CAPÍTULO 2. D. AFONSO E O REI D. DINIS: OS CONFLITOS NO ABRIR DO NOVO
2.2. O conflito de 1281
2.2.1. O conflito e a composição
274 Ch.AfIII, doc. 736; OACSB, mç. 2, doc. 87.
O primeiro conflito entre o infante D. Afonso e seu irmão não foi registrado pelas penas de muitos dos cronistas medievais e modernos. Se tomados apenas os registros de Rui de Pina275, Lopes276 e Duarte Nunes de Leão277, acreditar-se-ia que a contenda entre as partes teve início por volta de 1287 – motivada por contexto e causas que teremos a oportunidade de abordar quando formos tratar desse episódio –, negligenciando a ocorrência de 1281.
Dentre os cronistas, foi Francisco Brandão o responsável por avançar em interpretações acerca do embate em questão, colocando a construção de muralha e fortaleza em Vide como cerne da contenda entre o infante D. Afonso e D. Dinis. Escreve o autor: “Era Vide naquelle tempo lugar aberto sem muros, nem Castello, preceolhe ao Infante ser conueniente estar cercada; a tenção seria sò de enobrecer a Villa; a presunção delRey julgou outra cousa; indicios aueria que ajudassem esta sospeita”278. Assim como o cronista, Fernando Félix Lopes279, José Mattoso280, José Augusto Pizarro281 e Miguel Gomes Martins282 consideram o ato de erigir estruturas defensivas naquela localidade como elemento causal para o conflito entre os irmãos.
Não é possível constatar, por meio dos documentos régios, em que data as ações de fortificação levadas a cabo pelo infante D. Afonso chegaram ao conhecimento do rei seu irmão. Tomando por base o itinerário de D. Dinis traçado por Virgínia Rau, observa-se que a partir de agosto o monarca deixou a região centro-norte do reino – Lamego, Campeã, Constantim, Sernancelhe –, passando por Celorico e chegando a Estremoz no princípio de novembro283. Não deve ser descartada a possibilidade de, em seu caminho, ter se aproximado de Vide e visto as modificações em suas estruturas defensivas.
Se assim o foi, o rei de Portugal deve ter advertido o senhor de Marvão e Portalegre acerca dos agravos representados pelo seu ímpeto construtor quando se encontraram em Estremoz, a 12 de novembro de 1280, ocasião em que D. Dinis concedeu foral a Aliazul, tendo o infante D. Afonso – então tenente da Guarda – como confirmante do documento régio284. Após passar o mês de dezembro em Elvas e arredores285 – Alandroal e Juromenha –, o monarca português reencontrou o irmão em 28 de dezembro daquele mesmo ano em
275 Cr.DD, p. 185-190.
276 Cr.SPRP, p. 21-23.
277 Cr.RP, p. 109v.-111.
278 ML, V, f. 61.
279 LOPES, 1997, p. 201.
280 MATTOSO, 1993b, p. 159.
281 PIZARRO, 2008, p. 109.
282 MARTINS, 2013, p. 153.
283 RAU, 1962, p. 15.
284 Ch.DD, l. I, f. 28-29v.; ALMEIDA, 1969, p. 33-42.
285 RAU, 1962, p. 15.
Montemor-o-Novo, quando o infante D. Afonso confirmou doação régia286, altura em que possivelmente foi de novo repreendido pelo suserano.
Se nas duas ocasiões em que o infante D. Afonso e o rei D. Dinis estiveram juntos o rei admoestou o senhor de Marvão e Portalegre acerca das obras de edificação em Vide, a advertência não foi atendida e se reverteu na ação militar régia de cercar a localidade. Saindo de Lisboa e passando por Santarém, convocando soldados junto desses e de outros concelhos, o monarca reuniu entre dois e três mil soldados e sustentou o cerco a Vide a partir de 17 de abril de 1281287, sem que, para isso, tivesse contado com o apoio da alta nobreza portuguesa288.
A notícia do conflito entre os irmãos correu a Península Ibérica e foi foco de atenção do infante Sancho de Castela, do rei D. Pedro de Aragão, da rainha D. Beatriz de Portugal e da infante D. Branca, todos eles buscando um entendimento que colocasse fim ao cerco289. Diante de tantos mediadores interessados em uma solução pacífica para a contenda, seu desfecho veio sem o recurso ao conflito direto, após a rendição do infante D. Afonso em 17 ou 18 de maio290, quando ele bateu em retirada para Castela.
A composição entre os irmãos passou a ser negociada em finais daquele ano, tendo sido assinada a 2 de fevereiro de 1282, em Estremoz; veremos seus termos em detalhe logo abaixo. Adiantamos que, seis dias depois da assinatura do acordo de paz, o infante D. Afonso encaminhou carta ao rei D. Dinis pela qual prometia derrubar tudo o que de novo havia sido feito na torre e muro de Vide entre a Páscoa e o dia de Pentecostes de 1282291 – ou seja, entre 29 de março e 17 de maio. A passagem do rei de Portugal por Crato – no caminho de Évora para Trancoso –, no dia 22 desse último mês, deve ter servido para conferir se o irmão havia efetivado o que tinha se comprometido a fazer292.
Apresentado o conflito e indicados os aspectos gerais da composição entre D. Afonso e D. Dinis, é preciso que se aprofunde a análise dessas duas matérias e, assim, se amplie o seu entendimento para além de um episódio de atrito entre irmãos. Por esse evento perpassam
286 Ch.DD, l. I, f. 28; ALMEIDA, 1969, p. 31-33. Acerca desse documento, faz-se pertinente indicar que se encontra erradamente indicado no itinerário do rei D. Dinis como datado de 28 de outubro de 1280 (RAU, 1962, p. 15). Em verdade, o registro chancelar é de dezembro daqueles mesmos dia e ano.
287 LP, doc. 32; ML, V, f. 61-61v.; RAU, 1962, p. 16; MARTINS, 2007, p. 650-651; 2013, p.154-155.
288 MARTINS, 2007, p. 37.
289 LOPES, 1997, p. 202.
290 MARTINS (2007, p. 675) sustenta essa datação para o fim do cerco considerando o documento régio (LP, doc. 32) de 19 de maio de 1281, pelo qual o rei D. Dinis dispensou as tropas do concelho de Lisboa que haviam lhe prestado apoio em Vide. Assim sendo, a manobra militar do rei de Portugal deve ter sido encerrada no dia 17 ou 18 daquele mesmo mês e ano, embora ele tenha permanecido em Vide até finais de maio, como aponta seu itinerário (RAU, 1962, p. 16).
291 Ch.DD, l. I, f. 43v.-44; ALMEIDA, 1969, p. 165-166.
292 RAU, 1962, p. 17.
disputas mais profundas de autoridade e poder, sua implantação em uma área geográfica de fronteira e o controle pela vassalidade. Seus registros documentais ainda servem como importante suporte indicativo dos vassalos que orbitavam em torno do senhor de Marvão, Portalegre e Arronches, assim como do lugar que o infante ocupava no xadrez político da Península Ibérica. Diante disso, é preciso lançar um olhar mais atento a essas problemáticas.