeto da Olimpíada. A pedagogia das luzes advoga uma educação concreta fundada no princípio da observação e da experimentação e contrapõe-se ao ideal antigo voltado à “formação do homem de bem, hábil em manejar ideias, fórmulas e palavras” (PUJOL et al., 2015, p. 132).
Essa sequência aponta para uma finalidade (o uso da conjunção “para”) e também envolve uma adição (o uso da expressão conjuntiva “não apenas...mas (também) ”). Em relação à acepção dos verbos principais (no particípio), o dicionário Houaiss (2009) registra “vislumbrar” como um verbo que indica um ato de ver parcialmente alguma coisa, lançar uma luz tênue, começar a aparecer. O verbo “apresentar” assume diferentes acepções como mostrar (se), mostrar, expor, dar a conhecer com ordem e clareza e também submeter-se a exame, aprovação ou apreciação. Já “compartilhar” indica um ato de ter ou tomar parte em; arcar juntamente, compartir com alguém alguma coisa.
Assim, as orações aditiva e final reduzida de particípio, bem como o semantismo dos verbos no particípio, insinuam um duplo ideal do programa. De acordo com Pujol et al. (2015), o cidadão útil, suscetível a contribuir com o empreendimento coletivo da civilização é o ideal da pedagogia das luzes. O semantismo dos verbos “apresentar” e “compartilhar” indica nessa direção. No entanto, a expressão “não é apenas...mas” implica também uma adição de objetivos e não a negação de um em favor de outro. Pujol et al. (2015) expõe que o homem de bem, capaz de brilhar pelo manejo das ideias, fórmulas e palavras é o ideal da educação antiga. Na direção dessa interpretação atua o semantismo tanto de “vislumbrar” quanto de “apresentar”.
Acreditamos que a relação entre o discurso autoral do editorial e os discursos da pedagogia das luzes e tradicional é uma leitura possível, embora ela fique nas sombras do discurso metafórico. Bakhtin (2003[1953-54]) ensina que a reassimilação do discurso do outro pode dar-se em grau variado, de maneira subentendida ou explícita. No caso, a expressão metafórica é um índice da presença implícita do outro no enunciado do autor. Ela instaura o diálogo com um supradestinatário que o autor do editorial propõe em busca de sustentação de sua posição acerca do modelo do programa.
O supradestinatário, segundo Bakhtin (2003[1953-54]), é um destinatário como escapatória que, em diferentes épocas e sob diferentes concepções de mundo, assume, de acordo com as circunstâncias, uma expressão ideológica real, tal como Deus, a História, a Ciência.
Para ele, esse diálogo é um momento constitutivo do enunciado e decorre da natureza da palavra que sempre pressupõe uma instância que a compreenda e a justifique de modo a responder e a gerar novas respostas.
No caso do editorial, essa instância superior na qual o autor busca uma compreensão responsiva aparece na voz da Pedagogia das Luzes, embora sua manifestação se dê na forma de uma expressão metafórica que se restringe a uma afirmação acerca da natureza do programa sem explicações que melhor a esclareçam. Bakhtin (2003[1953-54]) observa que o recurso ao supradestinatário representa certa desconfiança do autor do enunciado em relação à capacidade de compreensão do seu destinatário presumido.
O recurso à voz dessa instância superior, metaforicamente transmitida, manifesta uma estratégia enunciativa de introdução da lógica do modelo do programa que remete a uma dinâmica mais própria do campo produtivo do que do campo educacional público, no qual sua promoção explícita já não é socialmente aceita. Assim, a referência metafórica à capilaridade do programa e a sua vontade nobre – levar as luzes do conhecimento por meio da palavra –, é um discurso com “mirada em torno” em face da palavra antecipável do seu destinatário presumido (BAKHTIN, 2010[1929/1963], p. 235-236).
De acordo com Bakhtin (2003 [1954-53]), a expressão do enunciado não resulta tanto da orientação do autor para o seu objeto, mas da consideração da orientação do outro para o mesmo objeto, com o qual polemiza, a qual determina também o tom e o estilo. No editorial, a reação polêmica ao discurso presumido do outro manifesta-se no tom emotivo presente nas expressões metafóricas: “chama”, “acendeu novas chamas”, “chamas espalhando”, “ela caminhou livre”, “idéia luminosa”.
O recurso metafórico e o tom emotivo evidenciam certa atitude evasiva do autor diante da objeção do seu destinatário presumido em relação ao objeto do seu discurso. O conflito indireto com o discurso do outro, por meio da polêmica velada, intensifica-se e culmina na resposta exaltada polemicamente aberta, a qual, segundo Bakhtin (2010 [1929/1963], p. 224), “está simplesmente orientada para o discurso refutável do outro, que é o seu objeto”.
Foi por isso que contagiou e envolveu tanta gente. Milhões de brasileiros, entre professores, estudantes e pedagogos, já estão participando da competição em que todos saem ganhando (NPL, n° 9, Editorial, 2008). [Grifos nossos]
O tom “exaltado” da resposta (contagiou, tanta gente, milhões de brasileiros) assinala que o discurso do autor instaura-se tendo como subentendida uma objeção acerca do
modelo de ensino e formação adotado na Olimpíada e que lhe favorece escala, a saber, a competição. O discurso do autor tensiona velada e abertamente com o discurso de outrem que concebe a lógica da competição do programa como motivo de sua expansão.
O discurso do autor “se torce na presença” da objeção do seu interlocutor, orientando-se diretamente para o seu objeto pela enunciação metafórica, “e só indiretamente ataca o discurso do outro” (BAKHTIN, 2010[1929/1963], p. 224-225), negando-o pela afirmação metafórica desse objeto como portador de um elevado ideal político-educacional “ela caminhou livre, como idéia luminosa”, no sentido de “levar as luzes” do conhecimento da palavra ao povo “Milhões de brasileiros, entre professores, estudantes e pedagogos” em termos de sujeitos escolares.
Sob o discurso metafórico e o tom emotivo, o autor enuncia a Olimpíada como portadora de uma “grande missão” diante da qual a ideia de competição se ressignifica paradoxalmente, ou seja, nela, “todos saem ganhando”. O autor pressente a reação do interlocutor a essa ideia paradoxal de modo que sua resposta antecipada irrompe em seguida na forma de uma confissão de colorido polêmico aberto, ou seja, “simplesmente orientada para o discurso refutável do outro” (BAKHTIN, 2010[1929/1963], p. 224).
É claro que cada professor, cada diretor de escola, cada orientador pedagógico ou supervisor de ensino quer ver seus alunos no pódio (NPL, n° 9, Editorial, 2008). [Grifos nossos]
O sintagma adjetivo epistêmico asseverativo “É claro que” projeta um tom de convicção sobre o conteúdo do que se afirma na oração subordinada, sugerindo uma confissão da validade da posição do destinatário presumido sobre o que motiva a participação dos educadores no programa. Contudo, esse acento tensiona com a orientação do autor que procura fazer ver a lógica da competição como algo natural no contexto educacional porque desejável pelos próprios educadores.
O termo “competição” carrega uma carga simbólica filiada ao campo produtivo e esportivo, sendo comum a ideia de concorrência a uma mesma pretensão por parte de duas ou mais pessoas ou grupos, com vistas a especialmente superar o outro (HOUAISS, 2009). Por